User Tools

Site Tools


estudos:fuchs:2018b:3.2

3.2 Biologia ecológica e enativa

FUCHS, T. Ecology of the brain: the phenomenology and biology of the embodied mind. First edition ed. Oxford: Oxford University Press, 2018

1. A função do cérebro só pode ser adequadamente compreendida quando se focaliza com mais nitidez a estrutura global do organismo vivo e sua relação com o ambiente, recorrendo-se aos resultados da biologia ecológica e filosófica de von Uexküll, Plessner e Jonas, às teorias biológicas de sistemas de Bertalanffy, Maturana e Varela e às abordagens enativas da vida de Varela, Thompson e Di Paolo, sem restringir a análise ao aspecto fisiológico-sistêmico, já que importa também incorporar o organismo vivo como sujeito.

3.2.1 Auto-organização e autonomia

1. Os organismos vivos caracterizam-se como corpos ou sistemas físicos complexos que, pelo funcionamento contínuo do metabolismo, mantêm forma e estrutura ao longo do tempo num processo de auto-organização ativa ou autopoiese, no qual a forma do organismo não apenas deixa a matéria fluir através de si, como um redemoinho no curso de um rio, mas a submete ao próprio princípio e finalidade, incorporando-a e transformando-a e conferindo-lhe propriedades emergentes que só adquire no sistema orgânico, como o ferro da hemoglobina, que, diferentemente do ferro mineral, não se oxida irreversivelmente, mas incorpora oxigênio de modo reversível, condição decisiva do balanço energético animal, e como o metabolismo digestivo, que decompõe as substâncias e as ressintetiza em matéria vital funcionalmente integrada ou em energia materialmente vinculada.

2. Graças à sua auto-organização dinâmica, o ser vivo diferencia-se do ambiente e alcança autonomia em graus diversos, de modo que seus processos e comportamentos já não são determinados primariamente de fora, mas dependem de suas disposições fundamentais e de seu estado atual, como carência ou saciedade, abertura ou retraimento, desempenho ou regeneração, e os agentes externos, salvo quando danosos ou destrutivos, deixam de exercer influência causal-mecânica direta e atuam como estímulos aos quais o organismo inteiro responde, razão pela qual Rosen afirma que os organismos, diferentemente das máquinas, são fechados à causação eficiente, produzindo internamente os catalisadores de seu funcionamento, o que corresponde, na linguagem de Varela, à diferença entre um sistema autônomo de fechamento operacional e um sistema heterônomo controlado de fora.

3. A base da autonomia orgânica é a relação recíproca especial entre o todo e suas partes, manifesta na diferenciação das funções parciais em subsistemas e órgãos, pois o organismo consiste na soma de macromoléculas, células, órgãos e sistemas vascular e nervoso, mas é também mais do que ela, de maneira diferente de um cristal, que exibe igualmente certas propriedades superiores, diferença que se apresenta sob dois aspectos.

4. O organismo como todo é condição de suas partes, pois possibilita a existência de células e órgãos, produzindo-os e reproduzindo-os como partes das quais ao mesmo tempo se compõe, de modo que a autopreservação é autorreprodução contínua até as partes individuais, que fora do organismo logo se decompõem, a ponto de em um ano se substituírem cerca de 98 por cento das moléculas do corpo humano.

5. O todo vivo não atua externamente sobre suas partes, como no cristal ou num relógio cujas engrenagens carecem de autonomia, mas manifesta-se apenas indiretamente nos órgãos, que permanecem independentes em seu funcionamento e justamente por isso contribuem para a vida do organismo como um todo.

6. Kant, na Crítica do juízo, tomou como critério de um fim natural ou ser vivo que suas partes só sejam possíveis por referência ao todo e que, inversamente, se condicionem mutuamente em forma e combinação, produzindo um todo por sua própria causalidade, concepção de um ser organizado e auto-organizador que corresponde em grande parte ao conceito moderno de autopoiese de Varela, segundo o qual um sistema vivo se constitui por uma membrana semipermeável que o delimita do ambiente e permite a troca metabólica pela qual se regenera, sendo no nível mais básico a célula viva cuja rede metabólica produz continuamente a própria membrana e a fronteira que a separa do meio químico, de modo que o sistema autopoiético produz continuamente os componentes que o especificam e se realiza como unidade concreta no espaço e no tempo, equivalendo, por seu fechamento operacional e sua autonomia, a um indivíduo orgânico ou a um si.

