estudos:franck:angustia-carne-espaco-1986
A angústia, a carne e o espaço (1986)
DFHPE
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A independência da determinação cartesiana do mundo como res extensa não invalida a espacialidade do ente intramundano e a necessidade de se interrogar se o espaço contribui para a constituição do mundo.
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Se o ente intramundano é espacial, essa espacialidade deve proceder de seu ser, que é o mundo.
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Se o mundo, por sua vez, é espacial, então o Dasein, do qual o mundo é uma estrutura, também o será, ainda que segundo o sentido próprio de seu ser, a temporalidade extática.
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Consequentemente, a interpretação do espaço segue e reitera a interpretação da mundanidade.
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Essa interpretação se inicia pela espacialidade do ente intramundano, prossegue com a do ser-no-mundo e se conclui com a do próprio Dasein.
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A análise ontológica do ente intramundano já forneceu indicações sobre sua espacialidade ao destacar o caráter de proximidade do ente à-mão.
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O termo à-mão designa não apenas o ente encontrado primeiro, mas simultaneamente o ente que está próximo.
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A proximidade do utensílio já estava sugerida em seu próprio modo de ser, o ser-à-mão.
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Essa proximidade não é definida pela medição de distâncias, mas se regula a partir do uso e do manejo circunspecto e calculador da preocupação.
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A resposta sobre a origem dessa proximidade é imediatamente remetida à preocupação e, por fim, à temporalidade do cuidado, mas essa remissão é considerada demasiado rápida.
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A análise se desdobra segundo duas dimensões que talvez não sejam ontologicamente conciliáveis.
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Uma dimensão temporal-extática explicitamente tematizada, onde a proximidade recebe um sentido temporal de apresentação.
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A tese central do parágrafo 70 de Ser e Tempo sustenta que a avaliação das distâncias se funda em um apresentar pertencente à unidade da temporalidade.
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A retratação posterior desse mesmo parágrafo, no entanto, invalida essa hermenêutica da espacialidade e tudo o que ela comanda.
Uma dimensão carnal-vivente que se esforça por ser destacada.-
Fenomenologicamente, a proximidade se confunde com a portada da mão, sendo a do preensível e do manuseável.
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A questão decisiva é se essa proximidade carnal pode ser reconduzida à da preocupação e se a mão aparece no mundo.
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A carne-vivente não possui nenhum dos modos de ser distinguidos pela ontologia fundamental, portanto sua proximidade não é originária da preocupação nem um modo de temporalização.
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Uma objeção poderia sustentar que é indiferente para a economia de Ser e Tempo se a mão precede ou não o ente à-mão, pois o foco é a espacialidade do utensílio.
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Essa objeção é refutada por dois argumentos.
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O estudo da espacialidade do ente intramundano serve de paradigma para o do espaço em geral.
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O título ontológico do utensílio, ser-à-mão, remete essencialmente à mão.
Sendo Heidegger aquele que restitui a força das palavras elementares, onde o nome diz o ser, a questão da mão transfixa a linguagem e a conceitualidade da questão do ser.-
A análise heideggeriana prossegue articulando proximidade, lugar e região.
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A circunspecção da preocupação fixa a direção na qual o utensílio é acessível.
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O utensílio possui essencialmente um lugar, determinado a partir da totalidade dos lugares orientados do complexo de utensílios no mundo ambiente.
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O lugar não é o onde de uma coisa simplesmente presente, mas o aqui e o ali determinados do estar-em-seu-lugar de um utensílio.
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O estar-em-seu-lugar responde ao caráter de utensílio e à sua pertença finalizada a uma totalidade.
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A condição de possibilidade para esse estar-em-seu-lugar é o para-onde geral, nomeado região.
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A região é o onde de um possível estar-em-seu-lugar que se mantém prévio ao comércio circunspecto.
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A expressão na região de significa tanto em direção a quanto no entorno de algo.
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Uma região deve ter sido previamente descoberta para que seja possível atribuir e encontrar os lugares.
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A unidade do espaço fragmentado em lugares é posta em questão.
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A espacialidade cotidiana é fragmentada em lugares, mas Heidegger afirma que possui uma unidade própria graças à totalidade mundana das finalidades.
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Isso implica que a unidade do espaço deriva da unidade do mundo, que por sua vez se temporaliza.
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Essa unificação está, portanto, submetida à dupla prioridade ontológica do mundo sobre o espaço e da temporalidade sobre a espacialidade.
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Uma anotação marginal de Heidegger, porém, contesta essa ideia, afirmando haver justamente uma unidade própria e não fragmentada dos lugares.
