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Análise do Dasein
MBPD
* Esboço da análise do Dasein
- “Ciência” e análise do Dasein
- Muitos psicanalistas contemporâneos, médicos e psicólogos, consideram uma imposição que se lhes proponha ocupar-se de “filosofia”, porque a formação os habituou a privilegiar a ação e a desprezar como ociosas as perguntas sobre a origem e o fim do próprio empreendimento terapêutico, apoiando-se nos “milagres” da medicina moderna e nos resultados psicoterapêuticos como se o êxito prático dispensasse qualquer esclarecimento de fundamentos.
- Em verdade, reexaminar sintomas e métodos de tratamento à luz de uma nova compreensão do homem não contém mais “filosofia” do que o procedimento costumeiro de abordá-los sob o ponto de vista das ciências naturais, pois toda abordagem empírica repousa sobre pressupostos prévios que raramente são tematizados quando se toma por óbvio o horizonte naturalista.
- Os chamados “fatos puros” das ciências naturais não são puros no sentido de algo que seria “isto ou aquilo em si”, independentemente de uma ideia abrangente sobre a natureza do todo do real, já que cada “fato” científico é antecipadamente determinado por noções pré-científicas de época acerca do caráter fundamental do mundo.
- A título de exemplo histórico, os gregos antigos pensavam o que é como “fenômenos”, e o termo “fenômeno” deriva de phainesthai, isto é, “brilhar para fora”, “aparecer”, “desvelar-se”, “sair do encobrimento”, de modo que a própria linguagem indica que o ser é pensado como aparecer.
- Na Idade Média, tudo foi concebido como criação causada por Deus a partir do nada, enquanto a ciência de hoje repousa sobre um pressuposto igualmente pré-científico, a saber, a crença de que todas as coisas são objetos calculáveis, o que mostra que a pretensão de neutralidade do método naturalista encobre uma metafísica tácita.
- Se toda ciência, inclusive a ciência da cura, se funda em pressupostos, torna-se possível em princípio adquirir uma compreensão nova e melhor do homem com base em suposições mais adequadas, e, nesse sentido, a análise do Dasein de Martin Heidegger oferece razões fortes para ser considerada mais apropriada do que os conceitos naturalistas introduzidos na medicina e na psicoterapia.
- Se se puder demonstrar que a análise do Dasein se aproxima mais da realidade humana do que as ciências do comportamento moldadas pelo método naturalista, então ela poderá reivindicar, no sentido genuíno do termo, ser mais “objetiva” e mais “científica”, desde que “científico” seja entendido como “produzir conhecimento” e não como monopólio de um único tipo de método.
- Assumindo esse sentido originário de “científico”, torna-se injustificável a tese de que apenas o método das ciências naturais fornece informação precisa, e, por isso, é razoável exigir do psicanalista o esforço de investigar o pensar daseinsanalítico, ainda que ele não esteja habituado a tal exercício.
- Se o pensar daseinsanalítico efetivamente se aproxima mais da realidade humana, ele pode oferecer algo que faltou à teoria psicanalítica: uma compreensão do que se faz e por que se faz exatamente assim ao tratar um paciente, fundada em insights sobre a essência do ser humano, e tal compreensão aprofundada tende a beneficiar a própria prática.
- Nos capítulos seguintes, propõe-se demonstrar em detalhe que a concepção de homem inerente à análise do Dasein cumpre essas expectativas, isto é, que ela não apenas inspira uma atitude, mas fornece inteligibilidade explícita do agir clínico.
- Os princípios de trabalho opostos da ciência natural e da fenomenologia daseinsanalítica
- É decisivo reconhecer, desde o início, a diferença fundamental entre as ciências naturais e a ciência existencial do homem: a primeira tende a perder-se em abstrações, derivações, explicações e cálculos estranhados da realidade imediata, enquanto a segunda exige permanecer junto aos fenômenos tal como se mostram.
- Ninguém formulou mais pungentemente o princípio de trabalho natural-científico do que Sigmund Freud ao caracterizar seu propósito como não apenas descrever e classificar fenômenos, mas concebê-los como efeito do jogo de forças na mente, expressão de tendências orientadas a fins, em que inferências sobre “tendências” se tornam mais proeminentes do que os próprios fenômenos percebidos.
- Em nítido contraste, a ciência daseinsanalítica do homem e de seu mundo solicita simplesmente olhar os fenômenos do mundo tais como confrontam, demorando-se neles o suficiente para tornar-se plenamente atento ao que eles dizem diretamente acerca de seu sentido e de sua essência.