3.2.2 Dependência e troca entre organismo e ambiente

1. O sistema vivo auto-organizado é fundamentalmente orientado para a meta de sua automanutenção, mas sua autonomia não é possível em autarquia, pois a forma orgânica só domina sua substância ao preço da dependência do ambiente, isto é, de sua carência, devendo encontrar e incorporar repetidamente a matéria cambiante para manter a homeostase, de modo que a vida está necessariamente ligada ao ambiente pela troca, sendo o metabolismo a conexão primária com o ambiente, a membrana celular não apenas limite, mas zona de interconexão, e o metabolismo o fundamento do surgimento de valências e preferências nos sistemas vivos.

2. A dependência do ambiente torna a vida por princípio precária, com uma faixa limitada de viabilidade de trocas e interações favoráveis à autopreservação e com circunstâncias que ameaçam sua existência, de modo que um sistema autopoiético avançado precisa lidar com situações precárias, antecipar ameaças e agir para evitá-las ou revertê-las, capacidade de adaptatividade, conceituada por Di Paolo, de monitorar-se e regular-se quanto às condições de viabilidade e melhorar a própria situação, que implica a capacidade de produção de sentido, isto é, de distinguir circunstâncias favoráveis e adversas e agir de modo autopreservador, transformando o meio meramente físico em ambiente de significados e valências, como nas bactérias que se movem por flagelos em direção à maior concentração de glicose ou se afastam de substâncias repelentes na quimiotaxia.

3. A adaptatividade só surge plenamente no nível da vida animal, pois as plantas mantêm relação aberta e contínua com o ambiente, no qual estão inteiramente integradas e do qual obtêm na periferia externa tudo o que seu metabolismo requer, ao passo que os animais exibem uma forma fechada de organização, na qual as superfícies de troca metabólica se voltam para dentro, formando órgãos e zonas internos e reduzindo as camadas limítrofes com o ambiente, de modo que a vida animal sai da relação imediata com o ambiente, centraliza-se e ingressa num processo contínuo de mediação através do espaço e do tempo.

4. A nítida demarcação do ambiente exige uma interface sensório-motora que restabeleça a troca num nível ampliado, já que os objetos relevantes estão quase sempre a certa distância espacial superada pela percepção e pelo movimento, forma de relação ligada a uma organização corporal com órgãos distintos para funções sensoriais, motoras e nervosas de conexão, de modo que a forma fechada possibilita e ao mesmo tempo exige o movimento autônomo do animal na busca ativa de objetos, e a perda da conexão direta da planta com o ambiente corresponde a um ganho de espaço de manobra, de possibilidades e graus de liberdade característicos da vida animal.

5. A centralização e a interiorização características da evolução animal manifestam-se sobretudo no desenvolvimento do sistema nervoso central, que surgiu a partir de e dentro de um ciclo já existente de interação entre organismo e ambiente, pois o comportamento dirigido precedeu o cérebro, e quando a complexidade e a diversidade das interações aumentaram tornou-se necessário um órgão de integração inserido entre as funções sensoriais e motoras periféricas, cuja enorme aceleração da transmissão de sinais em relação à lenta difusão bioquímica permite a ligação instantânea de processos distantes no organismo, o registro e a hierarquização das entradas sensoriais e a orquestração das opções motoras em movimentos fluentes, de modo que, evolutiva e individualmente, o sistema nervoso central medeia, seleciona e facilita as interações entre organismo e ambiente como órgão secundário que intervém em ciclos funcionais preexistentes, modificando-os e refinando-os sem criá-los.