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Para ser própria, essa unidade deve satisfazer duas condições.
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Condição negativa: não ser mundana.
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Condição positiva: ser resultante do ser mesmo dos lugares.
A hipótese proposta é que a unidade é carnal.-
Os lugares, como os utensílios, são entes à-mão.
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A mão, ao se deslocar e se portar de um lugar a outro, reporta todos os lugares a si mesma, unificando-os.
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O conceito heideggeriano de dispersão transcendental, para o qual a carne representa um fator de organização, corrobora essa ideia.
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Essa unidade carnal satisfaz ambas as condições, pois não é mundana e é conforme ao ser-à-mão dos lugares.
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O modo de doação do lugar e da região é examinado.
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Assim como o ser-à-mão se descobre no estar-fora-de-alcance, a falta de um utensílio em seu lugar revela a região.
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Esse acesso à região é qualificado como frequente, sugerindo a existência de outro acesso, mais raro e notável.
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Esse acesso privilegiado é identificado como o sentimento fundamental da angústia.
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O sentimento de situação é introduzido como uma estrutura existencial do aí do Dasein.
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O Dasein está sempre disposto por um estado de ânimo que revela como ele se encontra e o traz diante de seu ser-lançado.
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A disposição não é um conhecimento, mas um modo de ser-no-mundo que revela co-originariamente o mundo, a coexistência e a existência.
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É porque o Dasein está constitutivamente aberto pela disposição que os entes intramundanos podem afetá-lo e se mostrar como resistentes ou ameaçadores.
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Surge aqui uma contradição interna à analítica existencial.
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Heidegger funda a sensibilidade e o ser-afetado no ser-no-mundo disposto.
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No entanto, dentro do quadro estrito da analítica, a carne é compreendida como um ente simplesmente presente.
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A questão é posta explicitamente por Heidegger: é um problema à parte delimitar ontologicamente como os sentidos de um ente meramente vivo são estimulados e se o ser dos animais é constituído por um tempo.
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Essa admissão antecipa a tese posterior de que o vivente não se sustenta na verdade do ser, cuja temporalidade é apenas o pré-nome.
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Conclui-se, portanto, que o tempo não constitui o ser da carne-vivente e que um espaço ligado à encarnação seria, em princípio, irredutível à temporalidade.
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A análise da angústia é preparada pela da temor.
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O temor se estrutura em três momentos: o diante-de-quê, o ter-temor e o por-quê.
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O diante-de-quê é um ente intramundano ameaçador que se aproxima de uma região e na proximidade.
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O ter-temor se deixa afetar por esse ente, que se mostra portanto como ameaça.
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O por-quê do temor é o próprio Dasein, que teme por uma possibilidade determinada de si mesmo.
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A angústia se distingue radicalmente do temor.
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O Dasein em decadência foge de si mesmo, voltando-se para o ente intramundano.
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A decadência se funda na angústia, que a torna possível.
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O diante-de-quê da angústia não é um ente, mas o ser-no-mundo como tal, que se torna insignificante.
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A ameaça na angústia é em lugar nenhum, caracterizando-se por uma ausência de direção determinada.
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Esse lugar nenhum não é o nada, mas a região em geral, a revelação do mundo em geral para um ser que é essencialmente espacial.
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A ameaça já está aí, é tão próxima que oprime, e no entanto é em lugar nenhum.
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A angústia possui uma função metodológica cardinal, análoga à da redução transcendental.
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Ela revela o Dasein em seu ser-para-a-morte e torna possível o poder-ser próprio.
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Como reveladora da região em geral, a angústia é o segundo modo de acesso a ela.
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A expressão região em geral, no singular, contrasta com a descrição anterior de uma pluralidade de regiões.
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O princípio fenomenológico da identidade entre modo de doação e fenômeno leva a uma conclusão decisiva.
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Se a mesma angústia revela o mundo e a região, então o mundo é a região e a região é o mundo.
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A expressão no singular infirma a tese de que o espaço está no mundo e anuncia a ab-rogação do parágrafo 70.
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Inversamente, a multiplicidade das regiões permitiria manter a prioridade do tempo sobre um espaço sem unidade própria.
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A interpretação da angústia como manifestação do espaço é corroborada por um texto tardio, A Arte e o Espaço.
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Nele, Heidegger associa a apreensão do espaço como fenômeno originário a uma espécie de temor que vai até a angústia.
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O espaço parece não poder ser reconduzido a nada além de si mesmo, nem aparecer no horizonte do tempo.
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A angústia diante do espaço é, portanto, a revelação de um fenômeno inderivável, mesmo da temporalidade.
