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IRIGARAY, Luce. L’oubli de l’air chez Martin Heidegger. Paris: Editions de Minuit, 1983.
1. Quando passou do dentro ao fora dela, os limites dele logo aparecem, pois ele se põe, e põe o todo, cercando-se e cercando-o de bordas, aproximando-se de si e de tudo por aproximação de fronteiras, de modo que estar perto passa a ser estar posto perto, estar em, estar posto em, e ter um meio, ter coisas postas ou dispostas ao redor, entorno que se estende progressivamente num mundo em que as coisas podem ser aproximadas ou afastadas, mas permanecem sempre lá.
2. Excetua-se a assimilação, pois ele continua a assimilar para subsistir e crescer, e certas coisas ainda entram nele, mas desaparecem numa apropriação sem distância, tornando-se ele essas coisas, salvo o que não é bom, que ele devolve.
3. As coisas que ele recebe ainda sem retorno, e do outro, são primeiro fluidos, o leite.
4. Há também a voz, e ambos provêm da presença-ausência do outro fora, assimilando-os ele muitas vezes ao mesmo tempo, recusando às vezes o todo, até a morte, se um faltar ao outro, pois quer um sinal do outro para assimilá-lo, sendo preciso que assimile ainda aquela que já assimilou a si e que ela venha dar-se e redar-se à assimilação, podendo a voz ser o sinal de que é ela que volta nele.
5. A voz é em ar, presente ou ausente no e através do ar, presença e ausência do outro, fora, que volta primeiro sem aparecer, levada pelo ar.
6. O ar nunca aparece, dá-se e recebe-se sem demonstração, e por isso pode tornar-se sinal, sempre disponível para fazer-se signo da presença na e através da ausência.
7. A voz ocorre entre os dois, entre o ar sempre disponível para o todo, percebido primeiro como ausência grande demais, e o ar usado para e na entrada em presença, lembrando que a ausente está lá.
8. O signo que a phoné sempre já é esquece-se em seu uso no e para o logos, pois, usada na e pela linguagem, a voz que lembra quem está lá, que pode estar lá mesmo no nada-dizer, apaga-se diante do que se fala, e esse traço ainda fluido de uma presença que o penetra é assimilado e esquecido na verdade do que é a pensar.
9. O ar da voz não deixa marca no ser, a diferença da voz não tem lugar no ser, e essa presença, ainda sem luz e sem demonstração, fica sem lembrança.
10. Pergunta-se se ela o chamou primeiro, já que sua voz, como ar, entrou nele primeiro, se era um apelo ou uma resposta ao apelo, e se ele, ao assimilá-la, ainda distingue os dois.
11. Pergunta-se se ela o chama para ser ainda assimilada a ele, se chama a fazer nele o luto dela, se não tem outro passado ou futuro senão seu consumo-desaparecimento-apropriação no ente do ser do homem, permanecendo disponível para que ele comece a ser a partir da assimilação dela a si.
12. De seu sono-vigília ele desperta porque ela gritou, ou chamou, com sons que ele não entende, um ar ainda sem palavras nem língua, que só ouve como apelo nesse sono em que entrou, apelo em forma de grito, pois é ela que chamou nele.
13. Do lugar de seu desaparecimento, ela gritou o pavor, voltando a gritar além da língua dele, além do lugar onde ele se lembra e não se lembra, esperando serenamente aquela que não voltará, rasgando seu sono com sua presença ausente, como um sonho que fala tão próximo da realidade que ele desperta adormecido, procurando quem chamou.
14. Esse grito fora-dentro de uma ausente que não consegue desaparecer é o terror do esquecimento, pois ela sempre volta a chamar do lugar de seu desaparecimento, grita à noite, tão próxima que o grito está lá, ou nele, ou entre ambos, sem bordas, de entre as bordas, de entre o que ele salta e esquece quando faz seu luto dela.
15. Que ela esteja na borda, que o que ele julgava sólido se funda e desse abismo saia um apelo, eis o pavor.
16. Talvez ele pense que ela grita ou lembra seu nome, mas ela não tem nome e grita de onde ainda não há nome, na noite, de entre os nomes que já a comemoraram e esqueceram, surgindo como ausência ainda não entrada na presença, cujo luto ainda não foi feito, viva e no entanto desaparecida de todo lá, lembrando sua morte, talvez a morte.
17. Do fundo da língua algo sempre ameaça voltar ou desaparecer, um ou outro, ou ambos, surgindo brutalmente, chegando e não chegando a manter-se juntos na língua, e quem guarda a língua volta a rasgar a noite de suas aparições.