6. Por sua interface sensório-motora mediada pelo sistema nervoso central, o ser vivo acopla-se funcionalmente a um ambiente específico ou nicho ecológico, relação que Jakob von Uexküll, antecipando as concepções enativas da cognição, descreveu como laço de retroalimentação entre processos receptivos e efetivos, no qual o animal se liga ao objeto por um órgão receptor e por um órgão efetor e nele descobre um sinal receptor e um sinal efetor, atribuindo-lhe o sentido de coisa perceptível e manipulável, de modo que surge um acoplamento elementar de sujeito e objeto em que as possibilidades receptoras e efetoras do organismo e as características correspondentes de seu Umwelt se ligam num ciclo funcional.

7. Todo animal é sujeito que, graças à sua estrutura característica, seleciona estímulos específicos entre os efeitos gerais do mundo externo e responde a eles de modo específico, respostas que produzem efeitos no mundo externo que por sua vez influenciam os estímulos, formando um ciclo fechado que constitui o ciclo funcional do animal.

8. Os sinais receptores e efetores resultam das necessidades, capacidades e realizações potenciais do organismo, que conferem aos objetos seu significado ou affordance específica, como algo a agarrar, a escalar ou a comer, pois algo só se torna estímulo ao oferecer uma possibilidade de reação ou manipulação, distinguindo o animal tantos objetos quantas realizações pode efetuar, de modo que os estímulos não são eventos físicos independentes do organismo, mas cada organização sensório-motora, como combinação de sensibilidade e responsividade, seleciona e torna acessível um setor ou aspecto do mundo, produzindo o organismo sentido de seu ambiente.

9. O ambiente específico do organismo vivo constitui-se pelo ciclo funcional e adquire caráter complementar, como exprime von Uexküll ao dizer que onde há pé há caminho, onde há boca há alimento e onde há arma há inimigo, e de modo semelhante a abordagem enativa da cognição concebe o mundo de um ser cognitivo não como domínio externo previamente dado e representado internamente pelo cérebro, mas como domínio relacional criado por sua agência e por seu acoplamento com o ambiente, de modo que os sistemas vivos produzem enativamente um mundo inseparável de sua própria estrutura e de suas ações.

10. O organismo vivo não entra numa relação com o mundo como se pudesse existir antes e independentemente dele, mas é ele mesmo essa relação, na medida em que, segundo sua estrutura, seleciona seu Umwelt específico e está em troca constante com ele, de modo que ser vivo e mundo se cooriginam e permanecem acoplados, não estando o organismo no mundo como uma coisa no espaço físico, mas sendo para o mundo, no termo de Merleau-Ponty, e integrando os elementos adequados, favoráveis ou nocivos que reconhece num sistema abrangente de organismo e ambiente de caráter ao mesmo tempo subjetivo e objetivo.

3.2.3 Subjetividade

1. Não há resposta conclusiva para a questão de até onde descem na série dos organismos vivos as formas de subjetividade reconhecidas pela própria experiência e pela observação de mamíferos de organização e comportamento aparentados, mas uma forma elementar de vida interior ou interioridade parece dada já com a organização autopoiética dos animais.

2. A introdução do termo si, inevitável na descrição da mais elementar instância de vida, indica, segundo Jonas, a emergência de uma identidade interna com a própria vida.

3. Por meio de fronteiras semipermeáveis, metabolismo, sensação e movimento, os seres vivos produzem e preservam ativamente a distinção entre interior e exterior ou entre si e não-si, sendo a vida um processo autoafirmativo que produz enativamente sua própria identidade ao manter ordem interna e homeostase contra os processos entrópicos do meio físico.

4. A exigência de ipseidade qualifica tudo o que está além das fronteiras do organismo como estranho e de certo modo oposto, como mundo no qual, pelo qual e contra o qual ele precisa manter-se, de modo que sem esse contraponto universal do outro não haveria si.

5. Esse estágio primário ainda não está ligado à consciência, mas podem ser indicadas condições plausíveis da autorreferência peculiar do organismo vivo que se manifesta na subjetividade consciente basal.

6. A primeira condição é a separação da forma fechada em relação ao ambiente circundante, isto é, a autonomia do ser vivo, cuja interioridade já prefigura a autoconsciência.

