estudos:king:problema-temporal-transcendencia-mundo
PROBLEMA TEMPORAL DA TRANSCENDÊNCIA DO MUNDO
KING, Magda; LLEWELYN, John. A guide to Heidegger’s Being and time. New York, NY: State Univ. of New York Press, 2001.
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Deslocamento da questão: da mundanidade do mundo para a possibilidade ontológica do ser do mundo
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A pergunta agora formulada não repete a questão anterior sobre a mundanidade do mundo, na qual se buscava desvelar a estrutura ontológica do mundo como mundo.
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A estrutura do mundo foi anteriormente localizada na significância, isto é, na coerência unitária pela qual entes se remetem uns aos outros e ao existir do ser-aí como um todo.
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A significância pode ser tentadoramente chamada essência do mundo, mas essa denominação é recusada porque essência, em uso corrente, sugere a quididade ou a possibilidade interna de um ente, ao passo que o mundo não é ente concreto nem totalidade de entes.
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O mundo é definido como o modo significativo de remissão e incidência mútua entre entes e sobre o ser-aí, de modo que a pergunta presente se torna mais radical ao indagar de que maneira o mundo deve ser, isto é, como o ser do mundo é ontologicamente possível.
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Recusa da interpretação do ser do mundo como existentia ou realidade dos entes
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O ser do mundo não pode significar existentia nem realidade no sentido do estar-aí efetivo de entes, pois tais termos nomeiam a presença factual de coisas, não a possibilidade ontológica do mundo enquanto mundo.
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A questão não visa um mundo em si mesmo concebido como o conjunto de substâncias que poderiam estar aí por si, como se mundo fosse o todo dos entes simplesmente presentes.
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Perguntar como tais substâncias estariam aí e quais conexões reais haveria entre elas antes e sem qualquer desvelamento do ser não é tarefa de uma ontologia fundamental.
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O ponto de partida da ontologia fundamental é a diferença ontológica, segundo a qual entes só se mostram como os entes que são à luz do ser e, inversamente, o ser só se mostra como ser dos entes, em modo irredutivelmente diverso do modo como os entes aparecem.
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Unidade entre mundo e ser-aí como condição da possibilidade do ser do mundo
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O mundo só é enquanto caráter único e irredutível do ser, e o ser só é em sua desvelabilidade no ser-aí fático, de modo que a possibilidade do ser do mundo só pode residir na unidade do mundo com o ser-aí enquanto ser-no-mundo.
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A transcendência do mundo não é, portanto, problema de um domínio exterior ao ser-aí, mas problema de um caráter do ser que só se dá na abertura existencial da aquidade.
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A questão do mundo reconduz imediatamente à estrutura do cuidado, na medida em que a compreensão de si em conexão com outros entes, isto é, em um mundo, é constituinte existencial do cuidado.
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O mundo é aqui compreendido como inseparável do modo como o ser-aí se descobre e descobre entes, de tal modo que sua possibilidade não se separa da possibilidade do próprio existir.
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Integração do for-the-sake-of-which na unidade da significância
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Um ponto secundário, porém relevante, consiste em que agora o para-o-bem-de-que é incluído na unidade da significância, ao passo que anteriormente se falava do para-o-bem-de-que e da significância como se fossem itens coordenados.
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A formulação anterior podia sugerir que o mundo cotidiano seria, em última instância, apenas o mundo de utensílios, como se a significância se esgotasse na funcionalidade instrumental.
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Ao integrar o para-o-bem-de-que, esclarece-se que a significância não é mero tecido de usos, mas remissão última ao poder-ser do ser-aí enquanto fim de si mesmo.
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O mundo, assim, não é reduzido à oficina, pois a coerência remissiva se unifica pelo para-o-bem-de do existir e não por um conjunto de tarefas isoladas.
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Ser-aí e mundo: não possuir um mundo, mas ser o mundo no existir
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O mundo só é aqui enquanto entes do caráter do ser-aí são aqui, de modo que a existência fática é condição de possibilidade para que haja mundo.
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A relação não é descrita como posse, como se o ser-aí tivesse um mundo, mas como cooriginariedade, pois no existir o ser-aí é seu mundo, isto é, o mundo está desvelado nele e com ele.
