estudos:caron:hinsicht-peos-282

variação sobre o olhar: si mesmo e Hinsicht (2005:282)

PEOS

  • A fenomenologia husserliana possibilitou evidenciar o ser-intencional da consciência.
    • É necessário agora remontar ao espaço de desdobramento deste ser-intencional.
  • Este espaço é uma zona de sombra, e Husserl colocou desde o início o princípio da evidência como base de seu procedimento.
    • O “princípio de todos os princípios” precede e comanda a própria empresa de redução.
    • Ele afirma que toda intuição doadora originária é fonte de direito para o conhecimento, devendo-se receber o que se dá na intuição sem ultrapassar seus limites.
  • O si e o ser se mantêm em tão íntima proximidade que pensar o si será sempre pensar também o ser.
    • Mas o ser se dá como o que nunca está presente no mesmo sentido que um ente à mão do olhar.
  • É necessária uma conversão do próprio olhar fenomenológico: substituir a primazia da simples vista (Sicht), que se fixa no visível disponível, pelo Hinsicht (o re-gard, o ter-em-conta).
    • O Hinsicht não considera mais o ente como uma permanência disponível, nem tenta reduzi-lo ao olhar.
    • Ele reduz o próprio olhar ao aparecer do ente, portando consideração (égard) para com a vinda do ente na presença.
  • A partícula alemã “hin” evoca tanto a ação de dirigir-se a quanto a de afastar-se.
    • A Hin-sicht é o ato do olhar que visa um ente deixando que este ente se dê e dê a doação na qual ele se dá.
    • O olhar tem consideração (égard) para com o que visa, dando espaço para que o ente apareça em seu aparecer próprio.
  • Ao reconduzir o olhar à sua capacidade de consideração, o si considera o ente na nudez de sua presença sem apagar a dimensão de enigma dessa presença.
    • O olhar se guarda (se pré-serve) na relação com o ser, o que equivale a guardar o ente na totalidade de seus aspectos, luminosos e obscuros.
  • Sob a consideração do olhar (Hinsicht), o horizonte de doação do fenômeno é tomado em guarda como tal.
    • O fenômeno aparece assim na relação com seu ser, com a origem de sua doação.
  • O que uma autêntica fenomenologia, vivida em sua verdade, deve nos abrir é precisamente o caráter velado da doação.
    • Deve fazer ver o que, de imediato e na maioria das vezes, não se mostra, o que se mantém em retração.
  • A fenomenologia muda de sentido e orientação: nos antípodas da démarche husserliana, Heidegger dirige o olhar para o invisível.
    • A esfera do dado deve ela mesma responder por sua própria presença; ela depende de sua própria possibilidade, que não é dada como um simples objeto.
  • Este trabalho de descobrimento (découvrement) é pensado como a tarefa da fenomenologia se ela quer ser ciência do fenômeno em verdade.
    • Pois o fenômeno se dá com base na penumbra própria ao ato de seu próprio jorramento.
  • Atrás dos fenômenos da fenomenologia não há essencialmente nada mais, mas o que deve se fazer fenômeno pode estar em retração.
    • É precisamente porque os fenômenos, de imediato, não são dados que se precisa de fenomenologia.
  • A fenomenologia heideggeriana parte em busca daquilo que dá o fenômeno no fenômeno.
    • O elemento doador de todo dado permanece ele mesmo em retração em relação ao que manifesta, sem constituir um fundo substancial.
  • Distingue-se o “fenomenal” (o dado e explicável no modo de encontro do fenômeno) do “fenomenológico” (o que pertence ao modo de monstração).
    • Esta distinção corresponde às duas maneiras como o si pode se relacionar com o fenômeno: segundo o aparecido ou segundo o ato de aparecer.
  • Correspondem também aos dois olhares que o si pode portar sobre o dado: a Sicht (visão simples) e a Hinsicht (consideração do olhar que re-visa).
    • A Hinsicht se dedica ao dado, deixando eclodir aquilo no qual ele eclode e que permanece em retração.
