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estudos:foucault:espaco

Espaço

FBAE

  • I. A espacialidade
    • 1. A experiência vivida originária do espaço: Edmund Husserl
    • 2. A espacialidade se funda no “ser-no-mundo”
    • 3. A espacialidade afetiva
  • II. O espaço dos doentes
    • 1. O caso de Franz Weber (Roland Kuhn): o “delírio do limite”
    • 2. O modo de espacialização do sujeito
  • III. O vínculo entre espaço e tempo
    • A análise da espacialidade conduz necessariamente à interrogação sobre o modo pelo qual a existência se temporaliza
  • Na experiência vivida originária, o espaço não se oferece como estrutura geométrica da simultaneidade, pois esse tipo de espaço, no qual as ciências naturais asseguram a coerência dos fenômenos objetivos, só se constitui ao longo de uma gênese que deve ser descrita a partir da sensibilidade em suas colorações e conteúdos gerais.
    • Podem-se distinguir, como momentos dessa gênese, campos originários e “pré-espaciais” da sensibilidade orgânica, seguidos por um orientamento absoluto que os estrutura de modo simples e rígido em torno do corpo enquanto um “aqui” incontestável.
    • Em seguida, a exploração visual se abre em planos diferenciados, sobretudo quando se enlaça com a experiência cinestésica e tátil, articulando reciprocamente os elementos desses âmbitos.
    • Por fim, constitui-se um sistema de invariantes físico-matemáticas que despoja o corpo de seu primado como referência, instaurando um espaço que tende à neutralidade abstrata.
    • Essa gênese também pode ser reconstituída historicamente, tal como Husserl tentou em A origem da geometria, ao mostrar como, a partir de práticas de mensuração, se formou um universo euclidiano que Galileu reinvestiu na natureza ao explicitar a eidética matemática das leis da queda dos corpos e do movimento em geral.
  • A possibilidade dessas duas análises genéticas, e a equivalência de suas necessidades, torna patente a insuficiência da descrição fenomenológica enquanto descrição, pois o conteúdo atual de uma experiência remete sempre a um devir que a constituiu, permanecendo implícito, porém, o horizonte temporal desse devir no interior da fenomenologia.
    • Impõe-se, então, a pergunta pelo estatuto do devir: trata-se de um amadurecimento que desenvolve potências, ou de uma dialética histórica que promove realidades, e em ambos os casos a fenomenologia husserliana, tomada ao pé da letra, não decide a questão.
    • É preciso ultrapassar a fenomenologia rumo a um tipo de necessidade que forneça à experiência do espaço seu sentido decisivo, evitando-se o equívoco da própria palavra “origem”, que já compromete, por antecipação, o sentido de “gênese”.
    • O retorno não deve visar um ponto inaugural, mas a terra natal de todos os sentidos e de todos os movimentos de significação: o mundo mesmo, ou, mais precisamente, o ser-no-mundo, isto é, o solo ontológico que a análise existencial se propõe a esclarecer, onde a gênese do espaço geométrico só é inteligível porque a espacialidade já possui um sentido originário mantendo o mundo como fundo.
  • Dizer que a espacialidade se funda no ser-no-mundo, ou que o mundo é a terra natal da espacialidade, significa reconhecer desde o início que o espaço é pleno, espesso e colorido, dotado de consistência familiar, e não um recipiente vazio que receberia conteúdos posteriormente.
    • Deixar o espaço ser espaço implica admiti-lo como proximidade e distância, como estranhamento e familiaridade, como horizonte desfocado e como presença sólida, dócil ou resistente ao toque, de tal modo que o espaço já se dá como estrutura de possibilidades práticas.
    • Implica também reconhecê-lo como direita e esquerda, atrás e diante, isto é, como um campo já orientado e já comprometido com a corporeidade e com a situação, antes de qualquer tematização geométrica.
    • Nesse nível, o espaço é convite implícito à ação, abertura ao gesto e disponibilidade à mão, razão pela qual Martin Heidegger pôde caracterizá-lo sobretudo como espacialidade dos Zuhandenen, na medida em que o espaço se define pelo manuseio e pelo sentido prático das coisas.
  • Nesse nível, a espacialidade pode ser descrita pela distinção entre o espaço do corpo e o espaço do ambiente físico ou social, isto é, entre Leibraum e Umraum, mas essa distinção só tem sentido se for permanentemente mantida na forma de unidade.
    • Essa unidade é a do gesto orientado a um objetivo, capaz de contornar o obstáculo ou de moldar a coisa, e é a da ação que estrutura um conjunto de movimentos em vista de uma tarefa, como unidade de realização, Leistung, segundo Viktor von Weizsäcker.