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A tese contrasta com o solipsismo, que toma o mundo como seu mundo no sentido de que outros entes existiriam apenas na consciência como representações.
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A interpretação do mundo como caráter ontológico do ser-aí expõe que o solipsismo nasce de confusão radical entre ser e entes, ao identificar realidade com o conjunto de coisas reais e suas conexões, e ao chamar esse conjunto de mundo.
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Realidade como modo de ser e sua dependência de desvelamento
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Realidade é caracterizada como modo de ser que só é na desvelabilidade, de modo que, cessando o desvelamento, não haveria realidade.
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A hipótese de uma catástrofe que eliminasse entes como nós não implica que entes reais como terra, mares e estrelas se dissolveriam em nada.
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O sentido dessa cessação é que tais entes não seriam mais manifestos como os entes que são, não seriam descobertos nem ocultos, permanecendo sem ser e sem nome no sentido de não estarem na esfera do desvelado.
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Só enquanto há desvelamento e descoberta, isto é, verdade, pode haver nomeação e manifestação de entes, de modo que a possibilidade de mundo se liga constitutivamente à estrutura de verdade.
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A significância como fundada na temporalidade da desvelabilidade do aqui
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A desvelabilidade do aqui é explicitamente dita fundada na temporalidade, conforme as análises anteriores mostraram em detalhe.
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Essa fundação deve igualmente tornar possível a significância, já que significância constitui a estrutura ontológica do mundo.
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O problema do mundo é, assim, reconduzido ao problema temporal, pois o mundo, enquanto coerência de sentido, não pode ser separado da estrutura temporal que sustenta a abertura do aqui.
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A passagem para o problema do horizonte temporal marca o ponto em que a transcendência do mundo deve ser esclarecida por uma estrutura própria da temporalidade.
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Horizonte e esquema horizonal como condição existencial do mundo
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A condição existencial-temporal da possibilidade do mundo reside no fato de que a temporalidade, como unidade extática, possui algo como horizonte.
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As ekstases não são apenas arrebatamentos para, pois a cada arrebatamento pertence um para-onde, isto é, um termo próprio no qual o arrebatamento se encerra e se delimita.
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Esse para-onde da ekstase é denominado esquema horizonal, indicando que o horizonte não é borda indiferenciada, mas articulado por uma forma determinante.
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O horizonte temporal puro é, assim, caracterizado por diferenciação interna, pois cada ekstase possui seu horizonte próprio definido por seu respectivo esquema.
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Os três esquemas horizonais e sua convergência com as remissões da significância
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O esquema em que o ser-aí retorna a si futuramente, em modo autêntico ou inautêntico, é o para-o-bem-de-si, pelo qual o futuro se estrutura como retorno ao próprio poder-ser.
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O esquema em que o ser-aí se desvela em disposição afetiva como lançado é caracterizado pelo em face de que foi lançado e ao que foi entregue, determinando o horizonte do ter-sido.
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O esquema do presente é definido pelo para-a-fim-de, pois o ser-aí, existindo para-o-bem-de-si e entregue a si como lançado, é simultaneamente fazer-presente como ser-junto-a, de modo que o presente se articula como orientação prática.
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Os esquemas horizonais revelam-se, de maneira surpreendente, como as próprias remissões já familiares que articulam a significância do mundo, de modo que a transcendência do mundo se torna inteligível pela estrutura remissiva do horizonte temporal.
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Clarificação do esquema do ter-sido pela complexidade do em face de e do a que
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Entre os três esquemas, o do ter-sido requer esclarecimento adicional por envolver a expressão em face de que da lançadidade, cuja polissemia impede equivalência simples com antes.
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A explicitação recorre ao uso do em face de na angústia, onde o em face de é desvelado pela própria angústia ao expor o ser-aí ao fato de já-estar-aí como não originado por si mesmo.
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O em face de aparece como unidade articulada, pois o que se mostra é o já-estar-aí revelado a partir de um nada de si, o que confere ao em face de um caráter que não se reduz a objeto determinado.
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O a que foi entregue é igualmente complexo, pois a entrega ao si lançado se dá sempre em conexão com, isto é, como entrega a um mundo, de modo que o ter-sido inclui estruturalmente um vínculo mundano.
