User Tools

Site Tools


estudos:severino:mundo-transcendencia

67. MUNDO E TRANSCENDÊNCIA

ESHM

Se o mundo é aquilo para onde a transcendência se dirige ao ultrapassar a totalidade (e a imediatez) do ser – e, portanto, é o “transcendente” – “mundo” indica a relação do Dasein com o ser que se manifesta em uma totalidade. Torna possível a relação com a totalidade do ser, mesmo que a totalidade do ser não esteja atualmente presente. Em seu conceito transcendental, o mundo é a própria capacidade transcendental de manifestar o ser, que torna possível a relação com a totalidade do ser, mesmo que, devido à finitude da manifestação, o ser não se manifeste na totalidade, embora a totalidade seja, de certa forma, manifesta. Se “ipseidade” (Selbstheit) significa que o Dasein existe por si mesmo (umwillen seiner existiert), o mundo é aquilo para o qual (Umwillen von…): que o Dasein exista por si mesmo ou que exista para o mundo é então a mesma coisa. O projetar-se do Dasein nada mais é do que projetar o mundo: projetar significa lançar além do ente, transcendê-lo e, transcendendo-o, manifestá-lo: ser-no-mundo é esse lançar o mundo além do ente. Transcender (por parte do Dasein) significa formar o mundo (weltbilden): o mundo constitui-se no próprio ato de formar e no sentido de que, ao formar-se, se coloca como a previsão transcendental, o projeto, o Vor-bild para cada ente que poderá se manifestar. Vor-bild nada mais é do que a capacidade transcendental de manifestar o ente em seu ser aquele ente que ele é. Propriamente, o Vor indica a possibilidade transcendental da constituição do Bild (Aussehen, eîdos) do ente. Toda a investigação de Heidegger é a enucleação da transcendência a partir do dado: a enucleação da transcendência verifica que o dado é a imanentização da transcendentalidade da transcendência. O conceito de finitude dá-lhe o sentido radical. Portanto, ela não é um pressuposto sobre o qual se baseia infundadamente toda a construção, mas é necessariamente introduzida para explicar a estrutura da manifestação do ente na unidade original. O ente se manifesta em si mesmo, mediando-se como imediato, apenas porque o Dasein, transcendendo a imediatez do ente, se temporaliza, constituindo a unidade extática da transcendência; esta se coloca, em sua nulidade, como a não potência ontológica que possibilita a manifestação do ser como um Gegen que, longe de ser resolvido pela mediação (fundação ontológica), se coloca como o correspondente do finito mediar, entendido este como deixar ser o ser em si mesmo. Esta é a essência da meditação de Heidegger.

estudos/severino/mundo-transcendencia.txt · Last modified: by mccastro