estudos:caron:espacialidade-peos-1307
Caron (2005:1333) – espacialidade do pensamento
PEOS
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O sentido último da espacialidade do pensamento reside em sua abertura ao que o envia a si mesmo, apontando para a Palavra.
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No cerne de todo ente há um elemento não-ente que lhe dá ser.
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Este elemento é um vazio infinito que penetra e circunda cada ente, abrindo-o ao espaço e ao aparecer.
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O fundo de nosso pensamento é idêntico a esse mesmo elemento espacializante.
Um ente só pode aparecer ao pensamento porque este já está, de algum modo, junto a ele.-
O pensamento, sendo ele mesmo tecido de espaço, já percorreu o espaço e é composto do mesmo vazio espacializante, do mesmo não-ser (Nichtung).
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O pensamento não é uma matéria que recebe impressões, mas um espaço de acolhimento, um vazio deixado aberto, de consistência idêntica à do ser.
A capacidade de nos relacionarmos com um ente em seu ser funda-se nessa identidade elementar.-
A projeção que se projeta a si mesma e se vê diante de si, tratada no Kantbuch, encontra aqui sua explicação.
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O mesmo elemento (o ser como vazio espacializante) explica a possibilidade da transcendência.
A percepção humana é sempre uma resposta a um chamado proveniente do ente.-
Ouvimos permanentemente uma voz que, a partir de cada ente, nos interpela com a pergunta “o que é?”.
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Ouvir uma voz é já se colocar no lugar onde ela se profere, ser composto da mesma sonoridade.
O ser dá espaço para que se possa pensar, e o pensamento é ele mesmo ser.-
Isso explica a transversalidade inata e a virtuosidade espacial do pensamento.
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Pensamento e ser são um elemento semelhante, confirmando o princípio de que “o semelhante conhece o semelhante”.
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Não nos voltamos para um ente senão porque somos feitos da mesma consistência que ele e nosso pensamento pertence ao mesmo claro (aletheia).
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O si-mesmo é essencialmente resposta, situado em um diálogo originário regido pelo ser.
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A percepção é uma resposta porque pertencemos a um elemento ao qual somos semelhantes.
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Este elemento nos precede, envolve e condiciona; por isso somos “apenas” uma resposta.
O si-mesmo é aquele que a Voz convocou para a tarefa de mostrar.-
Ele se inscreve no desdobramento de um diálogo inicial que lhe é atribuído.
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Esse diálogo desenha a função de suas faculdades segundo a ordem da resposta.
Dizer e ouvir têm uma origem essencial comum no diálogo originário.-
A separação entre as duas faculdades decorre da morfologia corporal (boca e ouvido em lugares distintos).
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Sua unidade originária, porém, sustenta a possibilidade mesma de sua relação recíproca.
A morfologia do corpo é assim reinserida no diálogo estruturante entre o si-mesmo e o ser.-
A superioridade da ordem ontológica da ipseidade não implica um poder constitutivo sobre o ente.
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A alma não é constitutiva; o si-mesmo é compreensão de ser, mas é lançado nesse ser.
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Onde o ser deixa ser ao fazer ser, o si-mesmo apenas deixa ser o próprio ser em seu fazer-ser.
O si-mesmo não possui poder constituinte nem domínio ontológico autêntico sobre o ente.-
Sua abertura ilimitada a todo ente não confere posse ou maestria.
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A maestria técnica não é maestria verdadeira, colocando o homem em perigo ôntico e ontológico.
O si-mesmo sofre, padece, é exposto e lançado.-
Estar junto ao ente é estar aberto a ele e, ao mesmo tempo, padecer dele.
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A simultaneidade de proximidade e estranhamento em relação ao ente é explicada pela estrutura do Da.
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O si-mesmo já está sempre junto ao ente (proximidade), mas este persiste como enigma e inapreensibilidade (distância).
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Como entender essa simultaneidade?
O conceito de “des-distância” (Ent-fernung) em Ser e Tempo ilumina essa aparente contradição.-
“Des-distância” significa simultaneamente afastar (tornar distante) e des-afastar (aproximar).
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É a essência do Dasein deixar o ente vir ao encontro na proximidade, descobrindo assim a distância.