7. A segunda condição é a formação de órgãos receptores e efetores distintos e das capacidades sensoriais e motoras correspondentes, que atribuem significados ao ambiente e a seus objetos, conferindo às coisas relevância específica para o animal como táteis, visíveis ou manipuláveis.

8. A terceira condição é a formação de um sistema nervoso central que regula e integra o meio interno, liga órgãos receptores e efetores, seleciona reações adequadas nos repertórios comportamentais disponíveis e integra funcionalmente o estado global do organismo em relação ao ambiente.

9. O organismo assim organizado não apenas vive, mas experimenta, sendo consciente em algum grau, sentindo e reagindo a partir de seu próprio centro, diferenciação entre percepção e movimento que só se alcança por uma interrupção entre ambos, uma inibição da excitação produzida pelo estímulo externo que não se descarrega diretamente em reação motora, devendo o órgão central unir as funções de inibição e liberação, já que, segundo Plessner, a recepção equivale à excitação inibida e a efetuação à excitação liberada, e sem esse retardo não haveria sentido em perceber, pois o objeto precisa ser primeiro percebido para depois tornar-se objeto de ação conforme a necessidade sentida ou a meta do organismo, abrindo essa inibição o espaço e o intervalo temporal em que a consciência emerge.

10. O ciclo sensório-motor não é fim em si mesmo, mas serve à manutenção da homeostase, de modo que a função coordenadora do sistema nervoso central nas interações com o ambiente só é possível em estreita conexão com sua segunda função de registrar, integrar e regular o meio interno, adequando a atividade sensório-motora às necessidades metabólicas atuais, regulação que é fonte de um si corporal básico, de um sentimento vital elementar de bem-estar ou mal-estar, energia ou fadiga, de impulsos básicos como fome e sede e de estados de humor que indicam o estado global do organismo, enquanto as emoções formam um arco de tensão entre necessidade e satisfação e a dinâmica instintiva de carência, impulso, anseio, antecipação, realização e satisfação, a conação, constitui a motivação vivida que alimenta os ciclos funcionais, conferindo emoções e humores significados vitais aos objetos, que aparecem desejáveis, reconfortantes ou ameaçadores, de modo que as valências dos estágios inferiores se convertem em valores.

11. A dicotomia entre cognição e afecção, ainda comum nas ciências cognitivas e na psicologia, torna-se insustentável, pois o sistema vivo produz enativamente seu Umwelt como mundo de significação, marca básica do cognitivo, mas essa cognição implica ao mesmo tempo afetividade, já que o ser vivo é sujeito de interesse e nunca indiferente à sua existência e ao seu ambiente, envolvendo a produção de sentido tanto o conhecimento dos aspectos relevantes do ambiente quanto sua avaliação ou sentimento em relação às necessidades do organismo, de modo que a experiência de impulsos e emoções é também o meio pelo qual o ser vivo avalia e seleciona suas ações possíveis.

12. A subjetividade transpõe tanto o hiato entre necessidade e satisfação quanto o hiato entre percepção e movimento, cuja ligação é inibida e mediada pelo sistema nervoso central, por sua extensão temporal e por diversas formas de relação seletiva, atribuidora de sentido, emocionalmente orientada e por fim ativa com o ambiente, sem constituir algo além do organismo, pois só pode ser compreendida como corporificada, sendo o corpo subjetivo com suas disposições e capacidades que estabelece as relações originárias com o mundo.

13. A progressiva centralização nervosa do organismo animal acentua com crescente nitidez e consciência o si oposto ao ambiente, sendo a dor e o medo manifestações psíquicas específicas da autopreservação e da demarcação diante de um mundo invasor, ao passo que o raio motor se amplia pelo afastamento do solo e pela crescente liberdade das extremidades e os sentidos de distância ganham primazia sobre o tato, o paladar e o olfato, multiplicando as possibilidades de ação, até surgir um mundo sensorial pela diferenciação das espécies de receptores e por sua conexão intermodal no órgão nervoso central num espaço receptor e efetor sensório-motor unificado.