    • Tal unidade do ato supõe um espaço polarizado por um fim, cujas linhas de força convergem para um ponto, isto é, um espaço finalizado, Zweckraum, na expressão de Erwin Straus.
    • A relação com o mundo aí instituída é um debate vital no qual se decide, antes de tudo, o funcionamento orgânico e o desenrolar das atividades corporais, o que explica sua aparição privilegiada nos distúrbios neurológicos.
  • Os distúrbios neurológicos, que vão de patologias circunscritas como a hemianopsia e a asomatognosia parcial a intoxicações globais por mescalina ou haxixe, foram estudados por Paul Schilder, Adhémar Gelb, Kurt Goldstein e Willem van Woerkom, e aqui interessam sobretudo por evidenciarem uma dissociação entre espaço próximo e espaço distante.
    • O espaço próximo é o do corpo, do gesto imediato e dos objetos literalmente “sob a mão”, ao passo que o espaço distante é aquele de onde o corpo parece ausente e que se designa alusivamente como um “lá”, estranho e objetivado.
    • Essas duas categorias do espaço objetivo foram definidas por Adolf Grünbaum, e sua tensão reaparece como eixo interpretativo das perturbações.
  • Em Afasia e motricidade, Adolf Grünbaum descreve o espaço individual, Eigenraum, como a conexão dinâmica entre o corpo próprio e seu ambiente mais próximo, dada como unidade de funcionamento simultaneamente cinestésica, ótica e motora, constituindo o fundo da capacidade motora do corpo.
    • No momento da ação, os movimentos dos membros se diferenciam desse espaço como instrumentos relativamente independentes, e assim se torna possível a constituição do espaço estranho, Fremdraum, entendido como o ambiente da representação objetiva.
    • Eigenraum e Fremdraum não estão absolutamente separados, mas se compenetram continuamente pela mediação da capacidade motora, de modo que a unidade é uma conquista prática e não uma simples soma de domínios.
  • Nos distúrbios neurológicos, a relação entre espaço individual e espaço estranho se altera e, por vezes, a distância entre ambos se torna tão grande que a unidade não pode ser reencontrada.
    • O afásico pode “agarrar”, mas não consegue “mostrar”, reencontrando espontaneamente o uso do objeto que lhe é colocado ao alcance, mas falhando em reconhecê-lo quando é exibido à distância.
    • Diante desse fato, pode-se optar por uma teoria das “funções”, à maneira de Ernst Cassirer, interpretando-o como perda da função simbólica, ou seguir Goldstein e sua teoria dos “atitudes”, diagnosticando o desaparecimento do atitude categorial.
    • Contudo, ao manter-se no rigor fenomenológico, o fenômeno pode ser apreendido como dissociação entre próximo e distante, Eigenraum e Fremdraum, de tal modo que a atividade motora já não reencontra o caminho da unidade.
  • Em outros casos, ocorre o inverso: uma confusão imediata entre os dois espaços, como se o espaço distante invadisse o espaço próximo e anulasse as distâncias.
    • Ludwig Binswanger relata um paciente que, deitado na cama, sente um elemento da ferrovia sob suas janelas penetrar o quarto, alcançar seu corpo e perfurar-lhe a cabeça, produzindo dor lancinante e ataques de angústia, como se o longe tivesse abolido sua condição de longe.
    • Carl Schneider menciona um caso observado por Mannheim, no qual um sujeito intoxicado por mescalina vê seu porta-canetas, envolto por uma aura nebulosa, rastejar em sua direção com movimentos ondulatórios como uma lagarta, vivenciando a aproximação como perseguição espacial.
    • Todavia, essa labilidade ou rigidez extrema entre longe e perto não é o fenômeno último, pois a invasão não é vivida como mera perturbação do espaço orientado, mas como manifestação de um “poder superior” que encurta e alonga distâncias, atravessa o impenetrável e desfaz magicamente os vínculos do mundo, instaurando um espaço mágico.
  • Esse espaço mágico remete a uma espacialidade ainda mais originária do que a espacialidade orientada, a saber, a espacialidade afetiva, que já não se centra no corpo nem se distribui segundo coordenadas orgânicas, mas se estrutura pelas qualidades afetivas do vivido.
    • Trata-se de um espaço que encontra sua plenitude como significação expressiva e não como esquema de ação, um espaço que não se abre como percurso em direção a finalidades, mas se cumpre integralmente no próprio instante em que é vivido.
    • Em relação ao espaço orientado, o espaço afetivo se assemelha ao espaço da dança em comparação com o da caminhada, pois é, a cada momento, absolutamente cheio e atual, e sua diversidade não é geométrica, mas qualitativa e simbólica.
