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Arrependimento e Renascimento

SCHELER, Max. Arrependimento e renascimento. Reue und Wiedergeburt. Tr. Paulo Lima, Isabel Campos e Edições 70, 2018

Síntese de tópicos

1. Nos impulsos da consciência moral, em seus alertas, conselhos e condenações, o olhar espiritual da fé percebe sempre os contornos de um juiz invisível e infinito, e esses impulsos aparecem como uma linguagem natural e sem palavras com que Deus fala à alma acerca da salvação dela e do mundo, sendo duvidoso que a unidade daquilo que se chama consciência moral pudesse subsistir se fosse desligada dessa interpretação como voz secreta e linguagem de sinais divina, já que, sem a copercepção de um juiz santo, tais impulsos se desintegrariam numa multiplicidade de processos, sentimentos, imagens e juízos, sem fundamento para apreender sua unidade, e não é necessário nenhum ato interpretativo para lhes conferir a função de apresentar Deus, que exercem por si mesmos, sendo preciso, ao contrário, fechar os olhos e desviar o olhar para não covivenciá-la, pois, assim como as cores e os sons, diferentemente da dor e do prazer, não se dão como meros estados do corpo próprio, mas como fenômenos objetivos que anunciam simultaneamente os objetos de um mundo real, também a esses impulsos é inerente por natureza a relação de sentido com uma ordem invisível e com um sujeito espiritual e pessoal que a preside, e, tão pouco quanto uma inferência causal conduz da extensão vermelha percebida à existência da bola vermelha, uma inferência causal conduz desses impulsos a Deus, apresentando-se em ambos os casos, na vivência, algo transcendente ao material que o apresenta, mas nele coapreendido.

2. Entre esses impulsos da consciência moral, o arrependimento é aquele que se comporta de modo essencialmente judicativo e se refere ao passado da vida.

3. A essência do arrependimento, seu sentido e sua conexão com a vida como um todo e com seu fim são tão abissal, profunda e frequentemente mal compreendidos pela desordem do coração do presente que se torna necessário, por meio de uma crítica das teorias modernas, em geral superficiais e baratas, sobre sua origem, sentido e valor, obter uma base sólida e desimpedida para a determinação positiva de sua essência.

4. A filosofia moderna costuma ver no arrependimento quase exclusivamente um ato negativo, altamente antieconômico e até superficial, uma desarmonia da alma atribuída a ilusões de toda espécie, à irreflexão ou à doença.

5. Assim como o leigo em medicina só vê em eczemas, supurações, abscessos e nas transformações pouco atraentes da pele e dos tecidos ligadas à cicatrização meros sintomas de doença, até que o anatomopatologista lhe mostre que são vias elaboradas e complexas pelas quais o organismo se liberta de venenos e se cura, controlando de antemão lesões que sem elas o fariam sofrer, e assim como o tremor não é só sintoma de frio, mas meio de aquecer-se, também o arrependimento, dado que os graus do ser humano, espírito, alma, corpo próprio e corpo, irredutíveis a um único como pretendem os monismos superficiais, obedecem nos três primeiros a leis profundamente análogas, possui, além e na sequência de sua função negativa e repreensiva, uma função positiva, libertadora e construtiva, aparecendo apenas ao olhar superficial como sintoma de desarmonia interna ou como fardo inútil que paralisa mais do que estimula, segundo a objeção de que ele prende a um passado concluído e inalterável, que, como sublinham os deterministas, transcorreu como tinha de transcorrer dadas todas as causas, donde o conselho jovial de não se arrepender e fazer melhor, e de que repousa num autoengano peculiar, que consiste não só na tentativa absurda de expulsar do mundo algo real do passado e inverter o fluxo do tempo, mas também em equiparar sub-repticiamente o eu que se arrepende ao eu que agiu, quando este, pelos processos anímicos e pelo próprio ato e seus efeitos, se tornou outro quanto ao conteúdo, apesar de toda a sua identidade, imaginando-se possível ter renunciado ao ato no momento em que foi cometido só porque agora se julga possível renunciar a ele, ou ainda em confundir a imagem do ato conservada na lembrança com o próprio ato, já que a dor, o sofrimento e a tristeza do arrependimento estariam presos a essa imagem, e não ao ato, que ficou para trás quieto e silencioso, de modo que, ao recolocar a imagem presente no lugar e no ponto temporal do ato, este pareceria revestido de um caráter que é apenas reação sentimental ao efeito presente de sua imagem.

6. De modo psicologista, Nietzsche procurou explicar o arrependimento como espécie de ilusão interna, em que o criminoso arrependido, incapaz de suportar a imagem de seu ato, o calunia por meio dela, e sustentou que o arrependimento, como a má consciência em geral, surge quando impulsos de ódio, vingança, crueldade e toda forma de infligir dor, antes exercidos livremente contra o próximo e depois contidos pelo Estado, pela civilização e pelo direito, se voltam contra a própria matéria vital de seu portador e nele se satisfazem, pois em tempos de paz o homem guerreiro se lança sobre si mesmo, enquanto uma hipótese um pouco menos feroz vê no arrependimento uma vingança ou acerto de contas consigo mesmo, desenvolvimento de uma autopunição que em sua forma primitiva nem precisa recair sobre algo avaliado como mau e aparece também quando se agiu contra o próprio interesse ou se fez algo errado, como nas expressões de querer arrancar os cabelos ou esbofetear a si mesmo, de modo que o impulso de acerto de contas desindividualizado, despertado pela simpatia de um terceiro com o lesado e mais tarde assumido pelo Estado e pela autoridade, se apoderaria desse impulso de autopunição e exigiria acerto de contas também quando o próprio sujeito é o autor da injustiça, considerando-se nessa teoria a vontade de satisfação e penitência anterior ao arrependimento autêntico e sua causa, e não sua consequência, sendo o arrependimento uma vontade de penitência interiorizada.

7. Restam ainda três ideias modernas muito apreciadas sobre o arrependimento: a teoria do medo, a teoria da ressaca e a concepção do arrependimento como doença da alma que difere só em grau, e não em essência, da autoacusação, da autolesão patológica e de manifestações como o revolver voluptuoso dos próprios pecados, isto é, de qualquer espécie de dependência espiritual do sofrimento.

8. A teoria do medo é a representação mais difundida na teologia, na filosofia e na psicologia da Idade Moderna, segundo a qual o arrependimento não é senão, na forma típica das teorias modernas, um desejo de não ter feito algo fundado num medo que ficou como que sem objeto antes de qualquer punição possível, de modo que sem sistema prévio de punição não haveria arrependimento e a diferença entre a angústia contida no arrependimento e o medo comum da punição residiria apenas na falta de representação determinada do mal da punição, do punidor, do procedimento, da espécie, do lugar e do tempo da punição, sendo o arrependimento, geneticamente, eco de experiências anteriores de punição em que os elos associativos entre a imagem da ação e o mal sofrido foram suprimidos, talvez, como acrescenta o darwinista, trajeto associativo fixo e herdado entre ambos, ou seja, covardia transformada em constituição de assumir as consequências dos próprios atos e, ao mesmo tempo, fraqueza da memória útil à espécie.

9. Nessa perspectiva, o arrependimento não seria referência a um juiz divino, mas a polícia de ontem interiorizada.

10. A teoria da ressaca, mais rara na filosofia e muito mais frequente na vida prática, vê no arrependimento, em sua forma primitiva, um estado de depressão que surge com o relaxamento da tensão que acompanha a ação e com eventuais consequências nocivas e desagradáveis dela, uma espécie de ressaca moral que só depois recebe pelo juízo uma interpretação mais elevada, formando os excessos na satisfação dos impulsos sensoriais, no comer, beber, nas relações sexuais e no bem viver, e suas consequências depressivas a base de um estado de ânimo triste em que tais excessos são condenados, como dizem os ditos de que todo animal fica triste após o coito e de que as prostitutas na juventude se tornam beatas na velhice, apoiando-se aparentemente essa concepção na observação acertada de que também outros infortúnios, além do que é nocivo à saúde, criam condições para o arrependimento.

