estudos:franck:espaco-temporalidade-1986

Espaço e temporalidade (1986)

DFHPE

  • Estrutura geral da analítica: derivação do tempo vulgar como condição de fundação da ontologia categorial na ontologia fundamental
    • Após explicitar o sentido temporal do “lá” e do ser-no-mundo, a análise mostra que a historicidade, enquanto designação da ipseidade que não é nem substância nem sujeito, é uma estrutura da temporalização, isto é, um modo interno de desdobramento da temporalidade.
    • Essas análises preparam a gênese do conceito vulgar de tempo, cuja função é decisiva porque, em última instância, assegura o enraizamento da ontologia categorial na ontologia fundamental, conferindo ao projeto de Être et temps sua chave de abóbada.
    • Se a “espacialidade” interviesse na derivação da intratemporalidade a partir da temporalidade originária, então não apenas um ponto local, mas o conjunto do projeto de Être et temps [ETEM] seria posto em questão, pois a derivação pretendida perderia sua legitimidade interna.
  • Necessidade hermenêutica da intratemporalidade como restituição do direito da interpretação corrente do tempo
    • A hermenêutica da intratemporalidade torna-se necessária porque a analítica existencial, ao buscar tornar transparente o ser do Dasein, deve restituir direito à interpretação cotidiana e fática do tempo como aquilo em que todo ente aparece e como aquilo com e sobre o qual se conta.
    • Uma vez que os diversos comportamentos do Dasein apenas o deixam apreender a partir de seu ser enquanto temporalidade ekstática finita, impõe-se exibir como o Dasein, precisamente por ser temporal, ocupa-se do tempo de modo contábil antes mesmo de qualquer uso de utensílios especificamente destinados a medir o tempo.
    • A exigência de mostrar a origem do tempo contável no próprio modo de ser do Dasein governa o movimento de derivação que reconduz o tempo da ocupação cotidiana à temporalidade originária.
  • Escolha do fio linguístico: o tempo da preocupação se dá originalmente na fala do ser-no-mundo cotidiano
    • O exame da preocupação com o tempo começa pela expressão linguística porque o Dasein, existindo na unidade de projeto lançado e queda, é seu “lá” e, sendo ser-com, se encontra desde o início numa revelação indiferente de si, dos outros e do mundo.
    • A compreensão disposta é articulada pelo discurso, de modo que o ser-no-mundo cotidiano já se expressou na língua a respeito do ente com que se ocupa e do tempo do encontro com esse ente.
    • Por isso, as locuções usuais que indicam o tempo não são meros signos externos, mas abrem acesso fenomenológico ao modo como a temporalidade se explicita espontaneamente na vida ocupada.
  • Fenomenologia dos advérbios temporais: “agora”, “em breve” e “outrora” como explicitação de atitudes temporais
    • No dizer cotidiano, o Dasein enuncia sempre já “em breve” acontecerá, “antes” deve-se resolver isto, “agora” recuperemos o que “outrora” falhou, e esses advérbios significam atitudes temporais estruturais.
    • “Em breve” e “outrora” indicam que o Dasein espera ou retém algo, enquanto “agora” indica o reporte a um ente presente, de tal modo que apresentação, expectativa e retenção são explicitadas nesses marcadores linguísticos.
    • Embora “em breve” seja um ainda-não-agora e “outrora” um não… mais agora, ambos gravitam em torno do “agora”, cujo privilégio caracteriza a preocupação decaída, temporalizando-se como um apresentar atento e retencional.
  • Estrutura referencial do tempo ocupado: o “agora que…”, “em breve quando…”, “outrora quando…” e a noção de databilidade
    • O “agora”, o “em breve” e o “outrora” não são ditos como simples pontos temporais, mas como “agora que a porta se abre”, “em breve, quando eu terminar este trabalho”, “outrora, quando a casa estava fechada”, isto é, como articulações referidas a situações e tarefas.
    • Nessa articulação, o Dasein não visa esses termos como entes subsistentes desmundanizados sob o ângulo da objetividade teórica, mas exprime-se enquanto ser-no-mundo que toma o tempo requerido por uma tarefa determinada.
    • O “agora”, o “em breve” e o “outrora” são relativos ao ente intramundano que absorve o Dasein, e essa estrutura referencial é denominada databilidade, na qual cada marcador temporal é essencialmente datado a partir do que ocupa o Dasein.
  • Fundamento ekstatico-horizontal da databilidade: explicitação do tempo como reflexo da temporalidade originária
    • Ao explicitar discursivamente o que o ocupa, o Dasein coexprime a própria explicitação, isto é, o ser circunspectivo junto ao ente à-mão cuja apresentação institui a possibilidade da ocupação.
