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Semiótica Narratividade

RICOEUR, Paul. Temps et récit II. Paris: Ed. du Seuil, 1984.

As restrições semióticas da narratividade

  • A confrontação entre a inteligência narrativa e a racionalidade reivindicada pela semiótica narrativa situa-se sob o signo do aprofundamento, isto é, da busca de estruturas profundas das quais as configurações narrativas concretas seriam manifestação de superfície.
  • Diante dos paradoxos do estilo de tradicionalidade da função narrativa, evidenciados pela evocação de uma possível morte da arte de narrar, a pesquisa semiótica busca fundar a perenidade da função narrativa em regras subtraídas à história, substituindo a história pela estrutura.
  • Essa revolução metodológica, comparável à do modelo nomológico na historiografia, caracteriza-se por três traços: a busca de um procedimento dedutivo baseado em modelos axiomáticos, dada a impraticabilidade de qualquer abordagem indutiva diante da variedade de expressões e classes narrativas; a construção desses modelos na esteira da linguística, sob a inspiração da distinção saussuriana entre língua e fala e da noção de estrutura como conjunto fechado de relações internas; e a prioridade do todo sobre as partes, correspondendo exatamente ao que foi descrito como operação configurante da inteligência narrativa.
  • O fio condutor da investigação será o progresso realizado pela semiótica na reconstrução do caráter articulado e integrado da mise en intriga num nível de racionalidade desconectado de toda referência à tradição narrativa, tarefa que Roland Barthes resume como dessincronizar e relogificar o relato.
  • Ao contrário da análise estrutural aplicada a unidades sublinguísticas, o relato de ficção já foi objeto de uma prática e de uma compreensão anteriores à entrada em cena da semiótica, situação análoga à da historiografia diante da lenda e da crônica, o que impõe perguntar se a lógica narrativa e a descronologização podem substituir, ou apenas se sobrepor por interpolação, à inteligência prévia do relato.

A morfologia do conto segundo Propp

  • A Morfologia do Conto de Propp inaugura o debate sobre a logicização e descronologização das estruturas narrativas por reivindicar, ao mesmo tempo, uma concepção taxonômica de inspiração lineana e uma concepção orgânica de inspiração goethiana, cuja tensão interna sugere um princípio de configuração irredutível ao formalismo.
  • A morfologia de Propp funda-se no primado das funções sobre os personagens, definidas como segmentos abstratos de ação recorrentes em todos os contos, tese exposta em quatro proposições fundamentais: as funções são as partes constitutivas constantes do conto; seu número é limitado a trinta e uma; sua sucessão é sempre idêntica; e todos os contos maravilhosos russos constituem variantes de um único relato, a protoforma.
  • Um conflito latente entre uma concepção teleológica e uma concepção mecânica da ordem das funções percorre toda a demonstração: a situação inicial, embora não contada como função, define-se apenas teleologicamente como o “começo” aristotélico; o dano ou a carência, verdadeiro pivô da intriga, corresponde ao “nó” (desis) que exige seu desenlace (lusis); e a reparação final forma par com esse nó, marcando o ápice do conto.
  • Os personagens, organizados por Propp em sete classes — agressor, doador, auxiliar, pessoa procurada, mandante, herói, falso herói —, medeiam a busca através de suas esferas de ação, introduzindo um princípio sintético que contraria a segmentação linear que definira inicialmente as funções.
  • O conto é simultaneamente uma série, definida pela sucessão regular das funções, e uma sequência (khod), unidade de conta que precede e orienta a distribuição das funções ao longo da cadeia, desempenhando o papel de reviravolta e reconhecimento no mythos trágico.
  • O protoconto reconstruído por Propp não é, ele próprio, um conto, mas produto de uma racionalidade analítica que fragmenta o objeto cultural inicial; ainda assim, nenhuma dessas operações de segmentação pode prescindir de uma referência à intriga como unidade dinâmica, demonstrando uma filiação indireta entre a racionalidade narratológica e a inteligência narrativa comparável à encontrada na historiografia.

