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Stimmung
HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985 / The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993.
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A analítica existencial de Ser e Tempo não tematiza a corporeidade como Husserl ou Merleau-Ponty, pois a espacialidade do corpo é habitada pela transcendência e pelos projetos incessantes, não se reduzindo a uma mera presença espacial ou à proximidade sensível.
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O que está mais próximo para o Dasein não é o que toca espacialmente seu corpo, mas aquilo para o qual ele é livre para se mover, e a capacidade de reduzir distâncias não ensina verdadeiramente a situar-se na proximidade das coisas.
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O corpo não é um “existencial” porque estruturas mais originais, como a transcendência, a disposição e a lançamento, são anteriores a ele, e a compreensão do mundo acontece imediatamente ao corpo, não havendo sensações “puras”.
A percepção acústica, por exemplo, funda-se na escuta, que por sua vez se funda na compreensão, de modo que não há percepção sem faculdades e não há faculdades sem compreensão, sendo a compreensão sempre ligada a uma preocupação prática e circunspectiva.-
A sensibilidade corporal não existe puramente “fisicamente”, mas é permeada de compreensão e disposição, e o sentido não é adicionado ao “sensível”, mas é imanente a ele desde o início, como na visão grega de Apolo na estátua.
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A compreensão é mais original que a sensação pura ou a percepção visual, e o corpo está sempre inserido na atividade disposta projetada pelo Dasein, sendo também uma manifestação da facticidade ou do lançamento.
O lançamento abrange todo “passado” do Dasein, incluindo o passado inteiramente anterior dos seres “naturais” aos quais ele está misturado, e implica que o Dasein deve assumir sua “dívida” em relação ao conjunto de suas possibilidades, sem que uma apropriação plena seja possível.-
A disposição fundamental revela a facticidade, o já-aí do aí, e todo entendimento é sempre disposto, sendo a disposição o que ancora e faz lembrar sua ancoragem, não se limitando a uma auto-afeição ou estado corporal subjetivo.
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A disposição não fornece primeiro acesso a uma interioridade subjetiva, mas é uma sintonia que emana das próprias coisas, e sem ela não haveria conhecimento, pois não haveria desejo de conhecer, sendo tão originária quanto a compreensão.
A disposição abre o mundo de maneira radical, manifestando a totalidade dos seres e modificando a aparência global do mundo, e é em termos do solo da disposição que o Dasein apreende “suas” possibilidades, revelando a conexão estranha entre facticidade e totalidade.-
A disposição mantém uma relação privilegiada com o corpo, mas não é determinada por modificações fisiológicas, podendo encerrar o homem em sua corporeidade ou transportá-lo, dependendo de como o corpo é uma das vias de expressão da disposição.
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A disposição é um caráter existencial, ontológico e não fisiológico, que descreve as estruturas primordiais do ser-no-mundo, sendo o ancoradouro e o lastro do mundo, não se reduzindo a um sentimento puramente interior ou a uma emoção subjetiva.
A disposição se distingue do sentimento por ser um sentimento não intencional, não referido explicitamente ao ego, tendo uma impessoalidade e uma neutralidade próximas à objetividade, e é o solo do sentimento, sua dimensão anterior.-
A disposição faz o “aí” vir à luz antes do Si mesmo, e quando se torna subjetiva e interiorizada, o sentimento se aliena da situação, como na diferença entre a disposição prévia para amar e o amor como sentimento por alguém.
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A disposição é descrita como uma melodia que não flutua sobre a presença supostamente genuína do homem, mas que harmoniza e determina seu estilo e seu modo de ser, abrindo mais amplamente para o mundo do que qualquer percepção e conceito.
A análise da disposição exige uma redefinição da relação entre sentimento e razão, reconhecendo que o sentimento tem uma significação maior e mais radical do que a racionalidade, mas sem inverter a preeminência tradicional em favor do romantismo ou de Nietzsche.-
A razão só pode colocar em ordem o mundo revelado e aberto pela afetividade pré-subjetiva, e um sentimento não relacionado ao eu é vago ou obscuro apenas do ponto de vista da razão, possuindo sua própria inteligência.
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A análise da disposição implica uma ruptura com o primado tradicional da interioridade e da consciência, esboçando um modo de presença “afetiva” das coisas que permite que elas sejam elas mesmas, fora da apropriação individual através dos sentimentos.
Uma disposição fundamental é rara e se manifesta como um estranhamento súbito do familiar, como a angústia, que arranca da cotidianidade e faz tocar a textura e os limites do ser-no-mundo, colocando em relação com o solo noturno do mundo, a Terra.-
A angústia, diferentemente do espanto grego, é a disposição fundamental do outro começo, revelando o vazio sombrio da ausência de meta e a fuga diante das decisões primeiras e últimas, acompanhando o colapso das verdades metafísicas.
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O espanto, como disposição fundamental do primeiro começo, fez os gregos verem e nomearem os entes como tais, mas tornou-se estranho para nós, que sabemos e dominamos demais a essência das coisas para sentir seu surgimento enigmático.
A angústia, como o espanto, inicialmente deixa sem palavras, mas enquanto o espanto é o espanto diante do dom do ser, a angústia é a experiência do recuo do ser, na qual os entes se mostram, mas como completamente escapando à apreensão instrumental familiar.-
A angústia é a única disposição que proporciona a experiência fundamental do nada, e somente com base na manifestação original do nada pode o Dasein aproximar-se dos entes, sendo uma experiência pela qual toda fala é retirada, colocando a própria História entre parênteses.
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A angústia não se opõe à alegria ou à serenidade, mantendo-se numa aliança secreta com a serenidade e a doçura do aspiração criadora, e por revelar o que a metafísica esqueceu, coloca no caminho de uma relação pós-metafísica com o ser, devendo ser chamada de escatológica.
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