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Heidegger e Tao

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

Perspectivas cambiantes: o daoismo de Heidegger e o Heidegger do daoismo

1. A presente interpretação de Heidegger e o dao possui três objetivos entrelaçados, sendo o primeiro transmitir sentido histórico e intercultural mais multifacetado do caminho de Heidegger, do dao daoista e do dharma budista, contestando tanto fantasias orientalistas sobre Heidegger e a “sabedoria oriental” quanto a opinião de que Heidegger tivera afinidades daoistas múltiplas, mas em última análise incidentais.

  • Isso se faz traçando seus encontros e interseções daoistas e como ajudaram a guiar aspectos-chave de sua jornada filosófica de modo elementar e sistemático, sendo a primeira missão mapear os engajamentos explícitos e implícitos de Heidegger com discursos leste-asiáticos concernentes à coisa, ao nada e ao mundo, com o intuito de articular as condições de um encontro elementar com eles.

2. Segundo, essa estratégia torna necessário examinar constelações daoistas e budistas para além do conhecimento historicamente circunscrito que Heidegger tinha delas, permitindo-lhes liberdade para responder dialogicamente às transmissões europeias e deslocar perspectivas europeias.

3. Terceiro empreendimento inter-relacionado, existencialmente o mais vital por ser compelido por nossa situação contemporânea, é indicar perspectivas de relações responsivamente sintonizadas e ecomiméticas com as coisas e dentro do mundo, e, com base nisso, o potencial crítico libertador de modos de estar ambiental e publicamente sintonizados em resposta às tendências de crise ecológica e social existentes.

  • Essas crises consistem na devastação da terra e da coisa, no obscurecimento do céu e do mundo, na degradação e destruição ambientais, e no dilema climático global, apontando a filosofia daoista antiga e momentos do pensamento de Heidegger para diferentes modos de sintonia e habitação capazes de “saltar adiante” (vorspringen) no “ser-com”.
  • Isso expandindo as categorias iniciais de Heidegger para além da existência humana, e nutrindo a vida em sintonia responsiva ao co-apropriar-se e colaborar sinpoieticamente (adotando a expressão de Donna Haraway) com outros e com coisas, autopadronizando localidades e ecossistemas circundantes.

4. Para cumprir essa tarefa tripla, a parte inicial deste livro concentra-se em elucidar a coisa em sua especificidade e prioridade, e a Parte Dois no nada e em como ambos formam mutuamente o locus do sentido e do mundo, apresentando a Parte Um descrição intercultural historicamente informada da jornada filosófica de Heidegger no contexto de análise expansiva das práticas daoistas de desfazimento de fixações.

  • Os discursos daoistas acentuam a geratividade e a fluidez, a natalidade e a mortalidade, a sintonia responsiva (wuwei 無為) ao autonaturar-se espontâneo (ziran 自然), a transitoriedade e transformação das coisas (hua 化), e o nada gerativo que nutre as miríades de coisas (wanwu 萬物).
  • Essas expressões e imagens de pensamento, que desafiam a bifurcação entre conceito e imagem, emergiram em fontes chinesas antigas em sua maioria desconhecidas de Heidegger e de outros primeiros leitores europeus, abrangendo esses documentos manuscritos de seda e bambu da era pré-Qin recentemente escavados, como os manuscritos Laozi de Guodian e Mawangdui, que alteraram dramaticamente os estudos contemporâneos do pensamento chinês antigo.
  • Heidegger tampouco investigou sistematicamente as edições e comentários transmitidos da era Wei-Jin sobre o “aprendizado misterioso” de Wang Bi 王弼 (226–249 d.C.) e Guo Xiang 郭象 (252–312 d.C.), tendo o sinólogo e tradutor Richard Wilhelm (1873–1930) sim estudado essas edições, interpretando o daoismo como filosofia do “sentido da vida”.
  • Essas duas edições serviram de base para toda tradução alemã disponível no meio de Heidegger.

5. A Parte Dois desloca e expande os horizontes desta investigação, da coisa daoista rumo ao nada, ao vazio e à clareira, recorrendo a discursos daoistas, budistas e leste-asiáticos modernos, tendo o desdém inicial de Heidegger pelo budismo sido ajustado no período pós-guerra, especialmente quanto ao budismo zen.

  • Essa apreciação modificada é testemunhada em suas conversas pós-guerra com intelectuais japoneses visitantes e em sua entrevista com o monge budista tailandês Bhikku Maha Mani, sendo sua compreensão modificada mais evidente no ensaio de 1953–1954 “A partir de um diálogo sobre a linguagem”.
  • Esse ensaio marca a culminação da virada de Heidegger do medo e tremor do nada existencial rumo à clareza e liberdade do vazio, do aberto e da clareira, mergulhando-se por isso, na Parte Dois, nos papéis do nada daoista, do vazio budista e dos discursos e interlocutores leste-asiáticos que ajudaram a moldar a compreensão do vazio e da clareira no Heidegger do pós-guerra.

6. O projeto aqui desenvolvido oferece contribuição única e inovadora de quatro maneiras: primeiro, reexame sistemático das traduções e interpretações em língua alemã que moldaram o contexto linguístico de Heidegger e seu engajamento individual com o daoismo e a coisa (na Parte Um), e com o daoismo, o budismo e o nada (na Parte Dois).

  • Segundo, análise das mudanças linguísticas e conceituais no pensamento de Heidegger que se correlacionam com suas interações com textos e interlocutores daoistas, budistas e leste-asiáticos.
  • Terceiro, interpretação crítica — com e além de Heidegger e sua geração — de fontes daoistas antigas e budistas clássicas como indicativas de modelos da autonatureza da coisa e do comportar-se em relação à coisa e ao mundo por meio de práticas do vazio.
  • Quarto, crítica e reimaginação inspiradas no daoismo zhuangziano e no budismo da “Guirlanda de Flores” (Huayan 華嚴) acerca da coisa, do nada, do desprendimento e de sua importância contemporânea.
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