    • O “agora que…”, o “em breve quando…”, o “outrora quando…” desenvolvem a explicitação que a preocupação fornece de maneira espontânea de seu próprio sentido temporal, de modo que o dizer temporal é inseparável do modo de ser ocupado.
    • A possibilidade de tal explicitação repousa no fato de que a temporalidade constitui ekstatico-horizontalmente a clareira do “lá”, sendo por isso originariamente sempre já explicável e reconhecida no próprio “lá”.
    • A databilidade, enquanto estrutura em que todo “agora” é por essência atribuído a um ente a partir do qual é datado, atesta que o tempo expresso na preocupação deriva da constituição ekstática da temporalidade e é seu reflexo essencial.
  • Ex-tensividade e espaçamento do tempo: o “agora” não é pontual e inclui intervalos contáveis
    • O tempo da preocupação não é apenas datado, mas também é ex-tendido, pois dizer “em breve” ou “outrora” implica compreender-se desde um “agora” que inclui um ainda-não-agora e um a contar de agora até…, isto é, uma extensão interna.
    • Essa extensão do “agora” até o “em breve”, pertencente ao próprio “em breve”, é explicitada por um “durante que…” igualmente datado, de tal modo que o dizer temporal visa um intervalo que dá acesso à continuidade do tempo e admite subdivisões conforme as exigências da ocupação.
    • A ex-tensividade concerne também ao “agora” porque, na unidade de apresentação atenta e retencional, o “agora” está intrinsecamente remetido ao ainda-não e ao não… mais, o que impede concebê-lo como ponto isolado.
    • A articulação por intervalo, durante e até… é denominada espaçamento do tempo, isto é, um lapso temporal, e a transitividade aristotélica do “agora” é retomada para afirmar que o tempo é em si mesmo espaçado e ex-tendido, variando em amplitude sem jamais reduzir-se ao pontual.
  • Mundanidade e publicidade do tempo: tempo oportuno e tempo partilhado como expressão do ser-com
    • O tempo da preocupação é sempre um tempo para isto ou aquilo, um tempo oportuno ou um contratempo, pois os marcadores “agora”, “em breve” e “outrora” são determinados por um ser-adequado ou inadequado a… no horizonte do ser-para e do a-fim-de-que do Dasein.
    • Por isso, o tempo ocupado é, em sentido existencial, um tempo mundano, isto é, o tempo do mundo, inseparável da significância do âmbito intramundano em que o Dasein se move.
    • Além disso, sendo ser-no-mundo como ser-com, o Dasein diz o tempo sempre aos outros, o que torna o tempo da preocupação público e, ordinariamente, não reconhecido como próprio.
    • Databilidade, ex-tensão, mundanidade e publicidade provêm da temporalidade ekstática porque o mundo do ser-com “está aí” com o fora-de-si das ekstases, fazendo do tempo público uma figura derivada do mesmo modo originário de abertura.
  • Emergência da cronometração: sol e dia como utensílio de datação e fundamento existencial do relógio
    • A preocupação opera já sob a perspectiva de um cálculo astronômico e calendárico do tempo mediante um relógio, e essa prática responde à necessidade existencial de clareza do Dasein circunspectivo para ocupar-se do ente à-mão.
    • Exposto à luz solar e à alternância do dia e da noite, isto é, do visível e do invisível, o Dasein toma o tempo a partir de um ente cuja finalidade é afim à circunspecção, de modo que “quando a aurora se levanta, é tempo para…”.
    • O sol é descoberto como utensílio que data o tempo explicitado na preocupação e, dessa datação, nasce a medida “mais natural” do tempo, o dia, pois o tempo é tomado a partir de um retorno regular intramundano.
    • A necessidade de medir decorre da finitude da temporalidade, pois os dias são já contados e o “durante que é dia” permite determinar com previsão o “em breve” do que ocupa, o que implica dividir o dia segundo a exigência da tarefa.
    • Como o ente a partir do qual se data e se conta pertence à natureza intramundana patente a todos, a cronometração confirma a publicidade do tempo, e, com a temporalidade do Dasein lançado e entregue ao mundo, algo como um relógio é já descoberto como ente à-mão cujo retorno regular se tornou acessível à preocupação atenta.
  • Leitura do tempo na mostra e constituição da medida como apresentação de uma unidade constante na extensão
    • Ler a hora numa mostra significa dizer, expressamente ou não, “agora é tal hora”, “agora é tempo para…”, ou “ainda há tempo…”, isto é, compreender o “agora” como datável, ex-tendido, mundano e público.
    • A datação com a mostra é uma apresentação dotada do caráter de medida numérica, pois consulta-se o tempo apresentando uma unidade de medida e determinando sua frequência de presença na extensão a medir.
