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estudos:caron:olhar-fenomenologico-peos-296

olhar fenomenológico devolvido à sua fonte (2005:296)

PEOS

  • A crítica à fenomenologia de Husserl assenta na questão do primado da evidência e do visível.
    • A abordagem de Husserl opera sob o “princípio de todos os princípios”, que afirma a intuição doadora originária como fonte de direito para o conhecimento.
    • Esse princípio estabelece a evidência como norma onipresente e onipotente, limitando o recebimento do dado aos limites em que ele se dá.
    • A máxima “às coisas mesmas” (zu den Sachen selbst) e a redução fenomenológica formam um sistema indissociável, centrado na esfera de evidência para a consciência.
    • A ausência de pressuposição husserliana significa, portanto, a posição de uma esfera de evidência realizada como redução.
  • Heidegger propõe uma radicalização da fenomenologia através de uma modificação fundamental da sua máxima orientadora.
    • A distinção crucial opera-se entre as “coisas” (Sachen) e “a Coisa” (Sache) do pensamento.
      • A referência às Sachen corresponde a uma afirmação do pensamento no seu estado, sem questionar a sua essência ou origem.
      • A referência à Sache implica precisamente o questionamento da essência do pensamento e do seu horizonte ontológico possível.
    • O princípio husserliano não determina o que são essas “coisas mesmas” nem como devem ser pensadas, pressupondo assim a não-problematicidade da origem do olhar pensante.
    • Para Heidegger, a evidência não é evidente por si mesma, pois está envolvida no mistério da sua própria presença e permite um contacto com o obscuro.
    • A fenomenologia não se pode medir pelo padrão da ideia de ciência, pois este já pressupõe a subjetividade transcendental como fundamento.
  • A análise revela uma pressuposição circular na base do projeto husserliano.
    • O “princípio dos princípios” (princípio de evidência) contradiz o princípio da ausência de pressuposição.
    • Este princípio só pode ser enunciado porque a consciência já foi implicitamente posta como fundamento de toda a filosofia.
    • O princípio precede e motiva a redução, mas o seu resultado (o eu puro residual) é, ele mesmo, o fundamento do princípio.
    • Este círculo estigmatiza a pressuposição fundamental da interpenetração entre subjetividade e evidência.
  • O si mesmo heideggeriano distingue-se radicalmente do sujeito husserliano pelo seu acesso ao ser.
    • O si mesmo só tem acesso ao ente ou a si próprio através de uma pré-compreensão daquilo que é em si mesmo obscuro.
    • Esse obscuro não é um nada, mas o não-ente que concede o espaço para uma escuta, o “vazio” onde pulsa a própria origem.
    • O ser é o pré-potente (Überwältigend), aquilo sem o qual nada pode estar presente, submetendo inclusive a consciência absoluta.
  • A tarefa da fenomenologia heideggeriana é tornar-se uma “fenomenologia do inaparente”.
    • Contra Husserl, para quem ser é estar presente e dado integralmente à intuição, Heidegger afirma que o “estar-oculto” (Verdecktheit) é o conceito contrário do fenômeno.
    • O inaparente é o fundamento do fenômeno, pois todo fenômeno, para chegar à presença, deve sair de um domínio primário de velamento.
    • O fenômeno só é verdadeiramente fenômeno no sentido etimológico grego: ao avançar para o visível a partir do inaparente.
    • A fenomenologia torna-se, assim, um caminho que se deixa mostrar aquilo diante do qual é conduzido: o inaparente.
  • Esta reorientação implica uma transformação radical do conceito de consciência e do lugar da ipseidade.
    • A consciência (Bewusstsein), entendida como “saber” (wissen) ligado ao “ver” (videre), é substituída pelo Dasein.
    • O Dasein não é um sujeito, mas o ser-aí, o lugar onde o ser aparece, caracterizado por estar numa abertura.
    • O fundamento do “ter-visto” de toda a consciência de objeto é a possibilidade radical do ser humano de atravessar uma abertura para chegar às coisas: o ser-em-uma-abertura.
    • A consciência é, portanto, ser-em-uma-abertura para o ser, e não o inverso.
  • A redução fenomenológica é conduzida a um auto-transcendimento que a reconduz ao ser.
    • A redução radical heideggeriana não remove o ente, mas visa tornar radicalmente presente o seu caráter de ser.
    • A “colocação entre parênteses” da tese transcendente tem como única função tornar o ente presente tendo em conta o seu ser.
    • O resultado da redução do eu puro à sua pureza é a relação pré-compreensiva com o ser, o único resíduo radical.
    • Liberado o ser, o si mesmo aparece mantendo-se junto ao ente que visa, para além da diferença entre interior e exterior.
  • A fenomenologia culmina como pensamento do ser a partir do seu retraimento.
    • O ser mesmo é retraimento, e a sua estranheza fundamental não deve ser atenuada.
    • A tarefa do pensamento não é iluminar ou manipular o invisível, mas abrir-se ao seu reinado e guardar o seu mistério.
    • O pensamento deve suportar a obscuridade primeira do ser, honrando o seu abismo sem o ofender, num “deixar-ser” ou numa louvor da espera.
    • A história da filosofia é percorrida de forma desconstrutiva para libertar progressivamente o olhar, de modo a que o si mesmo possa pensar-se no que tem de mais originário e próprio: a sua relação íntima com a noite originária do ser.
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