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Razão e Existência

DUFRENNE, M.; RICOEUR, P. Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947

1. Filosofar com o olhar fixo na exceção consiste essencialmente em unir a profundidade radical das intuições de Kierkegaard e Nietzsche à clareza intelectual própria da vocação filosófica, ambicionando conciliar razão e existência, sendo a razão a busca de precisão conceitual e clareza sistemática herdada da tradição ocidental, e a existência o sentido de intimidade e drama próprio das experiências cardinais do indivíduo; a obra de Jaspers, longe de romper com a filosofia clássica, constitui um esforço de integrar a essa tradição a mensagem excêntrica dos que pareciam seus destruidores, restituindo as fontes da philosophia perennis contra as formas vazias de uma razão sem raízes, e transformando a exceção incomunicável de Kierkegaard e Nietzsche em algo essencialmente comunicativo.

2. A exceção não fornece tarefa precisa, mas a philosophia perennis por ela renovada propõe tarefas imperiosas, tendo por termo o ser e por meio o pensamento.

  • a questão do ser está presente desde as primeiras páginas da Philosophie e conduz o filósofo através de cada posição conquistada, sem que nem o objeto das ciências nem a existência se revelem o ser em si
  • o sentido agudo da existência não eclipsou, mas renovou o sentido do ser, segundo tríplice aspecto
  • a questão do ser é inseparável de quem questiona, fincada no coração da existência como mal-estar e impulsão, e só brota do seio da existência possível, ligação que se resume na palavra Ursprung
  • esse vínculo entre filosofia e origem gera contraste violento entre a amplitude da questão e a estreiteza da situação de quem questiona, situação presa entre começo e fim, carregada de passado e limitada por caráter, paixões e informação limitada
  • o ser só se dá em perfis e esboços fadados ao fracasso para entregar sua mensagem, sendo o fracasso o traço de união entre a situação concreta do filósofo e o ser como termo de toda questão, fracasso que atinge todo sistema pretensioso de engendrar a totalidade dos problemas a partir de um princípio primeiro

3. A ligação da questão ao questionante tem como consequência capital que o ser é dilacerado, ganhando envergadura por uma série de rupturas, de modo que a existência tem nascimento doloroso ao arrancar-se do tecido dos objetos do mundo, podendo vir a si mesma ou faltar a si mesma, opondo-se e ligando-se ao ser do mundo (Dasein, ser empírico) e, por seu caráter de decisão e possibilidade, opondo-se e ligando-se também ao ser em si da transcendência.

4. A dificuldade de pensar a existência decorre primeiramente do dilaceramento do ser, expondo a filosofia ao duplo perigo da incoerência e da confusão, uma vez que as rupturas expressam relações dramáticas da existência com o mundo e a transcendência mais do que relações intelectualmente caracterizáveis, e uma vez que a filosofia de Jaspers, ao contrário da cartesiana, não é linear nem progressiva, nascendo a existência de um só golpe para o mundo, para si mesma e para a transcendência.

5. O cuidado de pensar tanto quanto possível traduz-se num esforço de clareza apropriado a cada tipo de ser, submetendo os procedimentos lógicos do pensamento a uma prova de força.

  • nomeiam-se os tipos de ser por conceitos formais que desenham os campos principais da reflexão filosófica: ser-objeto, ser-eu e ser-em-si
  • o ser-objeto designa a realidade espaço-temporal, matéria e vida, coisas e pessoas, tudo o que se apresenta como Gegenständlichkeit überhaupt; ser-objeto, ser-aí (Dasein) e mundo são praticamente sinônimos
  • o primeiro grau da filosofia é exploração do ser empírico do mundo, dando nome de Weltorientierung ao primeiro tomo da Philosophie, sendo a ciência já tal exploração, retomada pela filosofia para revelar seus limites
  • eu não sou para mim mesmo um objeto, e por isso a construção filosófica central recebe o nome de Existenzerhellung, esclarecimento indireto daquilo que não pode ser explicado à maneira das coisas
  • toda a filosofia esclarece a existência, já que os limites do ser-objeto ou ser-aí só existem para a existência, e a transcendência também só existe para a existência, podendo por isso todo o conjunto da Philosophie chamar-se Filosofia da existência
  • a terceira seção da Philosophie, chamada Metafísica, constitui não apenas o coroamento da obra, mas seu polo de atração, pois a existência não é para si mesma um termo de sua busca, encontrando o ser-em-si apenas na transcendência e em seus sinais no mundo

6. Não basta nomear os modos do ser e os métodos apropriados a eles, sendo o problema filosófico encadeá-los da maneira mais sistemática possível, o que parece interditado após a condenação do sistema.

