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Paul Gilbert (2004) – Fenomenologias

Data: 2025-11-03 09:48

A simplicidade do princípio

A análise blondeliana se desenvolve pondo em evidência a potência da “vontade querente”, que tende para o cumprimento de seu desejo aberto indefinidamente, enquanto a “vontade querida” encarna esse élan na particularidade de nossas existências. A relação entre a vontade querente e a vontade querida é precisa: essa última alimenta-se daquela que lhe dá seu élan e da qual é a expressão e a correia de transmissão, sem nunca lhe esgotar a amplidão inteira.

  • A metafísica recente não considera as formas abstratas do ente, mas sim o movimento espiritual que as estabelece.
    • Ela desdobra o que está implícito no questionamento mais vasto e mais originário do ser humano.
    • O seu alcance vai desde as pesquisas explícitas sobre a razão ou o sentido das nossas vidas até às condições necessárias que as tornam possíveis.
  • O implícito assim resgatado não é da alçada da psicologia empírica do ato científico, pois a psicologia não pode pretender concluir de maneira absolutamente necessária.
    • O método transcendental, característico da filosofia moderna, distingue-se do método das ciências que enunciam a posteriori o nosso questionamento radical e os nossos atos razoáveis.
    • A Crítica da Razão Pura de Kant aplica esse método num quadro essencialmente epistemológico.
  • Em Martin Heidegger e em Maurice Blondel, o método transcendental recebe uma aplicação mais ampla, de modo que o termo “transcendental,” com tonalidades kantianas, não lhes convém sem legítimos matizes.
    • O sentido da pesquisa intelectual não resulta apenas do seu trabalho cognitivo: apoia-se sobre a totalidade das nossas potências humanas.
    • O método transcendental transforma-se, assim, em fenomenológico.
  • O método fenomenológico, criado por Husserl no começo do século XX com a finalidade kantiana de fundar as ciências na necessidade racional e não na psicologia empírica, evidencia a essência dos fenômenos.
    • Ele descobre o que os constitui como tais, ou seja, as condições de possibilidade do seu aparecer fenomenal perante a consciência.
  • Heidegger alargou o campo da fenomenologia husserliana.
    • O espírito exerce o seu questionamento numa prática bem mais ampla do que a da ciência consciente da sua operatividade.
    • Toda a vida do homem põe a questão do seu fundamento.
    • O conhecimento do princípio não é dado a quem ignora a totalidade dos múltiplos fenômenos das nossas vidas.
    • A fenomenologia não pode contentar-se com analisar apenas as potências do nosso pensamento, mas abrange as nossas múltiplas atividades para nelas descobrir o laço que as organiza interiormente e nos orienta progressivamente para o seu princípio.
  • Os primeiros parágrafos de Ser e Tempo, publicado em 1927 por Heidegger, insistem na articulação do fundamento dos entes e do dinamismo do espírito (ou do homem que se chama Dasein, o “ser-aí,” intimado a responder à questão sobre o sentido do seu ser).
    • Essa articulação é apresentada com a ajuda de categorias originais: o existenciário e o existencial.
    • O existencial designa o princípio das nossas vidas no mundo, sendo acessível através dos diversos fenômenos da nossa existência (existenciários).
    • A reflexão existencial assume o existenciário, procurando-lhe o sentido.
    • Os fenômenos existenciários apontam para uma ontologia existencial.
    • Contudo, como não se acede ao plano existencial sem passar pelos fenômenos existenciários, o exame da questão de princípio não se contenta com analisar a lógica de nossas noções abstratas mais gerais. A partida é tomada no vivido “existenciário.”
  • A problemática de Blondel pode ser comparada à de Heidegger.
    • O Ação de Blondel, de 1893, embora anterior a Ser e Tempo, não desconhece o que é significado pelas distinções entre existenciário e existencial, ôntico e ontológico.
    • O dinamismo do Dasein não é totalmente diferente do dinamismo da “vontade querente” de Blondel.
    • A análise blondeliana se desenvolve evidenciando a potência da “vontade querente,” que tende para o cumprimento do seu desejo aberto indefinidamente, enquanto a “vontade querida” encarna esse élan na particularidade das nossas existências.
    • A inadequação entre a vontade querente e a vontade querida é verificada por meio de todas as nossas atividades.
    • Reconhece-se uma ordem entre as formas queridas dessas atividades, revelando a amplitude da vontade querente, que é progressivamente exercida e realizada de uma maneira sempre mais adequada, culminando na posição da pura ação (a “opção”), que pode atender inteiramente à vontade querente.
  • No final de sua primeira obra, Blondel fala de uma “metafísica à segunda potência,” indicando um prolongamento possível da reflexão.
    • Essa metafísica à segunda potência funda não somente o que uma metafísica subjetiva apresentava como a realidade do ser (fenômeno especulativo), mas “todo o determinismo da natureza, da vida e do pensamento.”
    • Embora A Ação se prenda de maneira privilegiada ao movimento da vontade subjetiva para se opor ao positivismo e ao criticismo, não se limita aos problemas do “eu.”
    • De fato, a sua tese desenvolve a aliança dos atos do espírito e do ente, e em Blondel não há interesse pelo sujeito separado do seu fundamento metafísico.
  • O plano de A Ação deriva dessa perspectiva:
    • Após mostrar a necessidade de pôr a questão do sentido da vida (1ª parte) e a necessidade de encontrar uma resposta positiva (2ª parte), Blondel analisa os domínios do saber e do agir humano (3ª parte).
    • O leitor é levado a reconhecer nos diversos fenômenos do dinamismo do espírito expressões em que a vontade querida tende a igualar a amplitude da vontade querente.
  • O primeiro fenômeno do espírito é a atividade científica, uma primazia necessária para a filosofia, que não pode meditar sem analisar as suas expressões perante as exigências racionais.
    • Uma vez analisadas as ciências e reconhecido que a exigência do sentido não é extinta pelas suas práticas, afirma-se que elas não são a medida do ser, mas que o ser é a luz do seu sentido.
    • A fundação das ciências é assegurada por uma exigência que leva a ultrapassá-las.
    • A Ação segue o estudo dos fenômenos do espírito (como a liberdade pessoal, o engajamento na sociedade e os valores religiosos mais altos), culminando na “opção” (4ª parte).
    • O sentido de cada fenômeno analisado é então afirmado, reconhecendo a tensão que a todos atravessou.
    • “Tudo o que foi chamado dados sensíveis, verdades positivas, ciência subjetiva, crescimento orgânico, expansão social, concepções morais e metafísicas, certeza do único necessário, alternativa inevitável, opção mortífera ou vivificante, acabamento sobrenatural da ação, afirmação da existência real dos objetos do pensamento e das condições da prática, tudo não passa de fenômenos pelo mesmo título.”
    • Para concluir, Blondel sela todos esses fenômenos na afirmação positiva do princípio (5ª parte), que transcende o ato de liberdade, implementando-o além dela mesma.
  • Segundo A Ação, a afirmação ontológica nasce do interior da análise dos fenômenos.
    • Todos os fenômenos manifestam uma inadequação entre a vontade querente e o que lhe é possível concretamente realizar.
    • No termo do percurso, e no caso da opção “positiva”, um olhar retrospectivo reconhece em cada fenômeno uma expressão provisória, mas já real, do infinito fundador.
    • Os fenômenos analisados não são mais entendidos como resultados de uma vontade que busca somente sua autoadequação, mas porque apontam para um fundamento ao qual o espírito se sabe desde sempre votado.

PS: GILBERT, Paul. A simplicidade do princípio. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

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