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Tradução
- A desconstrução da concepção técnica da tradução e a primazia da palavra (Sagen)
- A perspectiva tradicional, que circunscreve a tradução ao mero transporte de significados entre um idioma fonte e um idioma alvo, constitui um obstáculo intransponível à compreensão da tese heideggeriana, a qual postula que a tradução não pressupõe a diversidade das línguas, mas é, inversamente, a condição de possibilidade da própria fala (parole).
- Ler Heidegger exige a neutralização dos contrassensos gerados pela acepção vulgar do termo, visto que a tradução opera no âmago de cada língua histórica, exigindo uma escuta original que não visa a equivalência vocabular, mas a abertura para o que os textos fundamentais — notadamente os gregos — dão a pensar em sua proveniência essencial.
- A tradução como transmutação do modo de ser e o esforço de deslocalização
- O ato de ouvir e traduzir implica uma preparação que rompe com a familiaridade cotidiana, exigindo que o intérprete se traduza diante do texto (se traduire devant eux), movimento este que impõe uma violência necessária para desalojar o sujeito de suas certezas habituais e de sua pretensão prévia de saber.
- No curso sobre Parmênides (GA54), Heidegger esclarece que traduzimos constantemente nossa própria língua materna ao tentar conduzi-la a uma formulação que lhe seja própria, de modo que a tradução primordial ocorre em todo diálogo, mesmo interior, sempre que o que deve ser dito (ce qui est à dire) desloca-se para um novo horizonte de verdade ou clareza.
- A verdadeira tradução é definida como um movimento de segunda ordem em relação ao salto existencial que transplanta nossa maneira de ser para o domínio de uma verdade outrora oculta, o que invalida a redução da tradução a uma simples operação de câmbio linguístico baseada em uma suposta experiência comum.
- Divergência etimológica entre Traduction e Übersetzung: O Salto sobre o Obstáculo
- A análise comparativa revela que, enquanto o termo francês traduction (do latim ducere) evoca um movimento de condução ou passagem sem ruptura, o termo alemão Übersetzung (do radical setzen) designa o ato de fundar uma assise (assise) após a superação de um obstáculo mediante um salto (Satz).
- O obstáculo fundamental a ser transposto não é a barreira idiomática, mas sim a nossa relação natural e utilitária com a fala, a qual nos impede de habitar a linguagem em sua própria essência, exigindo que abandonemos nossa maneira de falar para nos situarmos no modo como a própria palavra fala (die Sprache spricht).
- A fala essencial manifesta-se precisamente no momento da afasia, quando a palavra nos falta diante do que nos entusiasma ou angustia, revelando que o ser fala constantemente através de toda língua como uma palavra sem voz, que precede e fundamenta tudo o que é dizível.
- A Tradução Poética e a Recuperação do Sentido Original (Logos e Aletheia)
- A correspondência entre Marina Zvétaieva e Rilke corrobora a tese de que ser poeta é traduzir da língua mãe (langue mère) — entendida como a palavra originária que gera a humanidade — para as línguas históricas, reafirmando que nenhuma língua falada coincide plenamente com essa origem silenciosa.
- A prática tradutória de termos como Logos e Aletheia demonstra que não se deve buscar o que a palavra quer dizer (vouloir dire), mas o que ela diz (elle dit), forçando o intérprete a unificar conceitos como razão e relação em uma única escuta ou a perceber na verdade (alèthéia) a dimensão de um aberto sem retraimento (ouvert sans retrait).
- A tarefa do tradutor acadêmico, exemplificada por Jean Beaufret, consiste em manter-se atento àquilo que fala vindo da outra margem, preservando a alteridade do impensado sem reduzi-lo ao horizonte do conhecido.
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