11. Para todas essas visões, o arrependimento é naturalmente um comportamento desprovido não só de sentido, mas de finalidade, predicado preferido da multidão contemporânea para depreciá-lo, ao qual espíritos mais sutis acrescentam que ele é também nocivo, por só poder agir inibindo a ação e a vida e, como o puro acerto de contas, conter um desprazer que não se legitima por nenhuma capacidade de aumentar a soma de prazer da vida, pois, se às vezes estimula boas resoluções e aperfeiçoamento, não é necessário para isso e pode ser dispensado, e não se explicaria por que surge com força especial no fim da vida, pouco antes da morte, se só ocasionalmente aperfeiçoa, agindo durante a vida muito mais como inibidor ao acorrentar a um passado inalterável.

12. Todas essas explicações e acusações ao arrependimento, de Espinosa a Nietzsche, passando por Kant, repousam em graves erros, pois o arrependimento não é fardo nem autoilusão, nem mero sintoma de desarmonia anímica, nem projétil absurdo que a alma dirige contra o passado e o inalterável.

13. Ao contrário, já do ponto de vista puramente moral, o arrependimento é uma forma de autorrestabelecimento da alma, o único caminho para recuperar suas forças perdidas, e, do ponto de vista religioso, é muito mais ainda, o ato natural que Deus concede à alma para que volte a Ele quando dele se afastou.

14. Uma das principais causas do desconhecimento da essência do arrependimento, base de todas as explicações citadas, é uma representação falsa da conexão estrutural interna da vida espiritual, pois o arrependimento só pode ser plenamente compreendido inserido numa intuição global mais profunda da peculiaridade do fluxo da vida em sua relação com a constância da pessoa, o que se evidencia no argumento de que ele seria tentativa absurda de anular algo ocorrido, legítimo apenas se a existência pessoal fosse uma corrente que avançasse no mesmo tempo objetivo dos acontecimentos naturais, em que nenhuma parte posterior pode voltar a uma anterior ou alterá-la, quando, ao contrário do fluxo das alterações e movimentos da natureza morta, cujo tempo é um contínuo uniforme e unidimensional sem a tripartição de presente, passado e futuro, a estrutura e a ideia do todo da vida e da pessoa estão copresentes em cada momento vivido, que contém suas três extensões, o presente vivido, o passado vivido e o futuro, dados na percepção, na memória imediata e na expectativa imediata, e, em virtude desse fato espantoso, não a realidade, mas o sentido e o valor do todo da vida permanecem, em cada ponto temporal, na esfera de poder livre da pessoa, que dispõe não só do futuro, mas de toda parte do passado, verdadeiramente alterável no cerne de seu sentido e valor, ainda que não em seu componente de mera realidade natural, na medida em que pode ser inserida num novo encadeamento, sempre possível, do sentido total da vida, de modo que, considerando as vivências até certo ponto como parte de uma linha que representa uma porção do tempo objetivo, elas não se determinam sucessivamente num único sentido, como na natureza morta.

15. A última vivência é determinada fundamentalmente por toda a série, e cada vivência anterior pode tornar-se de novo efetiva em relação a ela e às seguintes sem que ela mesma ou uma suposta imagem sua tenha de entrar antes na configuração do momento imediatamente anterior, e, como a plena efetividade de uma vivência na conexão da vida pertence a seu pleno sentido e valor definitivo, cada vivência passada permanece inacabada quanto ao valor e indeterminada quanto ao sentido enquanto não tiver realizado todas as efetividades possíveis, tornando-se fato imutável e de sentido acabado, como os acontecimentos naturais passados, só no todo da conexão da vida, com a morte e nunca na hipótese de uma sobrevivência, de modo que antes do fim da vida todo o passado, ao menos quanto ao conteúdo de sentido, equivale sempre ao problema do que fazer com ele, pois, pelo simples fato de uma parte do conteúdo objetivo do tempo tornar-se passado da pessoa, perde a fatalidade e o acabamento dos processos naturais decorridos e torna-se próprio, subordinado ao poder da pessoa, que em cada momento ainda dispõe da medida e da espécie de efetividade de cada parte do passado sobre o sentido da vida, proposição válida para todo fato com natureza de estado de coisas histórico, na vida individual, na do gênero humano ou na história do mundo, sempre inacabado e, por assim dizer, redimível, pois, se tudo o que na morte de César pertence aos acontecimentos naturais é tão acabado e invariável quanto o eclipse previsto por Tales, aquilo que nela é estado de coisas histórico, unidade de sentido e efetividade na trama de sentido da história humana, é um ser inacabado que só se completa no fim da história do mundo.

16. A natureza humana possui forças espantosas para desvincular-se da efetividade distante de membros da série de vivências passadas, e uma delas é a lembrança clara e objetiva do acontecimento, erroneamente tida como fator que torna o passado efetivo na vida, quando justamente aquilo que, pelo princípio da efetividade psíquica, continua secretamente vivo e efetivo é atingido no nervo vital, fonte de sua força, pelo distanciamento, pela objetivação, pela localização e datação fixas realizadas pelo raio gélido do conhecimento, pois, se a pedra em queda pudesse lembrar-se da fase anterior que a determina a continuar caindo segundo uma lei, a lei da queda seria imediatamente anulada, já que a lembrança é o começo da liberdade em relação à violência obscura do ser e do acontecer lembrados, o modo como as vivências se despedem do núcleo vital, se afastam do centro do eu cuja atitude global antes condicionavam, perdem seu mero efeito de choque e vão morrendo, de sorte que a lembrança não é elemento de um suposto fluxo de causalidade psíquica, mas o interrompe e detém partes dele, nem transmite ao presente a efetividade da vida anterior, mas redime de sua fatalidade, libertando a história sabida do poder da história vivida, assim como a ciência histórica, em contraste com a unidade sequencial dos processos coletivos humano-espirituais agregados pelas forças da tradição, é antes de tudo libertadora da determinação histórica.

17. O fenômeno do arrependimento insere-se nessa conexão geral de pensamento, pois arrepender-se significa, antes de tudo, ao voltar-se para uma porção do passado da vida, imprimir nela um novo elemento de sentido e de valor.

18. À objeção de que o arrependimento é projétil sem sentido contra algo inalterável responde-se que nada na vida é inalterável nesse sentido, sendo tudo redimível na medida em que há unidade de sentido, valor e efeito, e que justamente esse projétil modifica o inalterável e insere de modo novo e com nova orientação de efeito na totalidade da vida o estado de coisas sem valor do qual se arrepende, o ter feito isso ou o ser assim, e à objeção de que é absurdo por não haver liberdade e tudo ter de acontecer como aconteceu responde-se que quem não tivesse liberdade não poderia arrepender-se, mas que no próprio ato de arrepender-se a pessoa se torna aquilo que tolamente se tomava por sua condição, livre da corrente devastadora da culpa e do mal da vida passada e da férrea conexão de efetividade que, antes do arrependimento, gera nova culpa a partir da antiga e faz crescer como avalanche sua pressão, já que não é a culpa da qual se arrepende, mas aquela da qual não se arrepende que exerce violência aprisionadora sobre o futuro, enquanto o arrependimento mata o nervo vital da culpa, expulsa o motivo e o ato com sua raiz do centro vital da pessoa e possibilita o início livre e espontâneo, o começo virgem de uma nova série vital a partir do centro da personalidade já não aprisionado, produzindo um rejuvenescimento moral em que forças jovens e sem culpa, adormecidas em cada alma mas sufocadas pelo matagal da pressão da culpa acumulada ao longo da vida, se erguem espontaneamente quando ele é arrancado, ao passo que, quanto mais se foge progressivamente para diante na corrente da vida, como Prometeu e nunca como Epimeteu, mais se depende da pressão da culpa passada, sendo o ataque uma fuga secreta e mais difíceis de soltar as amarras quanto mais se fecham os olhos ao que exigiria arrependimento, erro partilhado pelo indeterminista comum, que põe como condição do arrependimento a liberdade que só nele se realiza, e pelos senhores joviais que aconselham boas resoluções em vez de arrependimento sem dizer de onde viria a força para formá-las e executá-las sem a prévia libertação da pessoa e seu novo poder sobre si conquistados pelo arrependimento em face da força determinante do passado, pois boas resoluções sem consciência imediata da força para executá-las são aquelas com que o caminho do inferno se pavimenta do modo mais convidativo, segundo a lei de que toda boa resolução sem força de execução não só mantém o antigo estado de agonia íntima, mas acrescenta à pessoa um novo desvalor positivo e aprofunda e consolida esse estado, levando quase sempre à mais extrema autodepreciação, de modo que, após a boa resolução não executada, a alma não está em seu nível mais elevado, mas muito mais decaída do que antes, e, ainda que o único valor do arrependimento residisse em seu efeito de melhoria sobre o querer e o agir futuros, seu sentido imanente teria de visar exclusivamente o mal passado, sem intenção furtiva voltada ao futuro e ao fazer melhor, embora também essa pressuposição seja errônea.

