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estudos:ldmh:advir

ADVIR

LDMH

  • Heidegger opera uma reviravolta radical na compreensão filosófica do tempo, deslocando-a da concepção metafísica herdada de Aristóteles — o tempo como sequência infinita de “agoras” (nun) — e também da fenomenologia husserliana do tempo interno, que, apesar de superar o “dogma da momentaneidade” ao pensar o continuum temporal como fluxo constitutivo da subjetividade absoluta, permanece presa a uma ideia de tempo infinito e concede primazia à retenção sobre a protensão, fazendo do futuro um “futuro anterior”. Para Heidegger, em contraste, o tempo originário é finito, e sua origem (Ur-sprung) deve ser pensada como um jorro (springen) a partir da finitude do Dasein. A análise da temporalidade em Ser e Tempo exige, portanto, que se alcance primeiro o conceito de ser-inteiro do Dasein, o que só é possível através de uma interpretação ontológico-existencial da morte como possibilidade insuperável, mais própria e extrema, que constitui o limite (peras) no sentido grego: não o término, mas aquilo a partir de onde algo começa e atinge seu acabamento.
  • A morte, como fim-limite existencial, libera o Dasein para seu poder-ser mais próprio, abrindo a dimensão da possibilidade como tal. É neste horizonte que se determina a vorlaufende Entschlossenheit, a resolução que se adianta (que “corre à frente”) para a morte, mantendo-se aberta e livre para a possibilidade. Este “adiantar-se” é o movimento mesmo pelo qual o Dasein vem a si mesmo a partir de seu futuro próprio. O futuro (Zukunft) não é, pois, um “ainda não” real que se tornará presente, mas o modo ekstático pelo qual o Dasein, vindo a si mesmo, se temporaliza. Tem primazia fenomenológica na unidade ekstática da temporalidade própria, pois é a partir do vir do futuro que o ter-sido (passado) e o fazer-presente (presente) se desdobram em sua co-originariedade.
  • Distinção crucial entre o futuro próprio e o futuro impróprio: o futuro impróprio é aquele da expectativa (Erwarten) que projeta o possível sobre resultados previsíveis e aguarda sua realização no presente, modalidade na qual ainda se move a análise husserliana da protensão. O futuro próprio, em contraste, é o deixar-vir (Zukommen-lassen) da possibilidade como possibilidade, um advenimento (Ankunft) que se abre na resolução e no qual o Dasein “tem sempre tempo”. Esta temporalidade finita e própria não é uma linha, mas uma dobra dinâmica: “O ter-sido nasce do futuro, de tal sorte que o futuro, tendo-sido (ou melhor: sendo-sido), deixa ir o presente para fora de si”. A história (Geschichte), enquanto modo de ser do Dasein, radica-se essencialmente neste futuro, não no passado; a possibilidade de aceder à história funda-se na possibilidade de um presente se compreender a si mesmo como sendo por-vir, princípio primeiro de toda hermenêutica.
  • Ressonâncias extra-metafísicas desta concepção podem ser encontradas na tradição judaica, que não pensa o tempo a partir da metafísica grega. Nela, a cronologia é “desarranjada”: a letra final do alfabeto hebraico (tav) é o índice do futuro da segunda pessoa, uma interpelação para um futuro infinitamente aberto, e a exegese midráshica opera uma “memória do futuro”, orientando a identidade do grupo mais para o porvir que para o passado. Heidegger, em textos posteriores, aproxima-se desta tonalidade ao substituir progressivamente o termo Zukunft por uma reflexão sobre o Kommen (o vir) e a Gegenwart (o presente) como tensão de espera (Warten) que acolhe o vir mesmo, e não algo que vem.
  • Desdobramento posterior do pensamento do tempo: a meditação sobre o Ereignis (traduzível por “Acontecimento” ou “Avenência” [Avenance]) como a dimensão que unifica as três ekstases do tempo. O ser é pensado como das Ankommende (o aveniente, o que vem a nós), e o pensar tem parte ligada nesta adveniência. Na conferência Tempo e Ser, Heidegger nomeia uma “quarta dimensão” do tempo—o próprio jogo unificador do dar-se do ser e do tempo—, que não é uma dimensão ao lado das outras, mas a dimensão da dimensão, o lugar do recíproco pertencimento. A Avenência (Ereignis) é este dar-se destinal do ser, no qual o homem é apropriado para ser o lugar (o Da) de sua verdade.
  • Os Zu-künftigen (“Os por-vindouros” ou “Os aventurentes”) nos Contributos à Filosofia não são figuras cronológicas de um tempo futuro, mas aqueles cujo pensar é requerido pelo porvir (Zu-kunft) próprio da Avenência. São aqueles que, na instalação fundamentada do Da-sein, estão à altura de acolher a verdade do ser como aveniente, abrigando-a. A tarefa do pensamento torna-se, assim, “pensar a vir”, uma memória do futuro que se mantém na abertura ao advenimento do ser, superando definitivamente toda representação do tempo como quadro linear e homogêneo dentro do qual os eventos simplesmente ocorrem.
estudos/ldmh/advir.txt · Last modified: by mccastro