    • A medida se constitui temporalmente na apresentação da unidade de medida presente na extensão presente, o que explica por que a expressão privilegiada desse procedimento se concentra no “agora”.
  • Recondução à definição aristotélica: tempo como número do movimento segundo o anterior e o posterior
    • Como o “agora” se temporaliza na unidade ekstática de apresentação, retenção e expectativa abertas ao anterior e ao posterior, a contagem das unidades de medida acompanha o movimento da sombra no quadrante ou o deslocamento do ponteiro.
    • O tempo do mundo acessível no relógio define-se então como o numerado que se mostra na perseguição apresentadora e numerante do movimento do ponteiro, de tal modo que a apresentação se temporaliza em unidade com retenção e expectativa horizontalmente abertas.
    • A compreensão do tempo como multiplicidade de “agoras” ontologicamente assimilada ao ente mantido que se apresenta culmina na explicitação ontológico-existencial da definição aristotélica do tempo como número do movimento segundo o anterior e o posterior, isto é, como o numerável do movimento no horizonte do antes e do depois.
  • Condição crítica: a derivação heideggeriana depende de excluir a espacialidade como fator autônomo e de reduzi-la a modo de temporalização
    • A reconstrução existencial do tempo como número do movimento fornece um primeiro termo da gênese do conceito vulgar e funda a intratemporalidade na temporalidade ekstática, garantindo a fundação da ontologia categorial na analítica do Dasein.
    • Essa garantia, porém, só vale se a espacialidade não desempenhar papel próprio na rede de relações que reconduzem o tempo da preocupação à temporalidade finita, ou se ela puder ser compreendida inteiramente como modo de temporalização.
    • A tese contrária afirma que o espaço está implicado em todas as estruturas do tempo mundano e, por isso, a derivação temporal de tais estruturas perde seu fundamento quando a espacialidade não se deixa reconduzir à temporalidade.
  • Localização do “agora” e insuficiência da explicação temporal do espaço diante de uma espacialidade não mundana
    • O “agora” datado é localizado, pois dizer “agora que faz frio” implica “agora que aqui faz frio”, e a sequência de “agora aqui” acompanha o movimento do ponteiro segundo o lugar da preocupação.
    • Heidegger explica essa ligação afirmando que o tempo da preocupação, quanto à databilidade, está ligado a um lugar do Dasein porque a temporalidade do ser-no-mundo fático torna originariamente possível a revelação do espaço, e porque o Dasein espacial se atribuiu a um aqui existencial a partir de um lá descoberto.
    • Contudo, se o aqui da preocupação temporal oculta o aqui de uma carne que se encarna sem ser nem tempo, então a databilidade localizada não pode ser mantida como simples reflexo da constituição ekstática da temporalidade quando o espaço deixa de estar no mundo e a tese correspondente é invalidada.
  • Ex-tensão como conceito formal e impossibilidade de extirpar a conotação espacial quando o espaço se destemporaliza
    • A fundação do “agora” intratemporal exige que a ex-tensão seja tomada em sentido formal e que toda significação espacial seja dela removida, pois o “agora” ex-tendido é essencial ao enraizamento da intratemporalidade na temporalidade ekstática.
    • Se, porém, a espacialidade se subtrai à temporalidade e a destemporalização do discurso se impõe, então tanto a ex-tensão quanto o próprio conceito de ex-tensão permanecem inevitavelmente marcados por uma referência ao espaço.
    • Nesse caso, a derivação ekstática do “agora” e da intratemporalidade se encontra bloqueada porque nenhum recurso de formalização consegue apagar a marca espacial que o conceito carrega, e a afirmação de que “o tempo é em si mesmo ex-tendido” torna-se suspeita de espacialização ineliminável.
    • Uma vez que o espaço e a língua são retirados da ekstase, ou que a própria ekstase é reconduzida a uma espacialidade primitiva, torna-se ilegítimo exigir que se fale temporalmente do tempo, pois a via discursiva da análise temporal passa a depender do que foi declarado atemporal.
  • Desvio da mundanidade e ruptura da origem ekstática quando espaço e mundo perdem sentido temporal
    • O “agora” ex-tendido é mundano, mas essa mundanidade, que deveria provir da temporalidade ekstática, se excetua juntamente com o espaço quando a região em geral é destemporalizada.
    • A identificação entre mundo e contrada, revelada pela mesma angústia, perde seu sentido temporal quando o espaço é privado de seu sentido, e, por isso, a mundanidade do “agora” se desliga de qualquer origem ekstática.
    • A destemporalização da região implica ipso facto a destemporalização do mundo enquanto mundo, e, assim, o tempo mundano perde o terreno no qual deveria ser reconduzido à temporalidade originária.
