estudos:henry:em:0.1
§1 Introdução
HENRY, Michel. L’essence de la manifestation. Paris: PUF, 1963.
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A citação de Heidegger sobre o cogito sum cartesiano é posta como epígrafe: com o cogito sum, Descartes pretende dar à filosofia uma base nova e segura, mas deixa indeterminado o modo de ser da res cogitans, mais exatamente o sentido do ser do sum
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O sentido do ser do ego é o tema da investigação, que busca trazer à luz o que se entende quando se diz, a todo propósito, eu, mim, e questiona se o ego não pertence de forma eminente ao domínio do mais corrente e banal, apesar de a psicologia já ter feito do eu um objeto de estudo
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a psicologia estuda a formação da ideia do eu, seu conteúdo e seu papel na vida psíquica, mas não esclarece o sentido do ser desse eu
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pouco crédito pode ser dado a pesquisas que nunca esclareceram a si mesmas e que tratam o eu como objeto ou sujeito sem antes questionar a condição de possibilidade de todo objeto como tal, falha que já estava presente em Descartes
Toda questão deve tornar-se transparente a si mesma antes de pretender obter qualquer resultado, distinguindo se sua problemática é originária e fundamental ou se depende de uma pesquisa anterior da qual ela seria tributária-
uma problemática dependente implica pressupostos não elucidados e resultados tomados de empréstimo, dificuldade geral de toda pesquisa particular
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somente uma problemática verdadeiramente originária e absoluta, que já esclareceu o que torna possível todo conhecimento como tal, possui independência e garantia interna de validade, exigência há muito reconhecida pela filosofia primeira
Questiona-se se o problema do ser do ego pertence à filosofia primeira, já que toda questão sobre o ego em seu ser pressupõe uma resposta ao problema do sentido do ser em geral-
quando se diz eu estou contente ou simplesmente eu sou, o que é visado só é possível porque o ser já se manifesta previamente
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o verdadeiro objeto de uma pesquisa primeira deveria ser não o ego mesmo, mas o ser do ego, ou o ser através do qual o ego pode surgir à existência, o que torna o começo cartesiano não radical, pois repousa sobre um fundamento não explicitado e mais radical que ele
A ontologia, ciência do ser em geral enquanto ser, é necessariamente universal, pois seu objeto não é esta ou aquela coisa, mas aquilo que condiciona todas igualmente, constituindo a filosofia primeira à qual toda pesquisa, inclusive a do ego, deve subordinação, subordinação essa cujo vínculo complexo com a problemática do ego servirá de introdução ao problema do ego1 - A ideia de uma evidência apodítica como via de acesso privilegiada ao ser do ego
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Descartes acreditou poder prescindir do contexto ontológico necessário à elucidação de toda questão porque esse contexto lhe parecia fonte de confusão, sendo necessário rejeitar todos os pressupostos da tradição histórica e todos os preconceitos para que a pesquisa pudesse verdadeiramente começar
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abre-se assim para a filosofia uma via régia que conduz diretamente ao resultado, voltando as costas a todas as teorias que mascaram o real e retornando às coisas mesmas, ensinamento cartesiano
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Descartes compreendeu que o que se dá verdadeiramente a nós não se deixa reconhecer facilmente, e ao submeter todo o dado da experiência a uma crítica sistemática percebeu que o que se oferecia sob o modo de uma evidência irrecusável era o ego cogito
O lugar central atribuído ao ego cogito pela pesquisa filosófica implica pressupostos ligados à natureza mesma de uma pesquisa que obedece à ideia de uma verdade a atingir, sendo a evidência o telos de toda vida intencional, problemática que se situa no prolongamento natural da vida e serve de contexto ao surgimento do ego cogito como tema da meditação filosóficaA problemática da evidência pertence à fenomenologia da razão, sendo a radicalização, conforme o sentido da intencionalidade, de uma problemática da intuição, esta última fundamento de toda asserção racional cujo esclarecimento é exigido pelo estudo da razãoA análise filosófica da intuição e de sua estrutura fundamental, o exame dos diferentes tipos de intuição e a elucidação do campo do dado intuitivo constituem a primeira tarefa da fenomenologia, que ao persegui-la afasta preconceitos, mostrando contra o empirismo que a experiência sensível realiza apenas um tipo fundamental de intuição-
a intuição eidética pressuposta pelo empirismo evidencia a existência de uma intuição de essência, a partir da qual se investigam os diferentes tipos eidéticos de intuição e seu valor respectivo
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o ser que se dá originariamente a essas consciências intuitivas distribui-se em regiões às quais correspondem tipos determinados de intuição doadora, havendo para cada região uma forma privilegiada de se dar quando o ser se apresenta em pessoa a uma consciência intuitiva