- As afirmações daseinsanalíticas não querem ser mais do que descrições e exposições rigorosas, cuidadosas e sutis de aspectos essenciais de tudo o que se mostra — coisas inanimadas, plantas, animais, seres humanos, divindade, o terrestre e o celeste — tal como se desvela imediatamente na abertura da consciência do daseinsanalista.
- Por isso, é inadequado exigir que tais afirmações sejam “derivadas” de fatores supostos por trás do descrito ou que sejam “provadas” por redução a pressupostos imaginados, pois tal exigência confunde a fenomenologia daseinsanalítica com o princípio de trabalho natural-científico.
- As afirmações daseinsanalíticas são “nada mais” do que remissões a fenômenos imediatamente perceptíveis, que, como tais, não podem ser explicados, derivados ou provados por outra coisa, do mesmo modo que não se prova nem se explica “por que” o ser humano tem dois braços, mas se vê ou não se vê o traço essencial.
- Assim como não se descarta a descrição de que o homem tem dois braços por ser “dogmática” e “sem prova”, também não é justificável chamar os insights heideggerianos sobre a natureza fundamental da existência humana de suposições dogmáticas não verificadas, apenas porque não se submetem ao modelo dedutivo das ciências naturais.
- Do mesmo modo, acusar a abordagem daseinsanalítica de “não científica” ou “mística” por ser diferente do naturalismo equivale a confundir rigor descritivo com calculabilidade, pois a daseinsanálise é fiel aos fenômenos e estrita na explicitação de significados percebidos com uma severidade ao menos equivalente à exatidão reivindicada pelas ciências ditas exatas.
- Se o rótulo “daseinsanálise” ou “existencialismo” foi apropriado por psicologias obscuras e confusas, isso não pode ser imputado à análise do Dasein em si, que se mantém num nível de simplicidade fenomenal frequentemente difícil para quem está habituado a especulações complicadas.
- A análise do Dasein recusa categoricamente impor ao “homem” uma ideia arbitrária de ser e realidade — por mais costumeira e “auto-evidente” — e exige abster-se de forçá-lo a categorias prévias como “alma”, “psique”, “pessoa” ou “consciência”, escolhendo um modo de acesso que preserve a máxima abertura para ouvir e ver como o homem aparece em sua imediaticidade.
- Exercício didático: ver a casa amarela e desarmar o mito do sujeito-objeto
- Ao ensinar análise do Dasein, convém começar por perguntar o que acontece quando se olha pela janela e se vê a casa amarela do outro lado da rua, pois a resposta habitual já traz embutida a metafísica do sujeito que estaria “aqui” e do objeto que estaria “ali”.
- Uma resposta típica afirma que primeiro existe um sujeito localizado e, em seguida, um objeto indefinido, do qual partiriam raios luminosos que gerariam excitações nervosas na retina, conduzidas ao cérebro, registradas como percepções e finalmente reunidas no córtex por traços de memória, tornando possível reconhecer a coisa como “casa”.
- Contra isso, deve-se responder como a paciente psicótica do relato clínico: tal explicação não se ajusta aos fatos imediatamente dados, porque permanece incompreensível a passagem de excitação nervosa para percepção de conexões significativas, e nenhum progresso fisiológico elimina a obscuridade dessa “magia” transformativa.
- Também é inaceitável dizer que haveria uma “consciência” no sujeito capaz de sair de si e alcançar o objeto, pois isso apenas desloca o problema para uma constituição misteriosa do sujeito e da consciência que tornaria possível tal “transcender”.
- Retomada a pergunta de modo não preconceituoso, começa-se a perceber que se viu desde o início a casa amarela imediatamente como esta casa amarela, isto é, que desde o princípio se viu e se compreendeu que há ali uma casa amarela.
- Pergunta-se então onde estava quem via: “aqui” na sala, ou “dentro” da consciência; e insiste-se até mostrar que é autoengano falar de si como sujeito num ponto espacial, porque a observação desarmada mostra que não se está primeiro num recipiente-mundo independente nem dentro de um organismo delimitado pela pele.
- Do mesmo modo, não se alcança um “mundo externo” por pseudópodes psíquicos que capturariam objetos, pois é inconcebível que partículas cegas de um corpo passem a ver e compreender coisas em seus nexos de sentido.
