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estudos:schurmann:destino-1982-45

§45. A Transmutação do "Destino" (1982)

RSPA

  • Reinterpretação heideggeriana do termo “destino” (Geschick)
    • O significado habitual de destino como algo determinado pelo acaso é derivado
    • O significado originário de “destinar” é: preparar, ordenar, atribuir a cada coisa seu lugar
    • Esta transmutação desloca a noção de destino de um sentido humanista ou existencialista para um sentido econômico e topológico
  • Consequências do deslocamento para uma compreensão topológica do destino
    • O destino não se resume mais à destinação humana, a fazer ou sofrer uma sorte
    • O que está em jogo na fenomenologia são as modalidades da presença tais como elas se endereçam a nós
      • Destinar significa endereçar, enviar, colocar em seu lugar, atribuir um lugar
    • Duas consequências importantes decorrem desta compreensão
      • Primeira: a destinação é compreendida como a restituição de toda coisa a seu lugar ou sítio, como situação
        • Segue-se o anti-humanismo metodológico que caracteriza esta fenomenologia
      • Segunda (mais incisiva): resulta da virada para a economia anárquica
        • O que nos é endereçado ou “enviado” com esta virada nos situa de outro modo
        • Na clausura metafísica, a destinação deve ser entendida como mudança de lugar, como deslocamento
        • As modalidades da presença (o destino) nos colocam em outro lugar
        • A noção anti-humanista do destino se precisa então em noção anti-principial
  • A evolução do conceito de destino no pensamento de Heidegger
    • Em Ser e Tempo, o destino é compreendido como processo coletivo humano
      • É o acontecer do Dasein no ser-com os outros
      • Funda-se no ato antecipador de traduzir-se no aí do instante
      • Envolve a comunidade, o povo, o vínculo com a herança e sua repetição para possibilidades futuras
      • Aqui, o destino designa claramente a destinação humana
    • Com a descoberta da essência epocal das situações que constituem nossa herança, o “destino” muda
      • A descoberta de que a presença mesma tem uma história (a história da metafísica) obriga a abandonar o vocabulário do sentido
      • Deve-se falar da “verdade, aletheia, do ser”, a qual é histórica em sua essência
      • Ter um destino, para nós ocidentais, significa estar colocado em uma história de esquecimento, no “destino da falta do ser em sua verdade”
    • Paradoxalmente, a desumanização do destino anda de mãos dadas com uma nova insistência sobre a história
      • Mas uma história da qual o homem não é o agente
      • Heidegger não pode aconselhar mais do que manter-se na expectativa: “É o ser que ora deixa surgir potências, ora as deixa afundar com suas impotências no inessencial”
      • Esta linguagem não é mítica; não implica que o ser seja uma superpotência
      • O “destino do ser” não é uma força que age às costas dos humanos; é o fenômeno mais ordinário da mudança nas constelações da presença
  • A virada para o tempo eventual e o novo sítio
    • O tempo epocal se altera em tempo eventual com o deslocamento da virada econômica, na idade tecnológica
    • Então, um sítio radicalmente novo pode se preparar, se ordenar, se atribuir a todas as coisas
      • Sua novidade vem do definhamento dos princípios epocais
    • Falar do fim da história epocal e falar da entrada no evento é rigorosamente falar duas vezes da mesma coisa
      • É falar do limiar de transição onde expira uma economia e começa outra, onde se desloca toda uma cultura e onde “se desencadeia um outro destino do ser”, “um destino outro, ainda velado”
    • A cultura ocidental toma então a figura de uma herança legada sem modo de usar, sem testamento
    • O deslocamento de cultura que muitos contemporâneos sentem é a segunda consequência da compreensão topológica do destino
      • Foi talvez expresso da melhor forma pela palavra de Nietzsche: “Deus está morto”
      • Para a desconstrução, “Deus” ocupa o lugar do princípio ôntico supremo na metafísica
      • Heidegger estende o impacto desta palavra à história inteira das economias epocais e principiais
  • O destino da metafísica e a questão da restauração humana
    • O destino da metafísica é, em sua essência, o destino onde definham os princípios
      • Este destino se esgota com a tecnologia, “a última época da metafísica”
    • Isso não anuncia uma restauração da autonomia humana, uma libertação das representações de entes primeiros
      • O deslocamento para fora do destino epocal não é um pensamento que interessa principalmente ao homem
      • O pensamento de Heidegger não é preocupado com um futuro melhor para o homem
    • Superar a metafísica não é como superar uma dor em um sentido terapêutico
