1.3 Espacialidade
MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).
A ESPACIALIDADE DO CORPO PRÓPRIO E A MOTRICIDADE
1. As partes do corpo próprio não se dispõem umas ao lado das outras, mas envolvem-se umas nas outras, numa posse indivisa. A noção de esquema corporal, de início entendida como associação de imagens e depois como “forma” global, revela-se enfim como a expressão de que o corpo está no mundo. Sua espacialidade é de situação, e não de posição, e o corpo próprio é o terceiro termo, sempre subentendido, da estrutura figura e fundo.
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Na aloquiria, os estímulos aplicados à mão esquerda são sentidos na direita porque a mão inteira, como órgão sem partes, é deslocada de uma vez.
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O membro paralisado do anosognósico não conta no esquema corporal porque este integra ativamente as partes do corpo segundo seu valor para os projetos do organismo.
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Apoiado à mesa, o corpo arrasta-se atrás das mãos como a cauda de um cometa; o “aqui” do corpo designa a instalação das primeiras coordenadas, e o espaço corporal é a obscuridade da sala necessária à clareza do espetáculo.
2. A estrutura figura e fundo não pressupõe o espaço objetivo, pois palavras como “sobre”, “sob” e “ao lado de” só têm sentido para um sujeito situado pelo corpo diante do mundo, num espaço orientado. O espaço homogêneo e inteligível é apenas a explicitação desse espaço orientado, do qual recebe seu sentido, e não haveria espaço algum para quem não tivesse corpo.
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A forma universal do espaço é aquilo sem o qual não haveria espaço corporal, mas não aquilo pelo qual ele existe; o espaço corporal contém o fermento dialético que o transforma em espaço universal.
3. Como espaço corporal e espaço exterior formam um sistema prático, é na ação que a espacialidade do corpo se realiza. O movimento não apenas sofre o espaço e o tempo, mas os assume ativamente e os retoma em sua significação originária, o que torna reveladora a análise de uma motricidade patológica.
4. Um doente de “cegueira psíquica”, Schneider, é incapaz, de olhos fechados, de executar movimentos “abstratos”, de descrever a posição de seus membros ou de localizar um ponto tocado, e só o consegue olhando o membro ou fazendo movimentos preparatórios. Executa, porém, com rapidez e segurança os movimentos “concretos” habituais e de preensão, o que revela um privilégio desses movimentos cuja razão cabe buscar.
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Assoa o nariz, acende uma lâmpada e fabrica carteiras com três quartos do rendimento normal; incapaz de apontar uma parte do corpo sob comando, leva a mão depressa ao ponto picado por um mosquito.
5. Pegar (Greifen) é diferente de mostrar (Zeigen): um ponto do corpo pode estar presente como ponto a pegar sem estar dado como ponto a mostrar. Há um saber do lugar que é coexistência com ele, dado numa intenção de preensão e não de conhecimento. No movimento concreto, o doente é seu corpo, e seu corpo é a potência de um certo mundo, sem consciência tética do estímulo nem da reação.
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O doente só aponta o nariz se puder pegá-lo, e o movimento se torna impossível se deve parar antes do alvo ou usar uma régua; o movimento de preensão está magicamente em seu termo desde o início.
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Para executar sob comando uma continência militar, ele se põe na situação efetiva e mobiliza todo o corpo, ao passo que o normal, como o ator, se “irrealiza” no papel e faz seu corpo respirar no imaginário; o doente descreve que tudo “anda sozinho”.
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Não se move nunca o corpo objetivo, mas o corpo fenomenal: tesoura, agulha e couro “a cortar” são polos de ação que obtêm do corpo, por atração à distância, os movimentos necessários.
6. Nas provas em que falha, o doente tenta, por movimentos preparatórios, fazer do corpo e do objeto objetos de percepção atual, suprindo uma presença que no normal é dada. No normal, cada estimulação desperta um “movimento virtual”, e o corpo pode desviar-se do mundo e situar-se no virtual, enquanto o tato patológico permanece encerrado no atual.
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Só identifica letras desenhadas na mão se mover a própria mão, percebendo o movimento dela em relação à ponta, e só reconhece figuras “soletrando-as” por exploração.
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A doença, como a infância, é uma forma de existência completa, e as suplências não dão a imagem direta da função normal: não se deduz o normal do patológico por simples mudança de sinal.
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Para que uma chave apareça como chave ao tato, é preciso uma amplitude do toque em que as impressões se integrem como as notas numa melodia; no doente, a viscosidade dos dados reduz o objeto a “caracteres” sucessivos e o reconhecimento a uma conjectura.
