User Tools

Site Tools


estudos:caron:estrutura-poematica-ipseidade-peos-1382

estrutura poemática da ipseidade (2005:1382)

PEOS

1. O fundamento poemático da ipseidade e a relação com a Palavra do ser

  • A estrutura poemática manifesta-se através do jogo de co-resposta entre a Palavra e seu respondente (o si mesmo).
    • Esta essência torna-se determinante para qualquer pensamento sobre a realidade humana.
    • A atividade artística do si só pode ser pensada de modo originário a partir desta estrutura poemática.

2. A retirada do ser e a vocação desveladora do si mesmo

  • O ser se retira para desvelar, e este retirar-se empurra o homem ao desvelamento.
    • O ser se volta para nós ao se desviar, fazendo ressoar o vazio que é figura de sua doação abandonante.
    • Ele deseja manifestar este vazio e, assim, desvelar o ente e a si mesmo em seu retraimento.
  • O ser do homem é requerido para desvelar.
    • Nomeando os entes, o si mesmo circunscreve seus contornos, manifestando seus limites e, assim, o ilimitado que concede um lugar a todo limite.
    • No si mesmo como lugar-tenente da Diferença, o ser se faz ressaltar a partir do ente que ele deixa ser.
  • O ato de nomear possui em si mesmo sua própria finalidade.
    • A linguagem é modalidade do aparecer e do desvelamento da Palavra silenciosa.
    • Ela não é um instrumento à disposição do si mesmo para o domínio do ente, nem um simples meio de expressão de uma interioridade.
    • Antes de ser prosa (que vai direto à clareza para uma compreensão entre indivíduos), a palavra é poema.
      • Poema entendido como desvelamento produtor, pôr em presença, dinâmica apofântica.
  • A própria língua é poema, independentemente de praticar ou não a atividade poética.
    • A poesia é a atividade que responde perfeitamente à essência poemática da língua.
    • A busca da musicalidade inerente à poesia constitui uma forma de surpreender o leitor, tornando-o ouvinte e levando-o a deixar ressoar a palavra.

3. A vocação da poesia como lugar do desvelamento do ente

  • A vocação da poesia (e da arte em geral) consiste em mostrar que a doação basta.
    • Ela mostra o ente enquanto tal brilhando com uma ponderação de presença nua, na qual o pensamento pode se aprofundar infinitamente.
  • A poesia é o domínio da manifestidade do ente.
    • Ela é o lugar onde o Deus invisível dispõe seu próprio ser, onde o Invisível se delega a partir do elemento de estranheza.
  • Existe uma continuidade perfeita entre o pensamento heideggeriano de Ser e Tempo e a preocupação posterior com a essência poemática da linguagem.
    • Esta crescente preocupação poética está fundada na Coisa mesma (a questão do ser) e não constitui um reviramento temático ou doutrinário.
  • A essência poemática do dizer (Dichten) é anterior à distinção entre prosa e poesia.
    • Dichten (do alto alemão antigo tithôn, relacionado ao latim dictare) significa expor pela língua, dizer.
    • Originalmente, não tinha relação privilegiada com o “poético”; era o dizer mesmo em sua estrutura.
    • O poematizar (dichten) é um dizer no modo do signo que torna manifesto; é corolário da estrutura déltica (mostrativa) do si mesmo.
  • Os poetas assumem o fazer-sinal-para-o-ser da ipseidade.
    • Eles são, conforme Hölderlin, os “semi-deuses, os rios, que devem estar aí em sinal”.

