estudos:ldmh:dasein
Dasein
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Deslocamento radical em relação ao sentido metafísico e poético corrente: O termo alemão Dasein possui uma história densa no uso comum e filosófico, designando primariamente presença, existência ou realidade efetiva, servindo desde o século XVIII como tradução para existentia. Em Hegel, adquire uma determinação lógica singular como resultado do devir, a unidade mediada do ser e do nada. Na poesia, especialmente em Rilke, alcança uma ressonância elevada, indicando uma aceitação corajosa da existência face ao inaudito. Heidegger, contudo, opera uma reviravolta decisiva que desaloja o termo de toda essa tradição, conferindo-lhe um sentido “inédito” e “incomparável”. Este sentido não apenas difere, mas se opõe intencionalmente à acepção metafísica da presença (Vorhandenheit), seja em sua modulação grega (physis), escolástica (existentia) ou moderna (realidade objetiva). A incomparabilidade do Dasein heideggeriano reside precisamente no fato de não ser um ente, nem uma determinação ôntica do homem entre outras (como razão, alma ou consciência), mas algo de ordem totalmente diversa que exige uma escuta nova de uma palavra antiga.
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A ambiguidade inicial em Ser e Tempo e o risco de má compreensão: Em Ser e Tempo, a tematização do Dasein como fio condutor para a questão do ser introduz uma ambiguidade estrutural. Por um lado, Dasein é definido como “o ente que nós mesmos somos”, o ente privilegiado que compreende ser. Por outro, é caracterizado como “expressão pura de ser”, como “o ser do homem”. Esta oscilação entre uma referência ôntica (o homem) e uma determinação ontológica (o ser do homem) não é acidental, mas reflete o próprio método da analítica existencial, que parte do ente concreto para acessar suas estruturas de ser. No entanto, essa ambiguidade fundou leituras reducionistas, notadamente a interpretação existencialista que assimilou Dasein a uma nova antropologia filosófica ou a uma filosofia da existência humana, e a leitura de Husserl, que viu ali uma recaída na antropologia. Tais leituras, embora infundadas no projeto último de Heidegger, não são totalmente arbitrárias, pois exploram uma tensão interna ao texto de 1927, tensão que o próprio Heidegger reconhecerá e buscará superar em seus desenvolvimentos posteriores.
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Da ambiguidade à clarificação: Dasein como Da-sein e o pensamento do “Lá”: A superação da ambiguidade exige um gesto linguístico e conceitual: a escrita do termo com hífen, Da-sein. Este hífen não é um mero ornamento gráfico, mas o sinal visível de uma inflexão decisiva no pensamento. Ele desloca o acento para sein (ser), fazendo ressoar o termo como um verbo, um movimento, um “ter a ser”. O que há para ser? Precisamente o “lá” (Da). Em Ser e Tempo, o Da é elucidado como a abertura (Erschlossenheit) que o Dasein é em si mesmo: “O Dasein é sua abertura”. Esta abertura não é uma propriedade acrescentada, mas o modo de ser mesmo do Dasein, a clareira (Lichtung) na qual o ente e o próprio ser podem se manifestar. A escrita Da-sein aparece em momentos estratégicos do livro, especialmente nos parágrafos que compõem a “Constituição existencial do lá” ( §§ 29, 31, 34) e na página 350, onde se liga explicitamente ao ser “clareado” (gelichtet). O Da, portanto, não é um “aqui” espacial, mas a dimensão de abertura e desvelamento que constitui o lugar (Ort) do ser.
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O aprofundamento abissal pós-Ser e Tempo: Da-sein como fora-fundamento e assize da verdade do ser: A partir dos meados dos anos 1930, especialmente em obras como os Contributos à Filosofia, a meditação sobre o Da-sein torna-se mais radical e abissal. Da-sein é agora pensado como o “fora-fundamento” (Ab-grund), um abismo que não oferece um fundamento sólido (como a substância), mas uma abertura sem fundo que serve de “assize” (Grundung) para a verdade do ser (do Seyn). A relação é de necessidade mútua, mas assimétrica: o ser “precisa” (braucht) do Da-sein para que sua verdade seja acolhida, guardada e abrigada; inversamente, o Da-sein só se abre em seu Da ao ser requisitado, convocado e apropriado (vereignet) pela flagrância (Offenheit) do ser. Esta relação de mútua pertença não-recíproca é nomeada como “corres-pondência” (Erwiderung): o Da-sein é o “respondente com respeito ao ser”. O hífen em Da-sein torna sensível, na própria carne da palavra, a cisão (Unterschied) e a relação íntima que constitui o evento (Ereignis) da verdade.
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Consequências para a compreensão do homem: o humano a partir do Da-sein e a tarefa da apropriação: Se Da-sein não é um novo nome para o homem, nem uma determinação ôntica sua, qual a relação entre ambos? Heidegger afirma que “o homem só é um ser humano sobre o fundo do Dasein nele”. Isto significa que a humanidade do homem não se esgota nas definições metafísicas (animal rationale, sujeito, etc.), mas tem sua possibilidade mais própria fundada no Da-sein como abertura. O “homem por-vir” (der zukünftige Mensch) não é uma figura utópica, mas a humanidade que está sempre pronta a advir em cada ser humano, desde que se opere uma transformação: “que o homem mude do todo ao todo em seu Da-sein”. Esta mudança exige um desvio (Verwindung) da subjetividade e do poder ôntico, e uma virada para o que o apropria: a abertura do Da. Apenas sendo apropriado pelo Da-sein, o homem pode ek-sistir, isto é, manter-se fora na abertura do ser, realizando sua dignidade como homo humanus. A tarefa do pensamento, portanto, não é definir o homem, mas preparar a possibilidade de que ele venha a habitar o Da como guardião da verdade do ser.
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Síntese e alcance da transformação conceitual: A trajetória do conceito de Dasein, de sua ambiguidade inicial em Ser e Tempo até sua radicalização como Da-sein, marca o cerne do caminho do pensamento heideggeriano. Ela implica uma desconstrução da metafísica da presença e da antropologia, e a instauração de uma nova topologia do ser, onde o “lá” não é um dado, mas um acontecimento de abertura que requer uma correspondência ativa. Pensar o Da-sein é pensar a relação mais íntima e não substancial entre ser e homem, relação que é o próprio motor da história do ser. Neste sentido, o Da-sein não é um conceito, mas a indicação do lugar (a clareira) onde a questão do ser pode, pela primeira vez, ser colocada em sua radicalidade abissal, fora de toda metafísica.
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