  • O que, em um sentido privilegiado, permanece retirado ou recai no recobrimento, é o ser do ente.
    • Este ser que age à coberto só aparece a uma ipseidade que vive à altura do que é, à altura de sua capacidade primeira para a Hinsicht.
  • É também pela instalação na atitude não pressuposta da Hinsicht que o pensamento consegue considerar o si no horizonte da compreensão do ser.
    • Esta compreensão só aparece a um si que se considera a si mesmo no despojamento e na ascese da Hinsicht.
  • Para Heidegger, o princípio “às coisas mesmas” (Zur Sache selbst) abre por si mesmo à Hinsicht, e esta à compreensão do ser (Seinsverständnis).
  • A omissão (Versäumnis) da questão do ser é corolário de uma omissão do ser do si e do sentido de seu ser-intencional.
    • Na exegese da intencionalidade, a questão do ser da intencionalidade permanece não situada, e com ela a questão do ser mesma.
  • Esta dupla omissão não é fortuita; é a história de nosso Dasein que se revela através de tais omissões.
    • Esta história articula-se em torno da autocompreensão do si sobre o modelo do ente, e não do ser, sendo necessário revertê-la.
  • Heidegger reprova a fenomenologia husserliana por não distinguir o que paradoxalmente permitiu distinguir: fenômeno e fenomenalidade, aparecido e aparecer, ente e ser.
    • Ela segue a origem dos fenômenos apenas até um certo ponto: a consciência.
  • A consciência não é tomada como tal, o que implicaria pensar sua vinda ao olhar de seu als (enquanto).
    • Ela é tomada apenas como base, confundida com a evidência, que se torna um terminus ad quem imposto pelos pressupostos da tradição.
  • Este terminus ad quem coincide com a vontade de tematização do ente em sua totalidade.
    • Ele se torna simultaneamente o terminus a quo, o limite a partir do qual se pode estabelecer o inventário dos estilos de relações intencionais.
  • A redução transcendental à subjetividade absoluta dá e assegura a possibilidade de fundamentar, na subjetividade, a objetividade de todos os objetos.
    • A subjetividade transcendental se mostra como “o único ente de valor absoluto”.
    • Nisso, a fenomenologia husserliana retoma uma atitude essencial da metafísica: apoiar-se em um princípio absoluto de forma ôntica para dar conta do ente em sua totalidade.
  • A fenomenologia retornou às coisas mesmas, mas para Husserl isso significa aos vividos, não à Coisa (Sache) da qual essas coisas são as coisas.
    • Cheia de pressuposições transmitidas pela metafísica, a fenomenologia está diante da tarefa de determinar seu próprio campo, que é não-fenomenológico (ou seja, fenomenológico apenas em intenção).
  • É assim que a fenomenologia pode se livrar do primado do visível e retomar sua vocação de mostrar o que está em jogo para o pensamento: a relação do si e do ser.
  • A fenomenologia deve viver sua própria intenção, para além da redução das coisas à evidência.
    • Sua intenção profunda, atingir a doação mesma, carrega uma exigência de adaptação ao que ela descobre.
  • Uma vez descoberto o ego constituinte, trata-se de descobrir em que este ego doador pode ser descoberto.
    • A fenomenologia heideggeriana quer remontar à condição de possibilidade última: tomar em guarda o que se revela como horizonte.
  • A fenomenologia se torna em Heidegger uma tomada em guarda mantida e incessantemente “reescalonada” daquilo em que tudo tem desdobramento.
    • Para permanecer ela mesma, a fenomenologia deve se transcender engolfando-se na doação sem nada acrescentar.
    • É um trabalho de despojamento visando fazer surgir para o pensamento a origem que não cessa de surgir secretamente.
  • Uma vez o despojamento realizado, só permanece a doação em sua nudez, incluindo um pensamento para ela mesma.
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