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Exercício da Memória
RICOEUR, Paul. La mémoire, l’histoire, l’oubli. Paris: Éd. du Seuil, 2000.
NOTA DE ORIENTAÇÃO
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A abordagem cognitiva do capítulo anterior não esgota a descrição da memória sob o ângulo objetal, exigindo complemento por uma abordagem pragmática, na qual lembrar-se é não apenas receber uma imagem do passado, mas também buscá-la, “fazer” algo, sendo essa noção de exercício, ligada à zētēsis socrática, já anunciada por Platão na distinção entre mimética fantasmática e mimética icônica, e por Aristóteles na diferença entre mnēmē como afeição e anamnēsis como busca, antecipando o esforço de memória de Bergson e o trabalho de rememoração de Freud.
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As abordagens cognitiva e pragmática se recobrem na operação do rememorar, reservando-se o termo remémoration para designar essa superposição entre anamnēsis, recoleção e rememoração.
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Esse duplo caráter cognitivo e pragmático confere à memória especificidade entre os fenômenos psíquicos, inscrevendo o ato de fazer memória entre os poderes do “eu posso” de Merleau-Ponty, síntese que também caracteriza a operação historiográfica.
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Essa originalidade importa para toda a investigação subsequente, pois caracteriza igualmente a operação historiográfica como prática teórica, situando-se a confrontação entre memória e história no nível dessas duas operações indivisamente cognitivas e práticas.
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O objetivo último da investigação é o destino do voto de fidelidade ligado à visada da memória como guardiã da profundidade e da distância temporal, questionando-se como as vicissitudes da memória exercida podem afetar essa ambição veritativa, dado que todo uso comporta a possibilidade do abuso, e é pelo viés do abuso que a visada veritativa da memória é ameaçada.
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Propõe-se esboçar uma tipologia de grandes malhas desses abusos da memória, cada um correlacionado a um aspecto da memória exercida.
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Distinguem-se, de um lado, as proezas da ars memoriae celebrada por Frances Yates, e, de outro, os abusos da memória natural, distribuídos em três planos — patológico-terapêutico (memória impedida), prático (memória manipulada) e ético-político (memória abusivamente convocada) —, todos revelando a vulnerabilidade fundamental da memória decorrente da relação entre ausência da coisa lembrada e presença representativa.
I. OS ABUSOS DA MEMÓRIA ARTIFICIAL: AS PROEZAS DA MEMORIZAÇÃO
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Distingue-se rigorosamente a mnemorização, modalidade prática por excelência do fazer memória, da rememoração propriamente dita.
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A rememoração acentua o retorno à consciência desperta de um acontecimento reconhecido como anterior, sob a forma da evocação simples e do reconhecimento que conclui o rememorar, enquanto a memorização consiste em maneiras de aprender que fixam saberes e saber-fazeres para efetuação fácil, marcada por sentimento de espontaneidade, podendo ser tida por forma da memória-hábito, distinguindo-se pelo caráter construído de suas técnicas.
Descrever as maneiras de aprender do ponto de vista das técnicas de aquisição é projeto legítimo que permite identificar as falhas pelas quais o abuso se insinua no uso, seguindo-se uma ordem de complexidade crescente ligada à ambição de domínio sobre o processo de memorização.No grau mais baixo situam-se as técnicas de aprendizagem da psicologia experimental, relevando de uma biologia da memória e consistindo na aquisição de comportamentos não herdados geneticamente, sob controle do experimentador que fixa a tarefa e organiza punições e recompensas, situação oposta à ascese autônoma da ars memoriae.-
A crítica de Kurt Goldstein, retomada por Merleau-Ponty em A Estrutura do Comportamento e por Canguilhem em O Conhecimento da Vida, denuncia o caráter artificial dessas situações experimentais frente às relações espontâneas do vivente com seu Umwelt, tal como a etologia as apreende.
As maneiras de aprender oscilam entre manipulação e disciplina, dialética própria dos exercícios de memorização inscritos num programa de paideia, cujo modelo clássico é a recitação da lição decorada, exemplificada por Agostinho ao derivar sua análise do triplo presente do ato de recitar um poema ou versículo bíblico.-
A recitação constituiu por muito tempo o modo privilegiado de transmissão de textos prestigiosos, tocando a questão da autoridade enunciativa e do vínculo social vertical entre gerações, conforme o adágio citado por Hannah Arendt “Potestas in populo, auctoritas in senatu”, questão fundamental sobre quem são os “Anciãos” e de onde procede sua autoridade — o labirinto do político de Rousseau.
