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Psicanálise e Daseinsanalyse

MBPD

* A harmonia intrínseca entre a terapia psicanalítica e a análise do Dasein

  • Convergência fundamental entre Freud e Heidegger
    • Uma comparação atenta entre as descrições freudianas da cura psicanalítica e a análise do Dasein revela uma concordância inesperada quanto aos fenômenos fundamentais do existir humano.
    • Termos centrais como compreensão, sentido, abertura, clareza, linguagem, verdade e liberdade aparecem reiteradamente tanto na prática clínica de Sigmund Freud quanto na ontologia fundamental de Martin Heidegger.
    • Freud fala a partir de uma experiência cotidiana e não refletida do homem, enquanto Heidegger elabora essa experiência numa ontologia rigorosa; ainda assim, ambos descrevem os mesmos fenômenos.
    • A comparabilidade entre ambos só é obscurecida quando se mantém a dicotomia neoplática entre níveis ontológico e ôntico, já criticada anteriormente.
  • A regra fundamental da psicanálise e a abertura existencial
    • A exigência freudiana de honestidade absoluta do paciente consigo e com o analista pressupõe implicitamente uma concepção do homem como abertura originária e lúcida.
    • Dizer tudo o que passa pela mente e pelo coração implica permitir que todas as possibilidades de relação com o mundo sejam desveladas, apropriadas e assumidas responsavelmente como próprias.
    • A prática analítica visa tornar disponíveis, para o futuro, possibilidades de existência antes combatidas ou desconhecidas.
    • Tal regra seria inconcebível sem a compreensão tácita de que a existência humana é o âmbito no qual algo pode emergir do ocultamento e brilhar como fenômeno.
  • Verdade como aletheia e não como adequação representacional
    • Na terapia psicanalítica, a verdade não é entendida como correspondência entre representação mental e mundo externo.
    • Verdade significa o desvelamento do que emerge, no sentido grego de aletheia, isto é, o vir-à-luz do que estava encoberto.
    • Essa concepção coincide com a compreensão daseinsanalítica da verdade como desocultamento no âmbito da abertura existencial.
  • O significado existencial da posição deitada na análise
    • A exigência freudiana de que o paciente se deite não é mero detalhe técnico, mas reconhece o corpo como esfera constitutiva da existência humana.
    • A posição deitada favorece o relaxamento corporal e suspende hierarquias implícitas entre alto e baixo, espírito e corpo, razão e sensibilidade.
    • Sentar-se frente a frente reforça posturas de autoafirmação, controle mútuo e manutenção de valores morais rígidos, dificultando a emergência de conteúdos infantis e recalcados.
    • Deitar-se priva o paciente do apoio visual do analista, permitindo-lhe entregar-se a si mesmo e às suas possibilidades mais imaturas.
    • A regra não deve ser aplicada rigidamente, pois pacientes emocionalmente imaturos necessitam inicialmente de condições análogas à análise infantil.
  • Silêncio analítico e abertura inter-humana
    • A escuta silenciosa do analista é condição para que o paciente possa abrir-se ao próprio mundo.
    • O silêncio não é passividade, mas pertencimento atento à totalidade ainda oculta do paciente.
    • A incapacidade de sustentar esse silêncio conduz à interferência pedagógica e à imposição de esquemas do terapeuta sobre o analisando.
  • A descoberta da universalidade do sentido
    • A afirmação freudiana de que todo sonho possui sentido inaugura uma nova dimensão para a ciência da cura.
    • Não apenas sonhos, mas todos os fenômenos humanos, inclusive sintomas mais estranhos, são portadores de significado.
    • Essa descoberta pressupõe a existência de um âmbito luminoso no qual o sentido pode aparecer, identificado com a própria existência humana.
    • A inserção dos fenômenos psíquicos na continuidade da vida desperta uma compreensão histórica, e não causal-naturalista, do sofrimento humano.
  • Historicidade, memória e temporalidade
    • Freud reconhece que os sintomas só se compreendem plenamente quando situados na história de vida do indivíduo.
    • O passado não é algo morto, mas uma força que permeia o presente e condiciona o futuro, especialmente nos quadros neuróticos.
    • A cura visa possibilitar a apropriação consciente do passado no presente, libertando o paciente para um futuro aberto.
    • Essa concepção coincide amplamente com a análise heideggeriana da temporalidade como unidade de passado, presente e futuro.
  • Liberdade como fundamento comum
    • A análise do Dasein compreende a existência humana como abertura na qual possibilidades de sentido podem ser assumidas ou recusadas.
    • A liberdade consiste em escolher entre assumir responsavelmente todas as possibilidades de relação com o mundo ou negá-las.
    • Freud pressupõe essa mesma liberdade ao exigir que o paciente enfrente resistências e assuma o que é.
    • A etiologia das neuroses implica falhas no exercício da liberdade, não meros determinismos biológicos.
  • Livre associação e crítica ao associacionismo
    • O método da livre associação não se funda no associacionismo mecanicista do século XIX.
    • As associações emergem orientadas pela situação analítica e pelo sentido global da existência do paciente.
    • Livre associação permite que relações essenciais e possibilidades existenciais se revelem mais plenamente.
    • Tal revelação só é possível porque o homem é, em essência, abertura iluminadora do ser.
  • Linguagem como morada do ser
    • Tanto Freud quanto Heidegger reconhecem a centralidade da linguagem na existência humana.
    • A verbalização preserva o que é e impede que a tomada de consciência permaneça parcial ou efêmera.
    • Nomear é assumir responsavelmente as próprias possibilidades de existir.
  • Repressão, valores morais e responsabilidade
    • A repressão está ligada a juízos morais, vergonha e autoimagem, e não apenas a forças energéticas.
    • Isso implica a capacidade humana de distinguir entre bem e mal, belo e feio, no sentido existencial.
    • A análise exige a renúncia à pretensão de decidir previamente quem se é e como o mundo deve aparecer.
  • A atitude ética do analista
    • O analista deve aceitar o paciente integralmente, com todas as suas possibilidades, sem impor valores pessoais.
    • A relação analítica deve tornar-se um espaço quase ilimitado no qual todas as possibilidades de relação possam emergir.
    • A reserva do analista não visa desumanização, mas respeito radical à autonomia do paciente.
    • Tal ethos só é possível a partir de uma relação fundamental com o ser.
  • Cuidado antecipador e não interventivo
    • Freud distingue implicitamente entre um cuidado interventivo, que substitui o paciente, e um cuidado antecipador, que o devolve a si mesmo.
    • O cuidado antecipador visa a existência do outro, não tarefas particulares.
    • Essa distinção coincide exatamente com a análise heideggeriana das modalidades do cuidado.
  • Limites da teoria freudiana
    • Embora a prática freudiana seja profundamente humana, sua teoria permaneceu presa a um modelo mecanicista.
    • A análise do Dasein permite compreender, justificar e libertar a prática psicanalítica de tais limitações teóricas.
    • Assim, a daseinsanálise não substitui Freud, mas esclarece o fundamento ontológico implícito de sua prática clínica.
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