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Função do esquema como marca distintiva e unificadora do horizonte
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O esquema é apresentado como aquilo que torna distintivamente cognoscível o horizonte, isto é, aquilo que o marca e o torna reconhecível em sua unidade.
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A formulação de que o esquema do presente é determinado pelo para-a-fim-de pode induzir a erro, mas o sentido é que o horizonte do fazer-presente é esquematicamente definido pelo para-a-fim-de.
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O esquema confere unidade e diferença ao horizonte ao mesmo tempo, pois cada ekstase se remove a um horizonte cujo caráter é unificado por uma forma definidora.
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A transcendência do mundo se torna então dependente de uma unidade temporal na qual os horizontes, embora distintos, pertencem a uma única temporalidade.
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Do esquema ao horizonte: onde sobre o qual o ser-aí é essencialmente desvelado
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O horizonte, como tal, determina aquilo sobre o qual o ente faticamente existente é essencialmente desvelado, de modo que o desvelamento sempre se dá em um sobre-o-que horizonal.
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Com o ser-aí fático, uma possibilidade de ser é projetada no horizonte do futuro, o já-ser é desvelado no horizonte do ter-sido, e o de que se cuida é descoberto no horizonte do presente.
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A inteligibilidade do ser dos entes surge assim como futuro-ser, passado-ser e presente-ser, não como mera sequência de agoras, mas como articulação extática da abertura.
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A pergunta pelo limite do horizonte e por aquilo que permitiria compreender um limite como limite permanece problemática, mas é indicada como ponto em que a finitude da temporalidade se mostra.
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Indicação do nada como correlato do fechamento horizonal
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A manifestação do nada é indicada como aquilo que fecha antecipadamente as remoções extáticas, impondo o limite intransponível da morte e o limite da impossibilidade de um retorno a um ser-aí anterior à lançadidade.
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O nada aparece tanto como outro em relação aos entes quanto como outro em relação ao ser, e sua manifestação torna patente a impossibilidade de qualquer vir-a-si além do limite extremo e de qualquer voltar-a-si para além do já-lançado.
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O fechamento do horizonte pelo nada confere ao ser-aí um limite constante que torna apreensível a ideia de permanência, isto é, o ser como estar-de-pé de algo.
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Ainda que essa inferência permaneça dependente de elaborações não concluídas, o essencial é que a finitude do horizonte é condição para que o ser dos entes seja compreensível como permanência e presença.
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Comparação estrutural com Kant e deslocamento do fundamento do concluir
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O alcance da análise existencial-temporal é apresentado como ultrapassando soluções kantianas, pois o fundamento não é buscado numa análise de uma natureza interna concebida como domínio de faculdades.
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A razão pura, em Kant, permanece sem explicação ulterior e é descrita como naturalmente orientada a completar séries de condições, buscando totalidades e inícios absolutos.
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Aqui, ao contrário, conclui-se que todo compreender, inclusive o inferir e concluir derivado, é fundado na finitude da temporalidade que já conclui antecipadamente o projeto extático da existência.
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A compreensão do ser torna-se possível a partir do horizonte formado pelo outro do ser, de modo que o compreender do ser é reconduzido ao fechamento finito que antecede e condiciona qualquer completar racional.
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Experiência do mundo como todo e a explicação pela abertura do nada
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Enquanto o mundo for concebido como totalidade de entes, permanece obscuro como tal totalidade poderia ser experimentada.
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A tese de que a totalidade de entes não pode ser apreendida é mantida, mas explica-se como, apesar disso, entes são experimentados na totalidade de um mundo, pois a manifestação prévia do nada reúne entes em um todo ao mostrá-los como não nada.
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O nada não existe, e por isso só pode revelar-se como negar, isto é, como negar acesso ao nada de si e como retirar a possibilidade de continuar sendo-aqui.
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Essa revelação não é acontecimento indiferente, mas arremesso que entrega o ser-aí a seu si fático e o dirige aos entes dos quais depende, explicando simultaneamente por que o horizonte mundano remete necessariamente a entes intramundanos.
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A transcendência do mundo como estar mais fora do que qualquer objeto
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Sendo o mundo fundado no horizonte esquematicamente definido da temporalidade inteira, ele é necessariamente transcendente, isto é, mais fora do que quaisquer entes que possam ser descobertos nele.