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Exemplificam essa transmissão o catecismo cristão, as regras da escrita e da gramática, as declinações e conjugações do grego e do latim, as cantigas infantis, as fábulas e poemas, evocando-se Jorge Semprún murmurando ao ouvido de Maurice Halbwachs moribundo os versos de Baudelaire: “Ó morte, velho capitão, é tempo, levemos ferro… nossos corações que conheces estão cheios de raios…”
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Também profissionais como médicos, juristas, cientistas e engenheiros recorrem vitaliciamente a copiosa memorização de repertórios e protocolos.
Henri Gouhier situa sob o título de artes em dois tempos — dança, teatro, música — aquelas cuja execução se distingue da escrita da obra, exigindo dos praticantes um treino penoso da memória até obter execução fiel e inovadora, fazendo desses artistas verdadeiros atletas da memória e talvez os únicos testemunhos de um uso sem abuso.Evoca-se a longa tradição que elevou a memorização ao posto de ars memoriae, à qual Frances A. Yates dedicou a obra clássica The Art of Memory.-
O nome latino remete aos procedimentos mnemotécnicos dos retóricos latinos — o autor anônimo do Ad Herennium, Cícero (Tullius), Quintiliano —, mas o mito fundador é grego: o episódio de Simônides de Ceos, poeta louvado por Platão, que, chamado para fora do banquete por Castor e Pólux, escapa ao desabamento que sepulta atleta e convivas, podendo depois identificar os mortos por sua localização espacial, segundo Weinrich.
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Do tratado Ad Herennium extrai-se a definição “a memória artificial (artificiosa) consiste em lugares e imagens”, retomando a metáfora da cera, do selo e da impressão do Teeteto, mas deslocando o suporte do corpo ou da alma para a imaginação como potência espiritual, oblitrando a temporalização pela espacialização — sendo Cícero a qualificar tais performances de “quase divinas”.
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Essa tradição da instituição oratória de Quintiliano é herdada tardiamente pelos atuais lugares de memória, remontando ao Teeteto e ao Fedro, com sua condenação da memória entregue a marcas exteriores, e chegando a Giordano Bruno, em quem Frances Yates vê culminar a ars memoriae.
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Um segundo retorno é a moralização completa da ars memoriae pelos escolásticos medievais, cruzando a retórica ciceroniana com a psicologia aristotélica do De anima e do De memoria et reminiscentia — comentado por Tomás de Aquino —, inscrevendo a memória entre as partes da retórica e da prudência; Alcuíno declara a Carlos Magno que a memória é o “tesouro de todas as coisas”, culminando na Secunda Secundae da Suma Teológica e na Divina Comédia de Dante, cujos lugares percorridos sob a guia de Virgílio e Beatriz conjugam rememoração, memorização e comemoração, transcendendo a oposição entre memória natural e artificial.
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O terceiro renversement é a junção entre mnemotécnica e segredo hermético em Giordano Bruno, cuja “roda da memória” correlaciona astros, virtudes e imagens arquetípicas — a “alquimia da imaginação”, segundo Yates —, marcando a revanche total da reminiscência neoplatônica sobre a psicologia aristotélica, ao preço da transformação da especulação em mistagogia; Yates chama Bruno de “o mago da memória”.
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Ao concluir seu percurso, Frances Yates confessa não poder responder com clareza se a memória oculta representaria o segredo da Renascença, deixando o problema a outros.
Responde-se a Yates observando que a razão do eclipse da ars memoriae está no cerne mesmo do empreendimento: Francis Bacon denuncia a “ostentação prodigiosa” que a anima, uma ebriedade que transformou em seu contrário a modéstia de um duro aprendizado, sendo Giordano Bruno o ponto de transgressão máxima dos limites, notadamente o limite que a relação entre memória e esquecimento impõe.-
A ars memoriae nega peremptoriamente o esquecimento e a condição de ser-afetado pelo acontecimento, privilegiando a ação sobre a paixão, negligenciando o acontecimento que surpreende, de modo que a imaginação, liberada do serviço do passado, toma o lugar da memória.
