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Burckhardt, Jacob (1818-1897)

LDMH

“Não quero me comparar a Burckhardt… », disse Heidegger – na Suíça (Zurique, 6 de novembro de 1951) – durante uma entrevista com estudantes (ver revista Po&sie, n.º 13, p. 56), dando a entender a altíssima opinião que tinha do grande historiador de Basileia – se é que «historiador» é aqui o termo adequado. Para a corporação dos historiadores, é natural honrar Burckhardt como o criador da história das civilizações, tal como ela se desenvolveu como disciplina há mais de um século. Mas precisamos examinar de perto os termos em que Heidegger fala de Burckhardt, pois ele era um homem que pesava suas palavras.

Primeira surpresa: em uma aula de 1941, ele declara que, felizmente (sic), Burckhardt não era um “historiador” (Historiker)! (Conceitos fundamentais, GA 51, 16). Paradoxo? Provocação? Ou simplesmente delírio? Como bom suábio que é, Heidegger não recua diante desse tipo de afirmação. Na aula sobre Heráclito de 1943, ele também não hesita em dizer que Schopenhauer nunca foi um pensador (GA 55, 151). Inevitavelmente, pensamos no jovem Nietzsche, cujos deuses se chamavam justamente Burckhardt, Schopenhauer e Wagner…

Duas distinções fundamentais para Heidegger são capazes de esclarecer o que está em jogo nessa linguagem à primeira vista tão desconcertante:

– “A exatidão, disse Delacroix, não é a verdade.” Como o grande pintor, Heidegger distingue – e quase opõe – o que é exato (richtig) e o que é verdadeiro (wahr). Dizer que uma catedral é um monte de pedras é exato, mas não é verdadeiro.

– Diferença entre história (Geschichte: segundo a etimologia, o que acontece – e até mesmo nos acontece) e historiografia (Historie: a ciência histórica que os historiadores praticam com grande apoio de arquivos).

Em que J. Burckhardt não é um simples historiógrafo (Historiker), Heidegger desenvolve isso no curso do inverno de 1931-1932 (Da essência da verdade, GA 34, 62-63) e retoma o tema em Contribuições à filosofia, quando afirma que um pensador da história difere essencialmente de um historiógrafo, assim como de um filósofo (GA 65, 154). “O historiógrafo, diz ele ainda, permanece diferente do pensador da história. Jacob Burckhardt não é um historiógrafo, mas um pensador da história (Geschichtsdenker)” (Parménide, GA 54, 94-95). Pode-se sugerir aos franceses que não entendam totalmente essa última frase que substituam aqui o nome de Burckhardt pelo de Tocqueville.

Afirmar, como faz Burckhardt, que O Contrato Social de Rousseau talvez seja um “evento” mais importante do que a Guerra dos Sete Anos (Considerações sobre a história universal, p. 159) não é uma afirmação historicamente exata, pois não há nenhum “documento” que comprove tal afirmação (ver a importante carta de Balzac a H. C. Andersen de 25 de março de 1843).

Em Zurique, em 6 de novembro de 1951, Heidegger pôde assim dizer aos estudantes que, mesmo que os filólogos tenham podido estabelecer que A História da Civilização Grega, de J. Burckhardt, se baseava em textos de segunda ordem, ou mesmo em textos falsos, ela continua sendo o melhor trabalho nesse campo. Em outras áreas, quaisquer que sejam as imprecisões que os estudiosos possam ter encontrado na obra de Burckhardt, ela contém mais verdades sobre o mundo grego do que tudo o que é regularmente apresentado como “progresso” da “pesquisa”. Mas aqui Burckhardt, assim como Heidegger, não parecem, no fundo, bastante próximos das Reflexões sobre a verdade na arte (prefácio de Cinq-Mars) de Alfred de Vigny?

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