  • Publicidade do tempo e espacialização da medida: dependência da cronometração do espaço e fragilidade da resposta heideggeriana
    • A publicidade do tempo depende de sua mensurabilidade e do ser-com, mas o ser-com, cuja temporalidade não é exibida, é constitutivo da espacialidade encarnada, ao passo que a cronometração supõe relações espaciais.
    • A objeção segundo a qual o tempo público seria em última instância um espaço é afastada por uma argumentação que afirma que apenas sobre a base da temporalidade ekstática a datação mensurante pode ser ligada ao espaço, e que o decisivo reside na apresentação específica que torna possível a medida.
    • Contudo, se o espaço renuncia ao seu sentido de apresentação, então a medida e, com ela, a publicidade do tempo já não se deixam compreender no horizonte da temporalidade ekstática, e a recondução do tempo cotidiano a suas fontes originárias é desarticulada.
  • Consequência global: destemporalização do espaço como ruína do projeto de compreensão temporal do ser
    • Quando a tese que sustenta a temporalização do espaço se mostra insustentável, o tempo cotidiano datável, ex-tendido, mundano e público se desacopla da temporalidade originária.
    • A fundação existencial da intratemporalidade é arruinada e a destruição da ontologia do ente subsistente é interditada, pois o projeto que pretendia reconduzir o tempo vulgar à temporalidade finita perde seu caminho de derivação.
    • A destemporalização do espaço mina todo projeto de compreensão temporal do ser e obriga o pensamento a não mais permanecer no par ser e tempo como conjunção suficiente.
  • Nivelamento vulgar: recobrimento das estruturas do tempo mundano pela sucessão de agoras
    • A gênese do conceito vulgar exige explicar por que o tempo do mundo não aparece ordinariamente na plenitude de seus momentos, pois, quanto mais a preocupação está na tarefa, menos ela tematiza o tempo e mais o apreende como sequência de agoras que vêm e passam.
    • Essa sequência é compreendida sob o domínio do sentido de ser próprio da existência imprópria, a saber, o ser diante-da-mão, de modo que o tempo do mundo é concebido como série de agoras subsistentes.
    • Nesse nivelamento, databilidade, ex-tensão, mundanidade e publicidade desaparecem sob a iteração incessante do agora, e a constituição ekstatico-horizontal que funda a referência significativa dos agoras é recoberta.
    • Com seus nexos referenciais, os agoras se justapõem simplesmente e compõem uma sucessão, instaurando a forma trivial do tempo como fluxo homogêneo.
  • Gênese existencial do recobrimento: fuga da morte e desconhecimento do porvir próprio
    • A análise deve concluir pela gênese existencial do nivelamento e do recobrimento, o que implica esclarecer a origem da incompreensão da temporalidade originária.
    • Obnubilado pelo ente de que se ocupa, o Dasein foge de seu poder-ser mais próprio, a resolução antecipadora, e essa fuga é fuga diante da morte, isto é, desvio do olhar diante do fim do ser-no-mundo.
    • O desviar-se é em si mesmo um modo do ser para o fim ekstaticamente porvir, e, por isso, a temporalidade imprópria do Dasein decaído, enquanto desvio da finitude, necessariamente desconhece o porvir próprio e, com ele, a temporalidade em geral.
    • O tempo como infinitude ortodrômica de agoras emerge dessa fuga, e apenas a irreversibilidade conserva ainda, de maneira residual, a proveniência ekstática.
  • Dificuldade final: angústia como revelação do tempo e condição carnal que subtrai a carne ao ser e ao tempo
    • Se a temporalidade ekstatica finita é originária, então ela é inacessível a partir do agora abstrato, e a angústia constitui sua revelação efetiva, de tal modo que a possibilidade fenomenológica de uma hermenêutica temporal da existência depende do desencadeamento da angústia.
    • Esse desencadeamento coincide com o início fático e histórico da questão do ser, mas a angústia que manifesta o espaço cuja atemporalidade entrava a derivação do tempo mundano revela a carne a si mesma e é fisiologicamente condicionada.
    • A condição carnal do desencadeamento da angústia deve responder pela emergência histórica de Être et temps, mas a carne, no domínio da qual se situa a conceptualidade da ontologia fundamental, se encarna sem ser nem tempo.
    • A impossibilidade de submeter a carne à ekstase temporal impede inscrever Sein und Zeit na história da metafísica ali construída, e a analítica existencial não explica por que a questão do sentido do ser não foi sempre já posta como foi sempre já omitida porque a carne espacializante, o entrecruzamento das mãos, indiferente ao próprio e ao impróprio, atravessa a língua e subtrai à temporalidade o espaço que irradia todas as significações.