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A des-distância“ é o próprio Da em seu ser, o Da como Durchstehen.
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Permite a relação com o ente como tal, inscrevendo-o no cerne de nossa espacialidade, independente de sua distância ôntica.
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Transcende a diferença entre distância e proximidade.
Para que haja diferença entre dois pontos, é necessário a identidade de um mesmo elemento que os relacione.-
Afirmar uma diferença é afirmar uma proximidade de natureza.
A ubiquidade do homem é uma ubiquidade de abertura e disponibilidade, não de constituição.-
O homem pode se transportar para toda parte com seu pensamento, mas o faz precisamente como não estando lá.
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Ele está junto ao ente como não estando nele mesmo, não como possuidor de seu ser.
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A mediação tecnológica comprova a relação perpétua de separação que se tenta reduzir.
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A relação com o ente se dá através do nada, do não-ente, que é o ser como vazio espacializante.
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Somos impregnados pelo ser, que é espaço, vazio, não-ser.
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Dessa compenetração não possuímos nada, não extraímos poder algum.
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Estamos no vazio, caindo, por assim dizer, em direção ao céu.
Não estamos ligados ao ente por qualquer fio ou onda ôntica, mas pelo nada, pelo não-ente.-
Isso nos torna próximos do ente (abertos a ele) e, ao mesmo tempo, distantes (não possuímos nada nele).
Somos expostos, não dispomos; somos revelados pelo ser, que é o princípio insondável do ente.-
No ente, é a estranheza que nos é próxima, é a proximidade que nos é estranha.
O Durchstehen é um estar (stehen) que se sustenta no não-ser mesmo.-
Somos feitos de um elemento (o ser como doação pura, deixar-ser) que nos coloca junto ao ente, mas como algo igualmente misterioso no ente e em nós.
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A ambiguidade da “des-distância” reflete a condição finita e patética do Dasein.
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Somos lançados no elemento que nos torna presente o ente em seu ser.
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Isso nos faz próximos do ente em seu distanciamento.
Nossa constituição é estar sempre já junto ao ente, mas essa constituição não é nossa.-
Ser um Da significa ser, ao mesmo tempo, lá e aqui, uma espacialidade da qual padecemos.
Somos expostos à imensidão de um espaço patético, sofrendo tanto esse espaço quanto o que ele deixa ser.-
A abertura nos coloca atrás e junto ao ente, mas não nos torna constituintes; somos constituídos pelo Da.
Estamos simultaneamente no próximo e no distante do ente porque somos próximos do distante que é o mistério de sua presença.-
Somos afetados pelo deixar-ser e por aquilo que ele deixa ser.
No deixar-ser, afastamos o ente para que ele venha ao encontro, e nos relacionamos com ele em sua independência.-
Essa é a essência do Da: uma dupla atividade simultânea, des-afastante e afastante.
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Esta dupla atividade é a própria ipseidade, sempre situada além e, por isso, sempre em seu aqui e sua diferença.
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O si-mesmo é definido como ser do distante, realizando-se na simultaneidade de proximidade e distância.
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A verdadeira proximidade das coisas cresce no homem apenas através desses distantes originários.
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O si-mesmo, como pensamento, vive nessa simultaneidade, que é sua própria espacialidade exposta à desmedida do distante do ser.
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Próximo do ente porque pensa o ser no qual ele está; distante do ente porque o ser é um elemento de estranheza que afirma a individualidade ôntica do ente.
No si-mesmo produz-se um espaço de jogo onde o ente vem ao encontro do pensamento.-
O si-mesmo é a própria “des-distância”, o intervalo que supera para precisamente estar nele.
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A percepção não é representação, mas apresentação, um estar-sempre-já-junto à coisa percebida.
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Toda apreensão exige que já estejamos junto das coisas, de um modo que por elas sejamos concernidos, isto é, olhados e, portanto, postos à distância.
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É a dimensão paradoxal do ser-relacional, ao mesmo tempo próximo e distante, mas antes de tudo tecido do mesmo elemento.
Não há mais abismo entre sujeito e objeto, nem entre apresentação e representação.-
Não há propriamente representação, mas apenas apresentação.
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Essa apresentação é o Durchstehen que torna possível todo Durchgehen.
