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estudos:severino:direcao-ontologica

64. A direção ontológica da ontologia como verificação de estruturas ônticas

ESHM

  • Constituição da direção ontológica como fundação da unidade originária
    • A direção ontológica da ontologia constitui-se como fundação ontológica da unidade originária, entendida como o horizonte primeiro e irredutível no interior do qual se torna possível qualquer articulação ulterior da direção ôntica.
    • Essa fundação não se configura como um acréscimo externo à investigação ontológica, mas como o momento em que se torna explícito o solo originário que sustenta a inteligibilidade das estruturas ônticas.
    • A unidade originária não é, portanto, um resultado da análise ontológica, mas sua condição prévia, sem a qual a multiplicidade das determinações ônticas permaneceria desarticulada e ambígua.
  • A fundação ontológica como verificação das estruturas metodológicas e ônticas
    • A fundação ontológica assume a forma de uma verificação ontológica das estruturas metodológicas e das estruturas ônticas que compõem a direção ôntica da ontologia.
    • O termo verificação não indica controle empírico nem confirmação lógica, mas a explicitação das condições ontológicas de possibilidade dessas estruturas.
    • Verificar ontologicamente significa, assim, reconduzir as determinações ônticas ao campo de sentido que as torna possíveis enquanto tais.
  • Sentido ontológico da noção de verificação
    • A verificação consiste na enucleação das condições ontológicas que tornam possível a validade e o funcionamento das estruturas ônticas.
    • Trata-se de um procedimento regressivo, que não funda a validade formal dessas estruturas, mas esclarece o horizonte ontológico no qual essa validade se constitui.
    • A verificação ontológica não cria nem modifica as estruturas ônticas, mas ilumina o campo de sentido no qual elas já operam de modo originário.
  • A fundação ontológica do conceito tradicional de adaequatio como exemplo paradigmático
    • Um exemplo decisivo desse procedimento é fornecido pela fundação ontológica do conceito tradicional de adaequatio.
    • Essa fundação não questiona a validade formal da concepção clássica de verdade, mas esclarece as condições ontológicas que permitem que a relação de adequação tenha sentido.
    • A adaequatio é assim reconduzida ao horizonte ontológico que a torna possível, sem que sua função ôntica seja por isso invalidada.
  • A verificação ontológica do princípio de não contradição
    • Heidegger procede igualmente à verificação ontológica da estrutura ôntica do princípio de não contradição.
    • Essa verificação não limita o princípio ao âmbito ôntico, mas esclarece a estrutura ontológica que lhe confere sentido.
    • Não se trata de fundar a validade formal do princípio, mas de iluminar o campo ontológico no interior do qual sua validade absoluta se constitui.
  • Fundar ontologicamente não significa fundar formalmente
    • A fundação ontológica do princípio de não contradição não equivale à fundamentação lógica de sua validade.
    • Ela consiste no esclarecimento das condições pelas quais o princípio se impõe como originariamente e absolutamente válido.
    • O esclarecimento do sentido do “pelo qual” coincide com o esclarecimento do sentido ontológico do próprio princípio.
  • A verificação ontológica do princípio de causalidade e a referência a Vom Wesen des Grundes
    • Heidegger fornece também a verificação ontológica da estrutura ôntica do princípio de causalidade.
    • É a esse princípio que, ainda que de modo indireto, se dirige o ensaio Vom Wesen des Grundes.
    • A investigação não visa a negar a validade do princípio, mas a esclarecer o horizonte ontológico que permite seu funcionamento.
  • A questão do condicionamento da direção ôntica pela fundação ontológica
    • A fundação ontológica do conceito de adaequatio e do princípio de causalidade leva Heidegger a sustentar que um procedimento conceitual orientado por tais princípios não pode funcionar adequadamente sem essa fundação prévia.
    • Tal posição sugere que a articulação da direção ôntica dependeria necessariamente da fundação ontológica correspondente.
    • Contudo, essa necessidade não se impõe de modo rigoroso na estrutura efetiva da filosofia heideggeriana.
  • A complementaridade entre direção ontológica e direção ôntica
    • A estrutura autêntica da filosofia de Heidegger não exige que a fundação ontológica condicione de modo impeditivo a articulação da direção ôntica.
