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Ethos

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

1. Heidegger deixou legado problemático e instigante, exigindo o utopismo do campo que informou seu interesse pelo daoismo interpretação crítico-ideológica diferenciada, requerendo sua situação hermenêutica pensar através da ambiguidade e complexidade, pois o bem e o mal só aparecem na finitude e imperfeição da vida.

  • Heidegger é um dos poucos filósofos europeus modernos a se engajar seriamente e aprender adaptativamente com a filosofia leste-asiática, rompendo na prática com o eurocentrismo da filosofia, ainda que não pudesse fazê-lo dentro de sua concepção de filosofia ocidental (abendländische Philosophie).
  • Heidegger, a despeito de si mesmo e de seus problemáticos compromissos políticos nacionalistas antidemocráticos nos anos 1930, que o daoismo ziranista e os críticos mais reflexivos de Heidegger colocam em questão, ajuda a confrontar o eurocentrismo persistente da filosofia, sua distorção sistemática da história e prática da filosofia, e a revelar outras possibilidades mais livres de pensar e habitar.

2. O nada gerativo daoista, o vazio da forma budista e a clareira aberta do ser em Heidegger transmitem modelos orientacionais exemplares de ser relacionalmente livre e responsivo no mundo com coisas e ambientes, revelando em seus momentos radicais três modos distintivos de desfazer transformativamente a hipostatização experiencial e linguística e de liberar o si e as coisas.

  • Tal como desdobrado nesta reconstrução filosófica ziranista, cada um exprime modos de contestar formações sedimentadas de vida e pensamento reificados, sugerindo o cuidado nutridor daoista (ci 慈) pelas coisas, a bondade amorosa e compaixão budistas pelos seres sencientes, e o cuidado (Sorge) de Heidegger modos indicativos distintivos de saltar-adiante e modelos exemplares críticos de cuidar das coisas e nutrir a vida.

3. Há dois problemas iniciais que confrontam essa abordagem de Heidegger, sendo o primeiro que suas categorias formalmente indicativas de cuidado, ser-com e saltar-adiante estavam restritas à existência humana em Ser e Tempo.

  • Segundo, Heidegger descreveu a analítica do Dasein como eticamente neutra e suspende a linguagem da ética, da moral e do valor, sendo isso problema se os intérpretes estiverem vinculados exclusivamente a Ser e Tempo.

4. A filósofa berlinense Katharina Kanthack argumentou que essa neutralidade não implica indiferença ética, o que significaria esquecimento do cuidado, mas conduz a um ethos de ser-com relacional e conhecimento ético de si e do outro (Kanthack 1958 e 1964).

  • Essa neutralidade formalmente esvaziada abre o nexo concreto da questionabilidade, deliberação e decisão éticas, permitindo questionar as modalidades éticas do saltar-para-dentro (einspringen) para dominar coercitivamente o outro e do saltar-adiante para cuidar e nutrir a autoindividuação do outro.

5. O Heidegger tardio oferece modos instrutivos de reorientar e expandir seu discurso anterior, falando não de ética, com suas regras e virtudes fixas, mas de ethos ou “ética originária” (GA9: 356), articulando um ethos mais fundamental que a ética e uma permanência mortal e mundana na abertura ao mistério, mais originária que o ethos (GA98: 345).

  • Mais significativamente, esse ethos abrange as coisas e seus espaços, sendo ao mesmo tempo a existência fática outra peça-chave do quebra-cabeça, já que os comportamentos intersubjetivos e interentre-coisas são mediados de modo complexo por formas materiais e sociais de vida em que desempenham papéis tanto apologético-ideológicos quanto de transformação crítica.

6. A aspiração condutora destes capítulos é reinterpretar e reimaginar o pensamento do ser em Heidegger e sua ética originária dados seus elementos ziranistas e nossa situação hermenêutica, sendo sua tese primária que, entrelaçado com fontes daoistas e outras interculturais, o caminho de Heidegger procede da filosofia ocidental paradigmática da dação disponível e da mera presença.

  • Essa filosofia oculta o espaçamento aberto das coisas e busca excluir logicamente e subordinar dialeticamente a negatividade e o nada, procedendo rumo ao nada, ao vazio e à clareira em seu vir-à-presença e retraimento na ausência, ou, para acentuar seu sentido verbal mutável, presenciar-ausentar-se.

7. A escuridão nutridora e o mistério do nada, e a abertura ocultante-desocultante que caracterizam o pensamento do ser em Heidegger, são, quando interpretados como porte e ethos, elementares para o encontro responsivo e a habitação com as coisas na clareira-mundo.

  • A visão de Zhuangzi do vagar livre e desimpedido indica modos de praticar a filosofia como contestação e desfazimento de fixações, permitindo essas práticas repensar os caminhos de Heidegger e reimaginar para nós mesmos as coisas, o nada e o mundo na especificidade de nossa condição existencial.
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