O si-mesmo é o ser de um através (Durch), mantendo-se em uma travessia perpétua.Assim, não lidamos com imagens das coisas, mas com as coisas mesmas.-
O pensamento se mantém na distância que nos separa do lugar do ente; estamos junto dele lá, não junto de um conteúdo de representação.
A alma é em si mesma espaço livre para um acolhimento, uma tabula rasa.-
Ela não constitui um domínio idiosincrático onde as coisas sofreriam um índice de refração subjetivo.
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Não há na ipseidade matéria para uma impressão; ela é feita do nada, da pura disponibilidade do logos como Seinlassen.
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Para que os entes se inscrevam nela como tais, ela deve ser totalmente despojada, capaz de um completo desapego.
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A doutrina plotiniana da percepção confirma essa concepção não-representacional e espacial.
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A alma vê o que está fora dela; não há impressão nela, ela não é modelada como cera.
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Se a forma do objeto estivesse nela, ela não precisaria olhar para fora.
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A alma atribui distância e dimensão ao objeto, o que seria impossível se a impressão interna tivesse seu tamanho.
A visão vê o que não está situado nela; essa é sua condição.A essência do espírito é não ter limites fixos, permanecendo imóvel e, ao mesmo tempo, indo ao ser que está em toda parte.-
A estrutura do espírito como pensamento-ser fundamenta a espacialidade ubíqua do si-mesmo.
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O si-mesmo é Durchstehen, transcendência espacial, instantaneidade na verdade ek-stática do ser.
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O pensamento pode pensar o espaço porque é ele mesmo espaçoso, impregnado do ser.
O ser dá, e o pensamento é seu dote.O pensamento tem o poder de escutar (Hören) o ser, o que só é possível com base em uma pertença (Gehören), em um ter-sido-sempre-já-concordado.-
A pertença (Gehören) se cumpre na obediência atenta (Gehorchen), realizando o pensamento como memória e reconhecimento.
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A pertença é o logos; a obediência é o noein que acolhe e guarda.
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Nela, o ser do homem permanece apropriado (ge-eignet) àquilo de onde é chamado.
Nesta obediência, o pensamento realiza sua essência como Gedanc, Memória.-
Tornando-se reconhecimento: “pensar é agradecer” (denken ist danken).
O pensamento é renúncia e reconhecimento como uma mesma coisa.-
Renunciando, o si-mesmo deixa ser o ente e o ser, e entra na ação de graças (Dank).
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A alegria da renúncia é ver desabrochar o segredo que deixa ser todas as coisas.
O si-mesmo, como pensamento pela capacidade de escuta, deve obediência a sua estrutura, isto é, ao ser.-
O noein assume realizar o pensamento como Memória do ser.
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Esse reconhecimento da origem é o próprio si-mesmo atingindo seu ser-próprio, ao re-conhecer a si e a seu ser.
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A transição da pertença (Gehören) à obediência (Gehorchen) é mediada pelo logos como endereçamento e pelo apelo da consciência.
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O dizer (legein) como mostrar funda-se no legein como pôr.
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O noein cumpre o legein ao manifestá-lo como deixar-ser e ao salvaguardá-lo.
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Para isso, o noein deve obedecer ao ser, ao logos, que lhe difunde continuamente uma mensagem.
Em Ser e Tempo, a voz da consciência, no âmbito da Selbstheit, intimida o Dasein a abrir-se resolutamente à sua própria abertura.-
Esta é a estrutura de seu ser-em-dívida.
O si-mesmo ouve uma voz silenciosa que o reclama para recordá-lo a si mesmo e referenciá-lo à sua origem.-
Uma voz ao mesmo tempo suave (por já ouvida) e dolorosa em seu imperativo.
O noein só pode se desdobrar porque em seu ser já foi chamado.-
O logos se realiza nele, mas para que o noein se decida a assumir sua guarda, deve ser estimulado a endossá-la.
O fundamento da “voz da consciência” é compreendido posteriormente nos termos do logos e do noein.-
O logos, ou o ser como Palavra, é em si mesmo endereçamento de si a um “quem”.
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A transição para o pensamento do Ereignis ocorre naturalmente: Ereignis é o agir co-respondente e desvelador presente no coração do logos.
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