- A experiência mostra que não se vivenciou a si como sujeito ao descobrir a casa, mas se foi consumido imediatamente pela percepção, congregado integralmente no percebido, e, por isso, o “habitar” primário humano é estar “fora”, no espaço de ação constituído por relações com coisas, plantas, animais, outros seres humanos, consigo mesmo, com céu e terra.
- O homem não apenas “tem” relações como um atributo entre outros; ele é, em cada momento, nada além de ser-em e ser-com tais relações — perceber, impulsionar-se, emocionar-se, imaginar, sonhar, pensar, agir, querer e desejar diante do que encontra.
- Ser-no-mundo e o nascimento do pseudoproblema do “aparelho psíquico”
- Nesse sentido, o homem é fundamentalmente “fora no mundo” e com as coisas que encontra, e sua existência é originariamente um ser-no-mundo, em que o “em” não significa estar “dentro” de um invólucro espacial vazio, mas estar “com” algo no sentido originário.
- Mesmo quando percebe algo como distante, o homem está com esse ente, pois apenas sobre a base de um estar-com efetivo é que se pode experienciar proximidade e distância como tais.
- Apenas quando se começa a refletir e se interpreta o próprio ser segundo o modelo do ser dos objetos ao redor é que se conclui que o homem seria uma coisa como um “ego”, uma “psique” ou um “aparelho psíquico”, criando assim um enigma artificial que permanece insolúvel.
- Ninguém poderá compreender como um “aparelho” poderia relacionar-se de modo revelador de sentido com um mundo externo independente; no máximo, oculta-se o pseudo-problema postulando forças abstratas de ligação, isto é, substituindo compreensão por expediente.
- A natureza fundamental do ser-no-mundo e a abertura reveladora de sentido
- O ser-no-mundo primordial não é abstração, mas ocorrência concreta, que só se cumpre nos múltiplos modos de comportamento e nas diversas maneiras de relação com entes e com outros seres.
- Tal modo de ser pressupõe uma abertura única, na qual os entes encontrados podem desvelar-se como o que são, com todo o contexto de remissões significativas; sem essa abertura iluminadora, seria impossível uma relação sensata e eficaz com as coisas.
- A revelação do mundo ocorre como ver, ouvir, cheirar, provar, tocar, pensar, sonhar ou manejar sem reflexão, e, em todos os casos, trata-se de desvelar significado e referências do que se encontra.
- A psicologia do desenvolvimento mostra a importância crucial da atitude emocional da mãe para o recém-nascido, ainda mais que a quantidade e a qualidade do leite, o que se torna inteligível apenas se o vínculo originário já for um encontro que descobre o sentido de estar protegido e amado.
- Embora o bebê não articule tal compreensão em conceitos, seus encontros reveladores de sentido permanecem por longo tempo descritos por termos distorcidos e obscuros, como se fossem meramente “empáticos”, “instintuais” ou “reflexos”, quando na verdade são modos de compreender e desvelar sentido.
- O fato de o homem poder também malcompreender — por exemplo, tomar uma corda por uma cobra num primeiro olhar — não refuta, mas confirma que seu ser-no-mundo é primariamente compreensão, pois mesmo no engano há compreensão de algo como algo, ainda que errônea.
- A compreensão imediata de um ente concreto como a casa amarela exige duas condições: mover-se previamente na compreensão do modo de ser comum a todas as casas, distinguindo-as de árvores ou humanos, e possuir uma compreensão ainda mais fundamental de que há algo em geral, contra a possibilidade de não haver nada.
- Seiendheit e Seyn: seridade e seridade como tal
- A essência da existência humana é uma consciência primária e imediata de “seridade como tal”, isto é, um primäres Seinsverständnis, sem o qual nem a compreensão do modo de ser de uma categoria nem a compreensão de um ente concreto pertencente a ela seriam possíveis.
- Essa “seridade como tal” refere-se ao “é” que se diz ao afirmar que algo é, mas não pode ser ela própria um ente particular, pois nenhuma análise físico-química encontrará o “é” como propriedade entre outras propriedades do ente observado.
- Se a seridade fosse mais uma coisa, ela seria derivável de outra e a regressão seria infinita; por isso, o “é” nunca aparece como um acréscimo sobreposto ao ente, como um adereço colocado externamente.
- A seridade como tal é totalmente diferente de todos os entes particulares, e, justamente por essa diferença, Heidegger às vezes a chama de “nadidade”, não no sentido de vazio niilista, mas como abundância originária capaz de liberar para o ser tudo o que há de vir.
