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estudos:trawny:espirito

Espírito (Geist)

LDMH

  • Rejeição da interpretação metafísica do espírito como instância suprassensível e busca de uma compreensão mais originária, situada “além da metafísica”. Em seus primeiros escritos, Heidegger já fala de uma “filosofia do espírito vivo” e da fenomenologia como “ciência originária do espírito absoluto em e para si”, identificando-o com a “vida fática” que não se opõe, mas implica o suprassensível. No entanto, o termo, por seu peso metafísico, será pouco usado após meados dos anos 1930, reaparecendo principalmente em diálogos com a poesia (Hölderlin, Trakl). O diagnóstico de 1935, na Introdução à Metafísica, aponta para um “obscurecimento do mundo” e uma “perda de poder do espírito”, criticando suas interpretações reducionistas como inteligência, instrumento para fins externos (como a organização racial), cultura ou ornamento. Contra isso, Heidegger define o espírito como “o que sustenta e rege, o que ocupa o primeiro e o último lugar”, fundamento de toda força, beleza e autenticidade, cujo despertar condiciona um “mundo originário do Dasein histórico” e a própria “missão histórica do povo”.
  • Espírito como chama e fúria: A interpretação posterior, especialmente no “Diálogo Ocidental” (1946-48) e nos textos sobre Trakl, afasta-se decididamente da metafísica ao pensar o “espiritual” (das Geistige) como “o que é de fogo”. Recorrendo a uma etimologia singular, Heidegger liga Geist (espírito) ao antigo gaysa (Geysis), a “fúria do fogo”, um “foco devastador” que é também um “irromper que faz eclodir”, uma abertura flamejante. O espírito, assim, é essencialmente ambíguo (uma ambiguidade única, como a diferença ontológica): é tanto “eclosão no fogo celeste” quanto “irrupção no entusiasmo (Begeisterung)” que habita nos gênios. Esta chama não é um elemento entre outros, mas o “resplandecer e queimar” que abre a dimensão em que todo ente desdobra sua presença.
  • Espírito, dor e recolhimento: Na leitura de Georg Trakl, a identificação se aprofunda: “O espírito é chama”, cujo brilho advém no “relampejar do olhar”. Este olhar flamejante é identificado com a “dor” (der Schmerz), que só é verdadeiramente dor quando “serve à chama do espírito”, tornando-se assim “o que anima” por excelência. No entanto, o próprio espírito não aparece diretamente; ele se retrai na “separação”, no “recolhimento” (Abgeschiedenheit). Este recolhimento é, em seu modo de flamejar, o “espírito puro” e, como tal, “o que reúne” (das Versammelnde). A função congregadora do espírito, já anunciada em 1935 como o que faz o ente “ser sempre mais ente”, é agora pensada em sua relação íntima com o retraimento e a dor, dimensões essenciais da verdade como alètheia (desvelamento que preserva o velamento).
  • Espírito poético e pátria: A meditação sobre Hölderlin, especialmente no curso sobre “O Ister” (1942), elabora a noção de um “espírito do rio” (Stromgeist) ou “espírito poético”. Este espírito é aquele que “experimenta o ser-sem-pátria (Unheimischsein)” e que, pensando no lugar onde poderia encontrar um lar, se torna justamente “o que reúne” em relação à “pátria” (Heimat). O espírito poético é, portanto, a força errante e inquieta que, através da palavra (logos), busca e funda o lugar da habitação humana, reunindo os mortais em torno do que lhes é próprio. O espírito, longe de ser uma substância separada, revela-se como o movimento flamejante e congregador da palavra poética, que responde ao apelo do ser e abre o espaço para uma habitação histórica.
estudos/trawny/espirito.txt · Last modified: by mccastro