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Agostinho e Aristóteles
RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.
O tempo da alma e o tempo do mundo
O debate entre Agostinho e Aristóteles
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O fracasso maior da teoria agostiniana está em não ter conseguido substituir uma concepção psicológica do tempo por uma concepção cosmológica, apesar do inegável progresso que essa psicologia representa em relação a toda cosmologia, sendo a aporia justamente o fato de que a psicologia se acrescenta legitimamente à cosmologia sem poder deslocá-la, e nenhuma das duas, tomada isoladamente, resolve o dissentimento entre ambas.
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Agostinho não refutou a tese essencial de Aristóteles sobre a prioridade do movimento em relação ao tempo, ainda que tenha oferecido solução durável ao problema da relação entre a alma e o tempo; contudo, atrás de Aristóteles perfila-se toda uma tradição cosmológica segundo a qual o tempo nos circunscreve e nos domina, sem que a alma tenha o poder de engendrá-lo.
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O momento preciso do fracasso ocorre quando Agostinho pretende derivar da simples distensão do espírito o próprio princípio da extensão e da medida do tempo, sendo digno de nota que ele nunca tenha vacilado na convicção de que a medida é propriedade autêntica do tempo, ao contrário de Bergson, que atribuiria a mensurabilidade do tempo a uma contaminação pelo espaço.
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A refutação agostiniana da tese cosmológica está mal encaminhada desde o início, pois identifica simplesmente o tempo ao movimento circular dos astros, passando ao largo da tese muito mais sutil de Aristóteles segundo a qual o tempo, sem ser o próprio movimento, é “algo do movimento”, condenando-se assim a buscar na distensão do espírito o princípio da extensão do tempo, busca cujos argumentos não se sustentam.
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A hipótese de que todos os movimentos poderiam variar sem que os intervalos de tempo fossem alterados é impensável tanto para um grego quanto para nós, já que as correções constantes trazidas pela ciência à noção de “dia” atestam que a busca de um movimento absolutamente regular permanece a ideia diretriz de toda medida do tempo.
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Ainda que Agostinho não tenha podido dispensar inteiramente a referência ao movimento para medir os intervalos de tempo, esforçou-se por reduzi-la a uma função puramente pragmática, concluindo que “o tempo não é, portanto, o movimento de um corpo”, conclusão que Aristóteles teria compartilhado, mas apenas como face negativa de seu argumento principal.
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Agostinho ficou então condenado à aposta impossível de encontrar na expectativa e na memória o princípio de sua própria medida, perguntando-se o que aumenta e o que diminui e qual unidade fixa permite comparar durações variáveis, dificuldade apenas recuada um grau, pois não se vê como as impressões supostamente permanentes no espírito poderiam fornecer a medida fixa que se recusa a pedir ao movimento dos astros.
O tempo do mundo em Aristóteles
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O fracasso de Agostinho em derivar o princípio da medida do tempo da simples distensão do espírito convida a abordar o problema pelo outro extremo, o mundo, importando a uma teoria narrativa que os dois acessos ao problema do tempo — pelo lado da alma e pelo lado do mundo — permaneçam livres, pois a aporia da temporalidade consiste precisamente na dificuldade de sustentar as duas pontas da cadeia.
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A definição aristotélica do tempo no livro IV da Física segue três etapas: primeiro, que o tempo é relativo ao movimento sem se confundir com ele, permanecendo ancorado na Física sem alcançar a dignidade de “princípio”; segundo, a aplicação ao tempo da relação entre o antes e o depois, por transferência da grandeza ao movimento e do movimento ao tempo, em virtude da analogia entre os três contínuos; terceiro, a introdução do número, completando a definição: “o tempo é o número do movimento segundo o antes e o depois”.
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O argumento de que percebemos ao mesmo tempo o movimento e o tempo, e que a existência do tempo não vai sem a do movimento, mostra que a dependência do tempo em relação à mudança é uma espécie de fato primitivo, permanecendo o desafio central saber como a distensão da alma poderá se conciliar com um tempo que se define primeiramente como “algo do movimento”.
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A relação entre o antes e o depois não é, assim, uma relação absolutamente primeira, mas procede, por analogia, de uma relação de ordem que está no mundo antes de estar na alma, de modo que, qualquer que seja a contribuição do espírito à apreensão do antes e do depois, ele encontra a sucessão nas coisas antes de retomá-la em si mesmo, começando por sofrê-la antes de construí-la.