19. A objeção de que o arrependimento não se refere ao ato nem ao comportamento durante o ato, mas apenas à imagem da lembrança, ela mesma influenciada pelo fato e seus efeitos, repousa numa concepção inteiramente falsa da lembrança, que não consiste em encontrar na consciência presente uma imagem relacionada secundariamente por juízos a algo passado, mas, no lembrar originário, em ter o próprio estado de coisas que aparece no passado fenomênico, viver e permanecer nele, sendo as chamadas imagens da memória, quando surgem, codeterminadas pela intenção, pelo fim e pela direção da lembrança, seguindo-a e mudando com ela, e não o contrário, por regras associativas, pois o centro concreto dos atos espirituais que se estendem ao longo do tempo, a personalidade, pode de direito ver cada parte da vida decorrida e apreender o cerne de seu sentido e valor, dependendo apenas os fatores que conduzem a seleção dentro desse âmbito, por princípio acessível à lembrança, dos estados corporais presentes, das causas reprodutoras e das leis associativas, de modo que também o arrependimento como ato é verdadeira penetração na esfera do passado e verdadeira intervenção operatória nela, que apaga de fato o desvalor moral, o caráter de mal do comportamento, anula a pressão da culpa que dele irradia em todas as direções e lhe retira a força procriadora pela qual um mal sempre gera outro, e, segundo a lei de que as determinações valorativas da vida costumam dar-se antes de todas as demais determinações materiais da lembrança, a luz da disposição para o arrependimento penetra no passado de tal modo que por ela pela primeira vez se lembram imageticamente muitas coisas que sem ela não se lembrariam, rompendo a barreira do orgulho que só deixa despertar do passado o que o satisfaz e legitima, anulando a força repressora do orgulho natural e tornando-se veículo da veracidade para consigo mesmo.

20. Torna-se visível aqui a conexão particular da disposição para o arrependimento com o sistema das virtudes da alma, pois, assim como sem ela não é possível a veracidade para consigo, ela mesma não é possível sem a humildade, que trabalha contra o orgulho natural que estrangula a alma reduzindo-a a seu ponto-eu e a seu ponto-agora, e só quando a humildade, como sequência de vivências de transformação constante diante da ideia clara do bem absoluto que não se consegue satisfazer, dissolve as tendências do orgulho à repressão, ao endurecimento e ao fechamento e reconduz o ponto-eu, isolado no orgulho da dinâmica do fluxo vital, a uma relação fluida com esse fluxo e com o mundo, torna-se possível a disposição para o arrependimento, já que o homem está endurecido e fechado muito mais por orgulho e arrogância do que por medo da punição nascido da concupiscência, e tanto mais quanto mais fundo a culpa nele se instalou e se tornou parte de seu si mesmo, sendo difícil para o fechado não tanto a confissão, mas antes de tudo a abdicação de si diante de si, enquanto quem se arrepende plenamente de seu ato também o confessa e vence até a vergonha que no último instante quer cerrar os lábios.

21. A essência, o sentido e a eficácia do arrependimento são necessariamente desconhecidos onde quer que, segundo a concepção que reduz a lembrança à reprodução de imagens da memória, ele seja confundido com estados que podem predispô-lo e desencadeá-lo mais facilmente, mas que de modo algum o constituem, pois, embora seja certo que o fracasso ou as consequências prejudiciais de uma má ação disponham a fraqueza humana ao arrependimento mais facilmente do que o êxito, e que danos à saúde, doenças decorrentes de excessos culpáveis, castigos e repreensões frequentemente desencadeiem de fora o ato de arrependimento que talvez não surgisse sem eles, o sofrimento próprio do arrependimento permanece separado por um grande abismo de todos esses grupos de sentimentos de desprazer que apenas desencadeiam o recolhimento arrependido, erro fundamental de toda uma série de falsas concepções psicológicas que confundem o ato com os estados que a ele predispõem.

22. O papel da lembrança no arrependimento não se esgota aí, pois há dois tipos fundamentalmente diferentes de lembrar, estático e dinâmico, ou lembrança de aparição e lembrança de função, demorando-se a segunda não em conteúdos ou ocorrências isoladas do passado, mas no comportamento central de outrora para com o mundo, na orientação de pensamento, vontade, amor e ódio de então, revivendo o comportamento total e o ser das determinações de eu e de pessoa de outrora e deslocando-se para o eu daquele tempo, diferença que se revela com nitidez em certos fenômenos patológicos, como num velho de setenta anos observado num hospício alemão que vivia todo o seu ambiente no estágio de desenvolvimento dos dezoito anos, não imerso nos conteúdos específicos vividos naquela idade, como a casa, as pessoas, as ruas e as cidades de então, mas vendo, ouvindo e vivendo plenamente tudo o que ocorria no quarto presente como o rapaz de dezoito anos que fora, com todas as disposições de vontade, aspirações e orientações de esperança e medo daquela fase, modo de reviver que, aqui extremo e convertido em estado permanente, permite saber não só o que de fato se fez e como se reagiu ao ambiente, mas o que se teria de fazer, o que se pode querer e como se teria reagido a esta ou àquela circunstância, conduzindo o caminho não dos conteúdos ao eu que os viveu, mas do eu lembrado, no qual a pessoa se coloca, aos conteúdos particulares da vida.

23. A lembrança contida no tipo mais elevado e importante de arrependimento é lembrança de função, pois seu objeto autêntico não é o ato passado que aparece na lembrança nem o estado de coisas sem valor, mas o eu-membro da pessoa total de cujas raízes o ato e a vontade outrora fluíram, revivido, censurado no modo do arrepender-se e como que expulso da totalidade da pessoa, sendo apenas o predomínio maior ou menor, na lembrança arrependida, do estado de coisas objetivo sem valor ou desse eu passado que permite distinguir arrependimento do ser e arrependimento do ato, ou arrepender-se de algo e recolhimento arrependido, e, embora Schopenhauer tenha sublinhado que a atitude arrependida mais profunda não se exprime em perguntar o que se fez, mas que homem se é ou que homem se tem de ser para poder fazer tal coisa, pretendendo com isso que o determinismo empírico confere ao arrependimento seu pleno peso e que o caráter inteligível, falsamente equiparado ao inato, aparece como consequência de um ato livre, essa concepção despedaça o sentido total do arrependimento, pois arrepender-se do ser pessoal em geral, isto é, de sua essência, é impossibilidade interna, podendo-se no máximo entristecer-se ou horrorizar-se com o que se é, tristeza que ainda traz a coloração dessa essência, mas não arrepender-se dela, restando como objeto de arrependimento, sem olhar exclusivo e imediato para a série dos atos, apenas o ter sido outrora um eu capaz de cometer aquele ato, de modo que não é o ato nem o eu essencial, mas a constituição concreta e completa do eu da qual se vê, na lembrança e sob essa pressuposição necessariamente, o ato fluir, que fica atrás e abaixo da pessoa nesse arrependimento.

