Biopolítica
NANCY, Jean-Luc. The creation of the world, or, Globalization. Tr. François Raffoul e David Pettigrew. Albany: State University of New York Press, 2007.
Uma Nota sobre o Termo: Biopolítica
1. A variedade de sentidos atribuídos ao termo biopolítica, cunhado por Foucault e empregado por diversos teóricos, exige uma clarificação prévia diante de sua indeterminação geral.
2. A proximidade com o termo bioética gera confusão, pois esta se ocupa das decisões morais diante da biotecnologia sem pretender designar uma ética restrita ao bios, ao passo que a biopolítica designa antes uma política determinada pela vida e coextensiva à esfera da vida.
3. Em sentido mais restrito, Foucault situou no século XVIII o momento em que o controle das condições da vida humana - saúde, nutrição, demografia, exposição a perigos naturais e tecnológicos - tornou-se um assunto expressamente político, sucedendo ao interesse anterior do poder pelo território, ficando ainda em aberto o exame mais preciso das preocupações biopolíticas anteriores à era moderna.
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Antes da era moderna já existiam preocupações de ordem biopolítica, como a política do trigo em Roma e a política da natalidade em Atenas.
4. As políticas totalitárias, tanto nazistas quanto socialistas, configuram-se como biopolíticas na medida em que se voltam não à dominação de adversários, mas ao domínio de uma população, de uma raça ou de um povo definidos segundo normas de saúde ou de vitalidade produtiva, o que Foucault reúne sob a categoria geral de racismo.
5. Cabe perguntar se a vida constitui realmente o objeto desses poderes ou se não seria antes uma figura destinal (Geschick) - a raça ou o trabalhador humano - que vem substituir as figuras clássicas da soberania, sendo a redução dessas figuras à vida insuficiente para fundamentar seu poder político e afetivo.
6. Segundo a extensão dada recentemente ao conceito, ou antes segundo a mudança do conceito sob a mesma palavra, a política, ainda atribuída ao Estado, toma progressivamente por objeto a gestão controlada da vida natural.
7. A chamada vida natural, da produção à conservação, é doravante inseparável de condições tecnológicas que constituem o que deve ser chamado ecotecnologia, e é nesse contexto que a biopolítica se torna possível como gestão tecnológica de uma existência que já não é simplesmente vida entendida como automantenção e autoafecção.
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A ecotecnologia revela o caráter infinitamente problemático de qualquer “auto” em geral.
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A existência assim gerida engaja-se apenas em sua reprodução e manutenção, segundo finalidades que permanecem segredos do poder ou que são simplesmente finalidades cegas ou sem propósito da totalidade eco-tecnológica em movimento.
8. O bios - a vida como forma de vida, como engajamento de um sentido ou de um ser - funde-se com a zoé, a vida nua, ainda que essa vida já se tenha tornado téchne.
9. A política não é implicitamente outra coisa senão a autogestão da ecotecnologia, única forma possível de “auto”-nomia que já não recorre a nenhuma das formas de política anteriores, nem à soberania autofundante, nem à discussão sobre a justiça própria da pólis aristotélica, nem mesmo à contestação ou ao differend, já que vida e poder seguem a mesma direção segundo um consenso assintótico e desprovido de finalidade ou de verdade.
10. O termo biopolítica não designa nem a vida como forma de vida nem a política como forma de coexistência, estando ambas doravante submetidas àquilo que as leva juntas para a ecotecnologia.
Complementos
11. O perigo da palavra revela-se na medida em que autoriza duas formas de interpretação, ambas mantendo sub-repticiamente um sentido incomum do termo.
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Pode-se pensar essa vida, reduzida a uma ausência de forma que não seja sua gestão movida por um poder econômico e social que busca apenas sua manutenção, como dialeticamente entregue a uma ausência de fins através da qual ela se encontraria como que em estado nascente, exposta à ausência de sentido de sua contingência nua, capaz de reivindicar como invenção própria um nascimento indefinido que desliza por sua própria errância, sendo a forma de vida o jogo furtivo de uma elegante subtração à máquina trituradora.
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Pode-se pensar, ao contrário, que o controle assim revelado de uma produção tecnológica da vida coloca a vida no estado de se produzir como um todo, reapropriando-se da exterioridade da dominação numa auto-produção ou auto-criação comum cuja vitalidade reabsorve e realiza em si mesma qualquer política.
12. Em um sentido ou noutro, pela ênfase sobre a vida mesma ou sobre a política reapropriada em comum, retoma-se a dupla postulação dialética que assombra a consciência ocidental desde a invenção da democracia, que pôs fim a uma política fundada em figuras de identificação, e que se revela insuficiente diante do problema aberto pela democracia, isto é, pelo problema posto pela ecotecnologia que exige, ou produz, a ausência de figura separável e a ausência de fim identificável.
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De um lado revela-se uma figura extrema, outrora conhecida como proletariado, cuja nudez estabelece seu caráter de verdade.
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De outro lado, o poder reapropriado pela comunidade vivente efetua a negação da separação política.
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Buscar uma nova figura, seja ela sem figura, anônima e despojada de identidade, ou tornar dialética a negação do polo identificatório, são dois motivos que podem dar impulso a lutas necessárias, mas que não bastam para enfrentar um problema situado entre figuras e fins, entre a fenomenalização de uma teleologia e a teleologia de uma fenomenalização.
13. O que forma um mundo hoje é exatamente a conjunção de um processo ilimitado de com-posição (Gestell) eco-tecnológica e de um desaparecimento das possibilidades de formas de vida e/ou de fundamento comum, sendo o “mundo”, ou o “formador de mundo” (weltbildend) nessas condições, apenas a forma precisa desse problema.