4. A linguagem como poema e a crise da palavra na cotidianidade

  • A linguagem é, em sua essência, poema, pois expõe o Dasein do homem ao ente em sua totalidade.
    • O homem fala constantemente, e falar lhe é natural porque é a palavra que o torna capaz de ser o vivente que é.
  • A aparição do ente é condicionada pela Palavra à qual, ao falar, respondemos.
    • A palavra é potência originária de desvelamento, força de encantação.
    • Nos palavras, o ente deposita sua presença; elas são a carne do ente para quem sabe ouvir.
  • A relação horizontal da linguagem entre pessoas depende de uma relação vertical entre o si mesmo e a Palavra (Sage) que sempre deu a possibilidade de algo ser dado a ver.
    • O discurso cotidiano perdeu a força originária da nomeação porque o homem recusa pensar a origem que concede tudo.
    • O homem não ama mais as palavras, perdendo a capacidade de ouvir a gratuidade do som que contém a abertura do pensamento.
  • O ato poemático e o poeta invertem esta tendência encobridora da cotidianidade.
    • O poeta não ouve como os mortais simples; sua escuta enfrenta o caráter terrível da origem entravada, e esta escuta é paixão.
    • Esta paixão revela a capacidade poemática de todo pensamento e lhe dá o diapasão universal para atos especulativos essenciais.
  • A crise contemporânea é que as palavras não falam mais; nelas, a Palavra e sua Sage não são mais audíveis.
    • As palavras tornaram-se valores de troca, peças usadas.
    • Heidegger pergunta: “Quando as palavras voltarão a ser palavra?”.
      • A resposta: quando as palavras, doação distante, disserem sem buscar significar através de designar, quando elas, mostrando, transportarem ao lugar do Acordo originário.

5. O canto-chão (plain-chant) como essência do poemático e a força da palavra

  • O coração do poemático é o espaço de vibração no qual a palavra se estende.
    • A poesia busca fazer vibrar este espaço pelo desejo de fazer vibrar a palavra como tal, através do elemento musical ou do canto.
    • Este espaço do silêncio onde tudo ressoa é o repositório de todos os cantos, o canto-chão (Gesang) onde toda vibração sonora tem lugar.
  • O canto-chão é a Palavra do ser que diz seu apelo e confere seu espaço.
    • Nele, todas as palavras se reúnem.
    • O ser como canto-chão é a base de um acordo que, ao se apagar na monotonia, torna possível o desdobramento de todas as sonoridades.
  • O desejo de fazer vibrar a palavra é responder ao apelo da Palavra.
    • A palavra, ao mostrar mas deixando ser no espaço de mostração, faz sinal simultaneamente para a coisa e para seu fundo noturno de surgimento.
    • A palavra poemática mostra de uma só vez o ente e o ser.
  • A palavra poemática é como uma joia: rica e terna.
    • A riqueza é sua capacidade de “levar a coisa enquanto coisa ao esplendor”.
    • A ternura é seu poder de “prover e libertar, mas sem vontade nem violência”.
  • Toda estilização artística essencial visa o ajustamento do ente a seu fundo de doação.
    • A arte faz ressoar sua possibilidade ao se exercer: o canto-chão da Palavra do ser.

6. A linguagem como abertura e o equívoco da "rede da linguagem"

  • A língua, longe de simplificar o real sob generalizações, é o inverso desta empresa.
    • Confrontada transcendentalmente com a Palavra, a língua dá, na palavra, a abertura mesma da coisa e nos designa à sua profusão.
  • O fosso entre palavra e coisa pressuposto pelo pensamento representativo não tem mais lugar.
    • A estrutura da palavra é o ser-fora mais puro; a palavra é a declausura da coisa, e a coisa é aquilo para o que a palavra abre.
    • A palavra não tem outra essência senão a pura monstração; é pura abertura sobre a coisa e pura abertura da coisa.
  • A palavra não retém a coisa cativa, mas a abre e a deixa ser.
    • Ela possui uma estrutura dupla: acolhida do desvelado e desvelamento daquilo que assim vem a desvelamento.
  • Não faz sentido falar em “redes da linguagem”, como fez Nietzsche.
    • A linguagem nada retém em suas redes, pois ela é acolhida do desvelado e, portanto, deixar-ser da coisa.
    • As “redes da linguagem” seriam redes sem malhas.
  • A palavra deixa a coisa vir à presença; é sua entrada em presença e o prolongamento do desdobramento.
  • O perigo é o linguajar (Gerede) onde a palavra só remete a outras palavras, num sistema de remissões infinito, sem alcançar a origem da proferação.
    • A poesia denuncia esta perda das palavras em si mesmas e esta errância de uma mostração míope.