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Ainda que a definição aristotélica do tempo não comporte referência explícita à alma, Aristóteles reconhece a questão embaraçosa de saber se, sem alma, haveria ou não tempo, sendo necessário ir até o fundo das exigências que enraízam o movimento na physis, cuja dinâmica preserva a dimensão mais que humana do tempo, ecoando a antiga palavra, anterior a Platão, segundo a qual não produzimos o tempo, mas somos por ele envolvidos e dominados — eco perceptível no célebre fragmento de Anaximandro.
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Nos pequenos tratados anexos sobre “estar no tempo”, Aristóteles admite que se possa dizer que “as coisas sofrem de certo modo a ação do tempo”, retomando o dito segundo o qual “o tempo consome, tudo envelhece sob a ação do tempo”, embora se esforce por dissipar o enigma afirmando que, por si mesmo, o tempo é antes causa de corrupção porque é número do movimento, e o movimento aniquila o que existe.
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Essas aporias que encerram a exploração aristotélica do tempo não visam servir de apologia indireta à psicologia agostiniana, mas mostrar que Aristóteles resiste a Agostinho não apenas pela força de seus argumentos, mas ainda mais pelas aporias que se escavam sob eles, dizendo algo sobre o enraizamento do próprio movimento na physis, cujo modo de ser escapa ao domínio argumentativo do livro IV da Física.
O instante e o presente: uma aporia sem transição pensável
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Se a extensão do tempo físico não se deixa derivar da distensão da alma, o inverso se impõe com o mesmo caráter compulsório, pois o obstáculo é o abismo conceitualmente intransponível entre a noção de instante em Aristóteles e a de presente em Agostinho: o instante aristotélico requer apenas um corte operado pelo espírito na continuidade do movimento nomeável, corte que pode ser qualquer um, ao passo que o presente agostiniano é todo instante designado por um locutor como o “agora” de sua enunciação.
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Numa perspectiva aristotélica, os cortes pelos quais o espírito distingue dois instantes bastam para determinar um antes e um depois pela simples orientação do movimento de sua causa a seu efeito, sem que se possa afirmar que um evento é passado e outro futuro; numa perspectiva agostiniana, ao contrário, só há futuro e passado em relação a um presente qualificado pela enunciação que o designa, sendo o antes-depois estranho às noções de presente, passado e futuro e à dialética entre intenção e distensão.
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Essa é a maior aporia do problema do tempo, contida inteiramente na dualidade entre o instante e o presente, sendo vão buscar nas soluções que Aristóteles dá às aporias do instante o indício de uma reconciliação entre o instante cosmológico e o presente vivido, pois essas soluções permanecem no espaço de pensamento aberto pela definição do tempo como “algo do movimento”.
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A primeira aporia do instante — como ele pode ser ao mesmo tempo o mesmo e outro — resolve-se pela analogia entre os três contínuos, seguindo o instante a sorte do “corpo movido”, que permanece idêntico enquanto tal mas é “outro pela definição”, conforme está aqui ou ali; contudo, essa solução deixa de refletir sobre os traços que distinguem o instante do ponto, distinção que a noção aristotélica de ato do que está em potência começa a esboçar sem chegar ao presente agostiniano.
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A segunda aporia — como o tempo é contínuo graças ao instante e dividido segundo o instante — não deve nada à experiência do presente, derivando inteiramente da definição do contínuo pela divisibilidade infinita, embora Aristóteles reconheça a dificuldade de que o movimento pode parar, mas não o tempo, de modo que o instante só corresponde ao ponto “de certo modo”, já que divide apenas em potência.
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É precisamente nessa dificuldade que se poderia enxertar uma análise de tipo agostiniano sobre o triplo presente, pois apenas um presente grávido do passado recente e do futuro próximo pode unificar o que ao mesmo tempo distingue; mas, para Aristóteles, distinguir o presente do instante ameaçaria a dependência do tempo em relação ao movimento, único princípio último da física.
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Entre uma concepção agostiniana e uma concepção aristotélica não há transição pensável: passa-se de uma para outra por salto, e tudo se passa como se uma estivesse condenada a ocultar a outra; e no entanto as dificuldades próprias de cada perspectiva exigem que ambas sejam conciliadas, não sendo possível atacar o problema do tempo por uma só extremidade, a alma ou o movimento — nem a simples distensão da alma pode produzir a extensão do tempo, nem o simples dinamismo do movimento pode engendrar a dialética do triplo presente.
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Caberá à poética do relato mostrar como conjugar o que a especulação dissocia, precisando essa poética tanto da cumplicidade quanto do contraste entre a consciência interna do tempo e a sucessão objetiva, para tornar mais urgente a busca das mediações narrativas entre a concordância discordante do tempo fenomenológico e a simples sucessão do tempo físico.
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