Restauram-se os limites da memória natural por duas vias: moderar a cultura da memorização e considerar os abusos enxertados sobre o uso.-
A crítica renascentista à recitação decorada, ilustrada por Montaigne — “Não se fazem senão asnos carregados de livros” — coincide com o elogio do ingenium em Helvétius, fundindo-se o plaidoyer pela método (Ramus) com o da imaginação criadora, ao qual Rousseau leva às últimas consequências ao afirmar que Emílio “nunca aprenderá nada de cor, nem mesmo fábulas, nem mesmo as de La Fontaine”.
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Constata-se um abuso por excesso em Giordano Bruno e um abuso por falta em Rousseau, afetando este a memória natural, restando estimável a memorização profissional e artística.
Com H. Weinrich, sugere-se um breve excurso sobre o esquecimento, questionando se um uso mesurado da memorização não implica também um “esquecimento metódico” à maneira cartesiana ou um “esquecimento esclarecido” ao espírito das Luzes, prenunciando a futura simetria entre ars memoriae e ars oblivionis proposta por Weinrich em Lethe.II. OS ABUSOS DA MEMÓRIA NATURAL: MEMÓRIA IMPEDIDA, MEMÓRIA MANIPULADA, MEMÓRIA ABUSIVAMENTE COMANDADA
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A presente seção dedica-se a uma tipologia dos usos e abusos da memória natural, seguindo a via aberta por Nietzsche na Segunda Consideração Intempestiva, Da utilidade e dos inconvenientes da história para a vida, que une tratamento médico dos sintomas e tratamento filológico dos tropos.
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Propõe-se distinguir três níveis: uma abordagem patológica com categorias clínicas emprestadas da psicanálise, uma abordagem das manipulações concertadas ligadas à crítica das ideologias, e uma abordagem ético-política do dever de memória.
1. Nível patológico-terapêutico: a memória impedida
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Nesse nível cabe falar de memória ferida ou doente, com expressões como trauma e cicatrizes, o que levanta a questão de até que ponto categorias forjadas no colóquio analítico interpessoal são aplicáveis à memória coletiva, e em que medida uma patologia da memória se inscreve numa investigação sobre a tekhnē memorial.
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Recorre-se a dois ensaios de Freud para orientar essa dupla dificuldade: “Recordar, repetir, elaborar” (1914), cujo título verbal sublinha o jogo de forças psíquicas com que o psicanalista trabalha.
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O obstáculo principal ao trabalho de interpretação sobre lembranças traumáticas é a “compulsão de repetição”, atribuída às resistências do recalque, caracterizada pela tendência à atuação (Agieren) substituída ao souvenir: “o paciente não reproduz o fato esquecido sob forma de lembrança, mas sob forma de ação: ele o repete sem, evidentemente, saber que o repete.”
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Freud propõe duas indicações terapêuticas: ao analista, grande paciência diante das repetições no transferência, tida como uma “arena” intermediária entre doença e vida real; ao analisante, coragem de fixar atenção sobre suas manifestações mórbidas e considerá-las adversário digno de estima, condição para a “reconciliação” (Versöhnung) com o recalcado.
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A esse duplo trabalho de resistências dá-se o nome de Durcharbeiten (working through, perlaboração, remaniement), noção que ressalta o caráter dinâmico e colaborativo do “trabalho de rememoração” (Erinnerungsarbeit), opondo-se travail à compulsão.
O segundo ensaio, “Luto e Melancolia”, oferece maior resistência à transposição direta, servindo o luto de termo de comparação para esclarecer as energias da melancolia.-
Freud define o luto como “reação à perda de uma pessoa amada ou de uma abstração posta em seu lugar, tal como pátria, liberdade, ideal etc.”, questionando-se por que em certos doentes surge, “em vez do luto, a melancolia” — expressão que ecoa o “em vez da lembrança, a atuação” do ensaio anterior.
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Ao contrário da melancolia, no luto não há diminuição do sentimento de si; o trabalho do luto consiste em submeter-se, com grandes gastos de tempo e investimento, à prova de realidade que declara morto o objeto amado, cuja existência psíquica persiste — “a realização em detalhe de cada uma das ordens ditadas pela realidade é o trabalho do luto.”
