estudos:safranski:heidegger-24

Debate Público de 1965

RSH

  • Contexto e Antagonistas da Conversa Radiofônica
    • Ocorrência de um debate público em 1965 entre Arnold Adorno e Arnold Gehlen, assumindo papéis alegóricos opostos.
    • Gehlen posiciona-se como o “grande inquisidor”, enquanto Adorno assume o papel de “amigo dos homens”, configurando um embate sobre a condição humana moderna.
  • Posição de Gehlen: A Crítica à Universalização da Emancipação
    • Interrogação sobre a pertinência de impor a todos os homens o peso da reflexão filosófica e da autodeterminação.
    • Argumento central de que a exigência de emancipação total desconsidera os erros existenciais e a tendência humana ao formalismo.
    • Conclusão pragmática de que tal exigência pertence a uma “antropologia utópica”, impraticável na realidade social concreta.
  • Posição de Adorno: A Defesa da Reflexão como Condição de Felicidade Objetiva
    • Resposta afirmativa à necessidade universal de reflexão e autodeterminação.
    • Tese de que o bem-estar sem responsabilidade é uma mera aparência, destinada a um colapso catastrófico.
    • Diagnóstico da exoneração como reação a gravames sociais historicamente constituídos, não como constante antropológica natural.
    • Denúncia do mecanismo de “identificação com o agressor”, onde os homens buscam refúgio no poder que os oprime.
  • Conclusão do Debate e Visões da Catástrofe
    • Réplica final de Gehlen, alertando para o perigo de criar insatisfação com os resquícios de ordem existentes.
    • Base comum não declarada: ambos os filósofos compartilham a premissa de que “o todo é o falso” e a situação global é catastrófica.
    • Diferença radical nas prescrições: Gehlen defende a proteção contra a reflexão para preservar a vida prática; Adorno defende o estímulo à reflexão como caminho para a liberação.

A Catástrofe como Pano de Fundo: Coexistência da Crítica e do Conformismo

  • A Catástrofe como Condição Estável e Invisível
    • Paradoxo de uma catástrofe fundamental que não é alarmante e com a qual se pode viver bem.
    • Diagnóstico convergente de Adorno, Gehlen e Heidegger sobre a natureza catastrófica da totalidade social moderna.
  • Explicações Diferenciais para a Invisibilidade da Catástrofe
    • Adorno: A alienação é dupla; os homens estão alienados e perderam a consciência de sua alienação.
    • Gehlen: A civilização é precisamente a catástrofe em um estado no qual ela se tornou habitável.
    • Heidegger: O “engrenagem” técnico é um “destino” incontrolável, cujos problemas fundamentais não podem ser resolvidos pela técnica.
  • O Discurso da Catástrofe nos Anos 50 e 60
    • Coexistência pacífica entre o discurso catastrofista da crítica cultural e o otimismo prático da reconstrução e do bem-estar na República Federal.
    • A crítica atua como um acompanhamento em “modo menor” para a atividade alegre da sociedade de prosperidade.

Participação Paradoxal no Sistema Crítico

  • As Aporias da Própria Posição Crítica
    • Gehlen utiliza meios intelectuais para proteger a sociedade dos intelectuais e da reflexão crítica.
    • Adorno, ao pintar o horror da alienação capitalista, realiza pesquisas empíricas sobre clima empresarial para o estabelecimento.
    • Heidegger recusa o discurso edificante sobre a técnica, mas o faz através de uma linguagem que ela mesma é edificante.
  • Recepção Estetizante da Crítica Fundamental
    • Crítica que recusa a politização direta e a religião é inevitavelmente recebida sob um prisma estético.
    • Exemplo: A proposta de ingresso de Heidegger na Academia de Belas Artes de Berlim, justificado por sua obra como “grande poesia”.
    • Consequência: O pensamento é aproximado do poetizar, afastando-se das lutas temporais concretas.

A Influência de Heidegger e o "Jargão da Autenticidade"

  • Ampliação da Influência para Além da Universidade
    • A influência de Heidegger se estende a “colegiados de irmãos leigos”, círculos de devotos leigos em toda a Alemanha.
    • Uso de sua terminologia proporciona uma linguagem de comoção com reputação acadêmica, servindo como sucedâneo espiritual.
  • Análise de Adorno do “Jargão da Autenticidade”
    • Diagnóstico do jargão como linguagem estandardizada dos “eleitos socializados”, que vai da filosofia à economia.
    • Mecanismo do jargão: Palavras como “encargo”, “chamada”, “encontro” soam como se dissessem algo mais elevado que seu significado imediato.
    • Função ideológica: Eleva a eficácia nos negócios à dignidade de um círculo eleito, criando um “superhomem suave”.
  • Contexto Histórico e Declínio do Jargão
    • O jargão prosperou na era patriarcal de Adenauer, mas seu tempo havia passado quando o livro de Adorno foi publicado.
    • Ascensão de uma nova objetividade, desmascaramento e crítica direta na esfera pública e intelectual.

A Crítica de Adorno a Heidegger: Fascismo e Proximidade Filosófica

  • A Suspeita de Continuidade Fascista
    • Tese central de Adorno: A sobrevivência do nazismo dentro da democracia é mais perigosa que o fascismo aberto.
    • O anticomunismo do pós-guerra permitiu a reabilitação de elites nazistas e manteve impulsos autoritários.
    • Experiência pessoal de Adorno com antissemitismo e difamação no ambiente acadêmico de Frankfurt.
  • Ameaça da Proximidade Filosófica e o Ressentimento
    • Além da crítica política, há uma ameaçadora proximidade filosófica entre Adorno e Heidegger.
    • Ressentimento de Adorno frente à ignorância de Heidegger pela sociologia e psicanálise, vendo-a como “provincianismo”.
    • Inveja implícita pela falta de vergonha de Heidegger em expressar intenções metafísicas diretamente.
  • Estratégia de Adorno: A Dança Filosófica do Véu
    • Adorno torna-se mestre da mediação indireta, criticando a “imediatez” em colegas como Marcuse.
    • Sua metafísica só se expressa sob proteção de reflexões intrincadas e através do arte.