24. Essa orientação peculiar do arrependimento mais profundo, que não condiciona mera alteração da disposição moral nem simples boas resoluções, mas efetiva transformação da disposição moral, só se compreende pelo fato de o vivenciar-se a si mesmo possuir graus de recolhimento e concentração cuja mudança não é efeito unívoco da causalidade psíquica que determina os processos psíquicos dentro de cada grau, sendo a alteração desses graus em que a personalidade vive em cada momento, em contraste com a lei causal que os conteúdos vividos seguem em cada nível, ato livre da pessoa total, à qual pertencem em última instância todas as constituições mutáveis do eu a partir das quais se vê necessariamente o ato fluir, e o arrependimento mais profundo ganha plena compreensibilidade justamente porque essa alteração livre do nível de recolhimento da existência íntima o acompanha, de modo que, por mais necessário e historicamente compreensível em todos os pormenores que o ato pareça no nível da existência de outrora, não era igualmente necessário encontrar-se nesse nível, que poderia ter sido alterado, e nessa medida se podia também ser diferente, e não só querer e agir diferente, não sendo esse ter podido de outro modo mera transposição ilusória para trás do fato de agora se poder agir de outro modo, mas um poder central da vontade revelado pelo arrependimento como parte do vivido e ele próprio vivido anteriormente, e, embora se pudesse pensar que o arrependimento é sinal e consequência de já se estar acima do eu de outrora e de seu ato, arrependendo-se porque se tornou mais livre e melhor, a questão não se reduz a uma alternativa tão simples e racional, pois no mesmo ato que rejeita dolorosamente torna-se pela primeira vez evidente a maldade do eu e do ato e, no mesmo ato que parece compreensível a partir da posição mais livre do novo nível, essa posição é alcançada por uma ascensão, de modo que o arrependimento é, em certo sentido, anterior a seu ponto de partida e a seu ponto de chegada, abrindo-se só nele o conhecimento pleno e evidente de ter podido algo melhor, conhecimento que nada cria, apenas penetra a nebulosidade de outrora e indica.

25. Esse aspecto extremamente misterioso do arrependimento vivo e mais profundo, em que no curso de sua dinâmica contínua se vê toda uma existência superior e ideal como possível, uma elevação de nível do ser espiritual fundada no recolhimento, de modo que todo o antigo estado do eu aparece muito abaixo, suscitou dificuldades também nas construções teológicas, sobretudo na relação entre o apagamento divino da culpa e a nova qualidade do homem efetivada pela graça santificante, pois só a graça livre que surge no arrependimento completo parece apagar e anular verdadeiramente a culpa religiosa, e não apenas fazer, como em Lutero, que Deus feche os olhos à culpa e não a leve em conta enquanto o homem persiste no pecado, mas, por outro lado, a anulação da culpa parece ser condição para a admissão da graça, já que esta e o estado superior de vida por ela condicionado só podem instalar-se no homem na medida em que a culpa já foi afastada, dificuldade que muitos teólogos, como M. Scheeben, resolvem pela feliz imagem de que a culpa recua diante da graça que penetra na alma como a escuridão diante da luz.

26. O arrependimento já não parece, portanto, pressupor a elevação de nível do ser moral que ele mesmo deve proporcionar, sendo um único e mesmo ato dinâmico aquele pelo qual se realizam tanto a ascensão do eu até a altura possível de sua essência ideal quanto o ver abaixo de si que acompanha a subida, a repreensão e a expulsão do antigo eu.

27. Assim como, no mesmo ato de subir uma montanha, o pico se aproxima e o vale afunda sob os pés, vivendo-se ambas as imagens condicionadas por esse ato, também a pessoa, no arrependimento, realiza uma escalada e ao mesmo tempo vê abaixo de si a constituição mais antiga do eu.

28. Quanto mais o arrependimento passa do arrependimento do ato ao arrependimento do ser, tanto mais agarra pela raiz a culpa vista para expulsá-la da pessoa e devolver-lhe a liberdade para o bem, e tanto mais conduz da dor por um ato isolado à completa contrição do coração, a partir da qual a força regeneradora que nele habita edifica um coração novo e um homem novo, assumindo o caráter de autêntico arrependimento de conversão e levando de novas boas resoluções, pela alteração da disposição moral, à genuína transformação dela, até o renascimento, em que a raiz última dos atos morais, o centro espiritual da pessoa, parece incendiar-se e reconstruir-se em suas intenções materiais últimas, sem prejuízo de sua identidade formal e individual.

29. Resta ainda tratar de duas das teses céticas mencionadas, a teoria do medo e a teoria da ressaca.

30. Já no protestantismo nascente a teoria do medo desempenha papel importante, pois Lutero e Calvino situam a essência da contrição nos terrores da consciência, em que a angústia diante do inferno surge da evidência da falta de força do homem para cumprir a lei, sendo para Lutero esse temor o único motivo que leva o homem que sente o peso do pecado e sua necessária insuficiência perante a lei divina a assegurar-se da justificação pela fé no sangue redentor de Jesus, na satisfação por ele efetivada e na misericórdia de Deus, de modo que, cobrindo Jesus com a plenitude de seus méritos, aos olhos de Deus, o coração humano que peca e continua pecando até a morte, o pecado não é levado em conta, isto é, a punição é dispensada, esperando-se a boa resolução e certa diminuição dos pecados apenas da vivência já ocorrida dessa misericórdia totalmente imerecida e do novo estado de graça concedido, ficando a resolução inteiramente separada do arrependimento e consistindo o perdão divino não num verdadeiro apagamento da qualidade da culpa nem numa santificação posterior que trouxesse à alma nova qualidade santificante no lugar da culpa, mas apenas na dispensa da punição e na aceitação, inapreensível e contrária à onisciência divina, do pecador, cujos pecados Deus já não olharia.

31. Também a filosofia moderna começa com a teoria do medo, pois para Espinosa, na Ética, o arrependimento não é virtude nem provém da razão, estando quem se arrepende duplamente oprimido e impotente, por deixar-se vencer primeiro por um desejo repreensível e depois pelo desprazer a respeito dele, e, em sua definição totalmente impossível do arrependimento como desprazer acompanhado da ideia de um ato que se crê cometido por livre decisão do espírito, deriva-o do medo, como consequência da repreensão e das punições do ambiente, medo ligado à ideia de um ato tido por injusto, de modo que, conforme a educação, o homem se arrepende de um ato ou se gloria dele, sendo o arrependimento apenas virtude relativa, própria do povo, que é temível quando não teme, mas não do homem livre, conduzido pela razão.

32. A teoria do medo é radicalmente contrariada pelo fato de o medo costumar impedir justamente o estado de recolhimento em que o arrependimento autêntico se torna possível, pois dirige a atenção e o interesse para fora, para o perigo iminente, levando o criminoso perseguido, se for do tipo ativo, a defender obstinadamente seu ato e a concentrar toda a energia em não ser apanhado, ou, se for do tipo passivo, a deixar-se abater pelo medo e render-se de má vontade ao destino, de modo que, se nada mais o impedisse de arrepender-se, o medo o faria, e só quando se sabe fora de todo perigo encontra o recolhimento pressuposto pelo arrependimento genuíno, o absoluto estar a sós consigo e com seu ato sem o qual não há arrependimento, além de ser possível distinguir com clareza na consciência o arrependimento voltado para trás e o medo simultâneo voltado para o futuro, que se desenrolam em camadas inteiramente diferentes da existência, irrompendo o medo do centro do sentimento vital e desaparecendo por completo se se abstraísse do corpo e de seus estímulos, ao passo que o arrependimento brota do centro espiritual da personalidade e, abstraído o corpo, não só seria possível, mas pela primeira vez absolutamente completo, livre dos limites pulsionais que ocultam o próprio mal, e a coexistência de medo e arrependimento diante do mesmo estado de coisas valorativo prova que este não pode ser forma de desenvolvimento anímico daquele, pois nesse caso o medo já se teria consumido na nova formação e não poderia continuar a existir ao lado dela.

