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TUDO, TODO, ALGO

OLIVEIRA, Cláudio. Do Tudo e do Todo. Rio de Janeiro: Circuito, 2015 (p. 86-88)

  1. Originalmente, hólon e pán possuem valores semânticos bem distintos, e somente o esclarecimento desses valores permite entender como, num determinado momento, eles podem se confundir e, sobretudo, como a noção tardia de “soma” pode deles derivar.
  2. Segundo Chantraine, pâs significa “todo, cada um” e tem um campo semântico mais extenso que hólos, que exprime a totalidade mas não a multiplicidade, e a família de pás sofreu larga concorrência de hólos, cujo sentido original é “inteiro, intacto, completo”, confirmado por comparações com o sânscrito sárva-, em que o sentido de “todo” é secundário e o de “intacto” é primeiro.
  3. O significado de “soma” não é listado para nenhum dos dois termos, e, quanto à distinção entre eles, Chantraine conclui que hólos se distinguiria de pás como, em latim, totus de omnis, mas sem definir em que consiste essa distinção, e Ernout e Meillet acusam igualmente a confusão em latim, afirmando não haver etimologia clara para totus e omnis, e registram que omne é tradução de tò pán, termo da língua filosófica.
  4. Boisacq confirma o sentido primeiro de hólos como “inteiro, intacto”, relacionando-o com o homérico oúle, “salve”, e registra que o feminino holótes, no sentido de “totalidade”, só aparece no ático, dialeto filosófico, enquanto o correspondente sânscrito sarvátat- quer dizer “integridade, perfeição” e não “totalidade”.
  5. Quanto a pân, Boisacq indica que ele pertence ao grupo formado por pásasthai, que significa “ter em sua potência, possuir”, e por pampesia, que significa “possessão inteira, plena propriedade”, e que o neutro kyros significa “pleno poder”, donde “autoridade soberana”, e o adjetivo kyrios, em se tratando de coisas, quer dizer “que é dominante, que tem sua própria força”, de modo que a etimologia situa pân no âmbito da possibilidade como propriedade e do próprio como possível.
  6. Nem hólon nem pân trazem, na origem, a ideia de “soma”, e a própria etimologia do latino summa mostra que seu sentido primeiro é “a coisa mais alta” e, num segundo, “a parte mais importante, o ponto principal e essencial”, sendo o sentido de “soma formada pela reunião das partes” um uso figurado devido ao hábito de contar de baixo para cima, aproximando-se summa, semanticamente, do grego kyrios, que é etimologicamente próximo de pân.
  7. Em hólos, a informação fundamental é o “não faltar”, pois “inteiro” se diz não como soma de partes, mas como aquilo a que nenhuma parte falta, o que quer dizer que hólos não pode ser uma inteireza que se alcança por soma, mas uma inteireza que se supõe na origem e de que se cuida para que não seja perdida, daí o sentido de “são” e “salvo”.
  8. A ideia de que uma soma constitua um hólon não faz sentido no sentido original do termo, e que esse salto para a noção de um todo constituído de partes como conjunto ou soma só tenha sido dado tardiamente é sugerido pela própria etimologia, pois esse sentido só começa a aparecer com o uso matemático e filosófico do termo, e mesmo no livro V da Metafísica, o sentido primeiro de inteireza permanece, como prova o fato de Aristóteles fazer suceder à análise de hólon a de kolobón, “mutilado”.
  9. Enquanto substantivo, hólon significa “todo” e se opõe a mêros, “parte”; enquanto adjetivo, significa “inteiro” e se opõe a kolobón, “mutilado”, e o aparecimento de kolobón ao lado de noções fundamentais no léxico filosófico de Aristóteles, com a conclusão de que “os calvos não são mutilados”, mostra o sentido cômico envolvido, assim como no Banquete de Platão, onde os homens, outrora inteiros, após mutilados, passam a viver o desejo do todo, que tem por nome amor.
  10. As informações etimológicas se confirmam nos textos filosóficos, apresentando hólon num campo semântico dominado por integridade, inteireza, completude, perfeição e sanidade, e pân num campo dominado por propriedade, possibilidade, potência, força e poder, e a questão que se coloca é saber que modos de totalidade distintos estão envolvidos no “todo” enquanto “inteiro” e no “todo” enquanto “cada”, e que relação há entre o inteiro completo e o cada próprio, possível e potente.
  11. A diferença entre hólon e pán não é apenas etimológica, mas também morfológica, pois hólon é um adjetivo nominal, enquanto pán é um adjetivo pronominal, e a diferença entre eles torna-se sensível quando substantivados, pois “o completo”, “o inteiro”, “o todo” soam bem menos estranhos que “o cada”, “o isto”, “o algum”, e a substantivação do pronome implica que a língua se detenha sobre o sentido da função que os pronomes exercem, chegando-se raramente a “a cadaidade”, “a istidade”, “a algumidade”, termos forjados no bojo da reflexão filosófica.
  12. Ao formular algo como tò pàn, a língua grega chega a um grau de radicalidade de interrogação sobre si mesma que talvez nenhuma outra tenha alcançado, e, como lembra Heidegger, ao se perguntar o que é “o belo” ou “o conhecimento”, o que está em questão é o que significa o “que”, isto é, o tí, e a filosofia, em suas diversas épocas, é modos diversos de interpretação do tí, havendo uma relação essencial entre o “algo” e o “tudo”, entre os interrogativos e os indefinidos, que repousam sobre um mesmo tema pronominal indo-europeu.