  • o problema da filosofia da existência é dar estatuto, no seio do próprio pensamento, às formas de não-pensamento correspondentes ao dilaceramento dos modos do ser, cada um limite para o outro (Grenze), passando-se de um a outro por salto (Sprung)
  • se há um salto do mundo para a existência, é porque a própria existência é esse salto, efetuado realmente quando nasce para si esse ser desconcertante, sendo a existência a origem designada pela expressão lógica de salto
  • se há um salto da existência para a transcendência, é porque a transcendência é por sua vez, em outro sentido, uma origem para a existência como para todas as coisas

7. Jaspers não duvida de que uma sistemática do ser dilacerado possa suceder ao sistema do ser indiviso, tendo essa sistemática por princípio um procedimento fundamental que exprime em termos de pensamento o jorrar da existência e a manifestação da transcendência a essa existência, procedimento que Jaspers denomina transcender.

8. Impõe-se então proceder a uma investigação de caráter mais técnico sobre esse procedimento fundamental da filosofia da existência: o pensamento que transcende o objeto.

Observação

9. Os três tomos da Philosophie, publicados em 1932, servem de guia, sendo as obras posteriores igualmente importantes para precisar e mesmo corrigir certas visões da obra principal, ao passo que as obras anteriores, em particular a Psicopatologia geral e a Psicologia das Weltanschauungen, relevam de método e espírito bastante diferentes.

  • na publicação da segunda dessas obras, Jaspers ainda não propunha nenhuma doutrina do homem, concebendo sua obra como exemplo de psicologia compreensiva, isto é, psicologia que remonta às forças e necessidades fundamentais ocultas atrás das teorias e valores, forças e necessidades que, quando animam a totalidade de um pensamento e de uma vida, recebem o nome de Weltanschauung
  • trata-se ainda de psicologia descritiva, não de obra profética, unindo experiência pessoal, espetáculo da vida, exemplos da história e ensinamento dos grandes filósofos, entre os quais Jaspers situa em primeiro lugar Hegel e a Fenomenologia do espírito, buscando nela apenas catálogo de atitudes humanas e não sistema rígido, ao lado de Kant e sua doutrina das ideias
  • cada Weltanschauung é em si mesma uma ideia, inesgotável por conceito e incapaz de realização completa, sendo a ideia o infinito de uma perspectiva e de uma vida
  • acima dessas regras da psicologia compreensiva situa-se já a inspiração de Kierkegaard e Nietzsche, vistos como mestres de nova psicologia e fundadores de nova exegese do homem
  • a Psicologia das Weltanschauungen pretende ser o ensaio da envergadura do homem pela construção de suas figuras mais típicas, com quadro ainda hegeliano, isto é, triádico, escolhido por sua flexibilidade, partindo da cisão (Spaltung) entre sujeito e objeto, passando pelas atitudes (Einstellungen) e pelos conteúdos vivos (Weltbilder), até o estudo sintético dos tipos espirituais (Geistestypen) suscitados pelo sofrimento das situações-limite

10. Um certo mal-estar acompanha a leitura desse livro, pois não se sabe se convém ser sensível à diversidade dos tipos humanos, apresentados como pontos de vista estranhos e inclinados ao ceticismo por sua própria diversidade, ou deixar-se seduzir pelas preferências mal dissimuladas do autor, que já propõe uma filosofia da existência mas rompe assim o quadro de uma simples psicologia compreensiva, permanecendo o método da Psicologia das Weltanschauungen ainda espetacular, pois supunha aquele ponto de vista de Sírius que será radicalmente condenado na grande obra de 1932.

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