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Traços Secundários do Lembramento

Casey2010

  • Determinação geral dos traços secundários como características opcionais e potencialmente decisivas
    • Os traços secundários não se impõem necessariamente a toda experiência de lembrar, pois podem estar ausentes sem que o lembrar deixe de ocorrer.
      • A opcionalidade não equivale a irrelevância, uma vez que, quando presentes, tais traços podem adquirir importância estruturante e não meramente acidental.
    • Entre os diversos traços secundários possíveis, três recebem destaque por sua capacidade de modificar o modo de doação e o tom global de uma lembrança.
      • A seleção desses três traços estabelece um campo de exame no qual a memória se mostra como capaz de assumir forma narrativa aproximada, apresentar-se com graus variáveis de nitidez e suscitar uma tonalidade afetiva específica.
  • Quase-estrutura narrativa como forma frequente, porém não universal, de manifestação do conteúdo lembrado
    • Muitas lembranças apresentam-se sob forma quase narrativa, na qual o lembrado assume a figura de uma história ou de um segmento de história.
      • Um início identificável organiza o ponto de partida, seguido por um desenvolvimento de motivos ou temas, podendo culminar em uma conclusão discernível.
    • Uma lembrança pode aproximar-se de um relato bem arredondado quando articula preliminares, núcleo de acontecimentos e desfecho.
      • A sequência descrita em torno de uma ida ao cinema ilustra uma ordenação que se aproxima da forma narrativa simples, ao incluir eventos preparatórios, ocorrências no interior do teatro e a saída como encerramento.
    • Uma lembrança pode compartilhar essa forma geral e, ainda assim, permanecer truncada ou descontinua.
      • A lembrança de uma visita a um parque apresenta começo distinto e série de incidentes no mesmo cenário, mas sem continuidade interna efetiva entre tais incidentes e sem arredondamento conclusivo, terminando por cessação abrupta.
    • Muitas lembranças permanecem predominantemente não narrativas quando não há ações ou episódios a serem lembrados como tais.
      • Lembranças reduzidas a um termo verbal, a um número ou a uma vivência primária carecem de base episódica suficiente para sustentar narração explícita.
    • Uma lembrança pode conter elementos narrativos apenas de modo implícito quando o conteúdo envolve uma ação central com estrutura temporal própria.
      • Um trabalho de pesquisa e escrita sugere descrição narrativa por envolver um fazer prolongado, ainda que o conteúdo lembrado não se organize plenamente como história.
  • Duplo sentido do quase na quase-narratividade e seus limites fenomenológicos
    • O primeiro sentido do quase designa a possibilidade de que uma lembrança tenha forma narrável apenas de maneira implícita ou potencial, ainda que sua forma manifesta permaneça não narrativa.
      • A hipótese consiste em que um acréscimo de detalhes permitiria descrição narrativa apropriada, mas tal hipótese não se confirma necessariamente.
    • A recuperação de detalhes adicionais pode produzir dispersão e desconexão, de modo que o conteúdo resiste à forma narrativa em vez de realizá-la.
      • Em consequência, não é possível afirmar que todo conteúdo lembrado possua estrutura narrativa sequer implicitamente.
    • O segundo sentido do quase designa o fato de que, mesmo quando o conteúdo se ordena em sequência com começo, meio e fim, permanece uma ausência decisiva em comparação com o contar histórias.
      • Falta ao lembrar uma voz narrativa própria, isto é, uma instância autoritativa que conduza o curso do relato a partir de um saber prévio do todo.
    • No contar histórias, a voz narradora comanda e delineia a totalidade do relato porque conhece o desfecho e a estrutura desde o início.
      • No lembrar, não se encontra nada estritamente comparável, pois o curso e o conteúdo podem não ser previamente sabidos pelo lembrante.
    • Mesmo quando a lembrança é repetida e conhecida, não se requer uma voz comandadora distinta da própria lembrança.
      • Nem mesmo uma voz interna auto-comentadora desempenha papel equivalente ao da narração plena.
    • As lembranças tendem a articular-se a partir de dentro, como se se narrassem por si mesmas, sem necessidade de fonte separada de enunciação.
      • A intimidade do acesso, enraizada na própria história de vida, dispensa um narrador exterior à lembrança.
    • A conclusão é que a competência de recordar não pode ser identificada simplesmente com uma habilidade narrativa.
      • A presença de estrutura ordenada no conteúdo não basta para converter o lembrar em narração propriamente dita.
  • Esquematismo como abreviação indistinta e variação interna de nitidez no lembrar
    • Esquemático designa o caráter abreviado, esboçado ou borrado de uma lembrança, isto é, sua apresentação incompleta e indistinta.
      • Embora se possa sustentar que toda memória incorpora esquemas afetivos ou cognitivos, o esquematismo em questão diz respeito especificamente à indistinção fenomenal do que é lembrado.
    • Nem toda lembrança é esquemática nesse sentido, pois algumas se apresentam com máxima clareza e transparência.