7. A poesia como renascimento do milagre da presença e sua incompreensão

  • A essência da palavra poética não é a redução insípida do ente pelo utilitarismo, mas a vinda em presença do ente como se viesse pela primeira vez à luz.
    • A poesia é a recondução permanente do milagre da presença; ela incessantemente descobre e renova esta primeira vez que é a presença em sua nudez.
  • O si mesmo possui uma estrutura poemática, capaz de proferação e de reconduzir o movimento de desvelamento.
    • Esta estrutura, que é uma modalidade da doação-retraimento do ser, deve ser, por sua vez, preservada.
      • Ela o é pela filosofia, que recorda o favor do velamento do ser, e pela poesia, que assume a estrutura poemática fazendo do desvelamento a finalidade de sua existência.
  • A poesia não é uma atividade de escritor, mas um modo de ser no mundo.
    • É manter-se na proximidade do jorramento, enquanto a maioria dos homens esbanja os dons desse jorramento sem pensar neles.
  • Para os “bem-pensantes” e os ocupados, a poesia é incompreensível e inútil, uma atividade de ocioso.
    • Hölderlin pergunta: “Para que poetas em tempo de penúria?”.
      • O poeta é o rele do ser entre homens despreocupados; é o Da-sein quando os homens não se abrem ao seu Dasein.
      • Ele é o lugar-tenente daquele que dá (figurado por Dionísio), guardando a memória dos dons e dando graças.

8. O poeta como modo de existência e a relação com a finitude

  • Ser poeta é viver poematicamente a essência poemática da própria ipseidade.
    • É uma resposta ao apelo da Palavra do ser, sendo vida poemática de rememoração e desvelamento do ser como retraimento doador.
  • Nem todos os homens estão prontos para receber a presença do dom.
    • A consciência da dívida de ser e da estrutura ontológica é rapidamente sufocada na cotidianidade.
    • A morte, como possibilidade própria do si mesmo, o introduz na singularidade.
      • O ser-para-a-morte (Sein zum Tode) singulariza o mortal, referindo-o ao que é totalmente outro que toda presença “comum” do ente.
  • O ser se dá como o que não é nada de ente, portanto como o singular por excelência.
    • O si mesmo é retomado neste singular que se singulariza ao se fenomenalizar na finitude de uma ipseidade.
    • A fenomenalização de uma finitude radical significa a isolamento ou essenciamento do si mesmo, colocando-o no eixo da singularidade absoluta do ser como Outro.
  • O poeta aproxima-se desta realidade e mantém um diálogo singular com o silêncio da Palavra.
    • Ele é aquele que, na penúria do tempo, traz aos mortais o traço dos deuses fugidos.
    • A relação do poeta com Dionísio é determinante, pois este é o veículo do dom, o termo médio entre o homem e o ser.

9. As duas modalidades da poesia: a humilde e a genial

  • Há duas modalidades ou “poesias” dentro da mesma essência poemática:
    • 1. A poesia descritiva, feita de pura nomeação e simples abandono, que se deixa levar pelo desvelamento do ser e da qual todo homem é capaz.
    • 2. A poesia que “mergulha ao fundo do Desconhecido para encontrar o novo” (Baudelaire), chamada mais profundamente pelo ser a antecipar suas possibilidades.
      • Esta é a poesia “em avant” (Rimbaud), do perigo e da exposição máxima à iluminação.
      • Ela dá lugar aos desvelamentos mais inauditos, retirados da margem de espaço que o ser dá.
  • A poesia é sempre pressentir, esperar, ver chegar.
    • Ela é a palavra daquilo que é assim pressentido; é o próprio pressentido como palavra.
  • A essência da arte não é a expressão do vivido nem a reprodução exata da realidade.
    • Consiste em que o artista tem o olhar essencial para o possível, portando à obra o que no estado é possibilidade em retraimento.
    • A descoberta do efetivo ocorre na filosofia originária e na grande poesia, não nas ciências.
  • O ato poemático bebe na novidade desconhecida mas sempre possível que o ser traz em si como velamento e reserva.
    • O imaginário é o rigor ao espaço do ser, e a multiplicidade dos ditos poéticos é a polifonia nascida de um mesmo desdobramento.
  • O gênio poético assume riscos, expondo-se ao ser.
    • A poesia é ação, perigo, risco, exposição ao ser, assim como o pensamento.
    • O preço do gênio é estabelecer-se fora de si, à beira das lágrimas e na órbita das fomes.