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O luto normal libera e desinibe o eu uma vez completado o trabalho, sendo o trabalho de luto o custo do trabalho do souvenir, e o trabalho do souvenir o benefício do trabalho de luto.
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Na melancolia é o próprio eu que se acha empobrecido, sob o peso de sua própria desvalorização; Freud observa que “suas queixas são acusações (Ihre Klagen sind Anklagen)”, hipótese de que a acusação disfarçada facilita a retirada no eu e a transformação da discórdia em autolaceração, remetendo à regressão do amor objetal ao narcisismo primário.
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A melancolia empresta parte de seus caracteres ao luto e parte à regressão narcísica; o Ichgefühl do luto comporta vergonha diante de outrem, ausente no melancólico, e a censura da consciência acompanha a prova de realidade entre as grandes instituições do eu.
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A proximidade entre Klage e Anklage revela o caráter ambivalente das relações amorosas, aproximando amor e ódio até no luto; a melancolia partilha com o luto a capacidade de desaparecer sem deixar modificações grosseiras aparentes, exigindo tempo análogo, confessando Freud que “não compreendemos nem um nem outro fenômeno.”
Diante desse impasse freudiano, questiona-se se a melancolia deve ser abandonada aos médicos, evocando-se Saturn and Melancholy de Raymond Klibansky, Erwin Panofsky e Fritz Saxl, que recusam a redução nosológica iniciada por Kraepelin e reorientada por Binswanger.-
A melancolia remonta ao antigo sistema das quatro humores gregas — a bile negra ao lado do sangue, da cólera e do fleuma —, correlacionada a elementos cósmicos e idades da vida, no espírito pitagórico e empedocleano, oscilando entre doença e temperamento.
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A jonção entre a melancolia humoral e a loucura dos heróis trágicos — Ájax, Héracles, Belerofonte — culmina no Problema XXX atribuído a Aristóteles, que pergunta por que os homens eminentes em filosofia, política, poesia e artes são manifestamente melancólicos, citando Empédocles, Platão e Sócrates; apenas os estoicos resistem à leitura psiquiátrica avant la lettre.
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Os pensadores da Renascença — Erasmo, Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Nicolau de Cusa, Dürer — orientam a meditação sobre a melancolia rumo à doutrina moderna do gênio, tensionada entre a “voluptuosa melancolia” (Lessing), herdeira da acedia medieval, e a “melancholia generosa”.
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A gravura Melencolia I, de Dürer, comentada por Klibansky, Panofsky e Saxl, cristaliza essa reabilitação: uma mulher sentada com o olhar perdido, cercada de instrumentos ociosos e uma figura geométrica, incorporando a vaidade do saber à figura desocupada, questão de saber se a verdade mesma seria triste.
Prolonga-se a investigação sobre a melancolia até a acedia dos espirituais medievais, complacência à tristeza evocada pela “Dame Merencolye” de Alain Chartier e pela “Dame Tristesse” do rei René, aproximando-se do Selbstgefühl freudiano e da doença-para-a-morte de Kierkegaard, ou do inespoir de Gabriel Marcel.-
O trabalho de luto, embora sem antecedente direto na literatura da melancolia, encontra antídotos tradicionais — a alegria, o humor, a esperança, a confiança e o trabalho — celebrados na poesia lírica inglesa de Milton, Shakespeare e Keats, e estudados por Jean Starobinski em La Mélancolie au miroir a propósito de Baudelaire, cujo poema “Ao leitor” chama “livro saturniano” o livro do Tédio, e cujo “Spleen” evoca “Sou a sinistra memória” e “Tenho mais lembranças que se tivesse mil anos…”, culminando no poema “O Cisne”:
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“Andrômaca, penso em vós!… Este Simoente mentiroso que por vossas lágrimas cresce, Fecundou de súbito minha memória fértil… Assim na floresta onde meu espírito se exila Uma velha Lembrança soa a pleno sopro do corno!”