Espaço e temporalidade

  • Estrutura geral da analítica: derivação do tempo vulgar como condição de fundação da ontologia categorial na ontologia fundamental
    • Após explicitar o sentido temporal do “lá” e do ser-no-mundo, a análise mostra que a historicidade, enquanto designação da ipseidade que não é nem substância nem sujeito, é uma estrutura da temporalização, isto é, um modo interno de desdobramento da temporalidade.
    • Essas análises preparam a gênese do conceito vulgar de tempo, cuja função é decisiva porque, em última instância, assegura o enraizamento da ontologia categorial na ontologia fundamental, conferindo ao projeto de Être et temps sua chave de abóbada.
    • Se a “espacialidade” interviesse na derivação da intratemporalidade a partir da temporalidade originária, então não apenas um ponto local, mas o conjunto do projeto de Être et temps seria posto em questão, pois a derivação pretendida perderia sua legitimidade interna.
  • Necessidade hermenêutica da intratemporalidade como restituição do direito da interpretação corrente do tempo
    • A hermenêutica da intratemporalidade torna-se necessária porque a analítica existencial, ao buscar tornar transparente o ser do Dasein, deve restituir direito à interpretação cotidiana e fática do tempo como aquilo em que todo ente aparece e como aquilo com e sobre o qual se conta.
    • Uma vez que os diversos comportamentos do Dasein apenas o deixam apreender a partir de seu ser enquanto temporalidade ekstática finita, impõe-se exibir como o Dasein, precisamente por ser temporal, ocupa-se do tempo de modo contábil antes mesmo de qualquer uso de utensílios especificamente destinados a medir o tempo.
    • A exigência de mostrar a origem do tempo contável no próprio modo de ser do Dasein governa o movimento de derivação que reconduz o tempo da ocupação cotidiana à temporalidade originária.
  • Escolha do fio linguístico: o tempo da preocupação se dá originalmente na fala do ser-no-mundo cotidiano
    • O exame da preocupação com o tempo começa pela expressão linguística porque o Dasein, existindo na unidade de projeto lançado e queda, é seu “lá” e, sendo ser-com, se encontra desde o início numa revelação indiferente de si, dos outros e do mundo.
    • A compreensão disposta é articulada pelo discurso, de modo que o ser-no-mundo cotidiano já se expressou na língua a respeito do ente com que se ocupa e do tempo do encontro com esse ente.
    • Por isso, as locuções usuais que indicam o tempo não são meros signos externos, mas abrem acesso fenomenológico ao modo como a temporalidade se explicita espontaneamente na vida ocupada.
  • Fenomenologia dos advérbios temporais: “agora”, “em breve” e “outrora” como explicitação de atitudes temporais
    • No dizer cotidiano, o Dasein enuncia sempre já “em breve” acontecerá, “antes” deve-se resolver isto, “agora” recuperemos o que “outrora” falhou, e esses advérbios significam atitudes temporais estruturais.
    • “Em breve” e “outrora” indicam que o Dasein espera ou retém algo, enquanto “agora” indica o reporte a um ente presente, de tal modo que apresentação, expectativa e retenção são explicitadas nesses marcadores linguísticos.
    • Embora “em breve” seja um ainda-não-agora e “outrora” um não… mais agora, ambos gravitam em torno do “agora”, cujo privilégio caracteriza a preocupação decaída, temporalizando-se como um apresentar atento e retencional.
  • Estrutura referencial do tempo ocupado: o “agora que…”, “em breve quando…”, “outrora quando…” e a noção de databilidade
    • O “agora”, o “em breve” e o “outrora” não são ditos como simples pontos temporais, mas como “agora que a porta se abre”, “em breve, quando eu terminar este trabalho”, “outrora, quando a casa estava fechada”, isto é, como articulações referidas a situações e tarefas.
    • Nessa articulação, o Dasein não visa esses termos como entes subsistentes desmundanizados sob o ângulo da objetividade teórica, mas exprime-se enquanto ser-no-mundo que toma o tempo requerido por uma tarefa determinada.
    • O “agora”, o “em breve” e o “outrora” são relativos ao ente intramundano que absorve o Dasein, e essa estrutura referencial é denominada databilidade, na qual cada marcador temporal é essencialmente datado a partir do que ocupa o Dasein.
  • Fundamento ekstatico-horizontal da databilidade: explicitação do tempo como reflexo da temporalidade originária
    • Ao explicitar discursivamente o que o ocupa, o Dasein coexprime a própria explicitação, isto é, o ser circunspectivo junto ao ente à-mão cuja apresentação institui a possibilidade da ocupação.