14. Quanto mais pronunciada a inibição da reação imediata e mais longo o retardo entre necessidade e satisfação, maiores os graus de liberdade, e a autorreferência do organismo e a eficiência de suas ações se ampliam especialmente quando as capacidades perceptivas e motoras se ligam em laços de retroalimentação e antecipação, de modo que a autopercepção guia e modifica continuamente as ações, como no princípio da cópia eferente identificado por Holst e Mittelstaedt, pelo qual a ação motora é sinalizada antecipadamente ao sistema sensorial já na fase de planejamento, permitindo distinguir mudanças devidas ao próprio movimento ou a movimentos externos, e com a integração desse aspecto autorreferencial no sistema nervoso central a subjetividade animal alcança novo nível, experimentando não só as respostas externas à ação, mas também o monitoramento e a regulação do próprio comportamento efetor, primeiros sinais de autoconsciência em relação aos objetos.

15. A oposição propriamente dita entre sujeito e objeto só se alcança no estágio da posicionalidade excêntrica, em que o ser humano deixa de estar apenas integrado no ciclo funcional e pode simular processos perceptivos e motores numa ação de ensaio na imaginação, na antecipação ou na fantasia, inibindo também impulsos emocionais e usando o hiato entre percepção e motricidade num modo de como se, inclusive para refletir sobre a situação e sobre o próprio lugar nela, distanciamento do sujeito em relação à situação presente que transforma o Umwelt meramente subjetivo do animal no mundo compartilhado, intersubjetivo e por isso objetivo dos seres humanos, pois ganhar distância de si significa também poder colocar-se no lugar do outro, sendo a excentricidade humana cooriginária à sua socialidade.

3.2.4 Resumo

1. A forma fechada do organismo animal cria uma demarcação em relação ao meio e, ao mesmo tempo, pela transgressão de seus limites, uma relação ativa com o ambiente, servindo os órgãos periféricos e as superfícies externas à troca e à comunicação contínuas, seja pelo metabolismo, seja pelo ciclo funcional de percepção e movimento mediado por órgãos receptores e efetores ligados por um órgão nervoso central, organização que forma uma relação complementar com o Umwelt específico do animal, selecionando no meio físico os elementos adequados e dotando-os do sentido de estímulos relevantes ou de objetos de percepção, interesse e ação.

2. Essa forma de organização constitui o organismo animal como si corporal, consciente em graus diversos, que percebe e reage a partir de seu centro e distingue entre o que percebe e suas próprias ações, de modo que a subjetividade surgida com os organismos animais não significa vida interior extramundana, mas é sempre corporificada, relacionada ao ambiente e nele presente e atuante, como aspecto integral dos processos biológicos de um organismo dotado de auto-organização, autorreferencialidade e relação produtora de sentido com o mundo circundante, no qual em todos os atos de vida o organismo se revela ao mesmo tempo físico e psíquico, externo e interno, dimensões não opostas estaticamente, mas em constante exteriorização e interiorização pela dinâmica metabólica de ingestão e excreção, pelo ciclo de receptividade e atividade e, nos primatas, pelo jogo de impressão e expressão na comunicação intercorporal, facial e gestual.

3. O corpo físico assim organizado não é mero portador do sistema nervoso central ou do cérebro como aparelho de processamento de informação que produziria a consciência de si mesmo, mas organiza-se e centraliza-se de modo a ser capaz, como todo, de produzir atos conscientes de vida, não sendo a subjetividade subproduto nem função parcial adicional e dispensável de um órgão especial, pois, assim como a subjetividade é necessariamente corporificada, um corpo vivo adequadamente organizado é necessariamente subjetivo, sendo um si na medida em que é centralizado, delimitado do mundo externo e entidade funcional indivisível dotada de interioridade, e na medida em que se transcende por camadas limítrofes e órgãos adequados e entra em relação com um ambiente que assim adquire significado, de modo que a subjetividade, como sensação, sentimento, tendência e tomada de consciência, é antes de tudo vida e vitalidade, sendo todas as formas de experiência formas de vida, numa profunda continuidade entre vida e mente, entre viver e experienciar, Leben e Erleben.

estudos/fuchs/2018b/3.2.txt · Last modified: by 127.0.0.1