estudos:caron:logos-peos-1229
Caron (2005:1229) – pensamento, poesia e linguagem
PEOS
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A questão do ser e a natureza do homem encontram-se na intersecção entre pensamento, poesia e linguagem. A aproximação ao mistério do ser requer uma escuta receptiva, conforme exemplificado na epígrafe de Saint-John Perse e na súplica bíblica por um “coração dócil”.
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O acesso à origem do pensamento atinge o cerne da lethe (esquecimento) inerente à aletheia (desvelamento). A verdade predicativa e representacional funda-se na liberdade, que une ser e pensamento no “deixar-ser”. O ser deixa o ente ser, e o si-mesmo (Selbst) pertence a este processo ao realizar, através de sua abertura (compreensão do ser), o deixar-ser do ente.
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A aparição de um ente ocorre para um si-mesmo que lhe concede um espaço para se manifestar e expressar, estabelecendo assim uma diferença que permite a representação de um eu distinto do ente. O homem, exposto ao ser, deixa o ente ser e, ao fazê-lo, também se expõe ao ente que lhe vem ao encontro.
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O si-mesmo não é uma “coisa” ou um “eu-coisa” (Ich-Ding), mas um aspecto derivado da fenomenalização. O si-mesmo é tomado em sua própria estrutura, que é idêntica ao próprio ser, e esta estrutura deve ser esclarecida investigando a presença do ser no desdobramento do pensamento.
A residência do si-mesmo é a verdade do ser, a aletheia, da qual ele é um modo de desvelamento. Como local da diferença ontológica, o si-mesmo está voltado para o ser para que o ente possa aparecer em seu ser.-
A aletheia governa o desvelamento do ente, instaurando concomitantemente o velamento do ser. O ser vela-se para permitir a desobstrução de um ente; este velamento não é acidental, mas essencial e constitutivo do ser.
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O ser, ao retirar-se, protege o visível de um brilho excessivo. A abertura humana (ipseidade) acede apenas a uma luz atenuada e, para além dela, à reserva de eclosão que é a noite. A ausência (o fundo noturno de lethe) é condição de toda presença.
Os entes são visíveis como tais graças ao vazio intersticial que os separa e ao vazio inerente que os torna porosos e penetráveis pelo pensamento. Este vazio é o espaço de jogo de cada ente e do pensamento.-
O espaço (Raum) é compreendido como abertura, espaçamento, que traz o livre e o aberto para uma morada do homem. Espaçar é conceder lugares, é a dispensa de sítios onde os destinos do homem se configuram.
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A ipseidade, entendida como serenidade (Gelassenheit), é essencialmente um deixar-ser, uma relação com aquilo que se retira (o ser) e uma pura terra de acolhida para a fenomenalização.
A aparição de uma coisa ocorre pelo velamento da totalidade de suas possibilidades. O vazio da noite, concedido pelo retiro, é constantemente visto, mas não olhado. Quando vemos ou pensamos um ente, é-nos sempre dada, prévia e mais originariamente, a relação com o espaço e a compreensão do ser.-
O aspecto possibilitador e espacializador do vazio encontra um eco no Tao de Lao Tsé. O vazio central (o “não-ser”) é o que possibilita a função e a presença da coisa (a roda, o vaso, a casa), imagem da presença do ser em seu retiro, da largueza do ser que concede espaço e porosidade.
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O vazio não é um nada nem uma falta, mas um modo de jogo na incorporação plástica das coisas. Ele é a condição do aparecer.
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