    • O “agora que…”, o “em breve quando…”, o “outrora quando…” desenvolvem a explicitação que a preocupação fornece de maneira espontânea de seu próprio sentido temporal, de modo que o dizer temporal é inseparável do modo de ser ocupado.
    • A possibilidade de tal explicitação repousa no fato de que a temporalidade constitui ekstatico-horizontalmente a clareira do “lá”, sendo por isso originariamente sempre já explicável e reconhecida no próprio “lá”.
    • A databilidade, enquanto estrutura em que todo “agora” é por essência atribuído a um ente a partir do qual é datado, atesta que o tempo expresso na preocupação deriva da constituição ekstática da temporalidade e é seu reflexo essencial.
  • Ex-tensividade e espaçamento do tempo: o “agora” não é pontual e inclui intervalos contáveis
    • O tempo da preocupação não é apenas datado, mas também é ex-tendido, pois dizer “em breve” ou “outrora” implica compreender-se desde um “agora” que inclui um ainda-não-agora e um a contar de agora até…, isto é, uma extensão interna.
    • Essa extensão do “agora” até o “em breve”, pertencente ao próprio “em breve”, é explicitada por um “durante que…” igualmente datado, de tal modo que o dizer temporal visa um intervalo que dá acesso à continuidade do tempo e admite subdivisões conforme as exigências da ocupação.
    • A ex-tensividade concerne também ao “agora” porque, na unidade de apresentação atenta e retencional, o “agora” está intrinsecamente remetido ao ainda-não e ao não… mais, o que impede concebê-lo como ponto isolado.
    • A articulação por intervalo, durante e até… é denominada espaçamento do tempo, isto é, um lapso temporal, e a transitividade aristotélica do “agora” é retomada para afirmar que o tempo é em si mesmo espaçado e ex-tendido, variando em amplitude sem jamais reduzir-se ao pontual.
  • Mundanidade e publicidade do tempo: tempo oportuno e tempo partilhado como expressão do ser-com
    • O tempo da preocupação é sempre um tempo para isto ou aquilo, um tempo oportuno ou um contratempo, pois os marcadores “agora”, “em breve” e “outrora” são determinados por um ser-adequado ou inadequado a… no horizonte do ser-para e do a-fim-de-que do Dasein.
    • Por isso, o tempo ocupado é, em sentido existencial, um tempo mundano, isto é, o tempo do mundo, inseparável da significância do âmbito intramundano em que o Dasein se move.
    • Além disso, sendo ser-no-mundo como ser-com, o Dasein diz o tempo sempre aos outros, o que torna o tempo da preocupação público e, ordinariamente, não reconhecido como próprio.
    • Databilidade, ex-tensão, mundanidade e publicidade provêm da temporalidade ekstática porque o mundo do ser-com “está aí” com o fora-de-si das ekstases, fazendo do tempo público uma figura derivada do mesmo modo originário de abertura.
  • Emergência da cronometração: sol e dia como utensílio de datação e fundamento existencial do relógio
    • A preocupação opera já sob a perspectiva de um cálculo astronômico e calendárico do tempo mediante um relógio, e essa prática responde à necessidade existencial de clareza do Dasein circunspectivo para ocupar-se do ente à-mão.
    • Exposto à luz solar e à alternância do dia e da noite, isto é, do visível e do invisível, o Dasein toma o tempo a partir de um ente cuja finalidade é afim à circunspecção, de modo que “quando a aurora se levanta, é tempo para…”.
    • O sol é descoberto como utensílio que data o tempo explicitado na preocupação e, dessa datação, nasce a medida “mais natural” do tempo, o dia, pois o tempo é tomado a partir de um retorno regular intramundano.
    • A necessidade de medir decorre da finitude da temporalidade, pois os dias são já contados e o “durante que é dia” permite determinar com previsão o “em breve” do que ocupa, o que implica dividir o dia segundo a exigência da tarefa.
    • Como o ente a partir do qual se data e se conta pertence à natureza intramundana patente a todos, a cronometração confirma a publicidade do tempo, e, com a temporalidade do Dasein lançado e entregue ao mundo, algo como um relógio é já descoberto como ente à-mão cujo retorno regular se tornou acessível à preocupação atenta.
  • Leitura do tempo na mostra e constituição da medida como apresentação de uma unidade constante na extensão
    • Ler a hora numa mostra significa dizer, expressamente ou não, “agora é tal hora”, “agora é tempo para…”, ou “ainda há tempo…”, isto é, compreender o “agora” como datável, ex-tendido, mundano e público.
    • A datação com a mostra é uma apresentação dotada do caráter de medida numérica, pois consulta-se o tempo apresentando uma unidade de medida e determinando sua frequência de presença na extensão a medir.