7. O movimento abstrato revela uma posse do espaço que é condição de toda percepção viva. Entre o movimento como processo em terceira pessoa e o pensamento como representação do movimento, há um “projeto motor” (Bewegungsentwurf), uma intencionalidade motora pela qual o corpo antecipa o resultado. O movimento concreto é centrípeto e adere a um fundo dado, enquanto o abstrato é centrífugo e constrói seu próprio fundo por uma função de “projeção” que abre um espaço livre no mundo dado.
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O doente agita o corpo até o movimento aparecer, como um orador que só fala apoiado num texto: a ordem tem para ele significação intelectual, mas não motora.
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Ao acenar para um amigo, o gesto vai através do mundo até ele, e percepção e movimento formam um sistema; flexionar o antebraço sem visar ninguém faz do corpo o alvo e superpõe ao espaço físico um espaço virtual ou humano.
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Doentes menos graves não encontram a “direção oposta” num labirinto, não distribuem objetos “do seu lado” ou “do lado do médico” nem indicam o dia anterior, porque perderam o poder de organizar o mundo segundo os projetos do momento.
8. Pode-se objetar que essa descrição mostra o sentido da doença, mas não sua causa. Como os distúrbios motores de Schneider coincidem com déficits visuais massivos ligados à lesão occipital, os métodos de Mill levariam a concluir que o movimento abstrato e o Zeigen dependem da representação visual, e os movimentos concretos do sentido tátil ou cinestésico.
9. Uma análise indutiva segundo Mill não chega a conclusão alguma, pois os distúrbios do Zeigen aparecem também em cerebelosos e em outras doenças sem déficit visual primário. Um sentido define-se menos por conteúdos qualitativos do que por uma maneira de oferecer seu objeto, uma estrutura epistemológica. Não há explicação sem compreensão.
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Nos cerebelosos, os excitantes visuais produzem reações imperfeitas porque a atitude do Zeigen é impossível, e não o inverso: “o som nos dirige sempre para seu conteúdo, sua significação para nós; na apresentação visual, ao contrário, podemos muito mais facilmente abstrair do conteúdo”.
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As medidas de limiar testam funções anteriores à especificação das qualidades, a maneira como o sujeito faz existir o que o cerca, seja como polo de atividade, seja como espetáculo.
10. A crítica desdobra-se em duas. A causa de um fato psíquico nunca é outro fato psíquico observável, pois a explicação em psicologia, como na física, é inventada e sempre provável. Além disso, em psicologia é preciso recusar não apenas o empirismo, mas o método indutivo e o pensamento causal em geral, porque seu objeto não se deixa determinar por relações de função a variável.
11. Atribuir à perda da visão os distúrbios de Schneider exigiria ter certeza de que a experiência tátil permaneceu idêntica à do normal, o que nenhum fato permite afirmar de modo decisivo. A interpretação que invoca um estreitamento do campo motor e a que invoca o déficit visual continuam igualmente defensáveis.
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Um doente só bate à porta se ela estiver ao alcance da mão, mesmo vendo-a, o que sugere a perda do horizonte de toque possível que envolve os objetos no normal; Goldstein, porém, pode atribuir o fato à insuficiência do fundo visual.
12. Em psicologia, a impossibilidade de uma experiência crucial vem da própria natureza do comportamento e tem consequências mais graves que na física. Não se pode sequer escolher pela verossimilhança, porque “representações visuais”, “movimento abstrato” e “toque virtual” são nomes diferentes de um mesmo fenômeno central, e seus termos não são isoláveis de fora.
13. Se, como admite Goldstein, os dados táteis do normal recebem dos visuais uma “nuance qualitativa”, o “tátil puro” é um fenômeno patológico, e não um componente da experiência normal, que é integral. Cegueira psíquica, imperfeições do tato e distúrbios motores são três expressões de um distúrbio fundamental. O comportamento, como forma, é inacessível ao pensamento causal e só se apreende por um pensamento que o toma em estado nascente, na atmosfera de sentido em que é vivido.
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A pressão atmosférica precisou ser inventada, mas ainda era um processo em terceira pessoa; o comportamento, cujos momentos sensíveis e motores são inseparáveis, não se deixa tratar assim.
14. Resta a via intelectualista, que remete os sintomas a uma condição de possibilidade inteligível: a perda da “atitude categorial” e da “função simbólica” ou de representação. Mostrar e mover-se abstratamente supõem manter o objeto à distância e subsumi-lo a um conceito. Como a consciência não comporta mais e menos, o doente que deixa de ser consciência torna-se coisa, e os movimentos concretos conservados seriam reflexos, de modo que Greifen e Zeigen corresponderiam ao fisiológico e ao psíquico.