- Essa distinção é decisiva: Seiendheit designa o modo de ser de espécies de entes, enquanto Seyn designa a seridade como tal; e a dificuldade de enunciar adequadamente essa diferença em línguas modernas revela a densidade da chamada “diferença ontológica”.
- A demonstração existencial do primado da seridade e a metáfora da luz
- Dizer que o ser-no-mundo é essencialmente uma consciência originária da seridade como tal não é postulado, mas algo facilmente demonstrável, pois antes mesmo de saber conceitualmente o que “ser” significa, já se move numa compreensão básica do “é” ao perguntar “o que é” algo.
- A consciência primária da seridade é condição de possibilidade de ser tocado e afetado por algo, seja concretamente, seja emocionalmente, e também condição para reações chamadas “conscientes” ou “inconscientes”, “instintuais”, para o manejar de instrumentos sem reflexão e para a apreensão conceitual científica.
- Assim, a análise do Dasein não se limita a uma psicologia da consciência, porque ela situa a consciência e o inconsciente no horizonte mais originário da abertura à seridade.
- Essa consciência originária não é atributo que o homem possui, mas o próprio modo de ser do homem: o homem é essa abertura, é esse ser-no-mundo como iluminação, como se fosse uma luz que faz com que os entes entrem no raio de sua claridade.
- Falar em luz não é metáfora ornamental, mas descrição sóbria da condição concreta: sem uma clareira luminosa em que algo possa brilhar e aparecer, nenhuma percepção e nenhuma compreensão do sentido de qualquer coisa seria possível.
- A etimologia reforça isso, pois o verbo “elucidar” remete a lux, e a possibilidade mesma de “clarear” sentido supõe um domínio iluminado no qual algo possa mostrar-se.
- Nenhuma coisa, nenhum sistema ou aparato psíquico possui capacidade de perceber a si, a outro ente ou a um ser humano como o que é, nem de desvelar o contexto de remissões; só porque o homem é, em essência, compreensão e iluminação, é que ele pode tornar-se fisicamente e espiritualmente cego, ao passo que falar de uma pedra “cega” é sem sentido.
- As descrições da paciente esquizofrênica mostram congruência com essa caracterização: algo se aproximava dela, interpelava-a de nenhum lugar e de todos os lugares, comunicava-se do além do papel, do avião noturno, dos ruídos da rua e da cadeira do terapeuta, buscando ingresso na sua abertura.
- Onde há aparecer e brilhar de algo, deve haver algum tipo de luz e clareira; e, por isso, mesmo a alucinação, longe de desqualificar a essência luminosa do humano, confirma que as condições do aparecer são as mesmas quer o percebido seja compartilhado por todos, quer seja reconhecível apenas por um.
- O sentido literal de Dasein e o “aí” como clareira
- O termo Dasein alude à natureza luminosa do ser humano: significa ser (sein) aí (da), e a análise do Dasein toma literalmente essa indicação, entendendo o “aí” como o domínio de iluminação no qual os entes podem vir à presença, aparecer e, assim, ser.
- Dasein traz consigo desde o início sua clareira, seu “aí”, e não existe sem esse “aí”, nem é o ser humano sem essa abertura; apenas a um ente cuja natureza é luminosa a luz pode tornar acessível e a escuridão pode ocultar.
- Porque o homem é o “aí da seridade”, no modo de uma Lichtung do Seyn, Heidegger escolhe “Da-sein” para expressar claramente o modo de ser desse ente particular.
- Como sinônimos do “aí”, Heidegger também emprega Welt, Weltentwurf no sentido de abertura lançada do mundo, e Welt-Erschlossenheit como desvelamento do mundo, termos que não devem ser mal-entendidos como “projeção” ou “resolução” de um sujeito.
- Existenciais e categorias: o estatuto fenomenal do essencial
- As características fundamentais do Dasein, como ser-no-mundo, compreensão originária e iluminação, são chamadas de existenciais, e devem ser distinguidas das características de entes não humanos, chamadas de categorias.
- É possível interpretar erroneamente os existenciais como estruturas a priori num reino suprassensível, cujas realizações empíricas seriam meras concretizações posteriores, mas a preocupação de Heidegger é justamente superar esse tipo de metafísica.