18. Se há uma só língua, ela nunca para de despertar com gritos-apelos dela, o ainda-sem-nome volta e se lembra sem cessar, e só quando o sol se levanta é possível entrar no sono graças à luz, pois tudo o que tem lugar de ser está lá reunido e nada surge a que não se tenha já reservado um lugar, que não tenha ainda nome ou a que não se possa logo dar um, estando seu lugar já lá.
19. Basta que ele o tome e o faça permanecer em repouso, mas esse lá exige sempre um fundo de ausência.
20. Permanece impensável se ela gritou de aflição ou de gozo, pois essa diferença de denominação ainda não entrou naquilo a que ele atribuiu nome, sendo preciso esquecê-la ainda.
21. A preocupação presente é o desdobramento da língua, impossível se ela se rasga o tempo todo, e o grito foi só um sonho, bastando que ele volte a dormir e se atenha ao cuidado da entrada em presença.
22. Se a outra não pode dormir, ele se lembrará mais tarde, quando isso entrar no espaço-tempo do presente, e que a outra permaneça suspensa entre esquecimento e espera, sono e vigília, envolta em seu desaparecimento presente.
23. Não pode ser de outro modo enquanto houver uma só língua, de cuja ausência de dialética ninguém sai, e que seus limites sejam mais ou menos nítidos a cada momento do presente, conforme o sol esteja mais ou menos alto, não impede que seja sempre o mesmo que nela se demonstre.
24. No entanto ela grita à noite, chama nele e às vezes ainda o tira do sono, irrupção de ausência presente que rasga sua língua.
25. De manhã, com o sol levantado, tudo volta à ordem, tudo está posto e disposto diante dele na luz, as coisas não entram nele nem umas nas outras durante o dia, mantêm-se à distância, com movimentos controláveis, e do lugar que ocupam chamam à aproximação, aproximando-as e afastando-as ele sem fim, brincando com seu luto e com o luto delas.
26. De seu corpo vivo ele as atrai, afasta e aproxima, estando elas lá, perto ou longe, sempre mantendo a distância de uma ou duas bordas, começando a estar presentes ou ausentes no fora e permanecendo no fora, sentidas e tocadas de fora, esquivando-se de outra aproximação que não o contato, vindo contra, sem mais.
27. Talvez esse contra provenha dele, sendo o todo contra o modo como ele repara a perda daquela que se perdeu nele, fecha e encerra seu desaparecimento e faz da ausência a condição da entrada em presença.
28. O todo contra é a indiferença de amor e ódio num afastamento sempre mantido à distância, e, quando ele as chama a vir todo contra, chama-as talvez a não voltar mais nele, a não se misturar mais com ele, salvo pelo tempo dominado de um consumo, isto é, de uma entrada na ausência da presença, onde ainda é noite, onde se mantém e não se mantém o ser.
29. No dia, esse nascer do sol com que ele alimenta sem cessar seu esquecimento, o todo mantém-se contra, nesse manter contra.
30. Da região, as coisas chamam a entrar numa relação de presença e a receber um nome, e o contra da região e da oposição das coisas apaga-se, esquece-se ou nega-se em seu apelo, pois ele diz que elas chamam para que ele lhes dê algo, talvez a possibilidade de um luto sereno.
31. O todo contra, no ódio projetado e deixado lá de um luto, chama-o a restituir tudo, mas é ele quem chama a permanecer num repouso sem fim.
32. Assim ele constitui o espaço-tempo da entrada em presença: primeiro uma assimilação dela a ele, que permanecerá na ausência da presença, depois um reenvio a ela do que não é bom, sobretudo sob a forma da imensidão de um luto projetado e deixado a ela, agora suporte do luto dela, sempre em excesso nessa vastidão presente, excesso de onde ele retira e assimila de que fazer sempre seu luto, e nesse espaço-tempo de luto o contra e a oposição do ódio esquecem-se no fato de ela chamá-lo para que lhe dê e redê o todo, que agora equivale à morte.
33. Ele só faz o luto do todo do amor numa relação com um ódio igualmente grande, grande sem destruir o todo, isto é, grande o bastante para repor e dispor o todo em sua morte.
34. Quanto mais a vida se dá e se estende, pondo o todo em relação de interpenetração e troca sem limites, mais a morte deve vir a seu encontro para repor tudo em ordem, redepositando cada coisa em seu lugar próprio, no repouso inalterável de sua vinda à presença.
