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estudos:vezin:neo-kantismo

Neo-kantismo

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  • O neo-kantismo como fenômeno de época e domínio universitário: No último terço do século XIX e início do XX, o neo-kantismo estabeleceu-se como a filosofia reinante no meio acadêmico europeu, em resposta a um sentimento difuso de “fim da filosofia” diante dos avanços científicos. Movimentos como o neo-kantismo e o neo-tomismo surgiram como tentativas de restaurar e revitalizar sistemas do passado, mascarando um vazio filosófico contemporâneo. O slogan “retorno a Kant”, cunhado por Oscar Liebmann (1865) e ecoado por Dilthey, expressava essa nostalgia e a redução da filosofia à função de “teoria do conhecimento científico”. Neste contexto, a obra de Kant foi reinterpretada como um fundamento para uma concepção positivista da ciência, transformando a filosofia em sua serva (ancilla scientiae), um programa que Nietzsche, marginalizado, criticou asperamente como sinal de uma filosofia agonizante.
  • Características e influência do movimento: Centrado nas escolas de Marburgo (Cohen, Natorp, Cassirer) e Heidelberg (Windelband, Rickert), o neo-kantismo atraiu estudantes de todo o mundo, consolidando uma convergência com o positivismo e o cientificismo. A filosofia tornou-se sinônimo de epistemologia, preocupada em garantir os conceitos básicos e os métodos das ciências particulares. Este ambiente dominou a formação universitária e impôs seus cânones até que figuras como Marx, Nietzsche e, posteriormente, Husserl e Heidegger, começaram a desafiar seu monopólio. O jovem Heidegger, estudante católico, sentiu-se preso entre o neo-kantismo e o neo-tomismo, tendo que forjar seu próprio caminho para uma filosofia mais originária.
  • A confrontação heideggeriana com o neo-kantismo: Para Heidegger, a explicação com o neo-kantismo era inevitável e central para sua trajetória. Rejeitando o “retorno” nostálgico a Kant, ele buscou um diálogo vivo (Auseinandersetzung) com o próprio pensador, através de uma “apropriação produtiva”. Esta confrontação culminou no curso de 1927-28, no debate de Davos com Cassirer (1929) e no livro Kant e o Problema da Metafísica. Heidegger acusou o neo-kantismo de ter reduzido e traído a questão central de Kant: o problema da metafísica e da finitude humana. Enquanto o neo-kantismo via na Crítica da Razão Pura uma teoria do conhecimento científico, Heidegger nela via os esboços de uma ontologia fenomenológica fundada na imaginação transcendental e na temporalidade.
  • Consequências e legado: A intervenção heideggeriana, ao recentrar a interpretação de Kant na metafísica e na finitude, deslocou decisivamente o neo-kantismo, contribuindo para seu declínio. Mais do que um erro político, foi este abalo no edifício filosófico estabelecido que gerou grande resistência a Heidegger. Sua posição pode ser resumida na afirmação: “Somos a favor de Kant contra o kantismo”. Para ele, a tarefa não era restaurar um sistema passado, mas reativar, através de um debate vivo, a interrogação radical que animava Kant—interrogação essa que, longe de estar atrás de nós como um monumento, permanece diante de nós como uma tarefa do pensamento. Deste modo, a superação do neo-kantismo foi um passo crucial para Heidegger refundar a questão do ser além dos limites da filosofia acadêmica de seu tempo.
estudos/vezin/neo-kantismo.txt · Last modified: by mccastro