estudos:henry:em:0.2
§2 Ontologia universal
HENRY, Michel. L’essence de la manifestation. Paris: PUF, 1963.
§2 - A necessidade da edificação prévia de uma ontologia fenomenológica universal
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O ultrapassamento do ego cogito rumo a uma problemática que visa restituir todas as suas formas ao poder da intuição e exibir o ser na totalidade de suas estruturas não deve iludir, pois a pesquisa que começa com o ego cogito permanece condicionada de modo decisivo pelo tema que se deu na origem
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a teoria da intuição rejeitou a pretensão de estender a todas as esferas do ser o tipo de evidência que dá o cogito, sendo absurdo subsumir sob uma categoria monótona de apreensão a totalidade do campo intuitivo, pois isso contradiz a estrutura do dado com seus caracteres diferentes
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Descartes foi vítima de sua ambição ao reduzir o real a essências homogêneas submetidas a um tipo único de evidência, do qual o cogito fornecia o protótipo, e ao ligar essas essências por vínculos dedutivos apreendidos no mesmo tipo de modalidade intuitiva
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é o caráter próprio da problemática do ego cogito que atribui limites indiscutíveis às demarches ulteriores da pesquisa fenomenológica, a qual, submetida ao telos da razão, continua a visar o grau de validade das posições da consciência, examinando os fundamentos intuitivos das diversas regiões do ser e o sentido de suas estruturas mais gerais
A realização dessas diferentes tarefas em sua correlação estrita é ainda apenas uma Ideia, a ideia prática e reguladora de um trabalho teórico infinito de ordem ontológica, que domina o conjunto da pesquisa e na qual vive o telos da razão-
o projeto da consciência é alcançar posições estáveis e válidas cujo correlato é o ser real, o ser verdadeiro, e o tema do pensamento é constituído por conteúdos particulares dos quais se quer ter certeza, sendo o cogito uma verdade desse tipo visada numa consciência racional
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o racionalismo cartesiano confere ao cogito sua significação filosófica e busca decidir-se em favor de outras verdades análogas, refletindo sobre as condições que permitem decidir-se racionalmente
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o cogito serve de protótipo em duplo sentido: porque o ser que exibe é um ser verdadeiro em sentido exemplar, e porque o modo pelo qual se obtém no cogito tal verdade serve de modelo a toda apreensão que quer gozar de certeza racional, permanecendo o cogito o ideal de uma pesquisa que nele se realizou pela primeira vez
A razão não é uma faculdade do universal, mas se dedica, ao determinar a validade das posições da consciência dentro de um quadro de evidência ligado ao sentido original do ser de uma região dada, a uma tarefa orientada para a descoberta de verdades particulares-
quanto mais rigorosa é a determinação dos conteúdos legitimados pela reflexão e mais numerosas as esferas de ser submetidas ao trabalho metódico da razão, mais decisivo e fatal é o esquecimento em que se move a filosofia, esquecimento que concerne ao universal mesmo em sua essência própria
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a tarefa da filosofia não é acumular verdades, e se a ciência visa legitimamente aumentar o saber edificando sistemas de conhecimentos cada vez mais vastos, ela não evita o erro, mas antes se vota a ele em princípio
Perde-se a significação da fenomenologia da razão ao reduzi-la a preocupações de ordem exclusivamente ôntica, ainda que as ciências, numa crise dos fundamentos, considerem por si mesmo o rebaixamento ontológico sobre o qual se apoiam implicitamente, sendo então convocada a razão à sua destinação filosófica própria-
a significação da fenomenologia da razão permanece limitada porque o sentido do ser sobre o qual ela trabalha permanece subordinado ao império das regiões, não podendo a ontologia regional igualar-se à tarefa fundamental da ontologia enquanto permanece cega quanto a seu próprio fundamento
A pesquisa que toma por tema o sentido do ser em geral, a ontologia fenomenológica universal, distingue-se das ontologias regionais e também da ontologia formal, a qual domina apenas de modo formal as diversas ontologias regionais-
ao refletir sobre a essência da região considerada como forma vazia de uma região em geral, a ontologia formal só pode prescrever às ontologias materiais uma legislação comum de pura forma, sendo incapaz, com suas categorias analíticas, de submeter as categorias sintéticas das regiões materiais
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tal preeminência não é sequer evidente, pois é no reino das essências materiais que a ontologia formal extrai sua origem, já que a essência pura de uma região em geral é necessariamente relativa a algo como uma região concreta
À dependência fundamental da ontologia formal, a ontologia fenomenológica universal opõe sua autonomia e suficiência primeira, sendo o universal que ela exibe um termo concreto pressuposto por cada região do ser, o próprio ser, essência primordial de toda região e de tudo o que é-
o ser individual, o gênero, a espécie lhe são submetidos não por regulação formal ou lógica exterior, mas em seu próprio ser, sendo o ser presente em todo objeto como o que lhe permite estar presente, realizando a essência da presença
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questiona-se se essa essência da presença não se reduziria a uma forma vazia acoplada a uma existência material, e se a essência da presença não significaria antes a dissolução de toda presença efetiva
É a essência que se anuncia nessa dissolução, sendo o desaparecimento de todo existente efetivo, com a tonalidade afetiva que o acompanha, o dado fenomenológico sobre o qual deve apoiar-se todo pensamento que queira realizar a essência-
a essência se propõe como o que não é o ente, o que não é nada do que existe, mas não é simples negação nem pura privação, sendo antes essência mesma justamente por ser essa privação, de modo que ser indigente e ser, para o ser, é a mesma coisa
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o ser não é ser senão sobre o fundamento do Nada nele, sendo o nada uma operação efetiva pela qual o ser se realiza, nada real que ao nadificar realiza a essência do ser e origina a expulsão para fora do ser pela qual o ente é promovido a existente
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o ser apresenta-se à reflexão do filósofo como um nada relativo, tomado em sua relação ao ente como o que não é o ente, transgressão do ente só possível sobre o fundamento de um nada real que constitui a essência mesma do ser
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o tema da ontologia fenomenológica universal não é assimilável a uma essência puramente formal ou vazia, nem termo abstrato de metafísica oca, mas na indigência em que se angustia o pensamento do ser levanta-se a essência absoluta em sua concreção mais alta, identidade do ser e do nada
A ontologia fenomenológica universal esbarra necessariamente na questão de saber se é outra coisa senão um jogo de palavras e conceitos sem correspondência estrita, mas quando tal objeção se esclarece a si mesma interpreta-se como progresso do pensamento no trajeto que leva à essência-
é a essência positiva do ser que se desvela no caráter aparentemente inessencial da essência, e que tal essência seja positiva em sentido último manifesta-se no fato de ser a condição em que tudo o que é encontra seu fundamento, sendo a ontologia fenomenológica universal, assim orientada, a ontologia fundamental
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