§40 Angústia
GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Paris: PUF, 1994, §40
As duas perguntas retóricas com as quais o parágrafo se abre lançam um desafio que toda análise subsequente buscará enfrentar: a angústia é um “afeto insigne” precisamente na medida em que nela (e somente nela), “o Dasein é transportado por seu próprio ser diante de si mesmo” (SZ 184). Assim, a angústia nos leva de volta à problemática da ipseidade que a análise da decadência cotidiana se havia - e por uma boa razão! - perdido de vista. Este seria o poder “revelador” ou “descobridor” desse afeto: ele rompe o movimento de fuga diante de si mesmo e diante de suas possibilidades mais próprias (Flucht des Daseins vor ihm Selbst als eigentlichem Selbst-sein-können-konnen), SZ 184) do Dasein que se abandonou ao mundo e ao impessoal. Em angústia, sinto que “as coisas deram errado”, por exemplo, que meu ativismo frenético não está levando a lugar algum, porque não passa de uma fuga e um escape: “A fuga do Dasein é uma fuga de si mesmo” (SZ 184). O inimigo do qual procuro fugir eu carrego comigo: é o meu próprio si. Obviamente, a fuga não pode ser compensada por um movimento de “autorreflexão”, ou mesmo por uma introspecção adicional. Nada prova melhor a futilidade desses processos de “auto-apreensão artificial do Dasein” (SZ 185) do que a própria experiência da angústia. O esforço de autorreflexão permanece sob o signo do poder, enquanto a autocompreensão, ancorada na experiência da angústia, está sob o signo da impotência: “Não aguento mais”. A angústia é um fenômeno original na medida em que põe a nu as próprias raízes do ser do Dasein.
1. A angústia (Angst) qualificada como afetação fundamental (Grundbefindlichkeit) remete a um debate anterior sobre a especificidade desse afeto, notadamente na metapsicologia freudiana, que concebe a angústia como o denominador comum mais elementar de todos as afetações, o menos elaborado e o mais próximo da descarga energética pura, cujo privilégio econômico consiste em ser quase energia em estado livre, energia sexual derivada no somático por ausência de elaboração psíquica ou por perda do vínculo com as representações e com o objeto.
2. A incursão na metapsicologia freudiana serve para evidenciar a originalidade e o caráter problemático da análise heideggeriana, que atribui à angústia o estatuto de afetação insigne, pois somente nela o Dasein é transportado por seu próprio ser diante de si mesmo, retomando a problemática da ipseidade que a análise da decadência cotidiana havia deixado de lado, na medida em que a angústia rompe o movimento de fuga do Dasein diante de si mesmo como poder-ser-si-mesmo próprio, revelando que o inimigo do qual se foge é transportado consigo mesmo, o próprio si-mesmo, o que torna inútil qualquer tentativa de compensação por reflexão ou introspecção, já que a autocompreensão ancorada na angústia se dá sob o signo da impotência, e não da potência.
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“A fuga do Dasein é fuga diante de si mesmo” (SZ 184).
3. A especificidade do fenômeno de fuga diante de si mesmo permite, por efeito de contraste, distinguir a angústia do medo, de modo que o parentesco fenomenal entre os dois afetos não deve obscurecer o fato de que o movimento de fuga constitutivo da decadência se funda na angústia, a qual por sua vez torna possível o medo, já que a decadência consiste em o Dasein se desviar de si mesmo, e essa fuga implica a confissão de uma ameaça que não se confunde com um objeto determinado do medo, mas que se confunde com o próprio ser: não se trata de “ter medo de”, mas de “fazer-se medo a si mesmo”.
4. A estrutura formal do medo, definida anteriormente a partir do diante-de-quê (Wovor), do ter-medo (Sich-fürchten) e do por-quê (Worum), é retomada e aplicada à angústia, distinguindo-se um diante-de-quê da angústia, uma angústia-por e um angustiar-se ele mesmo (das Sichängsten selbst).
5. O parentesco manifesto das estruturas formais entre medo e angústia não deve obscurecer as diferenças fundamentais entre os dois afetos, cuja análise busca justamente estabelecer distinções irredutíveis que impedem ver na angústia uma simples coloração particular do medo, fazendo do medo, ao contrário, um fenômeno derivado, já que todo medo se funda na angústia.