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essa situação caracteriza-se pelo preenchimento das intenções significantes da consciência até a presença viva da coisa mesma, o que define o grau da evidência, cuja perfeição não depende apenas do esforço subjetivo, mas é prescrita pela estrutura ontológica própria da região considerada
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seria absurdo pretender obter uma evidência adequada relativa a um objeto cuja estrutura eidética e gênero regional excluem por princípio tal tipo de evidência, podendo-se apenas definir para cada esfera do ser um modo de dado rigorosamente caracterizado, conduzindo à circunscrição de tipos fundamentais de evidência correlacionados às diferentes regiões
Os diferentes tipos de evidência têm grau igual de validade por obedecerem a uma legalidade eidética correspondente a estruturas apriorísticas das regiões, ainda que não possam ser postos todos no mesmo plano, havendo uma discriminação de ordem axiológica fundada numa teleologia de significação universal imanente à vida intencional-
conforme essa teleologia, a consciência volta-se às evidências de grau de perfeição notável, sendo o mais alto grau a evidência imediata e originária na qual todos os elementos de intenção significante são preenchidos por intuição correspondente, sem nada de obscuro restante, dando certeza absoluta da existência do ser apreendido
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enquanto permanecer aberta a possibilidade de o ser apreendido na evidência tornar-se objeto de dúvida, a evidência não é perfeita, devendo apresentar um caráter segundo o qual não pode ser desmentida pelo curso ulterior da experiência
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somente a evidência apodítica oferece à reflexão filosófica a garantia de que o objeto fornecido não mudará, sendo sempre reencontrado idêntico a si mesmo, razão pela qual o objeto da evidência apodítica é dado numa certeza absoluta e desempenha o papel de um verdadeiro começo
A consciência que visa a obtenção da evidência apodítica não se orienta livremente, pois há relação estrita entre o tipo eidético da evidência e o gênero de ser que ela exibe, de modo que o ego cogito torna-se necessariamente seu tema, o que não ocorria originalmente-
nem o ego enquanto tal, nem o autoconhecimento, nem qualquer individualismo ou solipsismo afetivo ou metafísico têm inicialmente o favor da consciência cartesiana, consciência racional que visa o universal e o apodítico
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o ego só surge diante dela porque é o único ser capaz de fornecer a uma tal consciência um preenchimento intuitivo adequado, sendo o conteúdo que deve captar e ordenar a si uma filosofia orientada para a ideia de uma certeza absoluta
O paradoxo que liga a realidade singular do ego, sempre o seu próprio, à consciência cuja significação é atingir o universal, não se deixa superar facilmente, e deveria ser objeto de uma problemática explícita capaz de revelar o vínculo original entre o problema da verdade e o do ego-
a filosofia clássica nunca elevou esse vínculo a problema, e a razão tenta escapar do paradoxo afirmando que a consciência do cogito não é individual, mas verdadeira, sendo o dado intuitivo originário apenas o motivo de uma posição racional
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a evidência é a unidade da posição racional com o dado que a motiva, unidade que no caso do cogito reveste forma privilegiada em razão da região de ser de onde a intuição extrai seu conteúdo, tornando possível uma posição racional cuja validade não pode mais ser questionada
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encontra-se assim uma verdade primeira que é um ser verdadeiro e real em sentido absoluto, sendo o cogito o primeiro elemento de uma ciência racional que nele realiza seu projeto de apodicticidade, ponto de partida a partir do qual a consciência pode viver na certeza
Sendo o cogito uma posição racional em sentido privilegiado, uma vez efetuada essa posição abrem-se duas vias para a meditação do filósofo, cabendo saber se a elucidação do ser do ego será tomada como fim próprio, tarefa de interesse racional eminente dada a apodicticidade das evidências que regem o domínio de ser do ego cogito-
tal pesquisa, sob o título de fenomenologia racional do ego, constitui apenas uma pesquisa particular, ocupando lugar estritamente delimitado no conjunto das pesquisas fenomenológicas cujo telos é a elucidação sistemática do ser em todas as suas diferenciações eidéticas
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a razão deve ser entendida em sentido ampliado, não podendo ser limitada a um único tipo de evidência por privilegiado que seja, sendo antes reflexão sobre o conjunto das posições fundadas na totalidade dos tipos de evidência e no império das regiões correspondentes
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cada domínio comporta um tipo de posição racional que obedece a modalidades intuitivas e racionais rigorosamente definidas, cuja confirmação e cujo modo de realização da racionalidade correspondente são objeto de estudo que pretende igualmente à apodicticidade, de modo que o ser do ego perde seu privilégio exclusivo à medida que a consciência filosófica se esforça por realizar em toda sua amplitude uma visão racional do ser
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