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O esclarecimento da transcendência do mundo expõe um traço do pensar heideggeriano segundo o qual o movimento parece partir da circunferência extrema e retornar ao aqui e agora, em contraste com a tendência comum de partir do aqui e agora e projetar para fora.
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A estrutura de espaço existencial como desdistanciamento ilustra essa orientação, na qual o primeiro não é o ponto central, mas o abrir distância como condição de retorno.
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A exposição do horizonte extático torna visível que a abertura primária é ampla e que o encontro com entes ocorre como retorno a partir dessa distância.
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Temporality holds itself in the horizons e o retorno aos entes encontrados no aqui
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A temporalidade é descrita como mantendo-se extaticamente nos horizontes de suas ekstases e, temporalizando-se, retornando aos entes encontrados no aí, o que indica constância do estar fora como condição do encontro.
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O ser-aí fático, entendendo-se extaticamente a si e ao mundo na unidade do aí, retorna desses horizontes aos entes encontrados neles, e esse retorno compreensivo é o sentido existencial do deixar-entidades serem encontradas ao fazê-las presentes.
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O caráter intramundano dos entes é definido por esse retorno, pois ser intramundano significa ser encontrado no âmbito aberto pelo mundo que o ser-aí é.
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A forma acusativa sugerida pela linguagem indica que os entes não apenas estão no aqui, mas entram no aqui, reforçando que aqui e agora não são meios subsistentes, mas modos de abertura pertencentes ao desvelamento do ser.
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Superação aparente do paradoxo: subjetividade do mundo e objetividade superior ao objeto
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Uma vez fundada a transcendência do mundo na unidade extático-horizonal, afirma-se que o problema está satisfatoriamente resolvido, pois o mundo é necessariamente mais fora do que qualquer objeto possível.
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Se sujeito for concebido ontologicamente como ser-aí existente cujo ser é fundado na temporalidade, o mundo pode ser chamado subjetivo, mas essa subjetividade, por ser temporalmente transcendente, é mais objetiva do que qualquer objeto.
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A formulação pode parecer recaída no esquema sujeito-objeto, mas o movimento visado é o inverso, pois a noção de sujeito como fundamento último é precisamente o que deve ser superado.
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A interpretação existencial-temporal concebe o ser-aí como pertencente a uma desvelabilidade do ser não produzida por ele, na qual foi lançado, e na qual recebe a tarefa de descobrir entes segundo verdades apropriadas aos seus modos de ser.
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O esquema horizonal como compreensão originária e não como rede imposta
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O esquema horizonal que define o ser das coisas por um para e revela sua remissão ao para-o-bem-de-si é rejeitado como rede arbitrária imposta por um sujeito sem mundo a um material.
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Ele é afirmado como compreensão originária de si e do mundo na unidade extático-horizonal do aqui, pois o mundo se abre com a existência e não é construído por decreto.
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O retorno a partir dos horizontes aos entes concretos descobertos neles, compreendendo-os em seus vínculos significativos com uma existência finita, revela uma conexão com as coisas mais originária do que a observação teórica de objetos substanciais.
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A transcendência do mundo é, assim, a estrutura pela qual o aqui se abre como campo de encontro, e não uma projeção subjetiva que dispensaria a alteridade dos entes.
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Retorno ao problema do esquema e contraste com Kant
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A exposição do esquema horizonal permite distinguir o esquema de interpretação, ligado ao if-then e ao as, de um esquema transcendental comparável ao kantiano.
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O esquema comparável ao kantiano é o esquema horizonal, pois ele pertence ao compreender existencial originário do ser e define o ser que se torna apreensível no horizonte extático da temporalidade.
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As diferenças aparecem como decisivas, pois há apenas três esquemas e dois deles definem remoções existenciais do ser-aí a si mesmo, enquanto só o para do presente pode ser chamado esquema categorial por definir o ser de entes intramundanos.
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As categorias kantianas esquematizadas definem o ser como realidade substancial, isto é, o modo de ser do simplesmente presente, e a tarefa sugerida consistiria em ver se o para-que do à mão pode modificar-se na mera quididade do substancial de modo a fornecer categorias e sua esquematização temporal, tarefa indicada como intenção possível, mas deixada por cumprir por depender de uma divisão não escrita.
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