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estudos:greisch:ot:38

§38 Verfallen - decadência

A “decadência” aparece como uma modificação da inautenticidade (Uneigentlichkeit), já introduzida em §9. Em uma primeira aproximação, poderíamos dizer que, enquanto a inautenticidade expressa um “estado”, a decadência é um movimento, o movimento pelo qual o Dasein dá as costas a si mesmo, à sua própria ipseidade, para se abandonar ao mundo. É a especificidade desse movimento ou movimentos existenciais que precisa ser compreendida. A categoria existencial da “decadência” aparece, portanto, muito claramente como uma metamorfose do que Heidegger então chamou de Ruinanz (“ruína”). (1994 p. 226)

1. Resta identificar o denominador comum do ser-em cotidiano, escolhendo-se designá-lo por meio de um termo muito difícil de traduzir, Verfallen, não sendo inteiramente satisfatórias nem a tradução por decadência nem outras propostas, preferindo-se ater-se a essa medianidade, que as demais traduções não melhoram, tendo antes o termo conotações a evitar, como ocorre com decadência em sentido administrativo e jurídico.

2. Resignando-se pois a conservar o termo usual de decadência, tanto mais importa levar muito a sério a advertência de que esse termo não exprime apreciação negativa alguma, multiplicando-se as precauções contra os mal-entendidos possíveis.

  • “Apreciação negativa [negative Bewertung]” (SZ 175).

3. A primeira advertência dirige-se aos teólogos que poderiam ter a impressão de que, ao se falar de decadência, o status corruptionis, tal como definido pela doutrina do pecado original e da queda, não estaria longe, não se tendo, contudo, disso nem experiência ôntica alguma nem, ontologicamente, possibilidade ou fio condutor algum para interpretá-lo, sendo essa uma pura consideração de estrutura anterior a toda consideração desse gênero, distinguindo-se nitidamente de uma consideração teológica, não se propondo teologia camuflada alguma, não tendo essa análise, por princípio, nada a ver com ela.

  • “Disso não apenas onticamente não temos experiência alguma, mas ainda, ontologicamente, não temos possibilidade e fio condutor algum para interpretá-lo” (SZ 176).
  • “O que aqui se propõe é uma pura consideração de estrutura que vem antes de todas as considerações desse gênero” (GA20, 391).
  • “Não se propõe uma teologia camuflada; por princípio essa análise não tem nada a ver com ela” (GA20, 391).

4. Outras advertências completam a dirigida aos teólogos, não sendo a decadência tampouco uma propriedade ontológica má e deplorável que uma humanidade mais evoluída deixaria para trás, visando essa advertência o moralista e o historiador da cultura, não tendo o conjunto das estruturas existenciais recobertas pelo termo decadência nada a ver com a moral e a moralidade.

  • “Propriedade ontológica má e deplorável” (SZ 176).
  • “Nada a ver com a moral e a moralidade” (GA20, 390).

5. Ao final do parágrafo encontra-se ainda uma terceira advertência, não se tratando também de sancionar uma visão noturna do Dasein que viria compensar uma apresentação demasiado anódina, confirmando-se assim a recusa dirigida ao irracionalismo sob todas as suas formas.

6. Munidos dessa tríplice advertência, cabe agora compreender o que se tem positivamente em vista, aparecendo a decadência como uma modificação da inautenticidade já introduzida anteriormente, podendo-se dizer, em primeira aproximação, que, onde a inautenticidade exprime um estado, a decadência é um movimento, o movimento pelo qual o Dasein vira as costas a si mesmo, à sua própria ipseidade, para entregar-se ao mundo, tratando-se de compreender a especificidade desse movimento ou desses movimentos existenciais, sendo revelador, nesse sentido, o título da análise correspondente dos Prolegômenos, “Os caracteres da mobilidade própria da decadência”, reencontrando-se assim um problema já entrevisto desde 1921-1922, aparecendo a categoria existencial da decadência claramente como metamorfose daquilo que então se chamava Ruinanz.

  • “Os caracteres da mobilidade Bewegtheit] própria da decadência” (GA20, 388).

7. Como descrever essa mobilidade? Ela se caracteriza por três traços, o aspecto tentador, o aspecto do apaziguamento e, enfim, a alienação, lembrando-se que já desde 1921-1922 havia sido esboçada uma caracterização formal-indicativa da ruinância que retinha quatro traços fundamentais, o tentativo, o quietivo, o alienativo e o negativo, reconduzindo a análise da decadência a esse mesmo canteiro.

8. É difícil restituir em outra língua os dois verbos abfallen e verfallen que caracterizam a relação consigo mesmo e com o mundo próprios da decadência, podendo-se encontrar uma ilustração deslocada do sentido desses verbos no registro religioso, traindo o Dasein sua própria autenticidade ao sucumbir ao mundo.