6. Uma primeira tese estabelece que a angústia não possui objeto específico algum, pois nenhum ente intramundano, por mais temível que seja, tem o poder de desencadear o afeto específico da angústia, sendo o diante-de-quê da angústia perfeitamente indeterminado, o que se explica pelo fato de que, nessa vivência, o que está em jogo é o próprio ser-no-mundo enquanto tal, sendo o diante-de-quê da angústia o mundo como tal.
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“O diante-de-quê da angústia é perfeitamente indeterminado” (SZ 186).
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“O diante-de-quê da angústia é o ser-no-mundo como tal” (SZ 186).
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“O diante-de-quê da angústia é o mundo como tal” (SZ 187).
7. A precisão dessa tese exige esclarecer que o mundo não designa aqui a totalidade dos entes nem o conjunto do que é o caso, pois tanto um ente isolado particularmente temível quanto a soma de todos os objetos, real ou imaginada, permanecem no âmbito do medo, não sendo por efeito cumulativo que o medo se transforma em angústia, a qual é mais radical por atingir as próprias raízes do ser, transformando tudo em questão existencial de sobrevivência, de ser ou não ser, na medida em que a ameaça é uma ameaça de desmoronamento, sem que o mundo desapareça pura e simplesmente, pelo contrário, oprimindo mais do que nunca à medida que tudo o que nos cerca e nos sustenta corre o risco de afundar na insignificância (Unbedeutsamkeit), correspondendo isso ao desmoronamento do mundo circundante e do sentido familiar que este reveste no fio das inúmeras ocupações cotidianas.
8. Um segundo traço descritivo, que ganhará importância considerável na conferência O que é metafísica?, estabelece que a ameaça que pesa sobre o Dasein não é localizável, vindo de lugar nenhum, de modo que não se sabe em que consiste, fazendo-se sentir sua presença tanto mais fortemente quanto mais próxima nos é do que qualquer objeto temível, do qual sempre é possível manter distância, ao passo que, diante da angústia, nenhuma distância é possível, nada nos sendo mais próximo, nada nos apertando mais a garganta, cortando a respiração, oprimindo-nos.
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“Ela está tão próxima que oprime e corta a respiração — e, no entanto, em lugar nenhum” (SZ 186).
9. A consideração da dimensão somática do fenômeno em momento algum chega a lhe reconhecer significação sexual, separando por um abismo a abordagem clínico-explicativa freudiana da abordagem descritivo-existencial heideggeriana, sendo sobretudo o fenômeno da não-significatividade que retém a atenção filosófica, porquanto na vivência da angústia o nada se torna manifesto, exemplo extraordinário do tipo de fenômeno que uma fenomenologia do inaparente deve considerar, sendo o paradoxo que esse nada não é uma grandeza nula, mas ao contrário uma potência aniquilante, o que a linguagem ordinária atesta à sua maneira quando se procura acalmar a pessoa angustiada dizendo que não é nada.
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“Não é nada” (SZ 187).
10. Estabelece-se uma primeira resposta, evidentemente capital, à questão do poder de descobrimento próprio da angústia: é somente graças à angústia como modo fundamental de afetação que se descobre o mundo enquanto mundo.
11. A angústia-por (Angst um) revela, paradoxalmente, recair sobre o mesmo objeto, sendo o por-quê da angústia o próprio ser-no-mundo, de modo que, tornando-se o mundo insignificante, as ocupações cotidianas e as possibilidades de investimento no mundo circundante nada mais dizem, remetendo o Dasein a si mesmo, nisso consistindo o poder de singularização próprio da angústia, que singulariza o Dasein para aquilo pelo qual se angustia, o qual, enquanto compreensivo, projeta-se essencialmente para possibilidades, correspondendo à noção ontológica de poder-ser de um si-mesmo singular o encontro com o fenômeno da liberdade, entendida como capacidade de escolher-se radicalmente a si mesmo, não havendo liberdade sem angústia, nem angústia sem liberdade.
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“A angústia singulariza o Dasein para aquilo por-que ele se angustia, o qual, enquanto compreensivo, projeta-se essencialmente para possibilidades” (SZ 187).
12. O angustiar-se ele mesmo conduz a análise existencial da angústia a uma espécie de ponto-limite na descoberta do si-mesmo, sendo o poder de singularização da angústia tão forte que se deve falar de um verdadeiro solipsismo existencial, o qual, distinto do solipsismo ordinário de feição autista, remete o Dasein radicalmente a si mesmo ao mesmo tempo em que o expõe radicalmente ao mundo.
