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estudos:kockelmans:1989:3

SZ §§5-7

KOCKELMANS, Joseph. Heidegger’s “Being and Time”: The Analytic of Dasein as Fundamental Ontology. Lanham (Md.): Center for Advanced Research in Phenomenology, 1989.

A dupla tarefa na elaboração da questão do ser: reflexões sobre o método («Ser e tempo», §§ 5–7)

I. A analítica do ser-aí deve tornar manifesto o horizonte para uma interpretação do sentido do ser como tal

  • A prioridade do ser-aí (Dasein) na questão do ser não torna imediatamente acessível seu próprio modo de ser: embora cada um seja o ente mais próximo de si mesmo, a compreensão cotidiana tende a interpretar a própria existência a partir dos entes com que lida no mundo.
  • As experiências concretas da existência e as interpretações oferecidas pela psicologia, pela história ou pela antropologia podem revelar aspectos efetivos da vida humana, mas suas determinações não substituem uma analítica existencial orientada explicitamente pela pergunta pelo ser.
  • O acesso ao ser-aí exige partir de sua cotidianidade mediana, deixando que ele se mostre em seu modo habitual de ser, sem lhe impor categorias concebidas para outros entes; as estruturas assim descobertas têm caráter preparatório e deverão receber uma interpretação ontológica mais originária.
  • A temporalidade (Zeitlichkeit) constitui o sentido do ser do ser-aí e permite reinterpretar suas estruturas existenciais; esclarecer essa temporalidade ainda não responde, por si, à pergunta pelo sentido do ser em geral, mas prepara a investigação do tempo como horizonte de toda compreensão de ser.
  • A distinção corrente entre entes temporais, intemporais e eternos já atribui ao tempo uma função ontológica sem explicar sua proveniência; a questão fundamental exige compreender a determinação temporal do ser a partir de um tempo mais originário do que a sucessão de instantes.

II. A preocupação de Heidegger com o método

  • A investigação fenomenológica se volta para a questão do ser ao deslocar a atenção da consciência tomada como fundamento para o desvelamento dos entes; seu método deve, portanto, ser repensado conforme a historicidade e a finitude da compreensão.
  • A intencionalidade, a intuição categorial (kategoriale Anschauung) e o caráter prévio do conhecimento oferecem descobertas decisivas, mas não dispensam a pergunta pelo modo de ser da consciência, pelo ser daquilo a que ela se dirige e pelo sentido do próprio ser.
  • A analítica fundamental do ser-aí e a investigação da ontologia em sentido amplo demandam explicitações metodológicas relacionadas, porém distintas; a caracterização inicial da fenomenologia permanece provisória enquanto seu tema não tiver sido suficientemente desenvolvido.

III. O caráter da seção metodológica de «Ser e tempo»

  • A questão do sentido do ser articula duas exigências inseparáveis: examinar o ser-aí como ente que já compreende o ser e interrogar criticamente as interpretações herdadas que orientam, mas também encobrem, essa compreensão.
  • A fenomenologia hermenêutica e a destruição (Destruktion) da tradição pertencem ao mesmo percurso, pois o retorno às coisas mesmas requer explicitar as antecipações interpretativas recebidas e recuperar as possibilidades de pensamento ocultadas por elas.
  • O rigor da ontologia não segue o modelo da dedução formal ou da observação empírica: seu modo de proceder deve permanecer vinculado ao ser que investiga e à compreensão finita que torna possível investigá-lo.

IV. Destruição e retomada, e fenomenologia hermenêutica

1. Destruição e retomada

  • A historicidade (Geschichtlichkeit) do ser-aí (Dasein) significa que seu passado e o de sua geração participam de suas possibilidades presentes; a pergunta pelo ser, por nascer dessa existência histórica, precisa interrogar também a história de suas próprias formulações.
  • A tradição pode transmitir experiências originárias e, ao mesmo tempo, recobri-las quando seus conceitos passam a valer como evidências; a destruição (Destruktion) procura desfazer esse encobrimento para reabrir o acesso às fontes de que tais conceitos surgiram.
  • A retomada (Wiederholung) não repete respostas antigas nem elimina a herança filosófica: apropria-se criticamente das possibilidades ainda fecundas de uma questão e as transforma diante do que se mostra na experiência presente.
  • O confronto com as interpretações herdadas exige reconhecer os pressupostos que já orientam toda compreensão e submetê-los continuamente às coisas mesmas; a ausência de pressupostos e um saber absoluto não são condições para o rigor fenomenológico.

