estudos:caron:presenca-temporalidade-peos-ii-3-2
Caron (2005:1599) – ser - presença - presentação - temporalidade
PEOS
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O fato de o presente ser uma realidade orlada do não-ente que são o passado e o futuro foi assinalado pela tradição filosófica.
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Para Aristóteles, passado e futuro são um me on ti: algo de não-ente.
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Não algo simplesmente nulo, um puro nada, mas algo que avança bem se desdobrando, um prae-s-ens, mas ao qual algo falta.
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Esse faltar é nomeado precisamente pelo “não mais” e pelo “ainda não”, que ambos se referem ao agora.
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Contrariamente a essa concepção clássica que faz do agora a referência, Heidegger quer pensar o presente não mais em referência ao agora, mas em sua relação fundamental à presença na qual ele é presente.
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Essa presença, halo de enigma de todo ente-presente, é precisamente o não-ente ou o não-presente mesmo.
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Isso significa que o presente deve ser pensado no desdobramento, verdadeiro nome do não-ente prepotente de onde ele surge, que o faz ser presente.
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O presente não tem a solidez de uma positividade absoluta sobre a qual se poderia apoiar como se fosse uma evidência.
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Carregado de uma espessura de abismo, ele é uma realidade vibracional.
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Pelo Dasein que o manifesta em sua presença, o presente canaliza a espuma do mundo subterrâneo.
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O presente vibra, jaz em suspenso no vazio daquilo que o concede.
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É no domínio aberto pelo Dasein que ele aparece simultaneamente no ser e em sua fragilidade.
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O presente ressoa do desdobramento que se diz nele e da presentificação que o faz avançar no aberto.
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O pensamento do tempo adquire assim uma forma inédita e mantém-se para além da diferença tradicional entre o devir e o permanente.
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Ele retoma cada um desses dois termos no seio de um mesmo desdobramento.
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Sendo, o presente desdobra-se nesse espaço que lhe dá de ser, portanto torna-se.
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E tornando-se, o ente mostra para o ser que lhe permite manter-se no aberto, portanto é presente.
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Ultrapassando e reintegrando os clivagens tradicionais, Heidegger afirma que o que está no tempo, e assim se determina pelo tempo, chama-se o temporal.
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O temporal significa o transitório, aquilo que, no curso do tempo, passa.
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O próprio tempo passa.
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Mas o tempo passando constantemente, ele permanece enquanto tempo.
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Permanecer significa: não se esvanecer, portanto: avanço do ser, isto é, ser no movimento de aproximação que é a entrada na presença.
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O tempo passa, portanto, infinitamente o tempo que passa.
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O tempo é em si mesmo ser, o elemento de presentificação em que o ato de ser faz e deixa ser o ente-presente.
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Com a palavra “tempo” não se quer mais dizer o golpe sobre golpe de uma sucessão de agoras.
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Quer-se dizer “o espaço livre do tempo”, esse espaço nomeando o aberto que se esclarece no dar que porta e aporta uns aos outros o futuro, o ser-passado e o presente.
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Assim, o ser é presença, e toda presença, enquanto espaço de surgimento, é apresentação, isto é, temporalidade.
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Toda apresentação é co-originariedade das três ekstases do futuro, do passado e do presente.
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Nelas, todo ente se desdobra, é e torna-se.
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As três ekstases que vimos constituir a estrutura do Dasein pertencem ao ser.
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O ser, enquanto apresentação, revela sua própria temporalidade, da qual participa a temporalidade do si-mesmo.
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A estrutura do Dasein, a temporalidade do si-mesmo, é o próprio ser-temporal.
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O ser-temporal dá assim a um ente o fundo-essencial de seu próprio ser para poder como tal manifestar-se.
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O que Heidegger diz sobre a tridimensionalidade ekstática do tempo em “Tempo e Ser” é idêntico ao que dizia em “Ser e Tempo”.
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A diferença é que é doravante o ser que porta em sua Mesmidade essa tripla dimensão, e não mais o si-mesmo em sua ipseidade, que é apenas seu lugar-tenente.
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O tempo verdadeiro é a proximidade do desdobramento do ser a partir do presente, do ter-sido e do futuro.
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É uma proximidade que unifica seu dar triplamente esclarecedor.
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O tempo sempre atingiu o homem de tal modo que ele não pode ser homem senão mantendo-se no coração dessa ternária doação.
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