    • A medida se constitui temporalmente na apresentação da unidade de medida presente na extensão presente, o que explica por que a expressão privilegiada desse procedimento se concentra no “agora”.
  • Recondução à definição aristotélica: tempo como número do movimento segundo o anterior e o posterior
    • Como o “agora” se temporaliza na unidade ekstática de apresentação, retenção e expectativa abertas ao anterior e ao posterior, a contagem das unidades de medida acompanha o movimento da sombra no quadrante ou o deslocamento do ponteiro.
    • O tempo do mundo acessível no relógio define-se então como o numerado que se mostra na perseguição apresentadora e numerante do movimento do ponteiro, de tal modo que a apresentação se temporaliza em unidade com retenção e expectativa horizontalmente abertas.
    • A compreensão do tempo como multiplicidade de “agoras” ontologicamente assimilada ao ente mantido que se apresenta culmina na explicitação ontológico-existencial da definição aristotélica do tempo como número do movimento segundo o anterior e o posterior, isto é, como o numerável do movimento no horizonte do antes e do depois.
  • Condição crítica: a derivação heideggeriana depende de excluir a espacialidade como fator autônomo e de reduzi-la a modo de temporalização
    • A reconstrução existencial do tempo como número do movimento fornece um primeiro termo da gênese do conceito vulgar e funda a intratemporalidade na temporalidade ekstática, garantindo a fundação da ontologia categorial na analítica do Dasein.
    • Essa garantia, porém, só vale se a espacialidade não desempenhar papel próprio na rede de relações que reconduzem o tempo da preocupação à temporalidade finita, ou se ela puder ser compreendida inteiramente como modo de temporalização.
    • A tese contrária afirma que o espaço está implicado em todas as estruturas do tempo mundano e, por isso, a derivação temporal de tais estruturas perde seu fundamento quando a espacialidade não se deixa reconduzir à temporalidade.
  • Localização do “agora” e insuficiência da explicação temporal do espaço diante de uma espacialidade não mundana
    • O “agora” datado é localizado, pois dizer “agora que faz frio” implica “agora que aqui faz frio”, e a sequência de “agora aqui” acompanha o movimento do ponteiro segundo o lugar da preocupação.
    • Heidegger explica essa ligação afirmando que o tempo da preocupação, quanto à databilidade, está ligado a um lugar do Dasein porque a temporalidade do ser-no-mundo fático torna originariamente possível a revelação do espaço, e porque o Dasein espacial se atribuiu a um aqui existencial a partir de um lá descoberto.
    • Contudo, se o aqui da preocupação temporal oculta o aqui de uma carne que se encarna sem ser nem tempo, então a databilidade localizada não pode ser mantida como simples reflexo da constituição ekstática da temporalidade quando o espaço deixa de estar no mundo e a tese correspondente é invalidada.
  • Ex-tensão como conceito formal e impossibilidade de extirpar a conotação espacial quando o espaço se destemporaliza
    • A fundação do “agora” intratemporal exige que a ex-tensão seja tomada em sentido formal e que toda significação espacial seja dela removida, pois o “agora” ex-tendido é essencial ao enraizamento da intratemporalidade na temporalidade ekstática.
    • Se, porém, a espacialidade se subtrai à temporalidade e a destemporalização do discurso se impõe, então tanto a ex-tensão quanto o próprio conceito de ex-tensão permanecem inevitavelmente marcados por uma referência ao espaço.
    • Nesse caso, a derivação ekstática do “agora” e da intratemporalidade se encontra bloqueada porque nenhum recurso de formalização consegue apagar a marca espacial que o conceito carrega, e a afirmação de que “o tempo é em si mesmo ex-tendido” torna-se suspeita de espacialização ineliminável.
    • Uma vez que o espaço e a língua são retirados da ekstase, ou que a própria ekstase é reconduzida a uma espacialidade primitiva, torna-se ilegítimo exigir que se fale temporalmente do tempo, pois a via discursiva da análise temporal passa a depender do que foi declarado atemporal.
  • Desvio da mundanidade e ruptura da origem ekstática quando espaço e mundo perdem sentido temporal
    • O “agora” ex-tendido é mundano, mas essa mundanidade, que deveria provir da temporalidade ekstática, se excetua juntamente com o espaço quando a região em geral é destemporalizada.
    • A identificação entre mundo e contrada, revelada pela mesma angústia, perde seu sentido temporal quando o espaço é privado de seu sentido, e, por isso, a mundanidade do “agora” se desliga de qualquer origem ekstática.
    • A destemporalização da região implica ipso facto a destemporalização do mundo enquanto mundo, e, assim, o tempo mundano perde o terreno no qual deveria ser reconduzido à temporalidade originária.