      • Um número lembrado sem ambiguidade exemplifica uma lembrança cristalina, correta e desprovida de sombra interna.
    • No extremo oposto, certas lembranças incluem imagens sombrias difíceis de identificar e descrever coerentemente.
      • A dificuldade de descrição manifesta um alto grau de esquematismo, isto é, um modo de apresentação difuso e pouco articulado.
    • Um mesmo episódio de lembrar pode conter simultaneamente elementos esquemáticos e não esquemáticos.
      • A coexistência de um elemento verbal claramente articulado com imagens vagas no mesmo ato mostra que a uniformidade de nitidez não é exigência do lembrar.
    • Uma mesma memória global pode reunir cenas vividamente lembradas e cenas apenas esboçadas.
      • A diferença de nitidez entre momentos do mesmo conjunto memorial indica que o esquematismo pode variar dentro de uma unidade recordativa mais ampla.
    • Varia não apenas o grau, mas o tipo de esquematismo em uma mesma sequência.
      • Um esquematismo condensado e sobreposto pode contrastar com um esquematismo mais comprimido e definido, produzindo montagem em que modos distintos de indistinção se justapõem.
    • A necessidade descritiva passa a incluir o reconhecimento de múltiplos esquematismos coexistentes.
      • Assim como o virtual já havia exigido admissão de várias formas, o esquematismo exige admitir pluralidade interna no modo como o lembrado se apresenta.
  • Ruminescência como tonalidade afetiva específica que combina reminiscência e ruminação
    • Ruminescência designa um estado afetivo que pode ser ocasionado pelo lembrar, articulando reminiscência e ruminação em uma mesma disposição.
      • O termo visa capturar um fenômeno peculiar que, embora disseminado, foi negligenciado, em parte por sua origem ambígua e por sua frequência em formas tão brandas que quase não se deixam notar.
    • A ruminescência abrange um espectro que vai da nostalgia ativa à melancolia morna e indistinta.
      • Um caso de nostalgia intensa ao ingressar em um espaço ligado a experiências passadas mostra a força que tal tonalidade pode assumir.
    • A nostalgia descrita não se reduz a saudade genérica de tempos antigos, pois se constitui por dois suportes heterogêneos que convergem para o mesmo efeito.
      • Um primeiro suporte consiste no retorno rápido de reminiscências vagas, cuja indistinção não enfraquece, e pode mesmo reforçar, o poder de comoção por intensificar a qualidade nostálgica.
      • Um segundo suporte consiste em um pensamento apenas parcialmente formulado sobre a irreplicabilidade do que é lembrado, pensamento que opera como ruminação discreta, não tematizada explicitamente, mas ainda assim eficaz.
    • A ruminação, entendida como mastigação reflexiva implícita, intensifica a ruminescência sem depender de exposição discursiva.
      • O efeito surge como entrelaçamento de retorno memorial e reflexão difusa, ambos operando de maneira pouco autoconsciente.
  • Prazer específico do lembrar ruminescente e distinção entre conteúdo doloroso e atitude prazerosa
    • Há um prazer particular na combinação de reminiscência e ruminação, prazer que deriva mais da atividade do lembrar nesse modo do que do conteúdo lembrado enquanto tal.
      • O conteúdo pode ser penoso, mas o ato de lembrar com ruminescência pode introduzir um prazer subsidiário ligado ao modo de rememorar.
    • A distância temporal favorece esse prazer, pois eventos mais remotos tendem a facilitar uma motivação prazerosa para recordar.
      • A rememoração do passado distante aparece como incentivada por um motivo prazeroso que se relaciona à disposição ruminescente suscitada pela distância e pela baixa exigência prática desses eventos.
    • A evocação de períodos anteriores da vida, percebidos posteriormente como mistura de inocência e espontaneidade, intensifica a tendência à ruminescência.
      • Ainda assim, o ganho afetivo é atribuído prioritariamente à atividade presente de lembrar, e não à plena inteligibilidade dos eventos, que podem permanecer pouco discerníveis.
  • Presença discreta de ruminescência e sua variabilidade entre diferentes lembranças
    • A primeira lembrança selecionada como exemplo geral pode ser de infância remota, indicando afinidade entre distância temporal e rendimento prazeroso tingido de wistfulness.
      • A tonalidade pode permanecer como atmosfera emocional vaga, sem tornar-se humor intrusivo claramente reconhecido.
    • A ruminescência pode estar ausente em muitas lembranças, que se realizam sem coloração emocional delineável.
      • A ausência de nostalgia ou wistfulness na maior parte dos exemplos indica que ruminescência não é traço constante nem primário do lembrar.
    • A ruminescência é, portanto, traço opcional e variável, presente de modo distinto de caso a caso.
      • Mesmo quando sua presença é comovente, ela permanece secundária, ao lado de quase-narratividade e esquematismo, como característica que pode ou não acompanhar uma experiência mnemônica.
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