KRZYSZTOF (LINGUAGEM:5-6) – DAS EREIGNIS WORTET
É fundamental para a fenomenologia e para a filosofia em geral o fato de que, em Heidegger, temos duas articulações explícitas: a da linguagem como evento; e a da ideia de que o evento se manifesta (em) palavras de tal forma que, embora sua ocorrência não seja anterior à linguagem, ele não é capturado nem significado por ela. Heidegger aborda a linguagem inicialmente não por meio de signos (Zeichen) ou de significado e referência (Bedeutung), mas a partir do mostrar (Zeigen), que se manifesta a partir do domínio libertador e espaciotemporalizante da clareira, constituindo a maneira pela qual a linguagem se move — sempre já se moveu — em direção aos signos. Esse desdobramento da linguagem, embora exija participação e decisão humanas, não é animado pelos seres humanos, mas sim impulsionado pelo ímpeto niilizante do ser, pelo que Heidegger chama de “a força silenciosa (ou tranquila, stille) do possível” (BW, 220, modificado; W, 314). O evento, explica Heidegger, tem o ímpeto do ostendere: de manifestar e mostrar, e de fazê-lo não em silêncio, mas como a palavra inceptual, como a abertura da linguagem. Como ele coloca no volume 71 da Gesamtausgabe, *Das Ereignis*: “O evento é a palavra inceptual” (E, 145) — “*Das Ereignis ist das anfägliche Wort*” (170)), ou ainda mais diretamente na GA74: “O evento se torna palavra” — “*Das Ereignis wortet*” (99). Essa última frase precisa ser compreendida com cuidado, pois não se trata de palavras que já existem e às quais o evento se une, ou seja, se torna articulado, repetido ou representado nelas. Em vez disso, é o evento que, literalmente, “palavras”, já que a frase em alemão precisaria ser traduzida para o inglês transformando o substantivo “palavra” em verbo, “to word”, a fim de ressaltar (6) a ocorrência, o evento, da palavra. O evento, em um único gesto, se manifesta (em) palavras, o que significa que as palavras se originam do evento e, ao mesmo tempo, permanecem como parte do evento. Em outras palavras, o evento e “sua” palavra não são nem diferentes nem idênticos. Para compreender o pensamento de Heidegger, é necessário, então, vivenciar as maneiras pelas quais a manifestação dos fenômenos, seu surgimento do ser ou do evento — o “há” ou “es gibt” que marca o evento — é também o início da linguagem, suas palavras iniciais de abertura, que Heidegger descreve como uma espécie de pré-palavra ou palavra introdutória aos sinais humanos. O que é, portanto, necessário para vivenciar o que Heidegger chama de “uma experiência com a linguagem” é tanto a consciência desses movimentos complexos e mutáveis que repetidamente sustentam a linguagem, além das línguas humanas e dos sistemas de signos, quanto a atenção à quietude silenciosa (Stille) que envolve a linguagem. É importante observar aqui que depende dessa experiência não apenas a transformação em nossa relação com a linguagem, que Heidegger menciona em “O Caminho para a Linguagem”, mas também a própria possibilidade de talvez nos libertarmos (Verwindung) da metafísica.