  • Publicidade do tempo e espacialização da medida: dependência da cronometração do espaço e fragilidade da resposta heideggeriana
    • A publicidade do tempo depende de sua mensurabilidade e do ser-com, mas o ser-com, cuja temporalidade não é exibida, é constitutivo da espacialidade encarnada, ao passo que a cronometração supõe relações espaciais.
    • A objeção segundo a qual o tempo público seria em última instância um espaço é afastada por uma argumentação que afirma que apenas sobre a base da temporalidade ekstática a datação mensurante pode ser ligada ao espaço, e que o decisivo reside na apresentação específica que torna possível a medida.
    • Contudo, se o espaço renuncia ao seu sentido de apresentação, então a medida e, com ela, a publicidade do tempo já não se deixam compreender no horizonte da temporalidade ekstática, e a recondução do tempo cotidiano a suas fontes originárias é desarticulada.
  • Consequência global: destemporalização do espaço como ruína do projeto de compreensão temporal do ser
    • Quando a tese que sustenta a temporalização do espaço se mostra insustentável, o tempo cotidiano datável, e-tendido, mundano e público se desacopla da temporalidade originária.
    • A fundação existencial da intratemporalidade é arruinada e a destruição da ontologia do ente subsistente é interditada, pois o projeto que pretendia reconduzir o tempo vulgar à temporalidade finita perde seu caminho de derivação.
    • A destemporalização do espaço mina todo projeto de compreensão temporal do ser e obriga o pensamento a não mais permanecer no par ser e tempo como conjunção suficiente.
  • Nivelamento vulgar: recobrimento das estruturas do tempo mundano pela sucessão de agoras
    • A gênese do conceito vulgar exige explicar por que o tempo do mundo não aparece ordinariamente na plenitude de seus momentos, pois, quanto mais a preocupação está na tarefa, menos ela tematiza o tempo e mais o apreende como sequência de agoras que vêm e passam.
    • Essa sequência é compreendida sob o domínio do sentido de ser próprio da existência imprópria, a saber, o ser diante-da-mão, de modo que o tempo do mundo é concebido como série de agoras subsistentes.
    • Nesse nivelamento, databilidade, ex-tensão, mundanidade e publicidade desaparecem sob a iteração incessante do agora, e a constituição ekstatico-horizontal que funda a referência significativa dos agoras é recoberta.
    • Com seus nexos referenciais, os agoras se justapõem simplesmente e compõem uma sucessão, instaurando a forma trivial do tempo como fluxo homogêneo.
  • Gênese existencial do recobrimento: fuga da morte e desconhecimento do porvir próprio
    • A análise deve concluir pela gênese existencial do nivelamento e do recobrimento, o que implica esclarecer a origem da incompreensão da temporalidade originária.
    • Obnubilado pelo ente de que se ocupa, o Dasein foge de seu poder-ser mais próprio, a resolução antecipadora, e essa fuga é fuga diante da morte, isto é, desvio do olhar diante do fim do ser-no-mundo.
    • O desviar-se é em si mesmo um modo do ser para o fim ekstaticamente porvir, e, por isso, a temporalidade imprópria do Dasein decaído, enquanto desvio da finitude, necessariamente desconhece o porvir próprio e, com ele, a temporalidade em geral.
    • O tempo como infinitude ortodrômica de agoras emerge dessa fuga, e apenas a irreversibilidade conserva ainda, de maneira residual, a proveniência ekstática.
  • Dificuldade final: angústia como revelação do tempo e condição carnal que subtrai a carne ao ser e ao tempo
    • Se a temporalidade ekstatica finita é originária, então ela é inacessível a partir do agora abstrato, e a angústia constitui sua revelação efetiva, de tal modo que a possibilidade fenomenológica de uma hermenêutica temporal da existência depende do desencadeamento da angústia.
    • Esse desencadeamento coincide com o início fático e histórico da questão do ser, mas a angústia que manifesta o espaço cuja atemporalidade entrava a derivação do tempo mundano revela a carne a si mesma e é fisiologicamente condicionada.
    • A condição carnal do desencadeamento da angústia deve responder pela emergência histórica de Être et temps, mas a carne, no domínio da qual se situa a conceptualidade da ontologia fundamental, se encarna sem ser nem tempo.
    • A impossibilidade de submeter a carne à ekstase temporal impede inscrever Sein und Zeit na história da metafísica ali construída, e a analítica existencial não explica por que a questão do sentido do ser não foi sempre já posta como foi sempre já omitida porque a carne espacializante, o entrecruzamento das mãos, indiferente ao próprio e ao impróprio, atravessa a língua e subtrai à temporalidade o espaço que irradia todas as significações.
estudos/franck/espaco-temporalidade-1986.txt · Last modified: by mccastro