- Os existenciais não existem como “fundo” em si, nem como desenho ideal platônico a ser deduzido logicamente de fenômenos observáveis; eles caracterizam a essência imediata do comportamento humano concretamente observável.
- Por serem o próprio sentido e essência do comportamento diretamente observável, os existenciais não podem existir destacadamente da existência humana, nem flutuar num reino metafísico próprio.
- Além dos existenciais já mencionados, a linguagem, em seu sentido mais profundo, deve ser compreendida como um existencial originário, porque a abertura reveladora de sentido só ocorre nomeando o que aparece como o que é ou parece ser.
- Para aprofundar a compreensão da daseinsanálise, destaca-se ainda a pertinência de dois existenciais: estar sempre afinado a um humor e cair sob o domínio do que se compreende, pois ambos esclarecem como o mundo se mostra e como o homem se perde no que encontra.
- Afinação, queda e dependência mútua entre homem e mundo
- Como domínio luminoso, o Dasein está sempre afinado de um modo ou de outro, e as coisas só podem vir à presença em consonância com essa afinação, pois, assim como a cor e a intensidade de uma luz física determinam o que se vê, também o humor determina a escolha, o brilho e a coloração das relações com o mundo.
- Em fome, ansiedade ou amor, percebem-se coisas distintas e desvelam-se qualidades e nexos de sentido diferentes, de modo que os entes “precisam” da natureza iluminadora do homem para vir a ser, já que “ser” significa vir à presença e durar.
- Porém, assim como as coisas não podem ser sem o homem, o homem não pode existir como o que é sem o que encontra, pois o Dasein geralmente se compreende primeiro por meio do encontro com entes, sem que isso signifique que ele perceba como mundo externo aquilo que ele mesmo seria originalmente.
- Heidegger sustenta que o Dasein se compreende em relação ao que encontra porque, como iluminação da seridade, ele precisa dos entes com os quais existe; ele é “lançado” sobre os entes, como se fosse o brilho de uma luz, e por isso tende a cair primeiro sob o domínio do que encontra e a perder-se neles.
- O sapateiro, por exemplo, pensa-se primeiramente como fabricante de sapatos, ainda que seu Dasein seja originariamente a clareira na qual um mundo de remissões — o mundo dos sapatos e de seus sentidos — se desvela.
- Nem mesmo a luz física aparece como luz sem encontrar coisas que a façam brilhar, e, por isso, perguntar “onde estavam as coisas antes de haver homens” ou “o que será das coisas quando não houver homens” é sem sentido no horizonte daseinsanalítico, pois homem e aparecer dos entes são cooriginários enquanto relação sustentadora.
- A espacialidade originária do mundo humano
- O “aí” do Dasein não deve ser entendido como um ponto no espaço, nem como o lugar onde o corpo está, pois a posição corporal não determina o “aí”; ao contrário, a posição do corpo é consequência essencial da espacialidade existencial.
- Um “eu” que não seja desde o início “aí” com as coisas desveladas e que precisasse entrar num corpo para então estar “aí” não existe, porque a existência humana já se estende na esfera de relações que constitui o mundo.
- A espacialidade do Dasein não pode ser interpretada pelos modos de ser de objetos, como estar presente como coisa ou estar à mão como instrumento, já que o homem não existe primariamente no segmento espacial que seu corpo ocupa delimitado pela pele.
- Também é inadequado dizer que a espacialidade do Dasein seria uma imperfeição do vínculo entre espírito e corpo; ao contrário, o Dasein é essencialmente espacial porque é “espiritual”, e nenhum corpo extenso é espacial no modo ek-stático do Dasein.
- A espacialidade do Dasein se funda no fato de ele ser desvelamento de mundo: a cada momento ele está ek-staticamente estendido na esfera composta por suas possibilidades de relação com o que encontra, por exemplo, por toda a sala de estar e por todo o contexto de remissões que nela se abre.
- Quando algo na sala tem grande importância, o corpo se aproxima dele, mas isso apenas realiza corporalmente uma proximidade existencial já existente, pois o corpo é uma esfera parcial da existência dentro do Dasein sempre estendido.
- Nessa espacialidade existencial, proximidade e distância correspondem a significância existencial e não se medem por metros, mas pela intimidade da preocupação e pelo poder de apelo do que se mostra, de modo que alguém pode estar mais “perto” de quem ama em outro continente do que de uma mesa indiferente diante de si.
