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O CONCEITO TELEOCRÁTICO DE ARCHE (1982:121-125)

SCHÜRMANN, Reiner. Le principe d’anarchie. Heidegger et la question de l’agir. Paris: Seuil, 1982.

«Ho tektôn est le pro-ducteur, celui qui institue et impose quelque chose, qui amène quelque chose dans le non-voilé et le pose dans l’ouvert. Cette production qui institue, c’est l’homme qui l’accomplit, par exemple en construisant, en taillant, en sculptant. Dans le mot “architecte” se trouve ho tektôn. D’un architecte — arché d’un tekeîn — quelque chose émane à la façon d’un projet et demeure guidé par lui, par exemple la production d’un temple (GA55 201). »
  • Uma via alternativa de desconstrução da noção cinética de arché consiste em localizar seu antônimo, telos, interrogando em que região de fenômenos se fala propriamente de fins a realizar, o que desloca a questão da origem para o domínio onde a realização orientada por um término se torna inteligível.
    • Telos entendido como fim enquanto realização.
    • Região fenomenológica da realização como campo próprio.
    • Relação estrutural entre arché e telos.
  • A articulação entre arché e techné mostra que o telos, enquanto acabamento de um processo, pertence primariamente ao âmbito técnico da fabricação, no qual o arquiteto antevê o eidos e guia a construção segundo essa visão, fazendo da techné uma noção de conhecimento que torna presente no produto uma finalidade previamente vista.
    • Telos como ideia antecipada pelo arquiteto.
    • Techné como saber-fazer orientado por um eidos.
    • Produção convertida em fabricação eidética.
    • Domínio do manipulável como região própria de arché e telos.
  • No horizonte aristotélico, o devir é compreendido como adução pela qual o eidos é conduzido à presença constante, de modo que a obra, enquanto telos, é melhor que a atividade que a produz, pois o bem reside no produto acabado que expõe permanentemente seu eidos.
    • Devir como caminho para presença constante.
    • Obra como finalidade do trabalho.
    • Entelecheia e energeia como plena atualização do eidos.
    • Primado do produto sobre a produção.
  • A identificação aristotélica de arché e telos afirma que tudo o que vem a ser move-se para uma arché que é seu telos, sendo o movimento a-telès enquanto não atinge sua energeia, mas somente possível porque o hoû héneka já está dado desde o início.
    • Movimento como carente de fim enquanto processo.
    • Analogia com o eros platônico.
    • Telos como condição de possibilidade do devir.
    • Arché exercendo função de comando enquanto antecipação.
  • A ambiguidade terminológica entre energeia como entelecheia e como encaminhamento é esclarecida na Ética a Nicômaco pela distinção entre poiesis e praxis, embora o esquema paradigmático permaneça produtivo e técnico, revelando a teleocracia como domínio da finalidade antecipada.
    • Poiesis com fim extrínseco na obra.
    • Praxis com fim intrínseco na própria ação.
    • Teleocracia como governo do telos.
    • Arquitetura como arte paradigmática da antecipação.
    • Metafísica como metafísica da manufatura.
  • Antes da concepção aristotélica da origem como comando produtivo, a compreensão pré-socrática, exemplificada por Anaximandro, pensava genesis e phthora sem recorrer ao modelo da causalidade técnica, configurando uma compreensão an-árquica que considera a simples vinda à presença e desloca a noção de domínio.
    • Genesis e phthora como nascimento e declínio.
    • Origem não pensada como causalidade.
    • Esquema an-árquico em contraste com o arqueológico.
    • Perda da centralidade da dominação.
  • O conceito aristotélico de arché, embora não identifique a origem com o homem fabricante nem com um ente supremo, inaugura um humanismo metafísico ao fazer da ideia universal aquilo que começa e comanda cada processo concreto, preparando assim os desenvolvimentos onto-teológicos e onto-antropológicos.
    • Arché como traço comum das causas.
    • Universal comandando processos artísticos e científicos.
    • Não identificação com ente humano ou divino.
    • Preparação das doutrinas onto-teológica e onto-antropológica.
  • A metafísica pode então ser vista como generalização de esquemas próprios aos artefatos, pois ao responder à questão do ser por meio da composição da substância sensível e de seus movimentos, Aristóteles compreende mudança primeiramente como fabricação, abrindo caminho para a concepção posterior da origem como predicado de um construtor divino ou humano.
    • Mudança entendida como fabricação.
    • Ciência da substância sensível como resposta ao ser.
    • Origem convertida em predicado de um ente.
    • Inversão histórica que coloca o construtor na posição de princípio.
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