13. A análise das modalidades dessa exposição implica um sentimento de inquietante estranheza, sendo o Dasein angustiado mais do que simplesmente desorientado, confrontado antes com a nudez fática de seu ser-no-mundo, o que confere a essa afetação significação ontológica, na medida em que a angústia não é senão a experiência mesma do ser-no-mundo.
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“É-se inquietante” (SZ 188).
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“A angústia não é outra coisa senão a experiência pura e simples do ser-no-mundo” (GA 20, 403).
14. A etimologia do termo unheimlich, a inquietante estranheza, vem neutralizar a nota dominante da familiaridade tranquilizadora de um mundo no qual se sente estar em casa, bascula-se agora no sentimento inverso, assinalado pela partícula privativa un-, de modo que o Dasein angustiado não tem mais chez-soi, nem sequer o chez-soi substitutivo oferecido pelo discurso público do impessoal (das Man), que se furta.
15. A ponta da análise heideggeriana da angústia consiste em afirmar que, longe de constituir uma afetação patológica manifesta apenas em situações conflituosas excepcionais ou extremas, a angústia é conatural ao Dasein, na medida em que este é lançado e entregue ao ser-no-mundo em seu próprio ser, do que decorre a tese capital de que ao ser-no-mundo, enquanto constituição essencial do Dasein que, sendo existencial, nunca está simplesmente dada, mas é ela mesma sempre num modo do Dasein fático, ou seja, uma afetação, pertence a angústia como afetação fundamental, sendo o ser-no-mundo tranquilo e familiar um modo da estranheza do Dasein, e não o inverso.
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“Ao ser-no-mundo, a essa constituição essencial do Dasein que, enquanto existencial, nunca está à mão, mas é ela mesma sempre num modo do Dasein fático, isto é, uma afetação, pertence a angústia como afetação fundamental. O ser-no-mundo tranquilo e familiar é um modo da estranheza do Dasein, e não o inverso” (SZ 189).
16. Essa tese explica a ruptura com o axioma da coriginariedade dos existenciais, sendo a angústia um fenômeno mais originário que o medo, originariedade que possui significação ontológica, pois, ao singularizar extremamente o Dasein, a angústia manifesta a autenticidade e a inautenticidade como possibilidades do ser do Dasein, sendo apenas através da angústia que se experimenta e se compreende verdadeiramente o que significa a minhidade, podendo-se dizer que a angústia é a minhidade experimentada como afetação.
17. A análise heideggeriana da angústia suscita numerosas questões, das quais três merecem destaque.
18. A primeira questão concerne à relação entre a angústia como fenômeno psíquico e o corpo, ou seja, à interface do somático e do psíquico, à qual a análise heideggeriana apenas alude, o que constitui prova suplementar de que a carne e a corporeidade não são verdadeiramente tematizadas em Ser e Tempo, assumindo a tese de que o desencadeamento fisiológico da angústia só é possível porque o Dasein se angustia no fundo de seu ser um significado distinto conforme a ideia que se faça desse fundo, exigindo, caso se trate da vida pulsional como pensa Freud, uma confrontação entre a antropologia freudiana e a analítica existencial heideggeriana, confrontação da qual sempre se esquivou.
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“O desencadeamento fisiológico da angústia só é possível porque o Dasein se angustia no fundo de seu ser” (SZ 190).
19. A segunda questão concerne às dificuldades de uma interpretação ontológica adequada da angústia, considerada nunca verdadeiramente tentada em filosofia, com exceção, ôntica e também ontologicamente, ainda que dentro de limites muito estreitos, da atenção que teólogos como santo Agostinho, Martinho Lutero e Soeren Kierkegaard dedicaram ao fenômeno, configurando-se um caso em que a analítica existencial pode entrar em diálogo fecundo com a teologia, desde que se estabeleçam as condições exatas desse diálogo.
20. A terceira questão diz respeito ao privilégio insigne reservado à angústia, ontologicamente o afeto mais revelador, já que somente nela há possibilidade de uma abertura privilegiada, na medida em que singulariza, questionando-se se esse privilégio será mantido no pensamento posterior, notando-se que, na lição inaugural de 1929, O que é metafísica?, ele não apenas se confirma, mas se acentua, tornando-se a angústia o afeto fundamental que faz ingressar na metafísica, equivalente exato do θαυμάζειν grego, ainda que ulteriormente outros afetos, como o tédio, a serenidade e a retenção (Verhaltenheit), pareçam desempenhar papel análogo.