33. Essas proposições valem também para o medo das punições divinas, pois o mero medo do mal da punição, o temor servil, não é arrependimento, nem sequer a atrição, que a teologia distingue com razão da contrição, o arrependimento completo fundado no amor a Deus como bem supremo digno de amor em si, já que a atrição não é medo do mero mal da punição nem se funda só nele, podendo ser desencadeada pelo medo da punição enquanto expressão da justiça divina, mas nunca pelo medo do mal da punição enquanto mero mal, sendo o próprio ato de arrependimento, em relação a esse desencadeamento, algo inteiramente novo, que só pode surgir se o medo da punição eterna ou temporal visar não primariamente o mal da punição, mas a punição como ato e expressão da justiça divina, cofundado na reverência e no respeito à divindade que a estabelece, e, embora a atrição seja grau inferior à contrição, mesmo aqui, onde a contrição é possível, a mera atrição constitui certo impedimento a seu surgimento, segundo a lei de que o medo em geral mais impede do que desenvolve o arrependimento.

34. Igualmente inexplicável pela doutrina do medo é por que o medo só se transformaria em arrependimento quando o desvalor pessoal ou a ação tem significado moral e religioso, já que um rosto feio, uma inaptidão, o defeito de um órgão com que se esbarra mil vezes e se teme esbarrar de novo nunca são objeto de arrependimento, mas no máximo de autoflagelação, tristeza, repugnância ou raiva de si, e ninguém se arrepende de uma obra de arte malograda ou de um trabalho malfeito no mesmo sentido em que se arrepende de um roubo ou de uma falsificação de moeda, salvo na medida em que sua má qualidade remonta a uma falha moral no exercício das capacidades necessárias, e não à aptidão, sem que o desprazer e o medo diante da ideia de si como causa do próprio desprazer sejam menores nesses casos, nos quais falta tudo o que se poderia chamar arrependimento, e, se pertence necessariamente ao arrependimento que seu desvalor seja da qualidade particular do mal, dado no sentir desse mal que o cofunda, não se vê por que a natureza íntima do mal não bastaria para determinar sua negação emocional no arrependimento, nem o que um medo das consequências acrescentaria, pois o medo às vezes desencadeia o arrependimento, mas ainda mais frequentemente o contamina, sendo sempre, mesmo sem objeto, um pressentir à distância de circunstâncias penosas e danosas antes do dano efetivo, ao passo que o arrependimento se volta necessariamente para trás.

35. A teoria da vingança capta algo mais profundo, pois há sem dúvida um impulso de vingança dirigido contra si mesmo, visível quando a criança se agride por ter feito algo errado, quando se quer arrancar os próprios cabelos ou nas mil formas históricas de autotormento que não são penitência diante da divindade nem ascese de libertação do corpo, mas trazem os sinais de vingança ou expiação natural contra o eu, impulso originário que não precisa ser reduzido a contágio por uma repreensão pressentida do ambiente nem, como na falsa doutrina da simpatia de Adam Smith, a coexecução involuntária do impulso vingativo de outro contra si, sendo mais originário do que a escolha entre eu e não eu como objeto e podendo voltar-se ao mesmo tempo contra si e contra outros, como em escritores contemporâneos cuja criação parece alimentada por uma sede íntima e selvagem de vingança contra si mesmos e tudo o que a eles se liga, atacando nas sátiras só aparentemente suas personagens, de modo que não é preciso ver nessa autovingança, como Nietzsche, mera consequência e regressão do impulso vingativo impedido de voltar-se contra outrem, pois tanto o impulso de vingança desproporcionado quanto sua forma racional, o impulso de acerto de contas proporcionalmente calculado, são reação imediata a certos estados de coisas sem valor que por si exigem expiação, surgindo o impulso de acerto antes mesmo de se conhecer o autor do estado de coisas e só depois buscando seu objeto, sem cessar quando se descobre que o autor é o próprio sujeito, mas nenhuma espiritualização desses impulsos explica o arrependimento, ainda que a teoria torne compreensíveis traços inacessíveis à hipótese do medo, como a relação essencial com o passado, a acuidade tumultuosa da dor arrependida e a disposição de penitência para expiar o injusto, deixando obscuro o cerne do ato, pois à vingança e ao acerto consigo falta a espiritualidade e a interioridade do arrependimento e seu meio de calma, repouso, seriedade e recolhimento, a ascensão a um nível de vida mais elevado com a codoação de uma imagem ideal de valor e até de salvação da pessoa, antes oculta e agora amada por amor da própria salvação, o fortalecimento e a libertação do si mesmo moral para a resolução e a mudança da disposição moral, e a restrição ao mal e à culpa moral, ao passo que a vingança pode visar qualquer desvalor sentido de si e qualquer causação de estados sem valor, sendo a atitude vingativa contra o eu um estado de excitação sem fundamento no olhar para uma imagem exemplar positiva do ser e do tornar-se si mesmo, e por isso inteiramente infrutífera.

36. Não se pode contestar a forte inclinação a confundir com o arrependimento genuíno, ou a aproveitar como se fossem arrependimento, todos os estados de autoflagelação ou desprazer consigo, inclusive patológicos, relativos à causa de certas ações e estados, mas tais autoilusões, que tantas vezes levam a iludir também os outros, pressupõem o fenômeno do arrependimento genuíno e sua valorização positiva, pois os homens tendem a projetar sobre sua crueldade para consigo, seu amor doentio da dor que revolve voluptuosamente o sofrimento dos pecados, sua sede de vingança contra si, seus estados de fraqueza moral, seu medo secreto, seu cismar forçado sobre o passado e aquele olhar malicioso que às vezes dirigem a tudo e a si mesmos, a imagem, agradável a Deus, de um coração arrependido, escondendo vícios e doenças sob a aparência de virtude, destino que o arrependimento partilha com toda virtude e toda vantagem, a possibilidade de ser encenado para si e para os outros, o que não deve levar quem se considera psicólogo a perder de vista o próprio arrependimento por trás de suas aparências.

37. O arrependimento não é, como habitualmente se começa a defini-lo, um sentimento de desprazer circunstancial associado à ideia de uma ação da qual o homem se reconhece autor, platitude da psicologia associacionista convencional, mas um movimento finalizado do ânimo diante da culpa acumulada no homem e contra ela, cujo fim é a negação emocional e a perda de poder do prolongamento do efeito da culpa, esforço secreto para expulsá-la do cerne da pessoa a fim de salvá-la, constituindo a dor do arrependimento apenas o efeito retroativo da pressão da culpa, que se intensifica no ato, sobre esse movimento, dor que cresce com a inflexibilidade da culpa, tanto maior quanto mais fundo se aloja no cerne da pessoa, de modo que o primeiro é o movimento contra a culpa e a tendência a quebrar seu efeito, e a dor apenas o segundo, uma dor de natureza aguda, ardente e corrosiva, sem nebulosidade alguma, junto à qual subsiste no todo do processo uma satisfação que pode chegar à bem-aventurança, pois satisfação e prazer, insatisfação e desprazer nada têm a ver entre si e a satisfação mais profunda cresce até com a força da dor, não por conceber-se essa dor como expiação da culpa, hipótese que exigiria tomar o arrependimento por acerto de contas espiritual consigo, já refutada, já que a obediência à exigência de expiação é matéria da penitência, e não do arrependimento, podendo ocorrer sem arrependimento que a funde, e, embora a disposição de penitência nasça necessariamente do arrependimento, tão necessariamente quanto a disposição para a confissão, o arrependimento não nasce dela nem se identifica com ela, e muito menos é dor que se satisfaz como dor, a não ser que se trate de ilusão de arrependimento fundada no amor da dor, confusão frequente nos pietistas, donde a coloração fortemente sensorial e quase masoquista de sua literatura religiosa sobre o arrependimento, sendo a satisfação crescente, de fato, consequência da lenta diminuição da pressão da culpa, que se realiza como que espontaneamente pela saída objetivante da culpa do cerne da pessoa.

38. Se o arrependimento é perda de poder da culpa, a culpa tem de estar dada de algum modo quando ele intervém como contra-ato.