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A análise retorna ao terceiro momento constitutivo da angústia: o por-quê.
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O Dasein se angustia por seu próprio poder-ser-no-mundo.
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A angústia individualiza o Dasein em seu ser-no-mundo mais próprio.
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Há uma coincidência existencial entre o revelante e o revelado na angústia.
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O diante-de-quê, o por-quê e o próprio sê-angustiado são modos do ser-no-mundo.
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Essa identidade revela a angústia como um sentimento privilegiado, que individualiza o Dasein como solus ipse.
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A necessidade de se questionar o sentido do ser repousa sobre a possibilidade da angústia.
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Coloca-se então o problema de como a angústia pode advir sob o império da decadência.
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Heidegger fornece uma indicação enigmática sobre suas origens.
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A angústia autêntica é rara na decadência.
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Frequentemente, a angústia é condicionada fisiologicamente.
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Esse fato é um problema ontológico, não ôntico-causal.
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O desencadeamento fisiológico só é possível porque o Dasein já se angustia no fundo de seu ser.
Essa indicação admite, excluídas as considerações ônticas, que o Dasein, do fundo de seu ser temporal, é encarnado e a angústia é um modo da encarnação.Isso leva a uma aporia central: se a angústia que dá acesso ao tema próprio da analítica é uma disposição da carne, então a ontologia fundamental estaria subordinada ao fato da encarnação, que é inassimilável ao sistema conceitual centrado na temporalidade.-
O vínculo entre carne e angústia é corroborado por um curso sobre Nietzsche.
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O sentimento, como se-sentir, é precisamente a maneira pela qual somos carnais.
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Ser carnal não significa ter uma alma ligada a um corpo, mas que, no se-sentir, a carne está de antemão integrada ao nosso si.
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Não temos uma carne, nós a somos.
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A essência desse ser inclui o sentimento como se-sentir, que opera a inclusão da carne em nosso Dasein.
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Esse texto se volta contra a analítica existencial em três pontos.
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A carne não é um corpo simplesmente presente e sua constituição não é extática, pois a vida mesma não o é, e a espacialidade que lhe é indissociável é irredutível ao tempo.
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A carne é sexuada e pressupõe o ser-com, o que introduz uma limitação excepcional ao quadro conceitual da ontologia fundamental.
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Se todo sentimento é uma encarnação disposta, a angústia como sentimento originário deve ser revelação da própria carne.
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Para que essa reinterpretação da angústia a subtraia definitivamente à temporalidade, é necessário examinar o que ela compreende.
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A angústia revela o mundo enquanto mundo.
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A compreensão, enquanto projeto existential, possui a estrutura do enquanto hermenêutico.
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O enquanto hermenêutico origina-se na revelação prévia do mundo e permite encontrar o ente enquanto algo para.
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A proposição o mundo enquanto mundo é, no entanto, incompreensível diante do conceito existencial de compreensão.
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O enquanto é um constituinte a priori da compreensão, dependente da revelação do mundo.
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Dizer que a angústia revela o mundo enquanto mundo é afirmar que ela revela a condição de possibilidade de toda compreensão, o que não pode ser um conteúdo compreensível no sentido temporal-existencial.
Portanto, a proposição não pode ter um sentido temporal, e a angústia é excetuada da temporalidade.-
A exceção da angústia à temporalidade aponta para um fenômeno central que escapa à analítica do Dasein.
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O fundamento dessa situação reside na relação entre o ser e o enquanto.
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Em escritos posteriores, Heidegger identifica o enquanto com a verdade do ser, com o desvelamento.
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Nota-se que os termos grego e latino para enquanto são primitivamente advérbios de lugar.
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A hipótese é que a verdade do ser apela ao lugar porque o ser não está à medida do espaço, nem de sua própria verdade.
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A relagação da temporalidade a pré-nome e a interrupção de Ser e Tempo podem estar ligadas a essa irredutibilidade espacial inscrita no enquanto.
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A seção Tempo e Ser, que trataria do enquanto na cópula, não foi publicada.
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A tese de que o enquanto se funda na temporalidade parece tolerar uma restrição que impediu a conclusão da obra.
O significado local irredutível do enquanto exclui a temporalização do discurso filosófico, contradizendo as proposições da ontologia fundamental no momento mesmo em que são enunciadas.-
Duas observações finais são acrescentadas.
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A autonomia do espaço em relação ao tempo pode ser a condição de possibilidade do livro como volume.
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Para além de Ser e Tempo, a destemporalização do enquanto e do sentido concerne a toda hermenêutica, cuja radicalização exige a prévia colocação do problema do espaço.
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