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estudos:greisch:ot:9

§9 Analítica existencial

Jean Greisch, Ontologie et temporalité §9

1. Do ponto de vista terminológico, este parágrafo figura entre os mais importantes da obra, sendo aqui que Heidegger define a base conceitual elementar de toda a sua analítica, convindo, antes de examiná-la em detalhe, fazer um primeiro inventário dos termos técnicos que nele figuram, a saber, Dasein, Jemeinigkeit (cada-vez-meu), Vorhandenheit/Existenz (subsistente/existência), Eigentlichkeit/Uneigentlichkeit (propriedade/impropriedade) e existenciais/categorias.

1. O cada-vez-meu ou a ontologia na primeira pessoa

2. Tendo já comentado o sentido do primeiro termo, aborda-se diretamente o cada-vez-meu sobre a qual se abre o parágrafo 9, tratando-se de reconhecer claramente que o ente a analisar somos nós mesmos a cada vez, sendo o ser desse ente a cada vez meu, o que significa que a questão do sentido do ser, quando colocada, coloca-se necessariamente na primeira pessoa, sendo trair o sentido existencial da questão do ser fazer dela o equivalente de um objeto visado na terceira pessoa, questão que não tem a forma do “o que sou eu?”, mas do “quem sou eu?”.

  • “O ser desse ente é a cada vez meu” (SZ 41).

O cada-vez-meu visto por um humorista francês: Só acontece comigo

3. O poema de Raymond Devos ilustra, pelo jogo entre “só acontece comigo” e “só acontece aos outros”, a estrutura do cada-vez-meu, segundo a qual aquilo que parece acontecer apenas aos outros acaba por acontecer também a quem o observa, concluindo-se que aquilo que só acontece aos outros também acontece a mim, e que dessa constatação nasce um sentimento de solidariedade.

  • “Só acontece comigo!”
  • “Só acontece aos outros!”
  • “O que só acontece aos outros também me acontece a mim!”

2. Dois sentidos do verbo existir: Vorhandenheit e existência

4. Existir passa então a significar algo distinto de simplesmente ter lugar, caracterizando o simples ter lugar os entes aos quais a questão do quem não pode se aplicar, sendo justamente esse o sentido que o verbo existir e o substantivo existentia possuíam na ontologia tradicional, sentido que Heidegger designa pelo termo Vorhandenheit.

5. Pela mesma razão, o termo existência, em sua definição heideggeriana, não pode mais ser oposto ao termo essência como o era na ontologia tradicional, a qual repartia claramente o discurso relativo ao ser em dois registros, a saber, a existentia, resposta à questão an sit, e a essentia ou quidditas, resposta à questão quid sit, não admitindo essa tradição senão um único caso em que existência e essência se confundiam, o do ser divino, ao passo que para Heidegger a essência do Dasein reside em sua existência, o que significa que a existência não é algo cujo ter-lugar se constata nem algo ao qual se atribuem propriedades essenciais uma vez constatada sua existência.

  • “A essência do Dasein reside em sua existência” (SZ 42).

6. Pela mesma razão, o Dasein é refratário à técnica habitual da definição, não sendo um caso particular de uma espécie como Sócrates é caso particular da espécie humana, sendo sua descrição, se descrição há, ao mesmo tempo uma advocação (Ansprechen), fazendo intervir o pronome pessoal que se torna assim uma espécie de indicador linguístico do cada-vez-meu.

3. Autenticidade e inautenticidade

7. O cada-vez-meu conota necessariamente uma relação de si a si, podendo essa possibilidade fundamental de relacionar-se consigo mesmo apresentar dois rostos diametralmente opostos, o do pertencimento a si próprio ou o da perda de si, sendo capital não confundir a significação ontológica desse par nocional com uma subordinação hierárquica entre duas ordens de valores, preferindo-se, apesar do risco de mal-entendido que a tradução por autenticidade e inautenticidade sempre comporta, conservá-la.