35. A magia da região de onde provém a essência do pensamento está em que tudo o que lhe pertence retorna ao lugar de seu repouso, bastando que ela assimile a serenidade do pensador, seu querer do não-querer, até permanecer inteiramente alheia a toda forma de vontade.
36. A livre extensão permanece o indefinidamente disponível, em que todo movimento próprio desapareceu, prestando-se a tudo o que quer e não quer que ela esteja lá para dispor dela ou dispor-se nela, mantendo-se fora ou dentro, fora e dentro, numa abertura em que essa diferença se apaga e o aberto se perde e se esquece no começo impensável da essência do pensamento.
37. A passagem do ainda-não ao sempre-já do ser talvez se tenha dado ao deter o movimento de assimilação de uma boca deixada aberta, disponível, no suspense de um consumo, pois para dizer são precisas ao menos duas bocas, uma que toma, consome e assimila, outra que dá, redá e produz, uma que se abre e fecha sobre a necessidade de nutrir-se, outra que permanece aberta para a proveniência e a produção da palavra, e pô-las em relação no presente, ambas ao mesmo tempo, é impossível, mantendo-se o presente nesse impossível e em sua superação no êxtase.
38. No presente, a boca mantém-se aberta, e na morada dessa abertura surge e ressurge a língua.
39. A língua sempre já assimilou o que lhe é necessário para produzir-se no presente, dando-se e redando-se na aberta, que nada diz, apenas se presta a esse surgimento, participando da produção da língua numa abertura disponível, deixando-se ser aberta numa extensão cada vez mais vasta, em que a abertura apaga seu círculo e suas bordas para que a produção da língua possa sempre ter lugar.
40. Essa abertura mantida aberta assegura a passagem entre dois consumos, duas vidas e duas mortes: o consumo imediato, necessário à subsistência, que não teria lugar de ser na presença, e o consumo do pensamento meditante, que, tendo sempre já consumido o necessário, encontra seu sítio no êxtase da presença.
41. Pergunta-se o que consome ali o pensador, talvez o aberto, e em que é o aberto.
42. Isso pode dizer-se de diversas maneiras, permanecendo o único e no mesmo.
43. O aberto provém da ausência de um consumo imediato e sem diferença, da ausência daquela que se dava inteira à assimilação sem distância, do espaço-tempo presente de um luto infinito, mas provém também do sempre-demais a consumir no presente, do suspense extático de uma assimilação imediata na produção e no que ela dá e redá, no pôr à distância e em guarda que economiza o excesso, o reúne, o re-guarda no recolhimento e o deixa em repouso para outro consumo, o do pensamento meditante que se nutre de contemplação, talvez de sua própria contemplação.
44. Entre esses dois lutos mantém-se aberta a extensão que suporta o vaivém cuidadoso do pensador, boca, ventre, olho, corpo ou matéria sempre disponíveis e abertos, deixados lá como a ausência presente que torna possível a entrada em presença, extasiados na instância de sua abertura, no suspense durável de todo consumo, pois entre assimilação e produção é preciso que uma boca permaneça sempre aberta, fora-dentro disponível onde tudo e nada acontece, o que deixa em repouso e faz o todo permanecer numa salvaguarda inalterável.
45. Quando começou a erguer-se e manter-se de pé, ele fechou-se à permeabilidade e à porosidade a tudo, mantendo-se em limites, restando apenas uma abertura cercada, circunscrita, posta e disposta diante dele, ao alcance da mão, ocupando todo o espaço, depositada e projetada no lá.
46. Essa abertura é como uma boca ou um ventre, uma ou outro, ambos, talvez ambos assimilados, orlados de lábios, mas sempre abertos.
47. Sempre abertos, os lábios apagam-se em sua abertura e esquecem-se no aberto.
48. Sem lábios, não se marca a passagem de um lado a outro da abertura nem se retraversa a entrada do aberto, não se sabe de que lado está a proveniência, nem como passar de uma boca a outra, daqui a lá, sem deixar uma, outra ou ambas na assimilação de uma distância que apaga o intervalo e volta ao mesmo.
49. No êxtase de sua abertura, ela, ou elas, tornam-se inteiramente esse mesmo de onde ele provém e para onde volta sem cessar a produzir-se.
50. A livre extensão nada contém senão a abertura que se abre e deixa todas as coisas eclodir nela, pois, segundo Heidegger, ela é a extensão que faz durar e, reunindo todas as coisas, se abre a si mesma, de modo que nela a abertura é contida e mantida, deixando todas as coisas eclodir em seu repouso.