39. A culpa é a qualidade de mau que se acumula duradouramente na própria pessoa, no centro dos atos, por meio de seus maus atos, uma qualidade e não um sentimento, distinguindo-se o chamado sentimento de culpa dos demais apenas por sua relação interna de sentido com essa qualidade, de modo que a culpa permanece quer se sinta culpado quer não, sendo a finura ou o embotamento do sentimento de culpa, seus limiares, muito diferentes da existência e da amplitude da culpa, e pertence aos efeitos mais obscuros da culpa que, ao crescer, ela se oculte e embote o sentimento de sua existência, ao passo que, inversamente, pertence ao crescimento da humildade e da santidade, como atestam as vidas dos santos, que o sentir da culpa se refine justamente com sua diminuição objetiva, sentindo-se penosamente faltas cada vez menores, e por isso o arrependimento não se dirige contra o sentimento de culpa, que ele até desenvolve e amplia, mas contra a qualidade objetiva da culpa, embora através do sentir da culpa, como o ato de consideração espiritual ou uma intenção de significação se dirige ao objeto através do ver ou do ouvir, de modo que algum sentimento de culpa, quase sempre inicialmente deslocalizado quanto ao quê, contra quem ou por quem, deve introduzir o arrependimento, encontrando sua extensão, localização, direção, profundidade e muitas vezes seu objeto determinado só durante o arrependimento e por meio dele, e, quando a culpa se acumulou a ponto de asfixiar total ou quase totalmente o sentimento de sua existência, tem-se o endurecimento parcial ou total que o arrependimento dificilmente ou já não consegue romper, e, sendo qualidade da pessoa que lhe advém de seus atos como algo que a preenche, a culpa está secretamente copresente em cada ato enquanto subsiste, pois não são as consequências causais dos maus atos, efetividades naturais que tanto podem produzir algo bom quanto indiferente, que geram necessariamente outro mal, inexistindo causalidade moral nesse sentido, mas a culpa, o trabalho obscuro desses atos na alma, que penetra em tudo o que o homem quer e faz e o determina sem que ele o saiba, razão pela qual todo arrependimento do ato é, na verdade, arrependimento do estar culpado da pessoa pelo ato, distinguindo-se do arrependimento do ser apenas pelo primeiro olhar dirigido ao estado de coisas sem valor do ato.

40. O embate do arrependimento contra a culpa pode duas coisas que só ele pode, pois, embora não possa fazer desaparecer do mundo a efetividade natural e exterior do ato, suas consequências causais nem o caráter de mal que lhe cabe como ato, tudo isso permanecendo no mundo, pode matar e apagar plenamente a culpa enquanto obra retroativa do ato na alma e, com ela, a raiz de uma infinidade de novos maus atos e de nova culpa, aniquilando verdadeiramente, ao menos em sua configuração plena, a qualidade psíquica chamada culpa, rompendo a cadeia da força procriadora do mal mediada pelo crescimento da culpa humana e pelo tempo e tornando possíveis novos começos de vida livres de culpa.

41. O arrependimento é a poderosa força de autorregeneração do mundo moral, que desfaz seu constante morrer.

42. O grande paradoxo do arrependimento é olhar para trás com lágrimas nos olhos e, no entanto, agir alegre e poderosamente em direção ao futuro, à renovação e à libertação da morte moral, opondo-se exatamente seu olhar espiritual e seu agir vivo, enquanto o progressista, o melhorista e o perfeccionista aconselham não se arrepender e fazer melhor, julgando que o bem é o melhor que pertence ao amanhã, paradoxo não menor, pois quanto mais olham para a frente e se ocupam no coração empreendedor de novos projetos do melhor, tanto mais temerosamente a culpa do passado irrompe em seu fazer íntimo, já na escolha do conteúdo de suas resoluções e projetos, e não só na execução, e tanto mais fundo o eterno fugitivo de seu presente e passado afunda nos braços mortos desse passado, já que quanto mais poderosamente age a culpa da história, tanto menos, em exata proporção, ela é vista objetivamente e motivo de arrependimento, sendo a instrução correta não abandonar o arrependimento para melhorar no futuro o que foi feito, mas arrepender-se e, justamente por isso, tornar-se melhor, porque não a utopia, mas o arrependimento é a forma mais revolucionária do mundo moral.

43. A formação da boa resolução, a alteração e a transformação da disposição moral e o coração novo não são um fazer arbitrário desligado do arrependimento que apenas o suceda no tempo nem uma produção capaz de saltar sobre ele como algo superficial, mas brotam dele como que espontaneamente, frutos da atividade natural da alma entregue a si mesma, liberta da culpa e restituída a si e a seu direito originário de soberania, de modo que quanto menos a boa resolução é visada no processo de arrependimento, tanto mais poderosamente ela se destaca dele no fim, autonomamente e quase sem auxílio do querer consciente, e quanto menos o arrependido olha de soslaio para os bens do eu que agora se arrepende, fazendo do arrependimento nova ocasião de vaidade e de prestígio secreto diante de si ou até de Deus, e quanto mais dolorosamente se perde nas profundezas de sua culpa, tanto mais nobremente sua alma criada por Deus se eleva, abstraindo de si, do pó da terra que até então a atravessava e lhe tirava a livre respiração, e quanto mais o arrependimento alcança as raízes do ser de um centro pessoal de atos, tanto mais aparece como processo que, num âmbito espiritual superior, equivale ao caso biológico mais elementar de renascimento e morte do animal descrito por A. Goette, em que ambos coincidem num só processo e o animal que se decompõe se reedifica.

44. Não há arrependimento que não traga desde o início o plano de construção de um coração novo, pois ele só mata para criar, só aniquila para edificar e já constrói quando ainda parece aniquilar, sendo a força impetuosa do ato no espantoso processo que o Evangelho chama renascimento de um homem novo a partir do velho Adão e acolhimento de um coração novo.

45. É representação exterior supor que o arrependimento só deve intervir a partir de delitos e culpas muito particulares e visíveis, formando com eles uma mera soma, como se as culpas se saldassem por uma soma de atos de arrependimento, pois o obscuro reino terreno da culpa tem tais atos apenas como seus cumes mais visíveis, sendo a própria culpa o reservatório oculto de força na alma de que se alimenta cada uma dessas culpas, e é nesse reino subterrâneo da alma, no oculto reino de sua culpa, que o arrependimento deve mergulhar, despertando antes de tudo a consciência para sua existência obscura e oculta, de modo que quem dissesse não ter consciência de culpa alguma e, portanto, nada de que se arrepender seria ou um Deus ou um animal, e, se fosse homem, ainda nada saberia da essência da culpa.

46. O arrependimento não é apenas processo da alma individual, mas, tão originariamente quanto a culpa, fenômeno total de natureza histórico-social, segundo o grande princípio da solidariedade de todos os filhos de Adão na responsabilidade, na culpa e no mérito, pelo qual a corresponsabilidade de cada indivíduo por todo o acontecer do cosmos moral e sua consciência dela não dependem primariamente dos efeitos visíveis e comprováveis que os indivíduos exercem uns sobre os outros direta ou indiretamente pela teia causal social e histórica conhecida, efeitos que apenas localizam o olhar nos pontos do cosmos moral pelos quais se é corresponsável e que se podem conhecer, sem criar a corresponsabilidade nem o sentimento dela que acompanha sempre quem está moralmente desperto, cuja forma pura é a consciência permanente de que todo o mundo moral do passado e do futuro, das estrelas e do céu, poderia ser total e radicalmente outro se o eu fosse apenas outro, o profundo sentimento de que as leis secretas do eco do amor e do ódio e de sua reprodução configuram através do infinito todos os impulsos de todos os corações finitos num uníssono ou numa desarmonia diversamente modulados, percebidos e dirigidos pelo ouvido de Deus como todo indiviso, corresponsabilidade originária tão essencial ao sujeito moral quanto a responsabilidade por si, não assumida apenas por atos particulares de obrigação ou promessa, mas pressuposto interno de sua possibilidade, razão pela qual o arrependimento se refere tão originariamente à culpa conjunta em toda culpa quanto à autoculpa, à culpa trágica em que se cai sem culpa quanto à culpa livremente assumida, à culpa total e herdada das comunidades, famílias, povos e de toda a humanidade quanto à culpa individual, sendo interpretação superficial da doutrina cristã, enraizada no princípio da solidariedade, entender que diante da culpa alheia apenas não se deve julgar e lembrar a própria culpa individual, quando seu verdadeiro sentido é não só recordar a própria culpa, mas sentir-se coculpado na culpa alheia e na culpa total do tempo e, por isso, considerá-la e arrepender-se dela como culpa própria, verdadeiro sentido do mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