Evocam-se ainda os últimos quartetos e sonatas de Beethoven como sublimação de uma tristeza que não fez o trabalho de luto, sendo a alegria a recompensa da renúncia ao objeto perdido, horizonte de uma memória “feliz” quando a imagem poética completa o trabalho de luto.Retoma-se a questão da legitimidade de transpor ao plano da memória coletiva e da história as categorias patológicas de Freud, justificação buscada de ambos os lados.-
Do lado de Freud, aponta-se que suas próprias extrapolações — Totem e Tabu, Moisés e o Monoteísmo, O Futuro de uma Ilusão, O Mal-Estar na Civilização, a análise in absentia do doutor Schreber, o Moisés de Michelangelo, Um Souvenir de Infância de Leonardo da Vinci — legitimam tal transposição, facilitada por releituras hermenêuticas da psicanálise, como as de Habermas, em termos de dessimbolização e ressimbolização e distorções sistemáticas da comunicação, restando a objeção da ausência de terapeutas reconhecidos nas relações interumanas, suprida talvez pelo espaço público da discussão como “arena”.
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Do lado da memória coletiva, a constituição bipolar da identidade pessoal e comunitária justifica falar diretamente de traumatismos coletivos e feridas da memória coletiva, sendo a noção de objeto perdido aplicável às perdas de poder, território e populações que constituem a substância de um Estado, ilustradas pelas grandes celebrações fúnebres.
A transposição se completa ao mostrar que essas categorias tocam uma estrutura fundamental da existência coletiva: o rapport fundamental da história com a violência, retomando Hobbes sobre a origem contratual ligada ao temor da morte violenta, pois nenhuma comunidade histórica nasceu sem relação assimilável à guerra, e os eventos fundadores são atos violentos legitimados a posteriori, celebrados por uns e execrados por outros, gerando feridas simbólicas que reclamam cura.-
O excesso de memória evoca a compulsão de repetição, que substitui o passar ao ato ao souvenir verdadeiro; o déficit de memória revela o mesmo déficit de crítica que a memória-repetição, opondo-se a esta a memória-souvenir como memória fundamentalmente crítica.
No plano coletivo, mais ainda que no individual, o cruzamento entre trabalho de luto e trabalho de souvenir ganha pleno sentido, tratando-se sempre de perdas do amor-próprio nacional que exigem o abandono dos investimentos ligados ao objeto perdido, submissão à prova de realidade que integra o trabalho do souvenir.A transição do nível patológico ao nível prático é fornecida pela cooperação exigida do analisante por Freud, articulando o lado passivo e o lado ativo da memória, noção de trabalho que implica responsabilidade, de modo que os abusos de memória a seguir tratados podem ser vistos como desvios perversos desse trabalho conjunto de luto e rememoração.2. Nível prático: a memória manipulada
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Ao lado das modalidades passivas e sofridas de abuso, cabe reservar espaço para abusos resultantes de manipulação concertada da memória e do esquecimento por detentores de poder, falando-se então de memória instrumentalizada, categoria a que se aplicam a Zweckrationalität weberiana e a razão estratégica de Habermas opostas à razão comunicacional.
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A especificidade dessa abordagem está no cruzamento entre memória e identidade, coletiva e pessoal, questão retomada adiante a propósito da teoria de Locke, sendo os sintomas dessa mobilização identitária o excesso de memória em certas regiões e o déficit alhures, fragilidade que se soma à fragilidade cognitiva já resultante da proximidade entre imaginação e memória.
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A fragilidade da identidade reside no caráter presumido, alegado, das respostas à pergunta “quem sou eu?”, deslocando o problema da fragilidade da memória para a fragilidade da identidade.
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Primeira causa dessa fragilidade: a relação difícil ao tempo, ligada à equivocidade da noção do mesmo, distinção proposta entre identidade-idem (same, gleich) e identidade-ipse (self, Selbst), consistindo a “desrazão identitária”, segundo Jacques Le Goff, no recuo da identidade ipse sobre a identidade idem, deslizando da flexibilidade da promessa para a rigidez de um caráter.
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Segunda causa: a confrontação com o outro percebida como ameaça, as humilhações e ofensas à estima de si sob o peso da alteridade mal tolerada fazendo virar acolhimento em rejeição.
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Terceira causa: a herança da violência fundadora, pois nenhuma comunidade histórica nasce sem relação originária à guerra, os mesmos acontecimentos significando glória para uns e humilhação para outros, arquivando-se na memória coletiva feridas reais e simbólicas.