4. O Dasein no cotidiano: a medianidade

8. A mesma vigilância crítica se impõe a propósito dos termos de cotidianidade e de medianidade (Durchschnittlichkeit), devendo-se afastar aqui também toda conotação moralizante e ater-se estritamente à definição ontológica dos termos, sendo a analítica existencial uma hermenêutica na medida em que não pode contentar-se em descrever objetivamente as propriedades de um ente, devendo antes propor uma interpretação ontológica da existencialidade da existência, o que equivale a explorar as possibilidades que o constituem e em função das quais ele se compreende de uma ou outra maneira.

9. Compreender o Dasein em função de suas possibilidades não significa privilegiar certas maneiras de ser particularmente nobres ou interessantes em detrimento de outras, devendo antes a analítica interessar-se pelo que há de mais banal e mais cotidiano em nossas vivências e comportamentos partilhados com o homem comum, recebendo agora aquilo que fora apresentado como cotidianidade a qualificação terminológica de medianidade, podendo ilustrar ontiquamente esse fenômeno o que as sondagens de opinião extraem como média dos comportamentos e opiniões.

10. A tarefa da analítica é a descrição da positividade do fenômeno em questão, tarefa habitualmente negligenciada, sendo a cotidianidade do cotidiano um fenômeno altamente complexo que não se pode abordar apenas por via narrativa, não bastando narrar em detalhe a vida cotidiana hora a hora ou dia a dia para apreender a estrutura existencial da cotidianidade, explicando-se a negligência desse fenômeno pelo fato de que aquilo que é onticamente mais próximo e mais conhecido é ontologicamente o mais distante e o não-reconhecido, ilustrando Heidegger essa dificuldade com a bela passagem das Confissões de santo Agostinho em que este descreve o que lhe é mais próximo, a saber, o eu, como sendo ao mesmo tempo o que há de mais difícil de compreender.

  • “O que é onticamente mais próximo e mais conhecido é ontologicamente o mais distante, o não-reconhecido” (SZ 43).

11. A medianidade cotidiana não é uma simples alienação que tornaria impossível toda compreensão de si, correspondendo antes a uma maneira particular de o Dasein ser afetado por si mesmo, não podendo a analítica contentar-se com evocações vagas dessa estrutura, devendo antes visar o mesmo grau de precisão que a descrição do ser autêntico, revelando-se então que a cotidianidade coloca diante de um conceito específico de tempo.

5. Existenciais e categorias: existir se diz de múltiplas maneiras

12. A originalidade da noção de existencial, introduzida anteriormente, pode agora ser precisada por comparação com as categorias da ontologia tradicional, arriscando-se a fórmula segundo a qual os existenciais estão para o Dasein assim como as categorias estão para o ente subsistente, sendo existenciais e categorias as duas formas fundamentais possíveis de caráter de ser, devendo-se lembrar que, entre as múltiplas significações do ser, Aristóteles atribui importância particular às figuras da predicação ou categorias, as quais delimitam, no interior da polissemia fundamental dos sentidos do ser, uma polissemia mais regional correspondente a outras tantas maneiras possíveis de interrogar o ente subsistente, correspondendo do mesmo modo os existenciais a outras tantas maneiras possíveis de interrogar o Dasein, definindo-se a forma geral de uma interrogação sobre o ente subsistente pela questão o que é? e a forma geral de uma interrogação sobre o Dasein pela questão quem?

  • “Existenciais e categorias são as duas formas fundamentais possíveis de caráter de ser” (SZ 45).

13. Sendo correto esse paralelo, pode-se transferir aos existenciais o problema central da análise aristotélica das categorias, discutido por toda a tradição posterior, a saber, como gerir tal multiplicidade, se contentando-se com uma lista puramente rapsódica em forma de enxame ou organizando-a em sistema sob a forma de uma tábua das categorias, consistindo a solução intermediária, que parece ter sido a de Aristóteles, em definir um vínculo interno entre as categorias que remetem a um termo primeiro, a substância, podendo-se perguntar se essa solução não valeria igualmente, mutatis mutandis, para a lista heideggeriana dos existenciais, sendo evidente, porém, que nesta o termo de referência primeiro já não tem nada de uma substância.

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