  • “Traição do Dasein de sua autenticidade [Abfallen des Daseins von seiner Eigentlichkeit]” (GA20, 390).

9. Curiosamente, ao mesmo tempo em que se afasta toda conotação teológica, isso obriga a falar a linguagem da tentação, pois é ela que exprime mais adequadamente o aspecto dinâmico, a mobilidade própria da decadência, sendo o ser-no-mundo em si mesmo tentador, vindo essa tentação tanto de dentro quanto de fora, mantendo o ser-explicitado público, tornado assim já para si mesmo uma tentação, o Dasein em seu ser-decaído, podendo perguntar-se se o equivalente funcional do Príncipe deste mundo seria o impessoal.

  • “O ser-no-mundo é em si mesmo tentador versucherisch]” (SZ 177).
  • “Tornado assim já para si mesmo uma tentação, o ser-explicitado público mantém o Dasein em seu ser-decaído Verfallenheit]” (SZ 177).

10. Isso fornece uma primeira ideia do que é a decadência enquanto modo existencial do ser-no-mundo, manifestando-se concretamente sob a forma de um flutuar desprovido de solo, sendo agora essa ausência de solo experimentada como queda, traduzindo-se literalmente que o Dasein desmorona nele mesmo a partir de si mesmo, mergulhando no vazio da inanidade da cotidianidade imprópria, não sendo o desenraizamento um estado, mas um movimento turbilhonante, podendo chegar até a vertigem completa, sendo provavelmente esse estado de vertigem que convoca o movimento compensatório do apaziguamento artificial.

  • “Modo existencial do ser-no-mundo” (SZ 176).
  • “Flutuar desprovido de solo [bodenloses Schweben]” (SZ 177).
  • “O Dasein desmorona nele mesmo a partir de si mesmo, mergulha no vazio da inanidade da cotidianidade imprópria” (SZ 178).

11. Resta examinar o último traço dinâmico do fenômeno, a alienação, introduzida precisamente neste contexto porque o apaziguamento não é verdadeiramente tal, sendo todos os meios bons para tranquilizar-se quando se está tomado pela vertigem generalizada, sendo o Dasein, nessa comparação tranquilizada e universalmente compreensiva de si mesmo com tudo, arrastado para uma alienação em que seu poder-ser mais próprio se esconde de seus próprios olhos, sendo o ser-no-mundo em estado de decadência ao mesmo tempo tentador, tranquilizador e alienante, nada tendo essa definição existencial rigorosamente a ver com o conceito marxista de alienação.

  • “Tentador e tranquilizador, o ser-no-mundo em estado de decadência é ao mesmo tempo alienante” (SZ 178).

12. Ao termo dessa análise, a ideia de faticidade recebeu uma determinação singular, cortando-se definitivamente todas as pontes com a factualidade dos fatos, sendo o mundo dos fatos um mundo transcendentalmente estático no qual nada se move, descobrindo-se, no cerne da faticidade, ao contrário, o turbilhonamento infinito da decadência, não sendo o ser-lançado nem um fato fixo nem um fato consumado, pertencendo à faticidade que o Dasein, enquanto for o que é, permaneça no lance e seja arrastado pelo turbilhão para a inautenticidade do impessoal, podendo Hamlet, cujo nome aliás significa turbilhão, oferecer disso uma ilustração literária.

  • “Não apenas o ser-lançado não é um 'fato fixo', mas ele também não é um fato consumado [abgeschlossenes Faktum]. Pertence à sua faticidade que o Dasein, enquanto for o que é, permaneça no lance e seja arrastado pelo turbilhão para a inautenticidade do On” (SZ 179).

13. A analítica existencial aborda aqui uma experiência que outros filósofos, Schelling notadamente, teorizaram sob o título de vertigem especulativa, podendo perguntar-se se um Dasein tão fundamentalmente enredado em si mesmo, que assim vertiginosamente se perde, dispõe ainda de algum meio para aceder a uma existencialidade autêntica, sendo a resposta paradoxal a ponto de se desejar, pois, longe de constituir obstáculo contra a existencialidade, a decadência é antes a prova mais elementar em apoio da existencialidade do Dasein.

  • “O Dasein se enreda nele mesmo [daß sich das Dasein in ihm selbst verfängt]” (SZ 178).
  • “Se perdeu e no decair 'vive' longe de si [sich verloren hat und im Verfallen von sich weg 'lebt']” (SZ 179).
  • “A prova mais elementar em apoio da existencialidade do Dasein” (SZ 179).
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