    • Alto e baixo, direita e esquerda deixam de depender de uma distribuição relativa a um centro e adquirem significação absoluta, autoctônica, que se impõe por si, como se o sentido espacial fosse imediatamente valorativo e existencial.
  • Os sonhos, os mitos, as fantasias e os delírios oferecem acesso privilegiado a essa espacialidade afetiva, pois neles reaparecem significações absolutas que não se deixam reduzir a coordenadas funcionais.
    • Binswanger analisa, nessa perspectiva, dois sonhos de Gottfried Keller, entre os quais aquele em que uma águia plana sobre um vale, provocando alegria e serenidade pela liberdade do voo, e se aproxima da janela com uma coroa na cabeça.
    • Keller tenta fazê-la entrar, e, quando a águia finalmente penetra no quarto, ela o enche por um instante de esplendor ofuscante e do turbilhão de suas penas; ao fechar e reabrir os olhos, resta apenas um pedaço de papel preto no chão, e o sonhador é tomado por melancolia.
    • O sonho se desenrola no espaço afetivo, pois o momento etéreo do voo livre e o momento do turbilhão e da queda expressam uma pulsação da existência, sua expansão e sua depressão, sua sístole e sua diástole, como diz Binswanger.
    • Nessa alternância se lê o projeto de uma existência que visa uma liberdade plena e instantânea, mas continuamente ameaçada por uma queda que a reduz a uma objetividade irrisória.
    • Uma pulsação análoga aparece no caso de Ellen West, com o mesmo ímpeto de exultação irreal e a mesma queda, sem que se consiga instaurar, nesse espaço afetivo, a consistência de um espaço terrestre no qual se possa caminhar e avançar continuamente.
  • Não se deve supor, entretanto, que o espaço da terra firme seja, por direito, a pátria do homem saudável, pois a doença também ergue barreiras e fragmentações que figuram sensivelmente um destino no qual a existência se fecha.
    • O espaço individual e o espaço social são sempre recortados por limites, limiares e fronteiras que se sobrepõem à distribuição geográfica, instituindo separações de sentido.
    • Nos mitos religiosos, o atravessamento de regiões do mundo, como no caso dos Argonautas, ou a passagem entre níveis do universo, como em Orfeu e a descida de Teseu aos Infernos, dramatiza a topologia existencial do limite.
    • Os ritos de passagem, como o ritual de transpor um limiar na religião grega e romana, e os ritos de delimitação e proteção, como o temenos e o templum, ou as procissões das rogativas que circundam a cidade, mostram a necessidade simbólica de cercar o espaço para assegurar coesão e proteção.
    • Essa subdivisão mítica supõe a oposição entre sagrado e profano, entre espaço carregado de potência religiosa e espaço destituído dela, ou ainda entre espaço da familiaridade, da pátria e da hospitalidade, e espaço hostil da estranheza.
    • O espaço delimitado se valoriza como coesão intensificada, pois o templum concentra uma carga de sagrado que só se relaciona com o profano por passagens ritualizadas, e a cidade, cercada por procissões, reforça sua unidade contra adversidades.
  • Esses temas reaparecem no espaço dos pacientes não como mitos implícitos, mas como estruturas explícitas de um espaço no qual a existência efetiva se projeta e se organiza, tornando visível o nexo entre espacialidade e destino.
    • Roland Kuhn estudou, nesse sentido, o “delírio do limite”, descrevendo o caso de um esquizofrênico, Franz Weber, que manifestou ideias persecutórias aos vinte e oito anos e foi internado aos quarenta e quatro com diagnóstico de esquizofrenia.
    • Observa-se dissociação da linguagem, com neologismos e sintaxe perturbada, forte autismo e delírio de influenciamento, além de um delírio relativamente pouco acentuado, mas explícito.
    • Weber desenha incessantemente, e seus desenhos expõem a identidade temática: começa por uma barca com a qual se pode circular e partir para um périplo que retorna, após longa navegação, ao porto de origem, como se o movimento só pudesse justificar-se pela volta.
    • O tema se transforma, eliminando o instável da navegação: o espaço de segurança se ancora na terra firme e aparece como castelo, Burg, dominando o mar, descrito como “tesouro”, lugar onde “os homens poderiam viver cem anos”.
  • No início, o castelo desenhado por Franz Weber corresponde às medidas do corpo humano, e o paciente estabelece relações precisas entre linhas arquitetônicas e elementos do esqueleto, de modo que o espaço privilegiado e protegido aparece como transposição do corpo próprio.
    • À medida que a doença se desenvolve e o delírio de grandeza se afirma, os planos se tornam colossais: o castelo vira cidade para milhões e, ao final, pretende estender-se ao mundo inteiro.
