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estudos:franck:ciencia-como-egologia-1981

CIÊNCIA COMO EGOLOGIA (1981:29-40)

Data: 2025-10-25 16:25

Chair et Corps

Sur la phénoménologie de Husserl

  • A fundamentação da filosofia como ciência rigorosa e a centralidade da evidência e da verdade como telos, que são reiteráveis, válidas de uma vez por todas e para todos, sendo, portanto, omnitemporais e intersubjetivas.
    • A concepção do eidos da ciência como um telos normativo e horizontal, que prescreve um sistema de conhecimentos.
      • A citação que estabelece a necessidade de um “ordem de conhecimentos anteriores em si relacionadas a outras posteriores em si; e finalmente um começo e um progresso, não escolhidos arbitrariamente, mas fundamentados na natureza das próprias coisas”.
    • A exigência de que toda ciência, especialmente a filosofia, deve partir de uma ou mais evidências que possuam o caráter de uma prioridade absoluta.
  • A investigação das evidências primeiras e as condições que devem satisfazer, seguindo e divergindo do caminho cartesiano.
    • A distinção crucial entre a redução fenomenológica e o dúvida cartesiana, sendo a primeira definitiva, universal e não implicando negação.
    • A exigência husserliana de um imenso trabalho de clarificação da evidência, por meio da análise intencional, trabalho este negligenciado por Descartes.
    • A diferenciação da perfeição da evidência em adequação ou apoditicidade, sendo que esta última pode pertencer a evidências inadequadas.
    • A reformulação da questão do início da ciência na busca por uma evidência apodítica anterior a todas as outras.
      • A observação de que Husserl, ao limiar da redução, abandona a exigência “e para todos”.
  • A introdução da redução fenomenológica como pivô de toda a empresa husserliana e o surgimento do domínio fenomenológico.
    • A brevidade da introdução da redução nas Meditações Cartesianas, possivelmente devido à assunção crítica do legado cartesiano.
    • A questão da evidência primeira e apodítica, problematizando a evidência do mundo.
      • O argumento de que a existência do mundo não é apodítica, pois “é perfeitamente pensável que a experiência se dissipe em simulacros em virtude de conflitos internos […] em suma, que não haja mundo”.
    • A execução do “grande retorno” cartesiano ao ego cogito como solo judicativo último e apoditicamente certo.
  • A suspensão da tese do mundo da atitude natural e sua transformação em fenômeno.
    • A descrição do mundo na atitude natural como aquele que “eu descubro por uma intuição imediata como existente, eu o experimento”.
    • A caracterização do mundo da atitude natural como o mundo copernicano-galileano, acompanhado de sua ontologia tradicional-moderna.
    • A primeira consequência da redução: a interdição de falar no plural e a suspensão da existência intra-mundana de todos os outros egos.
      • A citação que explicita esta interdição: “com os outros desaparecem naturalmente todas as formações da sociabilidade e da cultura. Em suma, não apenas a natureza corpórea, mas todo o mundo ambiente concreto da vida não são mais para mim seres, mas apenas fenômeno de ser”.
    • O problema do solipsismo e a objeção de que a linguagem e a idealidade das significações pressupõem a intersubjetividade.
    • A resposta fenomenológica de que a análise da linguagem em Husserl é, em sua pureza, solipsista, uma vez reduzido o aspecto de indicação.
  • A descoberta do ego apodítico e do campo da experiência transcendental como fundamento.
    • A concepção do mundo como fenômeno irredutivelmente meu, incluso irrealmente na vida egóica pura.
    • A ameaça do solipsismo como uma ilusão transcendental e o recurso à intersubjectividade como sua solução.
    • A exigência de uma exploração metódica do campo egóico transcendental.
  • A questão crítica sobre o alcance da apoditicidade no ego transcendental.
    • A limitação da apoditicidade ao núcleo da presença viva a si, expresso pelo ego cogito, e a não-apoditicidade imediata do passado.
    • A abertura de horizontes temporais no ego, descrita nas Lições de 1905 sobre o tempo.
    • A distinção entre uma fenomenologia transcendental descritiva e uma etapa crítica propriamente dita, sendo que Husserl reconhece dedicar-se apenas à primeira nas Meditações Cartesianas.
  • A diferença crucial entre o ego psicológico e o ego transcendental e a crítica à interpretação cartesiana.
    • A acusação a Descartes de ter negligenciado a questão da memória e interpretado precipitadamente o ego como psique, incorrendo no “contrassenso do realismo transcendental”.
    • O enigma do paralelismo psico-fenomenológico e a questão de como distinguir a psicologia fenomenológica da fenomenologia transcendental.
    • A definição da alma como resultado residual da abstração da componente corpórea, mantendo uma relação intra-mundana.
    • O acesso à consciência não-psíquica, que porta o mundo e o psiquismo como unidade intencional de sentido.
    • A questão de Heidegger sobre o modo de ser do ego absoluto e sua relação de identidade e diferença com o ego mundano.
  • A constituição de uma nova ciência a partir do campo da experiência transcendental e o papel da redução eidética.
    • O risco de um empirismo transcendental e a necessidade da conversão eidética para o estudo das estruturas universais.
    • A importância da ficção como “o elemento vital da fenomenologia, como de todas as ciências eidéticas”.
    • As dificuldades para realizar a variação eidética no estágio solipsista, pois o acesso ao eidos ego pode exigir outros egos.
  • A análise das estruturas do campo transcendental, começando pela intencionalidade.
    • O deslocamento do foco do ego cogito para as múltiplas cogitationes.
    • A definição da intencionalidade como “esta propriedade geral fundamental da consciência de ser consciência de algo, de portar em si, e como cogito, o seu cogitatum”.
    • A objeção de que a reflexão, sendo secundária, altera o vivido originário.
    • A defesa de Husserl de que a reflexão, ainda que alterando (verändere) o vivido, o dá como correlato intencional e permite sua descrição pura.
  • A dimensão temporal da reflexão e o clivagem do ego (Ichspaltung).
    • A necessidade do retardamento temporal (retenção) para que o acesso à origem e a própria fenomenologia sejam possíveis.
    • A descrição do clivagem: o ego mundano aparece ao ego transcendental, que, por sua vez, só sai do anonimato para um espectador transcendental desinteressado.
    • O problema da identidade desses egos e sua unificação última no presente vivo.
      • A citação que afirma: “no presente vivo, eu tenho em coexistência o eu desdobrado e o ato desdobrado do eu”.
  • A oscilação de Husserl sobre o estatuto da retenção como percepção ou não-percepção do passado.
    • A posição da retenção como percepção apresentativa do passado: “a lembrança primária é percepção. Pois é apenas nela que vemos o passado, é apenas nela que o passado se constitui, e isso não de maneira re-presentativa, mas, ao contrário, presentativa”.
    • A posição contrária, que define a retenção como o oposto da percepção: “o oposto da percepção é então a lembrança primária e a expectativa primária (retenção e protensão)”.
    • A analogia entre os modos de doação do passado e do alter ego e suas implicações para a egologia pura.
      • A questão de saber se a retenção, como condição da redução, já implica o alter ego.
      • A interrogação sobre a possibilidade de pensar o clivagem e a alteração do ego sem a pré-doação do alter ego.
    • A questão final sobre se o trabalho fenomenológico está condenado a contradizer seus princípios iniciais e como dar conta disso fenomenologicamente.

PS: FRANCK, Didier. Chair et corps. Sur la phénoménologie de Husserl. Paris: Minuit, 1981.

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