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As manipulações da memória devem-se à intervenção do fenômeno ideológico, opaco por dissimular-se e por sua extrema complexidade, distinguindo-se três níveis operatórios — distorção da realidade, legitimação do sistema de poder, integração do mundo comum por sistemas simbólicos —, sendo no nível mais profundo, o de Clifford Geertz, que a ideologia constitui estrutura indepassável da ação, mediante correlação entre síntese simbólica e sistemas semióticos, inscrevendo-se numa “semiótica da cultura”.
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Essa função constituinte da ideologia articula-se à segunda função, a justificação de um sistema de ordem ou poder, girando a ideologia, em definitivo, em torno do poder.
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As análises de Max Weber sobre ordem (Ordnung) e dominação (Herrschaft) interessam por girarem em torno da pretensão à legitimidade de todo poder — carismático, tradicional ou burocrático —, definindo-se a Herrschaft pela expectativa de obediência e a probabilidade de que ela seja atendida, ponto em que os sistemas simbólicos de Geertz se mobilizam para fornecer o argumentário que eleva a ideologia a mais-valia da crença.
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Esse eixo de legitimação distribui, de um lado, o fenômeno mais radical de integração comunitária e, de outro, o fenômeno de distorção sobre o qual Marx concentrou suas análises em A Ideologia Alemã, com as metáforas discutíveis da imagem invertida ou do homem de cabeça para baixo, mecanismo plausível apenas se articulado ao fenômeno de legitimação, sendo o realismo marxiano da práxis força e fraqueza de sua teoria da ideologia, e sua denúncia, isolada desse contexto simbólico, um mero panfleto contra a propaganda.
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As diversas empresas de manipulação da memória se distribuem pelos níveis operatórios da ideologia: no nível mais profundo é pela função narrativa que a memória se incorpora à identidade, sendo o récit, segundo Hannah Arendt, aquilo que diz “o quem da ação”, e é a função seletiva do récit que oferece à manipulação sua estratégia, tanto de esquecimento quanto de rememoração.
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No nível em que a ideologia opera como discurso justificativo do poder, mobiliza-se o récit imposto — mesmo o tirano precisa de um retórico ou sofista —, tecendo récits de fundação, de glória e de humilhação a mais-valia narrativa que alimenta o discurso da lisonja e do medo, tornando-se a memória imposta armada por uma história “autorizada”, oficial, aprendida e celebrada, unindo-se assim rememoração, memorização forçada e comemoração convencional.
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Tzvetan Todorov, em Les Abus de la mémoire, denuncia a frenesia contemporânea de comemorações, insistindo que a mainmise sobre a memória não é exclusiva dos regimes totalitários, alertando contra o “elogio incondicional da memória” pois “os desafios da memória são grandes demais para serem deixados ao entusiasmo ou à cólera”, e critica a postura contemporânea de instalar-se no estatuto de vítima — “Ter sido vítima dá o direito de se queixar, de protestar e de reclamar.”
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Todorov observa que “o trabalho do historiador, como todo trabalho sobre o passado, nunca consiste apenas em estabelecer fatos, mas também em escolher alguns deles como mais salientes e significativos que outros… orientado não pela busca da verdade, mas do bem”, conselho de extrair dos souvenirs traumáticos seu valor exemplar, retomando-se essa questão no exame do dever de memória.
3. Nível ético-político: a memória obrigada
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Questiona-se o pretendido dever de memória, cuja pertinência é largamente prematura frente ao percurso ainda por cumprir, projetando-se além de uma fenomenologia da memória e de uma epistemologia da história, até o cerne da hermenêutica da condição histórica, tomando-se por referência as condições históricas em que o dever de memória é exigido — na Europa ocidental e na França, décadas após os eventos horríveis de meados do século XX.
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No ponto de fricção entre memória viva dos sobreviventes e olhar distanciado do historiador, o dever de memória revela-se equívoco, correndo o risco de a injunção a lembrar-se ser entendida como convite a curto-circuitar o trabalho da história, sem que se pretenda transformar o plaidoyer pela memória como matriz de história em revindicação da memória contra a história, nem em redução da memória a simples objeto entre os “novos objetos” da história.
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Assinala-se o paradoxo gramatical da injunção “tu te lembrarás” e “tu deves te lembrar”, enquanto ao souvenir cabe surgir como evocação espontânea, um pathos, segundo o De memoria de Aristóteles, questionando-se como esse movimento prospectivo se articula ao trabalho de memória e ao trabalho de luto.