51. O que sempre se abre esquiva-se ao encontro, esquivando-se à aproximação por estar aberta, sem estender-se como horizonte perceptível, sem poder ser tocada nem pelo olhar, pois, quando ele se volta para ela, já entrou nela, já está no aberto.
52. Nela, as coisas perdem-se como objetos e, não se mantendo mais que ela para acolhê-la, jazem e repousam sobre ela, nela, no retorno de sua pertença à duração, tendo como único movimento a eclosão em seu repouso, ou no dela.
53. Tudo o que ali ocorre não pode apresentar-se nem descrever-se, apenas nomear-se e tentar pensar-se fora de toda representação.
54. Assim se abre o acesso à essência do pensamento, ou ao menos à sua espera, ou antes ao seu esperar.
55. A essência do pensamento não se encontra mais que a livre extensão ou as coisas que nela repousam, e esperá-la é renunciar a esperá-la e engajar-se cada vez mais no aberto, em toda a extensão do longínquo, junto ao qual ela encontra a duração em que permanece, retornada à sua morada, servindo-lhe o aberto apenas para progredir na espera do retorno à morada, chegar à proximidade do longínquo.
56. Pensar seria esperar retornar ao imperceptivelmente próximo no longínquo para chegar a permanecer no repouso de uma proximidade à distância, em seu próprio repouso.
57. Talvez provenha a essência do pensamento da extensão da espera a retraversar entre aquela que se misturava inextricavelmente a ele, aquela que se tornou ele em seu corpo vivo e aquela que ele reencontra próxima, mas sempre distante.
58. Pergunta-se de que é feita a essência do pensamento, quem suporta a espera, quem se presta à abertura, sempre disponível para que desse longo caminhar no aberto advenha progressivamente aquela que é esperada, como um retorno muito distante de que ele nunca termina de aproximar-se, fazendo a cada passo a essência de seu pensamento.
59. Desse caminhar incessante e dessa misteriosa região ele conversa progressivamente com outros homens, movendo-se livremente entre suas palavras, indicando-se e mostrando-se coisas, mas mantendo-as em toda a extensão do que ainda têm de dizível, dando-se confiança para perseverar no aberto e encorajando-se à serenidade, e é talvez entre eles que encontraram seu nome e tomam seu caminho juntos.
60. Se a região não tem língua, cada passo nela arrisca o abismo, e o aberto deve ser nomeado a cada passo, permanecendo ainda sem nome, para que possam progredir serenamente, e, conversando à noite nos caminhos do campo, longe de suas moradas, buscam juntos os nomes a dar-lhe, abordando a questão à distância.
61. Pergunta-se em que se fundam para medir se os nomes dados são apropriados, se em seu arbítrio, na reminiscência de um nome simplesmente esquecido, ou se descobrem no mesmo gesto o nomeável, o nome e o nomeado, produzindo assim seu próprio ser, sem que ninguém possa dizer-se autor.
62. Na região, a denominação não deve provir de ninguém, só ela responde por si, cabendo a eles apenas ouvir a resposta apropriada à palavra e repetir a resposta ouvida, pouco importando quem repete primeiro, já que ninguém sabe de onde tem o que repete.
63. Pergunta-se de onde veio a resposta e quem falou, pois ela é a região da palavra, mas não tem língua, e quem disse que a palavra era apropriada, que voz, vinda de que noite, voltando de fora, do fundo de que ausência, diz sim aos nomes que eles dão, e que obstáculo reenvia o nome ao menos uma vez antes que o repitam, julgando-o à sua medida.
64. Se o nome lhe fosse apropriado, talvez ela o tomasse, fechando-se e encerrando-o em sua assimilação, mas, sempre aberta, guardando e reunindo tudo, deixando tudo depositar-se e repousar nela sem nada assimilar, prestando-se a tudo e a todos e permanecendo sempre disponível, como se nada ali lhe fosse apropriado, resta saber o que espera.
65. Talvez ela seja ali um espelho que reflete e guarda as palavras, e essa seria, entre outras, sua participação, apenas pensável, na entrada em presença.
66. Talvez tenham sonhado que ela respondeu sim, pois era noite e ela é tão misteriosa que esperam tudo dela, até o que não esperam, o retorno da assimilação dela a ele que se esquece de dia.
67. A questão dos nomes próprios os embaraça e os leva até a disputar, numa das querelas amorosas de pensadores, sem saber quem deu o nome primeiro, o que era a nomear, o que é nomeado no emprego do nome, mas pouco importa, sendo a tarefa agora cuidar do nome que assim lhes adveio.