  13. Em grego, os pronomes interrogativos e indefinidos surgem de um mesmo tema pronominal, caracterizado por *k^e-/o- e *k^i, e incluem tís, tí (“quem?”, “o quê?”; “alguém, algo”), poíos (“qual?”, “de uma certa qualidade”), pósos (“quanto?”, “de uma certa quantidade”), e os adverbiais poú, poí, pé, póthen, póse, póte, pós, que descrevem as noções mais essenciais da língua: o que, o qual, o quanto, o quando, o onde e o como.
  14. A remissão ao todo como o que se dá sempre, a cada vez, de novo, parece dominar as funções pronominais indefinidas, e o tema pa- de pân é aproximado do tema po-, e as palavras geradas do tema pronominal indefinido aparecem no mesmo campo de funções pronominais indefinidas que pân, o que, comparado a hólon, torna pân cada vez mais distinto, pois o significado etimológico de hólon fala em definição, e seu aspecto morfológico o coloca no campo de uma determinação mais definida.
  15. A dificuldade em distinguir pán como pronome indefinido de pán como “soma” talvez tenha origem na mesma dificuldade em distinguir o “um” enquanto indefinido do “um” enquanto numeral, e a ambiguidade do “um” e do “todo” aparece muito cedo no pensamento grego, confundindo-se eis e tis, assim como hólon e pán, e, na diacronia, eis vai eliminando tis, e em grego moderno tis desapareceu, sendo substituído por hénas=eis como indefinido e por poios como interrogativo.
  16. Ao se dizer tis, ti, não se está determinando o número, e a dificuldade de definição do pronome indefinido é ilustrada pela expressão “determinante indefinido”, pois o pronome indefinido determina uma indeterminação, e o “número” gramatical, mesmo no singular, não pode ser entendido no sentido de número aritmético, como esclarece Heidegger ao afirmar que o três é o primeiro número, pois o um e o dois só surgem a partir do terceiro, quando o “e” se torna “mais” e o conjunto se torna soma.
  17. A determinação que palavras como pán e ti definem talvez não seja nem qualitativa nem quantitativa, mas anterior à diferença entre qualidade e quantidade, pois ao perguntar ti, “o que?”, não se pergunta poios, “qual?”, nem pósos, “quanto?”, e ao responder ti, “algo”, ou pán, “tudo”, ou oudén, “nada”, não se determina qualidade ou quantidade, e, para responder a tís ou tí, é necessário dar o que a coisa é, tò tí esti, o ser, a ousia, como dirão os latinos, a quidditas, a essentia.
  18. Quanto à ousia primeira, não há definição de algo individual, e o homem tis é o homem enquanto elemento, enquanto álogon, enquanto matéria, enquanto hypokeímenon, aquilo que subjaz a todo dizer, sem poder ser jamais dito, e, nesse sentido, cada homem, enquanto singularidade indefinida, é também uma totalidade indefinida, e pân e tis são os significantes que significam o impossível da língua, definindo algo como impossível de ser definido e lembrando, na língua, o impossível da língua.
  19. A compreensão da diferença entre hólon e pân passa pela compreensão de pân como indefinido, cujo caráter de indefinição se coaduna com os de propriedade, possibilidade e força, e tò pân é talvez a mais pobre de determinação de todas as palavras, mas, por isso mesmo, a mais rica, pois por não dizer coisa alguma diz todas as coisas em sua unidade e totalidade indefinida, equivalendo ao ser ou à altura do nada.
  20. A pergunta fundamental da metafísica, “Por que há afinal ente e não antes nada?”, poderia ser repetida como “Por que há afinal algo (ti) e não antes tudo (pân)?”, e a diferença ontológica se diz aqui como a diferença entre algo (o ente) e tudo (o ser), e Aristóteles afirma, na Física, que o tudo não está em lugar algum, pois aquilo que está em algum lugar é algo e deve estar ao lado deste ainda outro algo, mas fora do tudo não existe absolutamente nada, mostrando que a relação entre algo e tudo é de exclusão.
  21. O sentido de indefinição de pân e tis é confirmado pela Física, onde o infinito é em possibilidade, mas não no sentido do que se opõe ao ato, pois é uma possibilidade que jamais se tornará ato, nunca é algo definido, e deve ser entendido como o ser, não como uma substância, e sua mesmidade consiste no sempre diferentemente o mesmo, mostrando-se na divisão das grandezas, no tempo e entre os homens.
  22. O infinito se aproxima do tudo (tò pân) e se afasta do todo (tò hólon), ainda que haja certa semelhança entre eles, pois o todo é o contrário do infinito: não aquilo de que nada está fora, mas aquilo de que sempre algo fora está, e o ser algo definido aparece como o ser fora do infinito, como ek-sistência, como saída do tudo, enquanto é perfeito e inteiro aquilo de que nada está fora, e o primeiro exemplo de tal todo que Aristóteles dá é o homem, cuja completude é como a de uma caixa.
  23. Heidegger não entende o todo do Dasein como uma caixa ou como algo perfeito, completo e todo (hólon), mas o todo do Dasein parece estar do lado daquilo que Aristóteles chama de tò pân, e o infinito, que contém o “todas as coisas” e tem “o tudo em si mesmo”, é apenas um todo em possibilidade, não em entelekheia, e, enquanto infinito, é incognoscível, do mesmo modo que a matéria não tem forma, e, embora seja estranho e impossível que o incognoscível e o ilimitado limitem, será exatamente assim que, em Ser e Tempo, o Dasein encontra o seu limite na morte, tornando-se todo não como inteiro ou perfeito, mas como totalidade da sua possibilidade, e a morte é esse infinito que finita, esse impossível que possibilita e esse não-todo que totaliza, dando lugar a todo o possível: tò pân.
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