47. Também na história o arrependimento pode tornar-se poderosa corrente que se precipita ao longo de gerações através de povos e círculos culturais inteiros, abre e abranda corações fechados e endurecidos, expulsa da vida total das comunidades a culpa acumulada dos tempos, ilumina para o orgulho dos povos o passado oculto de sua história, amplia de novo num plano vasto e límpido de possibilidades o futuro que se estreitava e prepara assim a regeneração de toda uma existência moral, processos de arrependimento total para uma culpa total acumulada que retornam com ritmo peculiar na história de quase todas as grandes comunidades, em formas e expressões diversas conforme o sistema social, a religião positiva e a moralidade dos povos, como o cristianismo primitivo, que pelas lágrimas invencíveis de seu arrependimento renovou o mundo antigo em declínio, endurecido no vício do prazer, do poder e do prestígio, e infundiu-lhe novo sentimento de juventude, trespassando grande parte do pensamento e do sentimento da literatura patrística, ou a violenta vaga de arrependimento que percorreu os povos da Europa após a rudeza crescente e cada vez mais selvagem e hostil à vida do século XI, aniquilando a última utopia desesperada do fim do mundo e do retorno de Cristo e preparando o renascimento espiritual e religioso conduzido por São Bernardo de Claraval, quando se chamou dom das lágrimas à nova graça de uma vontade de arrependimento e penitência em que a Europa se decidiu à grande empresa das cruzadas e renovou a antiga vida da Igreja, enrijecida sob uma espiritualidade rude, apodrecida e mundanizada e sob o arbítrio ilimitado dos poderes mundanos, despertando da ira das paixões e das irrupções grosseiras da violência um poderoso sentimento de penitência, de modo que edificação, solidificação, sobrediferenciação das culturas e depois dissolução arrependida, com a retomada dos elementos construtivos num espírito e numa vontade de vida novos e criadores que tudo fazem renascer, constituem não só a lei da respiração da pequena alma individual, mas também a da grande alma da humanidade histórica, e o olhar mais profundo mede também na história, em todas as esferas, a imagem tola de um desenvolvimento progressivo contínuo, que por tanto tempo enganou o século XIX e ocultou a lei mais bela e sublime, que abrange todo progresso, do morre e transforma-te.

48. Sustentada por tal irrupção de sentimento, cujo poder e grandeza estarão à altura da culpa europeia total, mais visível e expressa do que causada nesta guerra, ocorrerá também a conversão que é o único pressuposto íntimo para a formação de um novo sistema de política externa de entendimento europeu, pois nenhuma nova sabedoria jurídica, nenhuma vontade de estadistas, por melhor que seja, nenhuma revolução e nenhum homem novo podem substituir essa mudança de sentido dos povos, sendo também aqui a conversão a forma inevitável, para a alma, da nova providência, e o novo sentimento de profunda alienação em relação ao sistema histórico-humano anterior à guerra, bem como o lento desvelamento, incitado pelo arrependimento, das raízes profundas do acontecimento nos subterrâneos da alma do tipo de homem que desempenha por toda parte e em todos os povos e Estados o papel de condutor, a forma necessária e única de consciência da qual podem nascer uma nova disposição moral positiva e, por fim, novos planos de construção da existência política.

49. Todos os inúmeros sistemas de ideias que o homem moderno engendrou e cultivou para escapar da culpa que nele cresce devem ser quebrados nesse processo, pois a relação fundamental do tipo mais recente de homem, que pareceu emergir definitivamente da estrutura de vivência cristã, é ter deixado a culpa dos tempos acumular-se até não ousar mais expiá-la, nem sequer senti-la e pensá-la, e, justamente por isso, ver a culpa por ele obscurecida de modo culpável confrontá-lo como mero poder objetivo de relações, por exemplo econômicas, disfarçada nelas como poder a que se deve curvar sem contradição, de modo que, arrancada a máscara dessas relações, percebe-se por trás delas a culpa, própria ou dos pais, não arrependida, que se apresenta ao homem moderno do exterior como fantasma, na medida em que sua alma não se reconhece, como coisa nova, poder externo e destino diante de seu entendimento desorientado, exigindo teorias científicas complexas para explicar o fantasma, como todas as teorias histórico-deterministas, entre elas a concepção econômica da história, secretamente alimentadas por esse sentimento de vinculação, consequência natural da alma que bloqueia sistematicamente o único caminho para a libertação sempre necessária, o arejamento sempre novo para a respiração do eu que sufoca sob o fardo de sua história, o caminho do arrependimento, sendo exemplos desses sistemas a autoilusão sobre a culpa quase já não sentida, mas por isso mais efetiva, pelo trabalho ilimitado que eleva o puro processo de trabalho a valor absoluto, pela precipitação no puro mundo do prazer das sensações ou por uma vida eternamente provisória que adia automaticamente todo sentido da vida até a morte, para o futuro e para a próxima vez, justificando-se lógica e moralmente como vontade e doutrina do progresso.

50. Nos impulsos da consciência moral apresenta-se de modo totalmente espontâneo, sem interpretação, uma ordem invisível da alma e de sua relação com seu supremo superior e criador, e também o arrependimento só assume seu sentido pleno e sua linguagem plena quando, além de seu significado ainda pertencente à ordem natural como descarga da culpa, é vivido como inserido numa conexão metafísico-religiosa do mundo, isto é, quando já não se refere apenas ao mal, mas ao mal aos olhos de Deus chamado pecado, olhar em que a alma aprende a satisfação no arrependimento e compreende sua renovação como o processo misterioso do perdão dos pecados e como o jorrar de uma nova força a partir do centro das coisas, chamada graça, e, por mais que dependa de muitas condições a configuração das representações e conceitos dogmáticos relativos a esse grande processo e o modo como arrependimento, confissão, penitência, justificação, reconciliação e santificação se apresentam no sistema de uma Igreja como instituição objetiva de salvação, a raiz simples de todas essas representações e instituições é sempre a mesma, o fato de o arrependimento, embora dirigido como ato pessoal ao próprio coração carregado de culpa, transcender esse coração e espreitar além de seu estreito confinamento para fazê-lo remergir de sua impotência num pressentido centro das coisas, numa fonte eterna de força de todas as coisas, o que pertence ao sentido imanente do arrependimento plenamente vivido.

51. Se nada mais houvesse no mundo a partir do qual se formasse a ideia de Deus, o arrependimento bastaria para tornar atento à sua existência, pois começa com uma acusação, que exige essencialmente uma pessoa que a perceba e diante da qual ocorra, é uma confissão íntima da culpa que pede alguém a quem confessar quando os lábios se calam e se está a sós com a alma, supõe alguém a quem se deve a culpa que oprime, termina com a consciência clara da superação e aniquilação da culpa, que pede quem a retirou e seja capaz disso, julga segundo uma lei sentida como santa, que não se deu a si mesmo e no entanto habita no coração, e quase no mesmo fôlego desvincula das consequências dessa lei para a pessoa e seu agir, o que pede um legislador e alguém que, além dele, possa impedir essas consequências, e dá nova força de resolução e por vezes um coração novo a partir das cinzas do antigo, o que pede uma fonte de força, uma ideia para a construção desse novo coração e um poder que o construa.

52. De cada momento parcial desse grande processo moral parte um movimento intencional que aponta para uma esfera invisível e que, deixado a si mesmo e não desviado por interpretações precipitadas, traça espontaneamente diante do espírito os contornos misteriosos de um juiz infinito, de uma misericórdia infinita e de uma fonte infinita de poder e de vida.

