estudos:ricoeur:ec:ateismo
Ateísmo
RICŒUR, Paul. Écrits et conférences I. Paris: Éd. du Seuil, 2008.
O ateísmo da psicanálise freudiana
I. Freud, um dos mestres da suspeita
-
O ateísmo de Freud distingue-se do positivismo comum porque interpreta a religião por meio de uma hermenêutica da cultura voltada para o desvelamento das ilusões produzidas pelo próprio funcionamento da consciência.
-
A redução das ilusões religiosas constitui apenas a face negativa de um projeto positivo de libertação pelo qual o ser humano recupera sua capacidade de afirmar-se e de criar sentido.
-
A técnica da suspeita e da interpretação encontra seu objetivo último na revelação do ser humano a si mesmo, ultrapassando a finalidade estritamente terapêutica.
-
A importância histórica de Freud reside em ter proporcionado à cultura moderna uma interpretação global de si mesma por meio da autoanálise de seus fenômenos culturais e religiosos.
II. Legitimidade de uma psicanálise da religião
-
A crítica psicanalítica da religião pressupõe que a psicanálise possui competência para interpretar a totalidade da realidade humana, a religião como fenômeno cultural e a necessidade de uma atitude iconoclasta diante de seus objetos.
-
O verdadeiro objeto da psicanálise não é o desejo isolado, mas o desejo permanentemente confrontado com a censura, o pai, o supereu, a linguagem e todas as mediações culturais que organizam sua expressão.
-
A religião pode ser legitimamente interpretada pela psicanálise porque constitui uma dimensão da cultura e participa da mesma semântica do desejo que estrutura os demais fenômenos humanos.
-
A cultura simultaneamente impõe renúncias pulsionais e oferece compensações, proteção e reconciliação diante da dureza da existência, fazendo da religião sua forma mais elevada de consolação.
-
A atitude iconoclasta da psicanálise dirige-se ao deus produzido pelo desejo humano, interpretando a religião como realização substitutiva de desejos recalcados segundo o modelo do sonho e do sintoma.
III. Os grandes temas da crítica freudiana da religião
-
A crítica freudiana da religião desenvolve-se em três níveis complementares: analogias clínicas, reconstrução histórico-cultural das origens e interpretação econômica do funcionamento atual do fenômeno religioso.
-
A comparação entre rituais religiosos e cerimônias obsessivas mostra que ambos possuem estrutura significativa comum, permitindo compreender a religião como forma universal daquilo que a neurose manifesta privadamente.
-
A analogia entre religião e neurose não decide a essência da religião, mas apenas evidencia a possibilidade de uma caricatura neurótica de suas práticas simbólicas.
-
A teoria da projeção interpreta as figuras divinas como expressão ampliada da nostalgia do pai, cuja autoridade, proteção, consolo e capacidade normativa são deslocadas para uma dimensão transcendente.
-
A analogia clínica exige complemento histórico, levando à reconstrução de um drama originário da humanidade em que o assassinato do pai funda simultaneamente a instituição social e a necessidade permanente de reconciliação.
-
O monoteísmo é reinterpretado como reaparecimento do trauma primordial, no qual a figura do pai retorna sob forma ética e religiosa por meio do mecanismo do retorno do recalcado.
-
A figura de Moisés e, posteriormente, a de Cristo são compreendidas como novas manifestações do mesmo núcleo traumático ligado ao pai originário e à memória do crime primordial.
-
A interpretação econômica incorpora a reconstrução histórica ao funcionamento permanente da cultura, fazendo da nostalgia do pai o princípio explicativo da consolação religiosa diante da impotência humana perante a natureza, a sociedade e os próprios impulsos.
IV. Valor e limites de uma psicanálise da religião
-
A psicanálise da religião deve ser confrontada com outras formas de interpretação que buscam compreender e restituir o sentido dos símbolos, sem reduzir integralmente seu conteúdo ao desejo.
-
A limitação da interpretação freudiana não decorre de seu objeto, mas do ponto de vista econômico adotado e do modelo do preenchimento de desejo, que determina simultaneamente sua validade e seus limites.
-
A analogia clínica entre religião e patologia deve permanecer analogia, deixando em aberto a possibilidade de que a experiência religiosa ultrapasse seu próprio arcaísmo afetivo.
-
A genealogia freudiana pode ser reinterpretada mediante a hipótese de que os símbolos religiosos conservam simultaneamente vestígios regressivos e capacidade criadora de novos sentidos para a existência humana.
-
A interpretação econômica suscita a questão decisiva de saber se a religião permanece repetição indefinida de seu passado ou educa progressivamente o desejo e o temor, superando seu próprio arcaísmo por meio da elaboração simbólica de suas Escrituras.
-
A crítica freudiana continua indispensável porque ainda não foi plenamente assimilada pela consciência religiosa nem utilizada para purificar a própria experiência da fé.
-
A análise freudiana do supereu permite distinguir o sentimento neurótico de culpabilidade da compreensão propriamente religiosa do pecado, exigindo uma destruição prévia dos elementos arcaicos da consciência moral.
-
A figura paterna da religião só alcança sua plena transformação quando supera progressivamente a culpa fundada no tabu e na justiça própria, aproximando-se da compreensão profética e paulina do pecado.
-
A psicanálise distingue entre uma consolação infantil, narcísica e idólatra, e uma consolação espiritual fundada na aceitação radical da realidade, tornando necessário o luto da primeira para alcançar a segunda.
-
A incorporação integral do iconoclasmo freudiano exige que a própria fé atravesse esse processo de purificação, abandonando a busca de proteção narcísica para tornar-se obediência desinteressada à realidade.
estudos/ricoeur/ec/ateismo.txt · Last modified: by 127.0.0.1