    • A cidade é imaginada como refúgio na guerra, depósito de bens da cultura, abrigo de “uma sociedade ordenada contra o caos moderno”, e, em última instância, como “segurança diante do nada”.
    • Paradoxalmente, quanto mais o delírio se expande, mais a estrutura dos planos se empobrece: eles se tornam esquemáticos, fundados quase exclusivamente na simetria repetida indefinidamente.
    • Perde-se o vínculo orgânico entre bairros e edifícios; estes se justapõem em figuras geométricas nas quais a utilidade habitacional é banida, e surgem inscrições que misturam “química, matemática, pessoa, cidade, nação, continente”, como se a ordem nominal substituísse a ordem vivida.
  • Aqui se manifesta o núcleo do modo de espacialização do sujeito: o espaço deixa de ser a extensão na qual objetos se articulam em instrumentos e meios em vista de um fim, e o objeto aparece como posto ali, isolado, sem contexto e sem relações que o prolonguem no exterior.
    • A individualidade se fecha numa indiferença que dissolve linhas de uso e de transformação: o objeto já não aponta para relações externas no espaço nem para transformações possíveis no tempo.
    • O objeto está diante dos olhos, mas a mão já não sabe como alcançá-lo, e o mundo se converte em puro espetáculo, onde já não há coisas a fazer, mas apenas coisas a ver.
    • Nos termos de Heidegger, os Zuhandenen se transfiguram em Vorhandenen, isto é, o à-mão se degrada em simplesmente-presente, e a pragmática do mundo cede lugar a uma ótica estéril.
  • Como já não há organização interna cujo significado seja veiculado pelas próprias coisas, o doente tenta impedir a dispersão no arbitrário e no absurdo valendo-se apenas de estruturas de geometria elementar e de uma proteção mágica assegurada pela multiplicação de cercas, muralhas e fortificações ao redor de sua cidade mítica.
    • Essas precauções, porém, são vãs, e sua proliferação evidencia sua inutilidade: fora da cidade, o caos continua a ameaçar; dentro dela, a acumulação exige expandir incessantemente os limites de proteção, até pretender cercar as próprias fronteiras do mundo.
    • Nessa contradição, onde o espaço escorre como areia e obriga a conter o todo para reter uma parte, aparece a raiz existencial do delírio dos limites.
  • Se o espaço se dispersa e foge, é porque o tempo já não consegue escoar, e é nessa falha temporal que o delírio espacial encontra sua motivação mais profunda.
    • O paciente perde o sentido da orientação temporal: ao caminhar, segue trajetos rigorosamente circulares, e, ao escrever, não dispõe palavras em sequência, mas as distribui em colunas, instaurando uma tabela na qual a simetria formal substitui os vínculos de significação.
    • A existência, em vez de abrir-se a um futuro no qual transcende a si mesma, é submersa por um passado que a aliena, e temporaliza-se como uma “tesaurização” existencial, isto is, como acumulação conservadora de saberes, homens e riquezas num mesmo tesouro.
    • Essa acumulação não visa projetar-se num futuro promissor, mas apenas custodiar e preservar, de modo que o futuro aparece unicamente como perigo indiferenciado, seja como guerra, destruição ou caos.
    • Separado do futuro, o tempo torna-se circular, retornando constantemente a si mesmo, e o “périplo”, tema constante, exprime uma partida que só tem sentido por permitir o retorno, como repetição que faz o tempo avançar apenas sob a ilusão de imobilidade.
    • Nessa condição, o tempo perde sentido, orientação e significado, e, para reencontrar artificialmente um sentido, o paciente impõe ao espaço limites supostamente intransponíveis, decompondo-o em estruturas rígidas para conferir significação absoluta ao “início” e ao “fim”, ao aquém e ao além, ao “já feito” e ao eventual.
    • O delírio espacial aparece, assim, como tentativa indireta e sempre infeliz de recuperar o sentido perdido de uma temporalidade autêntica.
  • Chega-se, então, por deslocamento natural, da espacialidade ao modo como a existência se temporaliza, o que sugere que nenhum elemento da análise existencial pode ser isolado, pois todos formam uma totalidade na qual a alteração parcial só tem sentido no quadro de uma transformação global.
    • Pode-se também supor que a temporalidade ocupa um nível mais fundamental nas estruturas ontológicas da existência, de modo que a passagem do espaço ao tempo não é contingente, mas necessária.
    • As duas questões se implicam e tendem a compor uma única pergunta, pois a inseparabilidade dos existenciais parece depender do lugar primordial da temporalidade na constituição do existir.
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