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Diálogo (Gespräch)

LDMH

  • Elaboração de três diálogos por Martin Heidegger ocorre em momento particular de sua aventura no pensamento, aventura essa que caminha junto com a busca incessante de uma palavra que esteja à altura daquilo que ele tem a dizer.
    • É em 1944-1945 que irrompem os denominados diálogos do caminho de campo, em singular impulso de inspiração que Heidegger descreve a sua esposa na carta de 23 de março de 1945.
      • Esse momento constitui simultaneamente o fim da guerra e da opressão totalitária, o que traz, mesmo sem pôr termo à devastação historial planetária, um real alívio; é também, para Heidegger, o instante em que o esforço sustentado desses últimos 7 anos encontra seu desenlace numa maneira de dizer inteiramente simples.
    • Nessa época do mundo em que o niilismo atinge seu ápice, trata-se igualmente de um modo de retomar o diálogo com aquele que é, de certa forma, o instituidor da metafísica, Platão, sobre quem Heidegger pensava escrever um livro dedicado a sua esposa.
    • A esses diálogos ou colóquios do caminho de campo, é necessário acrescentar o grande Colóquio Ocidental (GA75) de 1946-1948 em diálogo com Hölderlin e, por fim, aquele redigido entre 1953 e 1954, cuja forma é em si mesma um desejo caro a Heidegger: um encontro genuíno, a partir da palavra, com o pensamento do Extremo Oriente – donde esse diálogo, em A Caminho da Linguagem [GA12], entre um Japonês e alguém que está em demanda.
  • Mais do que uma forma, o diálogo designa para Heidegger uma modalidade da palavra, o que também é verdade em Platão, onde o diálogo da alma consigo mesma constitui, enquanto espaço em que a dialética se realiza, o elemento do pensamento.
    • Em Heidegger, contudo, não é mais a finalidade eminentemente teórica do dialegesthai que determina o pensamento, e o diálogo deve, portanto, receber um nome outro que o grego.
    • A língua alemã o permite, na medida em que distinguem Dialog e Gespräch, ao ponto de Heidegger poder escrever no Colóquio com o Japonês que, nesse sentido, nem mesmo os Diálogos de Platão seriam, portanto, colóquios?.
  • Determinação desse sentido específico do diálogo em Heidegger é precisamente o que se deve compreender, podendo-se começar a ouvi-lo a partir da escuta do termo Gespräch.
    • A palavra compõe-se do prefixo ge-, que indica reunião, e do radical spräch, que designa a palavra (Sprache).
      • Gespräch nomeia assim um recolhimento da palavra, e é somente a partir disso que pode significar o diálogo no qual pessoas se entretêm.
    • Como indica o dicionário Grimm, o primeiro sentido de Gespräch é a capacidade de falar, a própria palavra ou ainda a maneira de falar, sendo assim que Heidegger o entende primordialmente: o recolhimento que confere à palavra a possibilidade de desdobrar seu ser próprio.
    • Esse colóquio recolhido da palavra designa, portanto, uma modalidade da palavra, e mesmo, como diz Heidegger na terceira parte da conferência sobre Hölderlin, esse colóquio da palavra não é apenas um modo de a palavra se realizar, é antes unicamente como colóquio que a palavra é essencial, porque desdobra assim seu ser próprio.
  • Heidegger escuta então um verso de Hölderlin que afirma: Desde que somos um colóquio / E podemos ouvir uns aos outros, salientando que somos, em nós mesmos, um colóquio – sob a condição de deixarmos advir em nós o acontecimento essencial da linguagem, isto é, a palavra tal como, em seu advento, ela liberta, ao apropriá-lo, nosso ser próprio.
    • Esse colóquio, que é como o fogo onde a palavra se desdobra propriamente, modula-se de maneira tríplice:
      • Primeiramente, como coração do entre-ser que é em si mesmo o Dasein (entre-ser, no sentido literal, na medida em que Da-sein é justamente o entre onde se mantêm apropriados um ao outro o ser e o ser humano).
      • Em segundo lugar, como espaço a partir do qual podem falar e ouvir-se seres humanos entre si.
      • Em terceiro lugar, como dimensão onde mortais e divinos se entre-pertençam, na medida em que a palavra que nomeia os deuses é resposta aos signos que os deuses dirigem aos mortais ao requerê-los.
  • Quando assim a palavra se recolhe sobre seu ser como colóquio, ela torna-se propriamente a Fala (die Sage): o fogo de toda mostração possível.
    • É enquanto mostração que a palavra desdobra o horizonte da Dichtung que Heidegger entende, não no sentido restrito de poesia, mas no sentido do dizer que mostra, no qual poesia e pensamento podem se entreter.
      • Enquanto Dichtung, escreve Heidegger, o pensamento é a Fala – e só pode ter lugar propriamente como Fala na “avenance” [Ereignis; acontecimento apropriador] a si no coração do colóquio do ser na palavra.
    • Nas mesmas notas reunidas sob o título A Poesia / Filosofia – Poiesis / O Colóquio, Heidegger prossegue afirmando que o Gespräch, aqui, o colóquio da palavra, não é nem a forma de exposição de uma filosofia, nem a forma de seu método maiêutico, nem um prelúdio à espera de uma versão sistemática ‘verdadeira’ – pelo contrário: o Gespräch, o colóquio da palavra é doravante a avenance da palavra, enquanto morada para o recolhimento do pensamento como memória que deixa o silêncio da palavra repousar na avenance. É também por isso que o colóquio da palavra guarda ileso o não dito – e somente o colóquio.
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