2. Fenomenologia: o método da ontologia

  • «Às coisas mesmas» exige evitar construções arbitrárias e determinar o acesso apropriado àquilo que se investiga; no caso da ontologia, o que solicita pensamento é o ser dos entes, cuja manifestação não se reduz à descrição de conteúdos da consciência.
  • O ser pode tornar-se tema mediante um movimento que parte dos entes e se volta para seu ser, a redução fenomenológica, acompanhado da projeção de suas estruturas ontológicas, a construção fenomenológica; ambas pressupõem a compreensão prévia de ser que vigora no ser-aí (Dasein).
  • A verdade do ser constitui o horizonte em que os entes se tornam compreensíveis, sem que o sujeito humano os produza; o ser-aí é a abertura em que essa compreensão acontece e a partir da qual pode ser explicitada.

3. Fenômeno

  • Fenômeno designa originariamente aquilo que se mostra a partir de si; a aparência enganosa pressupõe essa possibilidade de mostrar-se, ao passo que a manifestação como indício anuncia algo que não se mostra diretamente, como ocorre com um sintoma.
  • O exame fenomenológico ultrapassa a simples constatação de entes acessíveis na experiência para interrogar aquilo que já participa de seu aparecer e torna possível compreendê-los; o modo de acesso ao ente integra, assim, a investigação de como ele se mostra.
  • O ser, embora pertença essencialmente aos entes que se manifestam, permanece em geral oculto no encontro cotidiano com eles; por isso, a fenomenologia deve torná-lo temático sem tratá-lo como mais um objeto entre os objetos.

4. Logos apofântico e verdade

  • O logos, como discurso (Rede) que deixa ver aquilo de que se fala, torna o ente acessível a outros a partir do próprio ente; sua função de mostrar fundamenta a possibilidade de enunciados verdadeiros e falsos.
  • A verdade como desvelamento (Unverborgenheit) é anterior à verificação de uma concordância entre frase e objeto: o enunciado só pode descobrir ou encobrir algo porque o ente já se encontra em uma abertura na qual pode aparecer.
  • A estrutura do «algo como algo» permite mostrar um ente em sua relação com outro e também fazê-lo passar por aquilo que não é; essa possibilidade de encobrimento exige examinar metodicamente as condições da interpretação, mesmo quando o fenômeno parece imediatamente dado.

5. A concepção preliminar de fenomenologia

  • A fenomenologia consiste em deixar ver a partir de si mesmo aquilo que se mostra tal como se mostra, mas sua necessidade decorre do fato de o ser dos entes permanecer em grande parte encoberto enquanto os próprios entes se tornam familiares.
  • O encontro imediato com um ente já envolve um horizonte de compreensão no qual ele aparece como isto ou aquilo; explicitar tal horizonte não elimina a manifestação inicial, mas esclarece as condições que a tornam possível.
  • O fenômeno ontológico exige mediação interpretativa porque o ser se mostra nos entes sem se oferecer como objeto isolado; a compreensão prévia do ser-aí (Dasein) abre o acesso à investigação e, ao mesmo tempo, precisa ser esclarecida por ela.

6. Fenomenologia hermenêutica

  • O ser do ser-aí (Dasein) requer interpretação porque este já se compreende de algum modo, mas tende a encobrir suas próprias estruturas ao absorver as determinações correntes do mundo; a analítica existencial explicita o sentido dessa compreensão prévia.
  • A hermenêutica nomeia tanto a interpretação do ser-aí quanto o esclarecimento das condições que tornam possível qualquer investigação ontológica; sua tarefa é tornar acessível, para a compreensão, aquilo que nela já opera sem ter sido tematizado.
  • A circularidade hermenêutica decorre da própria questão: a compreensão de ser possibilita investigar o ser, enquanto a investigação deve explicitar e corrigir essa compreensão; o sentido do ser orienta a interpretação como horizonte, sem funcionar como princípio do qual os entes possam ser deduzidos.
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