53. O que foi dito ainda não é pensamento especificamente cristão, muito menos conteúdo doutrinal fundado numa revelação positiva, sendo cristão apenas no sentido em que, segundo Tertuliano, a alma é por natureza cristã, e no entanto essas funções naturais do arrependimento só obtiveram plena luz e pleno significado na Igreja cristã, pois só por seu sistema a doutrina cristã torna compreensível por que o arrependimento tem a função central do renascimento na vida do homem.

54. É tremendo que só se possa ganhar a vida pelo obscuro caminho de dor do arrependimento, mas é glorioso que haja de todo um caminho para a vida, que não se perde necessariamente pela culpa que se acumula.

55. A questão de como deve ser constituído um mundo em que tal coisa é já necessária e ainda possível, em que relação particular com seu criador ele se encontra e por que isso é necessário sempre e para cada um encontra resposta num pensamento do cardeal Newman na Apologia pro vita sua, segundo o qual ou não há criador ou o gênero humano se excluiu, em seu estado atual, de sua presença, e, se há Deus, como certamente há, o gênero humano deve estar envolvido numa tremenda culpa original e já não está em consonância com os desígnios do criador, fato tão certo quanto a própria existência, de modo que a doutrina chamada pelos teólogos de pecado original se torna quase tão certa quanto a existência do mundo ou de Deus.

56. O pensamento de Newman, tão simples quanto grandioso, pode ser reformulado assim: há uma intuição plenamente clara, evidente e espiritual da essência de um Deus possível como ser infinito e sumo bem, ideia não retirada de nenhum fato ou configuração do mundo real interno ou externo, nem inferida do mundo, nem tomada de empréstimo, mas à luz da qual se percebem o mundo e o próprio eu, in lumine Dei, como diz Agostinho, e pertence à essência dessa ideia plenamente desenvolvida de uma pessoa espiritual que uma realidade correspondente, se existir, só possa dar testemunho de si ao homem por iniciativa própria, de modo que nunca se poderia verificar essa realidade por atos espontâneos da consciência, nem distinguir a inexistência de uma realidade correspondente à essência dessa ideia de um Deus pessoal de seu mero silêncio e reserva, mas a fé sustenta que a realidade dessa essência se testemunhou a si mesma na Antiga Aliança e, de modo definitivo, em Cristo, tornando-se depois visíveis vestígios dela, com clareza diversa e em diversos pontos, na revelação universal que inspira a história.

57. Estes são alguns fundamentos do saber acerca de Deus, e, se se sabe de sua realidade sem tê-la inferido ou tomado de empréstimo da existência do mundo, há em segunda instância bom fundamento para supor que o mundo não é absolutamente independente nem tão originário quanto Deus, mas procedeu de suas mãos criadoras, e, verificado isso, o olhar cai sobre o mundo tal como é e sobre o homem tal como se apresenta realmente, com todos os seus impulsos, na história acessível, e diante da pergunta se o mundo e o homem, exatamente como são, podem ter saído das mãos criadoras de Deus, tudo responde que não, de modo que a ideia de alguma forma de queda, culpa e pecado original se dá espontaneamente como única explicação da diferença entre um mundo criado pelo Deus absolutamente perfeito e o mundo conhecido como real.

58. Só nessa conexão, como muitas outras coisas, o arrependimento ganha seu sentido pleno, ou ao menos se torna a necessidade duradoura que antes se viu que era.

59. No início desta história do mundo está uma culpa, e por isso não poderia haver outra forma de regeneração eterna senão a do arrependimento.

60. Sem emitir juízo sobre a doutrina cristã da contrição e suas configurações nas Igrejas e seitas cristãs, já que o propósito foi mostrar até onde a reflexão filosófica, e só ela, pode conduzir, a comparação dos resultados com essas doutrinas revela o conhecimento mais profundo do significado e do sentido do arrependimento no cristianismo e, dentro dele, na Igreja Católica, pertencendo à característica mais peculiar da concepção cristã, abstraídos os pormenores da doutrina da justificação, duas coisas, a primeira das quais é a representação à primeira vista muito paradoxal de que não só o ritmo de culpa e arrependimento pertence necessariamente à vida do homem decaído, mas também de que o arrependimento perfeito conduz além do estado de inocência, a um estado superior de existência inalcançável sem o pecado precedente e o arrependimento subsequente, pensamento expresso macrocosmicamente na doutrina segundo a qual a obra redentora de Cristo não só apagou o pecado de Adão, mas pôs o homem numa comunhão com Deus mais profunda e santa do que a que Adão possuía, embora o redimido na fé e na imitação de Cristo não recupere a integridade adâmica e a concupiscência subsista, e anunciado microcosmicamente na sentença evangélica de que há mais alegria no céu por um pecador arrependido do que por mil justos.

61. O primeiro desses pensamentos confere plena luz e sublimidade última à queda da humanidade em Adão e à sua elevação à comunhão com Deus pela encarnação de Cristo, pois desde cedo os teólogos cristãos sentiram que uma concepção que punha a essência e o fundamento da encarnação exclusivamente na misericórdia compassiva de Deus para com o homem decaído e numa mera santificação e reconstituição do homem, às quais Deus estaria como que obrigado pela queda e pelo pecado original, não faz jus à sublimidade da encarnação, já que Deus poderia ter santificado o homem decaído e perdoado seus pecados de outro modo, sem que o infinito se tornasse homem e carne, e a encarnação, segundo a doutrina geral da teologia, poderia ter ocorrido sem a queda, permanecendo ato livre de Deus, e entre uma mera reelevação do homem decaído à sua altura natural anterior e a infinita sublimidade da humanização do senhor absoluto das coisas não há proporção sensata, razão pela qual a Igreja pode cantar sua felix culpa diante da queda, porque a elevação do homem e do mundo pela entrada da substância divina num membro da humanidade o eleva a uma altura incomparavelmente mais sublime que a do estado original, como ensina São Leão Magno com muitos outros ao afirmar que, tendo a integridade do gênero humano decaído nos primeiros homens, o Deus misericordioso quis socorrer as criaturas feitas à sua imagem por seu Filho unigênito Jesus Cristo, de modo que a nova criação não ficasse fora da natureza e o segundo estado superasse a dignidade da própria origem, feliz a natureza se não tivesse decaído do que Deus fizera, mais feliz se permanece no que Ele de novo produz, pois foi grandioso receber de Cristo a forma, mas é mais grandioso ter em Cristo a substância, de modo que no eterno decreto divino a humanização deve ser pensada em vista da queda eternamente prevista, mas deve-se supor também que Deus decidiu permitir a culpa livremente assumida pelo homem em vista da humanização igualmente decidida, e só nessa conexão ganha pleno sentido a ideia de que Deus, pela encarnação, não apenas atende a uma necessidade humana e socorre uma urgência de culpa, mas glorifica a si mesmo a partir de um amor infinito que prolonga a geração imanente do Filho e acolhe o homem nessa glorificação e, com esse elemento mais nobre do mundo, também o mundo, pensamentos que já ultrapassam o tema.

62. O segundo momento, inseparável do primeiro, é a nova relação entre arrependimento e amor, pois o arrependimento perfeito aparece sustentado pelo amor de Deus em duplo sentido, primeiro porque esse amor, batendo sempre à porta da alma humana, traz diante do homem a imagem de valor de um ser ideal e só em relação a ela o deixa perceber plenamente a inferioridade e a complicação de seu estado real, e depois porque o homem, após a realização espontânea do arrependimento e olhando para trás a partir do perdão e da santificação gradualmente sentidos, vive a força de execução do ato de arrependimento como dom de amor e de graça de Deus, na exata proporção em que o impulso humano de amor a Deus, presente desde o início, restaura progressivamente a plena capacidade de amar a Deus e efetua, pela superação dos limites impostos pela culpa e pela distância de Deus, a reconciliação e a reunificação com o centro das coisas.

63. À primeira vista, esse impulso de amor parece ser apenas o amor humano, mas revela-se depois que já era também amor correspondido.

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