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Último juízo: gerações

FLUSSER, Vilém. O Último Juízo: Gerações (2 vol.). Org. Rodrigo Maltez Novaes, Rodrigo Petronio. São Paulo: É Realizações, 2017

Introdução

1. Diante do trovão da ira divina que ressoa como presságio do dia da ira e da dissolução do mundo em cinzas, a terceira e a quarta geração não buscam respostas, mas a articulação da pergunta sobre o que fazer, pois tornar dizível o terror indizível o desarma, já que o discurso racional afugenta o medo e o medo do medo motiva todo esforço racionalizador, inclusive este, que pretende erguer um tripé mais ou menos racional como ponto de vista e apoio para observar, sem entorpecer-se, os vapores venenosos exalados pela garganta do passado, de modo que a articulação não seja balbucio sem nexo e revele algum significado relativo às perguntas sobre como se chegou até aqui e de quem é a culpa, isto é, sobre o onde e o porquê da situação presente, ambas envolvidas num clima quiliástico que vibra com o trompete do último juízo e no qual o leitor deve sentir a última ameaça e a última promessa.

2. Toda época tem seus profetas do ocaso, e prever a catástrofe derradeira é atitude simples, cômoda e, no fundo, otimista, pois exonera de responsabilidade e exalta o exonerado, mas o que se teme aqui não é a explosão e sim as cinzas, não o cogumelo esplêndido e sim o deserto, não a morte heroica nas chamas e sim a morte insípida no cotidiano, já que não há catarse do fogo purificador e a terceira e a quarta geração serão seguidas da quinta e da sexta, de modo que a ira divina se revela não como explosão, mas como estagnação do mundo, num último dia tão imperceptível que talvez já tenha passado sem ser notado, numa vigésima quinta hora em que a notícia do juízo chega atrasada, como insinua Nietzsche, e o mundo é epílogo triste da realidade e portão para o nada, no qual não se precipita, mas se desliza por um plano inclinado chamado progresso, cuja aceleração geométrica seria a condenação à revelia no julgamento final a que não se compareceu, perguntas que inspiram um quiliasmo contra o qual se convida a lutar.

3. Esse clima explica o surgimento dos profetas do ocaso, cujo desejo é o pai de seu pensamento, pois proclamam o fim do mundo para provocá-lo, por ser intolerável, enquanto a humanidade, entediada no cotidiano e faminta de sensações, perscruta o firmamento em busca de sinais de catástrofe e os encontra em cometas, espadas flamejantes, discos voadores e marcianos, sob um céu em que viceja uma literatura apocalíptica luxuriante que anuncia o fim da sociedade burguesa, do Ocidente, da humanidade e da vida na Terra e a morte de Deus e do diabo, unida pelo lema de que o que não deve ser não pode ser e pela recusa, por horrível demais, de admitir sequer a possibilidade de continuidade.

4. Nesse clima surge a pergunta existencial sobre por que há algo, à qual a geração atual responde menos intelectual do que vivencialmente, por duas atitudes, o devorar do carpe diem e o dar de ombros do não ligo, para as quais os foguetes são ou meio de viagem rápida e cômoda ou ruído incômodo que interrompe o ócio, atitudes falsas, poses e fugas tanto a progressista quanto a não empenhada, já que a pergunta não pode ser evadida e exige aceitar o foguete como desafio, o que implicaria aceitar o mundo, coisa intolerável, preferindo-se então que o mundo acabe.

5. O mundo é o conjunto mal definido dos seres que constituem a realidade, compacto no centro e difuso na periferia, uma bola cuja superfície se evapora e em cujo centro está o eu como núcleo da realidade, rodeado pela multidão de seres que se acotovelam para alcançá-lo, ser percebidos, conhecidos e reconhecidos, formando a circunstância, enquanto atrás deles flutua a massa amorfa dos seres imperceptíveis, território da virtualidade de onde os perceptíveis se condensam e que se perde nos abismos do nada, pelos quais a bola da realidade rola do passado ao futuro, o que suscita a pergunta sobre como esse mundo pode acabar.

6. O mundo não acaba por catástrofe externa, como creem os profetas, mas como começa, pelo eu ancorado em seu centro e responsável por seu metabolismo, pois a atitude devoradora abre um vórtice centrípeto em que os seres se precipitam e se aniquilam no vazio do eu, e a atitude do não ligo, ao repelir os seres, gera um movimento centrífugo em que o mundo se dissolve no nada circundante, de modo que as duas atitudes características da geração atual produzem o clima apocalíptico e são os próprios profetas da catástrofe que a provocam.

7. Uma terceira atitude é possível, aceitar as coisas como desafio e convertê-las em problemas que barram o caminho e devem ser superados não pelo aniquilamento nem pela indiferença, mas pela transformação mediante a manipulação, e, como a maioria das coisas que cercam a geração atual são instrumentos, coisas já manipuladas que parecem exigir consumo ou recusa e, portanto, o próprio aniquilamento, nisso reside a razão ontológica da expectativa reinante de fim do mundo, ao passo que aceitar os instrumentos como problemas é uma escolha existencial de não aceitá-los passivamente, uma abertura vivencial diante do mundo da tecnologia e a decisão de superá-lo não pelo consumo crescente nem pela recusa enojada e entediada, mas pela manipulação e transformação da tecnologia em outra coisa.

8. Com essa decisão existencial inicia-se no mundo um movimento diferente, em que as coisas que se precipitam sobre o eu são realizadas pela atitude manipuladora, tornando o mundo compacto e consolidado, emergindo do abismo do aniquilamento à medida que é realizado, num clima em que não há lugar para o quiliasmo característico do tempo presente, restando saber se essa atitude e esse clima são viáveis.

9. Vive-se num mundo esgotado e pobre, oscilando entre devorar e recusar, em que instrumentos transparentes e ocos caem no vazio do eu para serem consumidos e colidem com outros expelidos pelo tédio e pelo nojo, coisas tão diáfanas que através delas se vislumbra o nada e mal encobrem a nudez do eu, num mundo quase esvaziado de realidade em que raramente se apanha um resto de realidade, vestígio de um mundo perdido, mas compacto demais para ser suportado ou agarrado, próprio de uma geração cansada cuja capacidade de mudar de atitude permanece em dúvida.

10. Sem resposta para essa pergunta, este livro articula sua busca, procurando compreender a situação que a originou, compreensível historicamente, já que na história se encontra a explicação e, portanto, também a possível saída da situação presente, razão pela qual se visitam as gerações precedentes para que respondam para onde se vai, com a humildade devida aos mais velhos, mas não sem recriminá-los, pois são elas as culpadas pela situação atual, a fim de aprender do passado não como imitá-lo, mas como evitar seus erros, finalidade deste livro.

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