Proximidades Filosóficas no Diagnóstico da Modernidade

  • Diagnósticos Convergentes da Doença Moderna
    • Heidegger: A “rebelião do sujeito” transforma o mundo em objeto de manipulação, reificando o próprio sujeito.
    • Adorno e Horkheimer: A violência sobre a natureza exterior retorna como coação sobre a natureza interior do homem.
    • Conceito comum: O princípio de poder e dominação conduz à alienação e à catástrofe.
  • Auschwitz como Ponto de Convergência Implícita
    • Para Adorno, o extermínio é a “integração absoluta” do princípio identificador levado ao extremo.
    • Para Heidegger, a fabricação industrial de cadáveres nas câmaras de gás é da mesma essência que a agricultura motorizada.
    • Ambos veem Auschwitz como um crime típico da modernidade técnica e da vontade de poder.
  • Estratégias Diferentes de Superação
    • Heidegger: Um “pensamento que abre” para deixar o ser se mostrar, superando a vontade de poder.
    • Adorno: O “pensamento da não-identidade” que respeita a singularidade sem violá-la pela identificação.
    • Crítica de Adorno a Heidegger: Acusa-o de cair no irracionalismo ao buscar superar imediatamente a separação sujeito-objeto.

Lugares da Experiência Metafísica: Amorbach versus Senda do Campo

  • A Busca por Lugares de Experiência Metafísica
    • Para Adorno, a experiência metafísica já não está na totalidade ou na história, mas em micro-experiências e lembranças.
    • Exemplo: A felicidade prometida por nomes de lugares como Otterbach, evocada na memória proustiana.
  • Amorbach como Lugar da Metafísica Adorniana
    • A pequena cidade de infância torna-se protótipo de uma beleza fundamental e lugar de preparação para o choque da modernidade.
    • Funciona como um lugar real-imaginário análogo aos “caminhos do campo” de Heidegger.
  • A Senda do Campo como Lugar da Metafísica Heideggeriana
    • Heidegger evoca a vereda campestre como lugar onde o mundo se outorga e Deus se torna Deus no “não falado” da linguagem.
  • Polêmica de Adorno contra a Senda Heideggeriana
    • Adorno desqualifica a evocação de Heidegger como “arte patriótica” barata e ideologia de “sangue e solo”.
    • A implicação nazista de Heidegger serve a Adorno para estabelecer uma distância filosófica através da denúncia política.

Ascensão e Transformação do Jargão Dialético

  • O Jargão da Dialética como Sucessora
    • Após a polêmica contra Heidegger, ascende ao “jargão da dialética”, que se afirma como linguagem de alta pretensão.
    • Surge da tentativa de superar discursivamente a complexidade da realidade e encontrar o “totalmente outro”.
  • Características da Dialética Adorniana e sua Vulgarização
    • Em Adorno, a dialética negativa é um prodígio de sutileza, fiel à metafísica através da negação da negação.
    • Vulgarização: A dialética torna-se uma “falta de claridade que se apresenta como superclaridade”, um gesto arrogante e sermonário.
  • Mudança de Paradigma e o Fim do Instituto
    • Nos anos 1968, a dialética torna-se positiva e orientada para a práxis, o sujeito revolucionário e a emancipação.
    • Este paradigma “operante” entra em colisão com a postura de Adorno, culminando na ocupação do Instituto e na intervenção policial.
    • O episódio marca o fim de uma época e contribui para a morte de Adorno.

O Heidegger Tardio: Defesa, Silêncio e Encontro com Celan

  • A Entrevista do “Der Spiegel” em 1966
    • Condição de Heidegger: a publicação só após sua morte.
    • Estratégia defensiva: minimiza seu papel revolucionário nacional-socialista, apresentando-o como tentativa de renovação e prevenção de males piores.
    • Recusa do papel de “democrata purificado” e ceticismo sobre a democracia como sistema adequado à época técnica.
    • Frase emblemática: “Só um Deus pode ainda salvar-nos”.
  • O Problema do Silêncio de Heidegger
    • Recusa em fazer uma confissão pública de arrependimento, vista como ato oportunista e indigno.
    • Seu silêncio filosófico não é sobre Auschwitz (abordado implicitamente em sua crítica à modernidade), mas sobre a autossedução do filósofo pelo poder.
    • Falta de reflexão sobre “quem” é o pensador quando pensa, sobre sua contingência e possibilidade de erro.
  • O Encontro com Paul Celan
    • Atração mútua e relação tensa entre o poeta sobrevivente do Holocausto e o filósofo.
    • Encontro em Todtnauberg (1967): esperança de Celan por uma “palavra por vir”, que pode ser tanto uma palavra filosófica quanto uma palavra de esclarecimento pessoal.
    • Ambiguidade da relação: atração filosófica e repulsa política, gestos de aproximação e de rejeição.
    • O poema “Todtnauberg” captura essa ambivalência entre esperança e deferimento.
    • Julgamento final de Heidegger sobre Celan: vê-o como “doente, incuravelmente doente”, reconhecendo a profunda crise do poeta.
estudos/safranski/heidegger-24.txt · Last modified: by mccastro