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No quadro da cura terapêutica, o dever de memória formula-se como tarefa, remetendo aos conselhos de Freud em “Recordar, repetir, elaborar”, enquanto o trabalho de luto, exigindo tempo, projeta seu artífice adiante de si mesmo, tarefa inacabada equiparável a uma virtude quando oposta ao vício da complacência à tristeza, à acedia dos mestres espirituais.
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O que falta ao trabalho de memória e ao trabalho de luto para se igualarem ao dever de memória é o elemento imperativo, encontrado sem discussão na ideia de justiça, já nomeada em resposta aos abusos da manipulação: é a justiça que, extraindo dos souvenirs traumáticos seu valor exemplar, retorna a memória em projeto e confere ao dever de memória a forma do futuro e do imperativo, projetando-se como terceiro termo na junção entre trabalho de luto e trabalho de memória, e estendendo sua força federativa até unir a dimensão veritativa e a dimensão pragmática da memória.
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Primeiro elemento de resposta: a virtude de justiça é por constituição voltada para o outro, constituindo a componente de alteridade de todas as virtudes; o dever de memória é o dever de fazer justiça, pelo souvenir, a um outro que não a si mesmo.
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Segundo elemento de resposta: intervém a noção de dívida, inseparável da de herança — somos devedores àqueles que nos precederam de parte do que somos —, sendo o dever de memória também o de submeter a herança a inventário.
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Terceiro elemento de resposta: entre esses outros aos quais somos devedores, prioridade moral cabe às vítimas, malgrado a advertência de Todorov contra a propensão a proclamar-se vítima e reclamar reparação sem fim, sendo a vítima aqui em questão a vítima outra, distinta de nós.
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Legitimado assim o dever de memória como dever de justiça, os abusos que se enxertam sobre esse bom uso constituem abusos no manejo da própria ideia de justiça, quando a reivindicação de memórias passionais e feridas contra a visada mais crítica da história confere ao dever de memória um tom comminatório, manifesto na exortação a comemorar a tempo e contratempo.
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Duas interpretações compatíveis desse deslizamento do uso ao abuso são apontadas.
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Henry Rousso, em Le Syndrome de Vichy, propõe uma explicação centrada no caráter regressivo do abuso, valendo-se de categorias da patologia da memória — trauma, recalque, retorno do recalcado, hantise, exorcismo —, funcionando o dever de memória como tentativa de exorcismo diante da hantise dos traumas franceses de 1940-1945, tratando-se de captação da palavra muda das vítimas por uma direção de consciência que se autoproclama porta-voz.
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Pierre Nora, no texto “L'ère des commémorations”, que fecha a terceira série de Les Lieux de mémoire, dedica-se à “obsessão comemorativa” e denuncia a récupération de seu próprio trabalho pela “bulimia comemorativa da época”, observando que “a ferramenta forjada para a iluminação da distância crítica tornou-se o instrumento por excelência da comemoração”, diagnosticando que “é a própria dinâmica da comemoração que se inverteu, o modelo memorial que prevaleceu sobre o modelo histórico” — modelo antes ligado à soberania impersonal do Estado-nação, hoje substituído por memórias particulares, fragmentadas, locais e culturais, sendo, segundo Nora, a história constituída como instituição da nação apenas o aprofundamento da tradição de memória, de modo que “história e memória não faziam senão uma; a história era uma memória verificada.”
Declara-se que o presente empreendimento não participa desse “élan de comemoração memorial” nem do “momento-memória” que define a época atual, encontrando antes conforto na previsão de Nora de que “a hora da comemoração será definitivamente encerrada”, recusando contribuir para a “tirania da memória” e resistindo à substituição do dever de memória pelo trabalho de luto e pelo trabalho de memória, mantendo ambos sob o signo da ideia de justiça.A questão do dever de memória excede os limites de uma fenomenologia da memória e mesmo de uma epistemologia da história, remetendo, enquanto imperativo de justiça, a uma problemática moral apenas tangenciada nesta obra, a ser retomada em relação ao esquecimento e a um eventual direito ao esquecimento, articulando os discursos da memória e do esquecimento com os da culpa e do perdão. -
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