68. O nome veio da espera, a espera da abertura, e a espera é a relação com a livre extensão, não havendo outra.
69. No caminho, nela, em que a espera está engajada, esta deixa a livre extensão dominar sozinha.
70. Pergunta-se o que eles esperam.
71. Esperam ser mantidos em seu ser próprio por aquilo a que se relacionam, sendo essa a verdadeira relação com todas as coisas, uma relação que salvaguarda da alteração e apaga, por apropriação, a passagem do outro neles.
72. Pergunta-se o que é a livre extensão para não deixar traço algum em quem nela entra e antes reconduzir quem a penetra a seu ser, se seria o horizonte, que se vela como tal, do advento do retorno ao próprio, a essência do próprio, a substância da essência do próprio.
73. Isso provém da serenidade, pois a relação justa com a livre extensão deve ser a serenidade, e, como a relação se define a partir daquilo a que se refere, a serenidade deve repousar na livre extensão e ter recebido dela o movimento que a leva até ela.
74. Só há retorno ao mesmo, e eles esperam ser mantidos em seu ser próprio porque nela repousa a serenidade que os atrai a retornar a si mesmos.
75. Voltam-se serena e confiantemente para ela, a quem pertencem originariamente, por quem foram originariamente apropriados, que se abre para deixá-los entrar na espera do repouso em seu ser próprio.
76. A essência do pensamento provém de que a livre extensão toma em si a serenidade e a assimila, sendo a serenidade feita de espera, de relações em que só há espera, de relação com quem dá e redá o esperar como espaço de desdobramento do essencial, de caminhar sem fim que salvaguarda no suspense as atrações entre, deixando e reenviando cada um a seu próprio ser.
77. Pergunta-se quem ou o que dá a serenidade, quem ou o que a toma e a assimila.
78. Assimilar-se da ou à serenidade seria talvez assimilar-se da ou à morte, restando saber qual se assimila.
79. Pergunta-se se aquela que se deu a assimilar a ele como viva deve assimilar-se a ele como morta.
80. Pergunta-se se alguma vez se assimila a morte, a de um outro, ou se apenas se assiste a ela, tomando-a em si, deixando-a depositada em si ou sobre si, guardando-a num repouso sereno, permanecendo a mesma em toda a extensão de sua duração.
81. Para salvaguardar assim a morte é preciso permanecer viva, e a livre extensão seria morte mantida na vida e vida guardada na morte, ambas suspendendo seus vencimentos, o entre-dois do já-não e do ainda-não, o entretenimento do sempre-já e do nunca-ainda, desdobrando sua interminável duração à disposição do pensamento.
82. Pergunta-se em que pode ser o ente que suporta tal duplicidade, que matéria pode permanecer assim sem dissolver-se, decompor-se ou alterar-se, mantendo uma subsistência durável e imperceptível na presença.
83. Talvez o ar, mas qual, pois passou-se insensivelmente de um ar a outro, ambos provenientes do mesmo.
84. É permanecendo nela que a physis encontra sua eclosão e a clareira de sua luz, e, na permanência de sua abertura para o êxtase do ser-aí, ela permanece ainda um corpo nutriz, indiferenciado em sua apreensão imediata, o ar, constituído em morada na qual o homem se encaminha como na salvaguarda de sua morte, avançando num ar apropriado de modo indefinidamente durável, que mantém a distância, recuando sempre um passo a experiência de uma aproximação confundente, que envolve e vela o todo de uma transparência imperceptível e guarda cada um e cada coisa no afastamento de uma apropriação, ar sem partilha e sem mistura, em que se marca e se esquece a passagem a outro ar que não aquele que, respirado, já faz ser.
85. Respirar também quer dizer ser, e ele não pensa nisso, talvez porque há sempre ar demais e ainda não chegou a economizá-lo.
86. O que se esquece sempre se lembra, e a eclosão-desclosão do ser talvez fale do respirar do ar.
87. Esse movimento de um corpo ainda vivo ele deixa fora de seu cuidado, como acontecimento sem importância diante de sua preocupação com o ser, ar já submetido ao lançado-projetado lá, entorno de uma casa invisível que o salvaguarda enquanto mortal.
88. Esse ar em excesso, que lhe permite ter desde já cuidado de sua própria morte, dá-se e redá-se ainda graças aos outros viventes e é reenviado e reprojetado sobre eles como uma sepultura de aparências, de ares, que os separa de seu devir.