- O espaço mensurável deriva dessa espacialidade originária por abstrações que empobrecem o sentido: um lugar significativo pode degradar-se a ponto indiferente, e o espaço torna-se então interstício mensurável em altura, largura e profundidade.
- A partir dessa abstração, chega-se ao espaço como extensão, e deste às relações analítico-algébricas e a construções de dimensões infinitas, isto é, ao espaço matemático, que já não contém lugares e coisas como a ponte percebida com suas remissões significativas.
- A temporalidade originária do mundo humano
- A espacialidade originária do Dasein relaciona-se estreitamente com a temporalidade originária, pois a espacialidade só se compreende plenamente com base na temporalidade, já que “ser” significa ser presente no “aí” luminoso em que algo emerge e permanece.
- A temporalidade do Dasein não é deduzível do “tempo” medido pelo movimento de astros ou por relógios, porque o tempo originário não é um quadro externo de “agoras” sucessivos no qual se penduram eventos; ao contrário, a temporalidade do homem se temporaliza como desdobramento e emergência da existência.
- O “agora” originário é sempre “agora enquanto” algo acontece com sentido, como “agora enquanto a porta bate” ou “agora enquanto o livro falta”, e o “então” originário é “então quando encontrei meu amigo” ou “então quando voltarei à universidade”.
- Cada agora e cada então dura enquanto dura o cuidar por algo, e é por isso que se experimentam horas curtas ou longas conforme a existência esteja intensamente preenchida ou esvaziada no seu desdobrar.
- Compreender temporalidade e espacialidade originárias é decisivo para entender fenômenos de tempo e espaço em sonhos, em experiências de pacientes esquizofrênicos e em estados induzidos por drogas, pois tais fenômenos se esclarecem quando se abandona a ideia de tempo como sequência indiferente.
- A partir da temporalidade originária, há um nivelamento que refere o tempo ao curso do sol, produz datas públicas e divisões iguais, até transformar o tempo em tempo de relógio e tempo mundial, uma sequência de “agoras” indiferentes derivada, em última instância, da temporalidade existencial.
- O processo é irreversível: não se recria um agora existencial significativo a partir de agoras indiferentes do relógio, porque o sentido não nasce da soma do indiferente, mas do cuidar que temporaliza a existência.
- Síntese: espaço, tempo, fenômeno e a tarefa humana
- O Dasein concede a si sua espacialidade originária nas relações com os fenômenos que se mostram na luz de sua essência e, nesse abrir de espaço, desdobra a existência e “consome” seu tempo, isto é, emerge.
- Sem a existência humana desdobrando temporalidade e espacialidade, não haveria um domínio iluminado, um “aí” no qual entes possam vir à presença, aparecer e entrar no próprio ser, pois não há aparecimento — não há fenômeno, de phainesthai, aparecer — sem luz.
- A compreensão dos existenciais e das dimensões de espaço e tempo é apenas o começo do entendimento da existência, porque a análise do Dasein vê o ser-no-mundo como pressuposto para uma existência propriamente humana e não como um mecanismo para entretenimento.
- A existência humana parece ser reclamada pela seridade como a clareira necessária na qual tudo o que deve ser pode vir à presença e brilhar, de modo que a tarefa do homem é ser “servo e pastor da seridade”, isto é, assumir responsavelmente suas possibilidades de relações desveladoras de mundo.
- Isso implica aceitar e apropriar-se de todas as possibilidades de vida, reunindo-as num si mesmo livre e autêntico, não mais capturado pela mentalidade estreita do impessoal e inautêntico “todo mundo”, de tal modo que a liberdade consiste em estar pronto para aceitar e deixar-ser tudo o que é.
- A consciência lembra o homem dessa tarefa quando ele não a cumpre, e os sentimentos de culpa o inquietam até que ele assuma suas possibilidades no cuidado com coisas e semelhantes; por isso, enquanto vive, o homem é essencialmente e inevitavelmente em dívida e culpado, pois sempre está em atraso quanto ao cumprimento de suas possibilidades.
- A dívida se dá de dois modos: o homem finito só pode existir num dos modos de relação de cada vez, deixando outras possibilidades não cumpridas, e, além disso, o futuro inteiro o espera com novas possibilidades de desvelamento que se aproximam e cujo cumprimento ele ainda deve até a morte.
- Assim, sentimentos concretos de culpa e a chamada de consciência se enraízam nesse ser-em-dívida existencial diante do todo da existência, ainda que possam aparecer de forma grotesca e distorcida em condições neuróticas.
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