10. A poesia dos humildes e a estrutura poemática independente do poema

  • Existe uma poesia acessível a todo homem, uma “poesia dos humildes”, que é a poematização em verdade.
    • Todo homem se torna poeta ao deixar o ente vir à palavra, ao deixá-lo ressoar e estabelecer-se em sua presença.
    • Pensar e falar são aqui um mesmo agir: deixar avançar na presença aquilo que avança na presença.
  • Mesmo sem proferir, o si mesmo pode assumir sua tarefa poemática.
    • A estrutura poemática da ipseidade não depende do poema; é o poema que dela depende e constitui seu traço.
    • O ato de nomear pode ser uma disposição interior, um silêncio da voz; a contemplação muda é uma palavra.
  • A fronteira entre a poesia humilde e a grande poesia é tênue.
    • Da humildade diante do silêncio da Palavra pode nascer a experiência de um suplemento onde o silêncio se faz ouvir subitamente.
    • O poeta, avançando humildemente, pode ouvir ressoar o inaudito, e palavras inauditas surgem diante do inaudito.
  • O poema nasce pensativamente da intimidade com o silêncio da Palavra e da consciência de sua plenitude.
    • O poeta enrola-se na Palavra; calando-se para deixar falar sua voz, ele encontra seu olhar e se torna mediador.

11. A marca do si mesmo poemático: a proximidade da morte e a estrutura de abismo

  • A marca do si mesmo que assume sua estrutura poemática é a existência na proximidade da morte e da pura doação.
    • O si mesmo, quer o assuma ou não, é ser-para-a-morte (*Sein-zum-Tode*).
    • Mesmo fugindo de sua condição, permanece na intimidade do abismo que o estrutura.
  • A intimidade da Palavra do ser confere ao si mesmo sua estrutura poemática.
    • Há várias maneiras de responder a esta estrutura dentro de uma mesma essência poemática.
  • O poeta é aquele que assume seu si mesmo poemático, vivendo seu ser-para-a-morte.
  • O pensamento corrente não compreende o papel ou mesmo a existência da poesia.
    • Não compreende que na poesia o ser vem à linguagem, que em cada arte um ato fundamental de deixar ser é reconduzido.
  • O poema desvela a essência do desvelado (sua *Wesung*), dentro do qual não é mais possível compreender o desvelamento após o pensamento se embrenhar na cotidianidade.
  • Para certa categoria de homens (o “homem de negócios”), o ser não é, nunca intervém.
    • Cego para o Poema, não pode compreender que haja poetas.
  • É na atividade poética que o homem assume o destino do ser, que o si mesmo se relaciona com a noite que porta em si como fundo.

12. Nomear como resposta à Palavra e a reabsorção do si mesmo

  • Nomear é chamar pelo nome algo que chama para ser nomeado; é responder à Palavra que nos põe a questão do ser a cada ente.
    • É abrir, manifestar, deixar desabrochar.
  • As coisas são presentes antes de serem nomeadas, mas não tinham entrado em presença, não tinham sido desabrigadas.
    • O si mesmo realiza o desvelamento.
  • Com a noção de Palavra (que traz em si mesma seu respondente, o si mesmo), pode-se pensar o elemento da relação antes dos termos.
    • O si mesmo pode ser pensado dentro do desvelamento mesmo, e não como um complemento contingente.
  • A ipseidade está ela mesma na Palavra, pois esta é em si mesma resposta.
    • Ao nomear, ela é realização do ser no ser; é o próprio ser manifesto.
  • O si mesmo é votado à abolição.
    • Uma vez inscrito em seu ser estrutural, não se pode mais conservar a designação de “si mesmo” como fonte única de suas estruturas.
    • Ele é inteiramente retomado na Palavra que lhe dá sentido.
  • O si mesmo é retomado na atividade que é e que o possui.
    • A personalidade não é aniquilada, pois a Palavra só se dirige a um “quem”.
  • O si mesmo é pensado como o mortal: não aquele que morre, mas aquele para quem a morte *é*.
    • É aquele que se reporta à morte como morte, e é aberto à imensidão do espaço pelo próprio espaço.
  • Esta relação com a morte é figura da relação com o retraimento, com o silêncio da noite, e mais profundamente com a Palavra.
    • O si mesmo é qualificado como mortal, sendo assim apropriado à Palavra, que lhe designa a tarefa de responder-lhe.
estudos/caron/estrutura-poematica-ipseidade-peos-1382.txt · Last modified: by 127.0.0.1