15. A distinção entre movimento concreto e abstrato é incompatível com a distinção entre corpo e consciência. Toda explicação fisiológica se generaliza em mecanismo, e toda tomada de consciência em intelectualismo, e ambos nivelam o comportamento. A distinção só se mantém se houver várias maneiras de o corpo ser corpo e de a consciência ser consciência, isto é, na dimensão do comportamento.
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Entre o mosquito e a régua aplicados ao mesmo ponto, a diferença física não explica que pegar seja possível e apontar impossível; só seu sentido biológico os distingue.
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Se os movimentos abstratos supõem consciência do ponto de partida, até os movimentos “automáticos” se anunciam à consciência, e não há movimentos em si no corpo.
16. O intelectualismo é menos falso que abstrato: a função simbólica sustenta os movimentos, mas repousa num solo. Separada de seus materiais, ela identifica todas as doenças e reduz a loucura a má vontade. A relação entre a visão e a função simbólica é de Fundierung: a visão não é causa, mas o dom da natureza de que o Espírito precisa para encarnar-se e para ser, e cabe descrever a existência como retomada perpétua do fato por uma razão que não existe antes dele nem sem ele.
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Se a consciência está fora do ser, as variedades mórbida, primitiva, infantil ou alheia não podem ser levadas a sério, e o louco, que sempre efetuaria o cogito, apenas pensaria ser louco.
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A patologia mostra que nenhum distúrbio é rigorosamente eletivo, mas cada um se centra numa região do comportamento; o distúrbio de Schneider vem de um estilhaço de obus, e foi pela visão que o Espírito foi atingido.
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A forma integra o conteúdo como um modo de si, mas o conteúdo permanece como contingência radical e fundação primeira do conhecimento e da ação.
17. A inteligência tampouco se ajusta ao intelectualismo. O doente só relaciona dados por subsunção explícita, enquanto o normal apreende de imediato a analogia a partir da evidência antepredicativa de um mundo único. A consciência se dá mundos, sedimentados como um “mundo de pensamentos” que só permanece adquirido se retomado pelo pensamento presente, e a estrutura de mundo, com seus momentos de sedimentação e espontaneidade, está no centro da consciência.
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O doente não compreende que “o pelo está para o gato como a plumagem para o pássaro” nem o sentido metafórico de “pé da cadeira”, e só entende a analogia entre olho e ouvido ao concluir que ambos são “órgãos dos sentidos”.
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A síntese transcendental intemporal não basta para fundar o pensamento atual: o verdadeiro sujeito do pensamento é aquele que efetua a retomada no presente vivo.
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Na própria casa sabe-se sem discurso que ir ao banheiro é passar pelo quarto; o saber adquirido se empobrece na fadiga e se reorganiza quando se está inteiro nos próprios pensamentos.
18. Os distúrbios perceptivos de Schneider atingem a junção entre sensibilidade e significação: o mundo perdeu sua fisionomia e não lhe sugere mais significações, nem as significações que ele se propõe se encarnam no mundo dado. Pela mesma razão, a percepção dos acontecimentos humanos e de outrem fica comprometida, pois supõe a mesma retomada do exterior no interior.
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Diante de uma caneta-tinteiro, ele avança por hipóteses verbais, de “alongado” a “bastão”, a “instrumento” e a “coisa para anotar”, como o cientista que verifica uma hipótese.
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Sabe que um quadrado se divide em quatro triângulos, mas não que quatro triângulos podem compor um quadrado, pois isso exigiria que os dados sensíveis ilustrassem um sentido imaginário; também não desenha a partir do modelo (nachzeichnen), mas por fórmulas verbais.
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Retém uma história como série de fatos anotados um a um e só a reconta reconstruindo-a parte por parte, e as palavras de outrem são para ele sinais a decifrar, desprovidas da significação primordial obtida pela coexistência.
19. Também os distúrbios intelectuais devem ser remetidos ao contexto existencial: o que é atingido não é a inteligência, mas sua base existencial, o poder de desdobrar um passado rumo a um futuro e de pôr-se em situação. Sob a inteligência e a percepção há um “arco intencional” que projeta em torno o passado, o futuro, o meio humano e as situações física, ideológica e moral, fazendo a unidade dos sentidos, da inteligência e da motricidade, e é esse arco que se “afrouxa” na doença.
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Na “cegueira para os números”, o doente calcula por receitas rituais, e o maior número é para ele o que vem “depois” na série; o número, porém, é uma estrutura de consciência que comporta mais e menos, exigindo que as sínteses feitas permaneçam disponíveis.
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Schneider não canta nem assobia por si, só sai para fazer compras, não reconhece a casa de Goldstein por não ter saído com essa intenção, e só conversa segundo um plano prévio.
