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estudos:kockelmans:visoes-de-mundo-ga56-57

A ideia de filosofia e o problema das visões de mundo

(GA56-57)

Em 1919, Heidegger ministrou um curso sobre “A ideia da filosofia e o problema das visões de mundo”. Nesse curso, Heidegger concentrou-se na “situação hermenêutica” da filosofia, tal como a encontrava em 1919, e tentou determinar sua própria abordagem à filosofia em relação à filosofia, entendida como uma doutrina das visões de mundo (Dilthey), por um lado, e à filosofia, entendida como uma ciência original e básica (Aristóteles, Kant, Husserl), por outro. Ao mesmo tempo, Heidegger também fez um esforço para chegar a um acordo com a filosofia dos valores, tal como foi desenvolvida no neokantismo, principalmente por Windelband e Rickert. Os neokantianos ocupavam uma espécie de posição intermediária entre os dois extremos mencionados, na medida em que tentavam desenvolver a filosofia como um sistema de valores que nos proporcionasse os meios científicos para desenvolver a nossa própria visão de mundo. Heidegger deixa bem claro que considera uma filosofia de visões de mundo completamente inaceitável. Sua leitura do artigo de Husserl, “A filosofia como ciência rigorosa”, pode tê-lo influenciado (12) nessa decisão. A filosofia genuína não tem nada a ver com visões de mundo. Trata-se, antes, de uma ciência original e básica, radicalmente diferente de todas as outras ciências, e capaz de justificar seus próprios “fundamentos”. Heidegger tentou então definir o objeto da filosofia por meio de um exame histórico e crítico das soluções tradicionais para o problema. Nesta parte de suas palestras, Heidegger mostra sua preferência por fazer perguntas pertinentes: A filosofia realmente tem um objeto? Como seu objeto é dado? O que “há algo” realmente significa? Heidegger também mostra aqui uma preferência pelo uso de frases impessoais: es wertet (valoriza), es weltet (governa), es gibt (dá, há), etc. Heidegger pode ter sido influenciado nisso pelo uso típico da linguagem de Meister Eckhart. Também encontramos aqui uma primeira indicação do importante papel que a concepção de Aristóteles de aletheia (verdade) como não ocultação terá em seu pensamento posterior. Mas o mais importante é que, nesta série de palestras, Heidegger apela repetidamente para experiências cotidianas que todos podem ter em seu mundo circundante (Umwelt). Trata-se claramente de um esforço deliberado de sua parte para se afastar de um tipo de filosofia que se preocupa exclusivamente com a dimensão teórica e perceptiva de nossas vidas, como encontramos, por exemplo, em Husserl. A filosofia de vida de Dilthey pode ter inspirado Heidegger a dar esse passo. No entanto, nessa mudança, Heidegger também pode ter sido influenciado por E. Lask, que foi o primeiro a perceber o problema fenomenológico da teorização da experiência, mas parece ter sido incapaz de encontrar uma solução não teórica para o problema. Kisiel descreveu a importância que Heidegger atribui a essa noção nos seguintes termos:

A teorização des-significa, des-historiza, des-vida e des-munda nossas experiências mais originais. A busca radical da filosofia por algo pré-teórico, não apenas algo mundano, mas também pré-mundano, torna a ciência primitiva uma ciência suprateórica. A filosofia deve contrariar a tendência teórica de outras ciências de desvitalizar o mundo e substituí-lo por conceitos, formulando (13) “receitas” (Rilckgriffe) que se enraízam nos contextos de vida subjacentes às ciências. O sentido primitivo desse algo pré-teórico e pré-mundano deve ser visto fenomenalmente, ou seja, puramente intuitivamente. Devemos aprender a viver experiencialmente essas experiências vividas em suas motivações e tendências. Em resumo, devemos chegar a compreender a vida. Pois a vida não é irracional, ela é compreensível em todos os seus aspectos. A intuição fenomenológica como o viver de experiências primordiais é intuição hermenêutica. (1990, p. 11-13)

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