Por uma lógica do relato

  • Claude Bremond, em Logique du relato, propõe substituir o encadeamento rígido das funções proppianas por um inventário sistemático dos papéis narrativos possíveis, contestando a necessidade teleológica regressiva em favor de alternativas e escolhas abertas pela “sequência elementar”, unidade composta por três fases: possibilidade, atualização e desfecho.
  • A partir dessa sequência elementar, Bremond define o papel narrativo como atribuição a um sujeito-pessoa de um predicado-processo, procedendo então a um inventário sistemático por dicotomias sucessivas: pacientes versus agentes, influências subjetivas versus ações objetivas, e finalmente o campo das retribuições, ligado ao mérito e ao demérito.
  • Comparado a Propp, o modelo de Bremond atinge maior formalidade abstrata e descronologização mais completa, mas a ausência de qualquer consideração sintagmática no inventário dos papéis levanta a dúvida sobre se tal lógica dos papéis não permanece, na verdade, uma semântica da ação anterior à lógica narrativa propriamente dita, pois falta-lhe precisamente a “síntese dos papéis na intriga”, que o próprio autor reconhece como lacuna.
  • Conhecer todos os papéis possíveis não equivale a conhecer nenhuma intriga, pois é preciso ainda articular cronologia e configuração, mythos e dianoia, ato de julgamento que, segundo Louis Mink, consiste em “tomar junto”, de modo que a intriga permanece o princípio seletivo que distingue a teoria da ação da teoria do relato.

A semiótica narrativa de A. J. Greimas

  • A semiótica narrativa de Greimas, preparada em Sémantique structurale e desenvolvida em Du Sens e Maupassant, parte não das funções de Propp, mas dos atuantes (actants), inspirando-se na sugestão de Lucien Tesnière de que a frase mais simples já é um pequeno drama envolvendo processo, atores e circunstâncias.
  • O modelo atuancial assenta-se em três pares de categorias binárias — sujeito/objeto, destinador/destinatário, adjuvante/oponente —, cuja transformação em termos de conjunção e disjunção visa reduzir o sintagmático ao paradigmático, mas a noção de prova, que articula o confronto e o êxito de modo aleatório, revela o caráter irredutivelmente temporal e axiológico da busca, remetendo, através da sintaxe atuancial, à intriga da Poética aristotélica e ao tempo das Confissões agostinianas.
  • O modelo desenvolvido em Du Sens radicaliza e enriquece o modelo atuancial ao fundar as estruturas profundas no célebre quadrado semiótico — relações de contradição, contrariedade e pressuposição — e ao narrativizar essa taxonomia mediante sua transformação em operações orientadas de conjunção e disjunção.
  • As estruturas superficiais investem esse modelo constitucional na ordem do fazer, através do enunciado narrativo simples modalizado por querer, saber e poder fazer, culminando na performance — sequência de confronto, dominação e atribuição — e na sucessão performancial, esqueleto formal de todo relato, cuja sintaxe topológica organiza a narração como processo criador de valores.
  • Maupassant traz complementos importantes ao modelo: estruturas aspectuais (duratividade, incoatividade, terminatividade, tensividade), a axiologização dos conteúdos do quadrado semiótico segundo isotopias eufóricas e disfóricas, a categoria do destinador como protoatuante, e sobretudo o desdobramento do fazer cognitivo em fazer persuasivo e fazer interpretativo, culminando no quadrado da veridicção — verdade, falsidade, mentira, segredo —, que permite definir com precisão o papel do enganador.
  • A questão fundamental é saber se a gramática dita de superfície não é mais rica em potencialidades narrativas do que a gramática fundamental, e se esse enriquecimento progressivo não procede antes de nossa competência de seguir uma história do que das puras operações do quadrado semiótico, cuja força lógica só se mantém sob condições de análise sêmica raramente satisfeitas pelo domínio narrativo, sob pena de tornar tudo previsível e calculável, eliminando o acontecimento e a surpresa.
  • A passagem da relação estática à operação orientada já constitui um acréscimo cronologizante ao modelo taxonômico, e o enriquecimento subsequente por meio das determinações do fazer — querer fazer, poder fazer, saber fazer — deriva de uma semântica da ação estranha ao quadrado semiótico, de modo que a gramática de superfície resulta mista, semiótico-práxica, sendo a relação polêmica, a performance e a transferência de valores momentos em que a fenomenologia do agir e do padecer se impõe sobre a pura lógica.
  • A restauração da ordem inicial nos contos russos de Propp mascara o hiato entre o esquema inicial, em que todas as relações se compensam, e o esquema terminal, em que valores novos são produzidos, hiato que se manifesta sobretudo na atribuição de poder, saber e querer fazer ao sujeito.
  • O modelo de Greimas está assim submetido a uma dupla restrição, lógica e práxico-pática, e só satisfaz a primeira na medida em que a inteligência que temos do relato e da intriga suscita, a cada patamar, os acréscimos sintagmáticos apropriados, sem os quais o modelo taxonômico permaneceria inerte e estéril — reconhecimento desse caráter misto que não refuta o modelo, mas revela as condições de sua inteligibilidade.
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