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Incapaz de brincar, converte o fictício em real e diz que só se vê na direção em que se olha; passado e futuro são para ele prolongamentos “encolhidos” do presente.
20. O caso patológico revela uma análise existencial que supera as alternativas entre empirismo e intelectualismo, explicação e reflexão. Se a consciência é atividade de projeção que se apoia nos objetos que deposita, compreende-se que todo déficit repercuta no conjunto e que, no entanto, a doença atinja a consciência por um certo “lado”. Ver como o homem vê e ser Espírito são sinônimos, e a despersonalização no coração da consciência a torna vulnerável à doença e ao acidente corporal.
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A doença da “esfera visual” atinge uma visão em sentido figurado, o poder de dominar (überschauen) multiplicidades simultâneas, que é sublimação da visão sensível, como mostra a evolução semântica de “intuição”, “evidência” e “luz natural”.
21. A motricidade é uma intencionalidade original: a consciência é originariamente um “eu posso”, e não um “eu penso que”. O movimento não é pensamento de um movimento, e o espaço corporal não é espaço pensado. A consciência é o ser junto à coisa por meio do corpo, e um movimento é aprendido quando o corpo o compreendeu, incorporando-o a seu mundo.
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“Movimento e fundo são momentos artificialmente separados de um todo único”: o gesto da mão que se ergue visa a coisa junto à qual já se está por antecipação.
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Nas apraxias puras ou construtivas, o doente conhece o espaço e a noção do gesto, mas não copia um triângulo ou uma cruz, o que mostra que objetos e espaço podem estar presentes ao conhecimento sem estar presentes ao corpo.
22. O corpo não está no espaço e no tempo, mas os habita: é necessariamente “aqui” e “agora”, e cada momento do movimento envolve os anteriores e antecipa os seguintes. A experiência motora é uma “praktognosia”, acesso original ao mundo sem passar por representações. O esquema corporal é o sistema de equivalências que torna as tarefas motoras transponíveis e dá sentido motor às instruções verbais, e a motricidade é a esfera primária onde se engendra o sentido das significações espaciais.
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“Toda mudança identificável chega à consciência já carregada de suas relações com o que a precedeu, como no taxímetro a distância aparece já convertida em xelins e pence.”
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Certos doentes só imitam o médico lado a lado diante de um espelho: sabem o que fazer, mas não conseguem ajustar o movimento ao próprio corpo, pois perderam “a capacidade de diferenciação motora do esquema corporal dinâmico”, e não a função simbólica.
23. A aquisição do hábito não é associação mecânica nem ato de entendimento, mas apreensão motora de uma significação motora: é o corpo que “pega” (kapiert) e compreende o movimento. O hábito exprime o poder de dilatar o ser no mundo, anexando novos instrumentos, e é um saber que está nas mãos, só acessível ao esforço corporal. Compreender é experimentar o acordo entre intenção e efetuação, e o corpo é a ancoragem num mundo.
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A mulher mantém sem cálculo a pluma do chapéu longe dos obstáculos, o motorista vê que “pode passar”, e a bengala do cego torna-se zona sensível análoga a um olhar.
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A datilógrafa sabe onde estão as teclas como se sabe onde está um membro, sem poder indicá-las; ela integra o espaço do teclado a seu espaço corporal.
24. O exemplo do organista mostra que o hábito não reside no pensamento nem no corpo objetivo, mas no corpo como mediador de um mundo. Em uma hora de ensaio num órgão desconhecido, ele se instala no instrumento como numa casa, e registros e pedais lhe são dados como potências de valor musical. Seus gestos são de consagração e criam um espaço expressivo, como os do áugure delimitam o templum.
25. O corpo é eminentemente um espaço expressivo e, mais que isso, a origem de todos os outros, o próprio movimento de expressão que projeta as significações para fora dando-lhes um lugar. Como meio geral de ter um mundo, ele instaura um mundo biológico, prolonga gestos em sentido figurado, como na dança, e constrói instrumentos, projetando um mundo cultural. O hábito é um modo desse poder: o corpo compreendeu quando assimilou um novo núcleo significativo.
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Em todos os níveis, o corpo empresta aos movimentos instantâneos da espontaneidade “um pouco de ação renovável e de existência independente”.
26. O estudo da motricidade revela um novo sentido da palavra “sentido”. O intelectualismo mostrava que percepção e pensamento têm sentido intrínseco, mas concebia toda significação como ato de um puro Eu, incapaz de explicar a contingência dos conteúdos. A experiência do corpo revela um sentido aderente a certos conteúdos: o corpo é um núcleo significativo que funciona como função geral e, no entanto, existe e pode adoecer, nó da essência e da existência que se reencontrará na percepção.