    • Ao contrário, a articulação ôntica é não apenas permitida, mas solicitada como complementar à direção ontológica.
    • A relação entre ambas não é de subordinação rígida, mas de coimplicação estrutural.
  • A necessidade do condicionamento no âmbito do fundamento metodológico
    • A exigência de condicionamento não pertence propriamente à direção ontológica, mas ao fundamento metodológico.
    • No caso do princípio de causalidade, sem a delimitação originária do horizonte do primeiro certo, a construção especulativa que conduz à primeira causa permaneceria instável.
    • Persistiria sempre a possibilidade de que aquilo que foi deixado na sombra — a unidade originária como unidade da imanência — fosse, na verdade, a causa última.
  • A exigência de um primeiro ponto inconcusso
    • Toda investigação especulativa exige um primeiro ponto inconcusso de apoio.
    • Esse ponto não é fornecido pela conclusão da investigação, mas por sua delimitação inicial.
    • Sem essa delimitação, a construção especulativa permanece exposta à oscilação e à ambiguidade.
  • A confusão entre fundamento metodológico e condições ontológicas subjetivas
    • A íntima relação entre fundamento metodológico e condições ontológicas subjetivas gera uma confusão característica.
    • Essa confusão consiste em atribuir às condições ontológicas subjetivas a necessidade própria do fundamento metodológico.
    • Tal atribuição indevida obscurece a distinção entre os planos metodológico e ontológico.
  • O alcance metodológico limitado das condições ontológicas
    • Se às condições ontológicas pode ser concedida alguma portata metodológica, isso ocorre apenas em sua relação com o fundamento metodológico.
    • Elas não podem reivindicar validade metodológica quando consideradas isoladamente como determinações da direção ontológica.
    • À unidade extática pode ser concedida tal portata; à simples ecstaticidade ontológico-transcendental, não.
  • A determinação do objeto de Vom Wesen des Grundes
    • O ensaio tem como objetivo direto a investigação da essência da causa.
    • Indiretamente, refere-se ao princípio de causalidade.
    • O termo Grund é tomado em sua ambiguidade essencial: causa, fundamento, razão.
  • A distinção entre o problema do fundamento e o princípio de causalidade
    • A observação preliminar do ensaio estabelece a alteridade entre o problema do fundamento como tal e o problema do princípio de causalidade.
    • O princípio pode introduzir a questão do fundamento, mas não esclarece sua essência.
    • Na formulação tradicional, o princípio de causalidade pressupõe como evidente aquilo que deveria ser esclarecido.
  • A crítica à formulação tradicional do principium rationis
    • Na expressão Nihil est sine ratione, a essência da ratio não é determinada, mas simplesmente pressuposta.
    • A validade do princípio só pode ser plenamente compreendida após a elucidação da essência do fundamento.
    • O princípio depende, portanto, de uma determinação ontológica prévia que ele mesmo não fornece.
  • A relação entre princípio de razão suficiente e princípio de causalidade
    • Na formulação leibniziana completa, o princípio de razão suficiente e o princípio de causalidade aparecem vinculados.
    • Tomar essa vinculação como identidade rigorosa implica confundir ambos os princípios.
    • O princípio de causalidade mantém uma relação de dependência lógica em relação ao princípio de razão suficiente.
  • O princípio de razão suficiente como corolário do princípio de identidade
    • O princípio de razão suficiente deriva imediatamente do princípio de identidade.
    • O ente, enquanto não contraditório, exige aquilo sem o qual seria contraditório.
    • Essa exigência expressa a necessidade absoluta de uma razão suficiente.
  • A emergência do conceito de causa
    • O conceito de causa surge em um segundo momento, a partir do princípio de razão suficiente.
    • Causa designa aquilo sem o qual algo não pode subsistir.
    • A essência da causa encontra-se formalmente determinada nesse sentido.
  • A posição da investigação heideggeriana
    • A investigação de Heidegger não visa a uma suspensão da validade dos princípios lógicos clássicos.
    • Ela busca fornecer-lhes um sentido ontológico que não compromete sua derivação ôntica.
    • Quando Heidegger nega a derivação do princípio de causalidade a partir do princípio de não contradição, nega apenas a pretensão de que essa derivação substitua a fundação ontológica.
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