      • Engajar a caça ao futuro para calcular seu contorno seria permanecer na atitude da representação técnica e calculadora
      • Querer fechar a metafísica para sair dela seria se implantar ainda mais na atitude que conta e que espera
    • O deslocamento não pode ser “nem fabricado nem forçado”
      • As construções da História falham completamente o a priori prático requerido para o deslocamento anárquico no destino
  • O desinteresse pelo futuro humano e a temporalidade do evento
    • Um certo desinteresse pelo futuro do homem é patente na compreensão do tempo requerida para pensar o deslocamento como anárquico
    • A economia anárquica é aquela onde o pensamento e o agir adotam as flutuações nas modalidades da posta em presença
      • Sua única medida é o evento de apropriação mútua entre os entes
    • Segue-se que a temporalidade do evento não pode mais ser compreendida a partir do homem
      • O Ereignis, como tempo, é irredutível à temporalidade extática (primeiro período) e à história aleiteológica (segundo período)
    • Se “destino” significa a determinação epocal por categorias retrospectivas (se é escatológico), então o evento não tem nem história nem destino
      • Ele é ungeschichtlich, melhor: geschicklos
    • Isto não significa que o evento seja intemporal
      • Sua temporalidade é a entrada em troca
      • Nela, a preeminência do futuro (característica do tempo extático e do tempo histórico-aleiteológico) é preservada
    • A entrada originária em presença se opõe à entrada originária em uma época
      • Como um jogo sem consequência se opõe ao gesto inaugural, fundador
    • A possibilidade que Heidegger vislumbra é uma economia pós-moderna cuja única “marca” seja a original
      • O reverso que ele tenta pensar não é, portanto, fundador, mas disseminador
    • A temporalidade do evento de apropriação põe fim ao esforço de saber e decidir qual deve ser o mundo porvir do homem sobre a terra
  • A ruptura como “salto” e a relação dialética entre economia e pensamento
    • Da unidade à multiplicidade, na economia, a transmutação só pode se dar por um “salto”
      • De um destino a outro, não há progressão, nem evolução
      • As rupturas econômicas são bruscas, mas passam longamente despercebidas
    • O salto do qual Heidegger fala separa o pensamento (Denken) do entendimento (Verstand), mas concerne primariamente a uma ruptura na economia da presença
      • “O que chamamos destino do ser caracteriza a história até aqui do pensamento ocidental, desde que, retornando para ela, a consideramos a partir do salto”
    • Para arriscar-se fora do recinto da metafísica, duas condições devem ser preenchidas, cada uma com prioridade sob seu ângulo
      • Prioridade da ruptura econômica sobre o salto de pensamento
        • A virada para um modo de presença essencialmente novo é o a priori econômico para a virada para um pensamento novo
      • Prioridade do salto de pensamento sobre a ruptura econômica
        • Este outro pensamento é o a priori prático para conduzir a termo a posição fundamental outra, já ao nosso redor, em nós
    • O salto congela o entendimento para descongelar o pensamento
      • Ele “parte do princípio de razão enquanto proposição aplicável ao ente, e ele chega ao dizer concernente ao ser enquanto ser”
    • É primeiro a modalidade da presença que se liberta dos princípios epocais, e é depois o pensamento e “o dizer” que podem se libertar da proposição “nada é sem razão”
    • Inversamente, se já estamos tomados em um outro destino, são primeiro o pensamento e o agir que devem se tornar “sem razão” para que nosso mundo se liberte das sobrevivências principiais
  • O “outro agir” na economia sem princípios
    • Ao termo do “sono do ser”, o epechein (o destino onde a presença só se concede ao se retrair) pode chegar a seu fim
      • O novo destino torna possível e exige uma outra maneira de pensar, dizer e agir
    • Heidegger não desenvolve muito este “outro agir” porque pensamento, destino e agir são indissociáveis
      • Agir ao sabor das constelações da presença e uma grande fluidez no domínio público correspondem ao “outro pensamento” e ao “outro destino”
    • Sob o princípio de anarquia, no limiar da clausura, o pensamento ainda só pode ser preparador
      • Deve-se distinguir entre agir preparador e “o outro agir”
      • O agir preparador de uma economia sem princípios é o agir que ataca os vestígios dos princípios epocais para lhes atribuir seu sítio: sobrevivências de um destino fechado
    • Nada poderá revivificá-las no estado final do destino epocal, que é o nosso
      • Nem algum remendo de posições metafísicas fundamentais passadas, nem alguma fuga em algum cristianismo requentado
    • A questão do “outro agir” se confunde com a questão da ausência de violência
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